Entre Margens

«Sinto o cheiro do seu perfume no ar»


O nosso olfato tem tanto de delicioso como de traiçoeiro. Os aromas não nos prendem pelos odores que libertam, ainda que inconscientemente acreditemos que sim, mas pelas memórias que nos reavivam, quase ao ponto de as sentirmos a escapar-nos por entre os dedos para se colocarem em fila diante dos nossos olhos. E nós perdemos a noção do tempo. Do espaço. Tantas vezes petrificados pela dureza que o passado carrega. Mas, na maior parte dos momentos, permanecendo na inocência de desejar que aquele cheiro nunca desapareça. De nós.  

«Qual é o seu sonho?»


Cruzo-me tantas vezes contigo. No mesmo café, na mesma livraria, nas mesmas escadas rolantes, no mesmo banco de jardim. Por vezes, a proximidade é tanta que chego a pensar que já te encontrei sentado no sofá da sala. Ia jurar que conheço o contorno do teu rosto de cor. Os olhos verdes profundos. O cabelo castanho claro. O perfume suave. O toque delicado que me faz querer esgueirar do mundo só para ficar dentro do teu abraço. E tu estás ali, tão perto. Demasiado perto até. Se esticar o braço consigo entrelaçar a minha mão na tua. E eu tento, sem sucesso, alcançar-te. É como se os meus dedos passassem pelo teu corpo e tu não sentisses a minha presença. No outro dia, quando tivemos mais um dos nossos encontros desencontrados, fui propositadamente contra ti, só para sentir toda a tua atenção; como se através de um "desculpa, ia completamente distraída" tivesse encontrado a desculpa perfeita para que o diálogo entre os dois fluísse tão naturalmente como velhos amigos. Era assim que nos sentia. Mas, tal como das outras vezes, continuaste o teu caminho ignorando a minha presença. Talvez pela força do embate, acordei. Como acordo todas as manhãs, sentindo o vazio que fica na ausência de alguém que nunca chegou a entrar na minha vida. Quando é que vens? Quando é que te tornas na realidade que preciso? Sigo todos os dias os caminhos que percorro em sonhos e tu nunca estás lá. Inconscientemente espero, como se por algum motivo tivesses perdido o autocarro e viesses mais tarde. Avanço para a paragem seguinte, mas nunca ouço os passos de quem está prestes a chegar. Baixo a cabeça, envergonhada, sabendo que toda esta procura é ridícula. Como é que se pode esperar por alguém que não existe? Queria-te aqui, real e não apenas num fragmento de um devaneio meu. Mas entre não te ter de todo ou só te ter numa utopia, espero encontrar-te sentado naquela cadeira azul a beber chá de menta quando eu chegar, por volta da meia noite, ao sonho de todas as noites.    

No meio de tanta vontade, a falta de coragem é apenas um pretexto para impedirmos a nossa mente de nos fazer aventurar por caminhos desconhecidos.

Há um dia em que aprendemos a levantar voo. Ou simplesmente a saltar sem medo de cair.

«Prefiro ter-te com todos os defeitos do que não te ter no meu peito», 
Diogo Piçarra


Volta
Na volta do vento
Na ponta do abraço
Num beijo
Enlaçado
Sem nó
Volta
Para perto
De mim
Sem ti 
Perco o norte
Do que sou 
E vou por aí
Sem rumo
Perdendo-me 
Da estrada certa
Nesta vida
Que nunca mais será a minha
Se não voltas.

«E os teus olhos negros que já foram meus e agora são d'outro, e agora são d'outro, paciência, adeus»


O encanto das noites de domingo voltou de repente. Como se aquela realidade tivesse acontecido na semana passada e não há um ano atrás. Quando as pessoas são especiais permanecem. Tudo é próximo. Tudo é presente. E ter os Aurora de volta ao palco do Factor X permitiu-nos, primeiro que tudo o resto, fazer uma viagem mental pelo seu percurso e, seguidamente, matar saudades, ainda que à distância. Vê-los naquele lugar tão cheio de recordações únicas e inesquecíveis é fantástico. Mas saber que lá estão para apresentarem um original é um orgulho tão grande que nenhuma palavra consegue descreve-lo com exatidão. 

O Cante Alentejano tornou-se, no ano que passou, Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela UNESCO. Em jeito de homenagem e partindo de uma moda alentejana denominada Morena de Raça, surge Moda da Morena que é, portanto, uma adaptação da primeira. A música de base já é por si só extraordinária - mas vindo do Alentejo outra coisa não seria de esperar -, por isso havia um excelente ponto de partida para o novo trabalho. Com a marca dos Aurora - e aqui perdoem-me a minha falta de imparcialidade - só podia ficar incrível. E ficou! 

Deles só espero o melhor, até porque já nos deram provas mais do que suficientes de que tudo aquilo que fazem nos surpreende sempre pela positiva. Ontem, em cima daquele palco, voltaram a mostrar a razão pela qual o número de apoiantes é cada vez maior. Prenderam a nossa atenção, deixando-nos a desejar que aquele momento nunca mais acabasse. Cheguei ao fim a pedir silenciosamente que voltassem ao início. A letra fica no ouvido, a melodia também. E quando dermos por isso vamos andar a cantarolá-la pela casa. Como nenhum pormenor é esquecido, no final da atuação colocaram o vídeo da música à nossa disposição. Somos muitos a ouvi-la repetidamente. E acredito que daqui para a frente seremos muitos mais. 

A apresentação da Moda da Morena foi mais um passo em direção ao tão aguardado primeiro cd. A ansiedade aumenta, e de outro modo não seria possível quando nos apresentam resultados tão mágicos como este. Não me importo de esperar, até porque o que é bom chega devagar. E sendo eles fora de série, valerá cada segundo. «Eu hei-de ir andando», aguardando, expectante, tudo aquilo que têm para nos mostrar. O futuro é uma espécie de caixinha mágica que não nos revela o que pode sair do seu interior, mas para eles só pode reservar algo absolutamente brilhante. É justo pelo caminho sólido, inteligente e único que se têm preocupado em construir. «E alegre cantando» é assim que vos queremos, fiéis ao que são. Foi dessa forma que nos conquistaram. É por esse motivo que permanecemos. A morena pode ter ficado «sozinha, em casa chorando», mas vocês não, porque nós estaremos bem perto, lado a lado, dando passos no mesmo compasso que os vossos. Até ao fim. 

Agora, se me permitem, vou ouvir a música mais uma vez. Mais outra. E novamente a seguir. Porque no próximo concerto tem que estar sabida na ponta da língua. Dois mil e quinze será um ano em grande para os Aurora, acredito com todo o meu coração nisso - é uma consequência natural pelo talento infindável que habita em cada um. E já começou da melhor maneira.



Viram a atuação? Já ouviram a música? O que acharam? Contem-me tudo!

«Sê plural como o universo», Fernando Pessoa


... um objeto, seria o caderno
... um número, seria o sete
... uma direção, seria o norte
... uma palavra, seria amor
... uma fruta, seria o maracujá
... um animal, seria o pinguim
... uma flor, seria o jasmim 
... um mês, seria abril
... um dia da semana, seria segunda-feira
... uma hora do dia, seria a aurora
... um clima, seria ameno
... uma árvore, seria o eucalipto
... um líquido, seria o chá
... um sabor, seria chocolate com menta
... uma música, seria portuguesa
... um elemento, seria a terra
... uma parte do corpo, seria os olhos
... um sentimento, seria a confiança
... um lugar, seria acolhedor
... um móvel, seria a estante
... um som, seria o da guitarra
... uma cor, seria azul
... uma pedra preciosa, seria Jade branco
... uma forma, seria desigual


(desafio retirado do blog da Canca)

«Você conseguiria ficar feliz durante 100 dias seguidos?»


Conheci o desafio dos #100happydays (ver aqui) há pouco menos de um mês e automaticamente decidi que o iria fazer. Por achar que tinha mais sentido, resolvi esperar e iniciá-lo no primeiro dia do novo ano. A grande diferença prende-se na maneira como o cumprirei: para além de recorrer às fotografias - que partilharei no meu twitter -, vou servir-me das palavras e apontar diariamente tudo aquilo que me fez feliz naquele dia. Quero igualmente elevar a fasquia: não ficar apenas pelos cem primeiros, mas alargá-lo aos restantes duzentos e sessenta e cinco. Já comprei o caderno que me acompanhará nesta jornada e no início de cada novo mês farei uma publicação com o resultado do mês anterior. Já não há desculpas para não olharmos para o lado bom da vida. Vamos ser felizes?

«Há tradições que ainda são o que eram»


Estádio do Dragão. Tal como no dia um de janeiro de dois mil e catorze, ontem voltei a marcar presença no palco dos meus sonhos para assistir ao primeiro treino do ano. Cheguei em cima da hora - coisa que odeio fazer - e a fila era extraordinariamente grande. Assim que entrei e vi tantas pessoas à minha volta senti-me em casa. Éramos mais de vinte e três mil corações por um amor maior. E ser Porto é isto. É estar. É sentir. É estarmos sempre preparados. No final, no discurso que fez para quem lá estava, o treinador disse que aqueles «rapazes são fortes, mas ficam mais fortes connosco». Somos uma equipa. Lutamos pelos mesmos objetivos, ainda que ocupemos posições distintas no campo de batalha. Ninguém nos demove e só assim faz sentido. Partilhamos a fé, a garra, a ambição. E é do lado esquerdo do peito que nos sai toda esta determinação para ir mais longe e vencer. Vocês deixam-nos com vontade de estar ali, na nossa casa, em qualquer outra onde joguem. É por cada um que veste essa camisola, independentemente do nome e do número que carregue nas costas, que continuaremos a querer fazer parte desta família. O nosso coração não fica azul e branco, já nasce dessa cor. Não sei traduzir em palavras o quanto me faz feliz entrar no nosso estádio, ver-vos, saber-vos a defender um emblema que também é o meu. Essa «camisola é maior do que toda a gente». Estas palavras não são minhas, mas podiam ser. São do meu melhor, do meu eterno número um, daquele que, para mim, será sempre um dos maiores símbolos do clube: Ricardo Quaresma. Começar dois mil e quinze a ver de perto todo o seu talento e dedicação é uma honra e um privilégio. Como vos escrevi uma vez, há amores que são a nossa cara, mas este é o meu coração. Por inteiro.

A minha passagem de ano é sempre em casa, rodeada dos meus, para que no fim das doze badaladas tenha ao meu lado quem mais amo. Desta vez, como só estaríamos eu e os meus pais, decidimos ir para os Aliados no fim do jantar. A transição de dois mil e catorze para dois mil e quinze fez-se ao som de Clã, com o fogo de artifício à meia noite e a atuação dos Expensive Soul logo a seguir. Valeu cada segundo! A Avenida dos Aliados estava linda com tantas pessoas. Hoje voltarei a marcar presença no Dragão para ver o primeiro treino do ano. Entraram com o pé direito? Espero que tenham feito mais do que isso e tenham entrado com um salto de gigante!
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andreia morais

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