Entre Margens

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... Comboios Turísticos!

[Acredito que a melhor maneira de conhecermos um lugar é percorrendo as suas ruas, para descobrirmos detalhes que facilmente nos escapariam e para encontrarmos rotas alternativas, sempre escondidas para olhares passageiros. No entanto, acho um amor existirem estes comboios turísticos. Nunca andei num, mas não resisto a fotografá-los, enquanto imagino os trilhos por onde poderão seguir. Qualquer dia, aventuro-me numa viagem, mas por um local que já tenha visitado, pois acabarei por redescobri-lo de outras perspetivas].

Fotografia da minha autoria



«O dia em que completei 32 anos foi o início do ano mais estranho da minha vida»

Avisos de Conteúdo: Doença Progressiva


As aplicações de encontros vieram revolucionar um pouco a forma como conhecemos outras pessoas, quando estamos solteiros. Confesso, porém, que sempre tive mais dúvidas que certezas em relações às mesmas, porque sinto que não tenho um perfil que se adeque a todo o processo. Mas não deixa de ser uma porta entreaberta. E acabei por refletir ainda mais sobre esta questão ao descobrir o livro de Dolly Alderton.


ESTAR SOLTEIRA AOS TRINTA

Estás aí? é um retrato muito credível do que é ser-se solteira aos trinta anos, cuja pressão para encontrar alguém e constituir família, enquanto se gere a perceção de envelhecimento, assume contornos sufocantes. E não se torna mais fácil quando, ao baixarmos as nossas defesas, permitindo que entrem na nossa vida, interferindo com as nossas expectativas e os nossos sentimentos, as pessoas, simplesmente, desaparecem.

«Eu reparara que isso era algo que as pessoas faziam quando chegavam aos trinta: 
viam cada decisão pessoal que tomávamos como um juízo de valor direto sobre a vida delas»

A prática do ghosting é algo que me incomoda, porque toca a desumanidade. Por mais dolorosa que seja a verdade, será sempre mais aceitável que este vazio, que este silêncio que nos deixa no limbo, potenciando inseguranças, ansiedade e frustração. E, inclusive, despertando uma sensação de culpa injustificada. Portanto, ao acompanhar a experiência da protagonista, ciente que pairamos em realidades distintas, acabei por me rever em vários dos seus pontos de vista e na própria postura que assume, quando abraça um relacionamento.

«A descoberta ao mesmo tempo mais tranquilizadora e perturbadora que fiz 
naquelas intensas primeiras semanas de clicar compulsivamente para a esquerda 
e para a direita no Linx foi quão desprovidos de imaginação os seres humanos são»

Outra ramificação interessante desta narrativa é a da amizade. Num plano em que o seu núcleo próximo começa a casar e a ter filhos, expõe não só as sensações que esse contexto desperta, mas também o quanto podemos estar em fases de vida [quase] antagónicas, sem que isso implique um afastamento. Por consequência, vamos questionando o quanto a idade pode ser um fator condicionante ou um impulso para arriscar; vamos questionando se a idade desperta mais medos ou mais segurança. Sem chegar a uma verdade absoluta, compreendemos que esta travessia tem inúmeras áreas cinzentas: porque depende de cada um.

«Nunca conhecera uma mulher mais segura 
dos seus pensamentos e instintos, e era uma coisa linda de se ver»

Em simultâneo, agradou-me que a autora não se tenha apenas focado nas relações amorosas, mas que tenha avançando por outros caminhos, equilibrando a energia do enredo com, por exemplo, o destaque para as doenças progressivas, porque sinto que o tornou mais credível e mostrou o propósito da personagem principal, que não deixou de ter outras prioridades e preocupações por sentir que era o momento de ser bem sucedida a nível pessoal. Embora encontremos partes um pouco previsíveis, é uma história que diverte e desarma.

«Quando as coisas se tornavam demasiado grandes, 
sentia necessidade de me fazer o mais pequena possível»

Estás aí? é um romance cómico, descomplicado, por vezes duro e com temas sérios, sobretudo, porque nos faz pensar sobre quem somos, sobre como nos podemos redescobrir e sobre o quanto é urgente compreendermos que não temos de caber todos nos mesmos padrões, nem alcançar as mesmas etapas.


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«(...) a responsabilidade que compete a todos»


A sociedade evolui na sua essência e constrói pontes para cenários que pareciam distantes e, talvez, impossíveis. Isto, face a certas abordagens, continua a ser uma utopia, porque é impensável que, numa era de informação, de conhecimento e de portas abertas para mentalidades empáticas, se perpetuem comportamentos que em nada glorificam as lutas que se travam em prol de direitos individuais e coletivos.


RESPONSABILIDADE COLETIVA

Responsabilidade social temos todos, independentemente de pairarmos numa esfera mediática ou de vivermos no anonimato. E acredito que parte dessa responsabilidade passa por cada um de nós aprender a filtrar o que consome em rede, tendo sempre presente que a sua história não é igual à dos outros. E, além disso, que a própria postura também será diferente, porque temos visões e propósitos singulares - em tudo na vida.

Reconheço que nem sempre é intuitivo fazer essa gestão, pois, consciente ou inconscientemente, em dias mais vulneráveis, a voz da comparação fala mais alto, as nossas inseguranças assumem o controlo e cobramo-nos em excesso. Mas não podemos exigir que a pessoa que está do outro lado - da tela ou da realidade - se diminua para caber nas nossas fragilidades. Tudo aquilo que publicamos tem impacto e, por vezes, nem temos total noção desse retorno. Porém, não acho que seja saudável cairmos num policiamento extremo: não só porque passaríamos a viver como marionetas, mas também porque existirá sempre quem fique melindrado. E não podemos demorar naquilo que não controlamos, apenas podemos agir com verdade.

Podemos ou não concordar com determinadas decisões, apelos ou pontos de vista. No entanto, isso não nos dá qualquer direito de optarmos pela violência verbal [ou por outro tipo de agressão]; não nos concede qualquer direito de invadirmos um espaço que não é nosso para denegrirmos o seu proprietário. Por isso, a nossa responsabilidade passa, igualmente, por sabermos que existem limites que não deveríamos transpor.


DISCORDAR SEM MALTRATAR

Quando abro as portas de minha casa, não espero que aqueles que recebo cheguem para me maltratar. E o mesmo acontece nas minhas redes/plataformas digitais. A partir do momento em que o conteúdo é público, tenho de estar preparada para receber comentários negativos ou que demonstrem que discordam do que partilho. Faz parte. O que não é aceitável é quando a cordialidade desaparece para dar lugar ao ódio gratuito.

A reflexão que, hoje, escrevo foi despoletada pela polémica recente que envolveu a Catarina Gouveia, após a mesma partilhar uma fotografia do seu pós-parto. Porque continua a chocar-me a quantidade de pessoas tão mal resolvidas que sente necessidade de ser maldosa com alguém que, por muito serena e empoderada que seja, está a passar por um processo vulnerável, com imensas emoções à flor da pele, visto que acabou de ser mãe. E a questão aqui não é ser a atriz/influencer Catarina Gouveia [embora assuma proporções maiores por ser uma figura pública], mas ser uma pessoa que gere a sua vida e as suas redes sociais como entender.

Eu compreendo algumas ressalvas - e reservas -, porque a luta para abraçarmos as nossas imperfeições e para criarmos espaços que mostrem a realidade continuam necessárias. Porque continuamos a precisar de vozes como a da Carolina Deslandes para quebrar estereótipos sobre diferentes tipos de corpos ou de testemunhos como o da Mariana Cabral [Bumba na Fofinha] sobre o lado menos glamoroso da maternidade, atendendo a que comprovam que todas as experiências são diferentes e que, por muito especial e mágica que seja esta nova fase das suas vidas, nem tudo é romantismo, nem tudo é perfeito, maravilhoso e belo.

Mostrar este lado menos encantador é mais uma maneira de criar elos, de permitir que outras mulheres se revejam e percebam que não estão sozinhas, que não partem em desvantagem por não terem tido um momento cinematográfico. Por outro lado, há mulheres que, certamente, tiveram um parto de sonho e não têm de se esconder por isso, não têm de se sentir culpadas por celebrar o seu conto de fadas. Aliás, a culpa não deve habitar nenhum destes cenários, porque um não deve ser oculto em detrimento do outro. São faces da mesma moeda. E tudo depende do respeito com que o tratamos e expomos - em partilhas ou em conversas.

No entanto, reparem, podemos aplicar isto a qualquer outra temática. Se eu fizer uma publicação a referir que li cem livros no ano, isso vai parecer irreal a quem tiver lido dez. E para além de questionar a veracidade da informação, poderá sentir alguma pressão, porque persistirá a ideia que leu muito pouco. Da mesma maneira como eu posso ficar melancólica por acompanhar partilhas de alguém que está sempre a viajar e eu não tenho essa possibilidade. Isto são meros exemplos, mas não deixam de acontecer. E se provocam algum tipo de desconforto, temos sempre uma opção valiosa: deixar de seguir. Não podemos é partir para a base do insulto, nem esperar que as pessoas deixem de partilhar o que as motiva, o que lhes faz sentido e as faz sentir bem.


MAIS AMOR

A minha responsabilidade também transcende na forma como utilizo a liberdade de expressão que me foi concedida. Porque as palavras são sementes, que se enraízam na nossa pele, fazendo florir pontos de luz ou lugares sombrios. E sororidade, feminismo, empatia não são só termos que ficam bem em narrativas de empoderamento, convém que se coadunem com as nossas ações. E, na dúvida, escolham sempre o amor.

Fotografia da minha autoria



«Terá força para interromper o ciclo?»

Avisos de Conteúdo: Violência Doméstica, Violação, Negligência, 
Cenas Explícitas, Menção a Suicídio e Morte


A transparência do ser humano, no que à sua essência diz respeito, devia de ser uma exigência intrínseca, porque não há nada mais desonesto do que iludirmos os outros, sobretudo, quando lhes mostramos uma versão utópica, que esconde o quanto os podemos magoar. Além disso, o reconhecer de padrões dilacera-nos. E ler este livro de Colleen Hoover mostra-nos que nem sempre é fácil quebrá-los, pelos mais diversos motivos.


CICLOS QUE SE REPETEM

Isto Acaba Aqui sustenta-se num histórico familiar real, revelando-se um constante murro no estômago e um exercício extraordinário de empatia, porque é simples acharmos que, perante determinadas situações, teríamos força e discernimento suficientes para escrevermos um desfecho diferente; porque é fácil analisarmos as situações do nosso ponto de vista confortável e hipotético. No entanto, cairmos nos mesmos paradigmas, vermos os mesmos ciclos a repetirem-se é bastante frequente. E ninguém está livre de o experienciar.

«Sorrio, tão entristecida quanto confundida por aquele tipo. 
Não me parece que alguma vez tenha estado com alguém como ele...»

A narrativa assume um tom leve, mas confronta-nos com temas pesados, que não podemos ignorar. E a verdade é que somos inebriados pelo charme do protagonista, para, depois, o nosso coração ficar destroçado, porque torna-se fonte da maior parte dos problemas. Por outro lado, a figura feminina abre uma porta intrigante e necessária, visto que, com humor e credibilidade, reforça que onde há amor, há vontade de justificar comportamentos; e que, por consequência, é difícil reconhecer o traço sombrio de quem temos ao nosso lado.

«Foi por isso que vim para aqui. Gosto de ti, 
mas não estou preparado para morrer por tua causa»

Pelas características das personagens e pelo rumo que a história leva, é evidente que a vida não é preto no branco, que existem muitas áreas turvas, que vamos desbravando com precaução e com muitas hesitações.


LINHAS TEMPORAIS PARALELAS

Um dos aspetos mais fascinantes desta obra, para mim, prende-se com a existência de duas linhas temporais - passado e presente - e a forma como se interligam, permitindo-nos juntar factos e reconhecer que há um tom transversal entre ambas, pela reprodução de violência, pela procura de perdão. Além disso, não há qualquer tipo de romantização naquele que é o tema central do enredo e isso é, também, o que tem de mais valioso.

«Mas depois sentir-me-eu melhor. É apenas a natureza humana, 
sarar uma velha ferida para se preparar a vinda de uma nova camada»

Isto Acaba Aqui chama-nos para o lado das vítimas de violência doméstica, sem julgamentos, porque nunca é intuitivo insurgirmo-nos contra quem amamos, virando-lhe as costas, ainda que nos maltrate sistematicamente. No meio da fragilidade, percebemos que a resiliência assume muitas camadas e que há quem permaneça nos bastidores, incentivando a nossa libertação. E a nota da autora contextualiza melhor o rumo desta narrativa.


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«Um dos maiores tabus do nosso tempo»


A morte continua a ser um tema tabu. Se calhar, pelo lado imprevisível, embora inevitável. Se calhar, pelo medo que, consciente ou inconscientemente, temos dela. Apesar disso, não deixa de ser importante conversar sobre a mesma e talvez ajude a amenizar a ansiedade que nos provoca, se escutarmos vozes familiares.


NA MINHA SEPULTURA DEVERÁ ESTAR ESCRITO

Nelson Nunes, partindo da premissa que falar da morte «não nos prende: liberta-nos», criou o podcast Na Minha Sepultura Deverá Estar Escrito, para o qual convida figuras conhecidas [e de várias áreas artísticas], concedendo-lhes espaço para deambularem, refletirem, sobre «o que sentem e o que vivem perante a morte».

Este assunto pesa-nos sempre, até pela dor e pela ausência, sobretudo, se começarmos a pensar acerca de quem nos é tanto. Mas tem sido uma travessia interessantíssima, porque é fascinante compreender como um mesmo tópico desperta sensações e perspetivas tão distintas. Não diria antagónicas, atendendo a que existem elos que coincidem entre convidados, mas diferentes naquilo que são as suas intervenções centrais; naquilo que focam. Portanto, vamos escutando partilhas vulneráveis e descomplexadas, sem banalizarem a morte.

Honestamente, ainda não consegui chegar a um consenso sobre aquilo que deveria estar escrito na minha sepultura. No entanto, sei que, quando chegar a minha despedida, gostaria que os meus me celebrassem e que não prolongassem o seu sofrimento [por muito egoísta que isto soe]. E adorei a ideia da Susana Romana: uma sepultura feita de ardósia para que escrevam nela. Sinto que combinava bem com a minha essência.

O momento para conversar sobre morte parece sempre desajustado, mas importa proporcioná-lo e, inclusive, normalizá-lo. Como diria Dumbledore, devemos usar «sempre o nome das coisas», porque «recear um nome aumenta o medo que se tem dele». E Nelson Nunes está a fazer um trabalho excelente, neste sentido, com este projeto, sendo, na voz de diversos intervenientes, um ponto de luz nesta névoa que paira o desconhecido.

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«Rapaz conhece rapaz»


A literatura é uma porta que nos separa da realidade, permitindo-nos explorar universos alternativos, mas também é um espelho daquilo que a caracteriza, daquilo que emociona, que inquieta e que é necessário reconstruir. É por isso que um livro é uma arma tão poderosa: porque nos obriga a refletir sobre a vida, compreendendo que a sua perspetiva pode não ser suficiente e mostrando-nos que há muros para quebrar.

Quando, em 2021, participei no Ler a Diferença, projeto da Elga Fontes, fi-lo consciente da importância de abraçar leituras mais inclusivas, que normalizem vozes distintas. No mês em que se celebra o orgulho LGBTQIA+, arrisquei na novela gráfica de Alice Oseman e descobri que Heartstopper tem uma das mensagens mais amorosas e valiosas com que me cruzei. Após ler o primeiro livro, quis transitar rapidamente para os seguintes, porque é crucial existirem histórias desta magnitude: que, de um modo descomplicado, desconstruam estereótipos, sejam realistas [mesmo partindo da ficção] e apostem na representatividade.


HEARTSTOPPER VOLUME 1


Abre caminho para uma série de questões acerca das nossas inseguranças, da adolescência, do peso, da necessidade de rótulos e da gestão de sentimentos ambíguos, que nos fazem analisar a nossa essência. Em simultâneo, mostra-nos uma amizade a ser construída com os alicerces certos; mostra-nos o medo da não correspondência e os perigos de viver [n]um romance abusivo. E leva-nos por uma viagem de aceitação.


HEARTSTOPPER VOLUME 2


Torna percetível que cada um precisa de tempo, espaço e apoio para se conhecer; que é perfeitamente natural existirem dúvidas e sentirmo-nos perdidos, porque nada é linear neste processo de crescimento, de construção da nossa identidade. Apesar disso, há sempre alguém para nos dar a mão, porque respeita o nosso silêncio e as nossas reservas. E isso é um enorme sinal de amor, além de ser uma força extra para superar a maldade.


HEARTSTOPPER VOLUME 3


Os efeitos do bullying e a automutilação têm um peso inegável neste volume. Em simultâneo, há elos de amizade que são colocados à prova, há relacionamentos que surgem em paralelo e há uma pergunta bastante pertinente a ecoar: um heterossexual não tem de se assumir para a sociedade, porque é que um homossexual tem de o fazer? Qual é a necessidade de prolongar esta dualidade de critérios, que não é mais do que um pretexto de discriminação? É ainda nesta parte que se reforça a abordagem sobre distúrbios alimentares.


HEARTSTOPPER VOLUME 4


Este volume é de uma importância gigantesca, porque trata a saúde mental com consciência, com respeito e de várias perspetivas, visto que é um assunto que não afeta apenas a pessoa em si. E creio que parte desta importância passa pelo facto de não romantizar as suas ramificações: porque nem sempre fica tudo bem, porque nem sempre é fácil reconhecer um problema e pedir ajuda, porque nem sempre é pacífico estar de fora, a ver aqueles que amamos a sofrer, sentindo-nos impotentes. E nós, enquanto leitores, sentimos cada fragmento, cada dúvida, cada pulsar de hesitação; sentimos o amor que estas relações transbordam, mas «o amor não cura uma doença mental» - apenas nos deixa um pouco mais predispostos para encontrar ferramentas que ajudem os nossos, para que percebam, no seu tempo certo, que não caminham sozinhos.



Heartstopper é uma autêntica caixinha de surpresas, que nos incentiva a conversar, abertamente, sobre temas delicados e que permanecem tabu. Embora também tenha a sua quota-parte de entretenimento, há uma responsabilidade social patente na escrita, nas ilustrações e nas entrelinhas. A leitura destas obras não substitui, naturalmente, a ajuda de profissionais competentes e especializados, que deve ser procurada sem receio de represálias, porque é a nossa saúde e o nosso bem-estar que estão em causa. No entanto, pode facilitar a compreensão de certos sentimentos e pode ser o impulso para darmos mais um passo em frente.

Ninguém tem o direito de nos diminuir, de nos fazer desaparecer. E o Nick, o Charlie, o Gangue de Paris são o rosto dessa resiliência. Portanto, existirem histórias como a que Alice Oseman fez nascer é essencial, porque nos dão esperança para o futuro - enquanto indivíduo e sociedade. E isso só pode ser um ato de resistência.


«Olha lá
Não sei onde é que andas
Nem como é que estás
Sempre encontraste a tal paz
Que procuravas?

Eu vi passar o tempo por mim
Como um autocarro
Que vive atrasado
Até para te encontrar

Encontraste alguém melhor que eu?
Eu espero que sim e rezo que não
Fizeste das memórias um museu
Ou sou só eu o remédio para a tua solidão?

Se for para ir, vai-te de vez
Eu já não estou cá
O que ficou é o que vês
Que vive do pouco que me dás»

Fotografia da minha autoria



... Papoilas!

[Há qualquer coisa de enternecedor num jardim com papoilas. Talvez seja a simplicidade que transmitem; a doçura sublime de quem aparenta passar despercebido, mas deixa sempre um toque distinto, uma imagem que se prolonga na memória. E mesmo quando crescem em locais adversos, provam-nos que também nós podemos florescer em cenários improváveis, rompendo com as probabilidades. Floridas e vistosas, as papoilas talvez sejam uma lição para que nunca percamos o norte, para que continuemos a desbravar caminho, ondulantes e resistentes. E, tal como um verso perdido em terreno fértil, serão sempre uma inspiração].

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«A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende»


O ambiente de um concerto é sempre desarmante, sobretudo, se no palco encontrarmos artistas que nos leem a alma. Eu cresci abraçada por várias melodias e a sonhar escutá-las ao vivo. Felizmente, concretizei alguns desses desejos, mas ainda tenho vários nomes que ambiciono ter a um palmo de mim, num traço de magia.

A verdade é que, atendendo ao cenário pandémico do qual ainda não nos libertamos, tenho voltado a estes eventos de um modo comedido, mas com imensa vontade de criar novas memórias. Porque são irrepetíveis. Porque são incomparáveis. Portanto, apesar de estar a retomar as oportunidades a um ritmo mais lento, agrada-me poder colmatar as saudades através da caixa mágica. E, graças à RTP, pude fechar os olhos e sentir, por longos minutos, que estava a assistir no local a dois espetáculos de músicos que nos transcendem.


BPM AO VIVO NO MARIA MATOS

Salvador Sobral, em 2020, apresentou o seu mais recente álbum no Teatro Maria Matos. As canções que compõem o seu terceiro trabalho de estúdio - «e o primeiro composto inteiramente por originais da sua autoria» - parecem mesmo batimentos cardíacos, que nos desarmam e que nos levam numa viagem intimista, intensa e memorável. Por isso, fiquei rendida à narrativa que construiu em palco. Além disso, o Salvador Sobral tem um sentido de humor maravilhoso, que torna tudo mais proximal, mais fluído. Foi um momento cheio de luz.


40 ANOS DE CARREIRA

Rui Veloso há-de ser sempre uma das minhas maiores referências musicais. Se, hoje, vivo rodeada de canções, também o devo a ele. Para «fechar o ano de 2021», subiu ao palco do Campo Pequeno para celebrar os mais de 40 anos de carreira que tem na sua história. Dividindo o estrelado com nomes surpreendentes e que trouxeram mais cor ao espetáculo, reforcei o quanto o admiro, o quanto os seus temas vestem fragmentos da minha vida. Poderia ter mais tempo de concerto, que continuaria a escutá-lo com o mesmo entusiasmo.


- ambos os concertos estão disponíveis na RTP Play -

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«na hora de pôr a mesa, éramos cinco»

Avisos de Conteúdo: Morte, Luto


A perda, em todas as suas ramificações, dilacera, desfragmenta-nos, porque há uma parte de nós que quebra e que parte para um lugar incerto. Embora permaneçamos, visualmente, inteiros, existe um vazio interior que nos grita no peito, para que ressoe a ausência. E, por isso, custa a edificar; custa a unir as peças para sentirmos a vida a seguir. Mas nunca avança com o mesmo sentido, como lemos no livro de José Luís Peixoto.


EMERGIR DOS ESCOMBROS

A Criança em Ruínas tem um tom bastante intimista, levando-nos a deambular pela dor, pela melancolia, pela desintegração da família e pela passagem do tempo. Priorizando memórias de infância, não se coíbe de ser um espelho das várias fases de crescimento do autor, que não só se viu confrontado com a morte de alguém tão próximo, sangue do seu sangue, como também necessitou de emergir dos escombros do luto e da solidão.

«há o silêncio circunscrito à tua volta
e no entanto a tua pele é o silêncio»

Este exemplar lê-se num fôlego, mas deixa-nos sem ar, por transmitir tantas imagens dolorosas e por ser tão palpável a perda de felicidade. No entanto, faz uma travessia muito sensível e emocional pela metamorfose que permite encontrar o amor e abraçar uma espécie de redenção. É por essa razão que estes versos apresentam traços dicotómicos, mostrando que a nossa jornada é feita de luz e escuridão, utopias e certezas, paixões e tragédias. E é o ponto de equilíbrio que comprova que tudo deixa marcas coladas à nossa história.

«entre mim e o meu silêncio há um desentendimento»

A Criança em Ruínas é a ponte para exorcizar males, fragilidades e saudades. E, de modo a colmatar os espaços que ficam ocupados na nossa alma, socorre-se da pluralidade e versatilidade da poesia para mostrar a imensidão dos nossos sentimentos. Direcionando o nosso olhar para o eu que cresce na penumbra, entendemos que qualquer um dos nós, em algum momento, será esta criança: desfeita, a resistir ao caos.

«há muito tempo que te espero. há muito tempo que não vens»


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«Foi sempre o meu porto de abrigo»


É a saudade do toque
A ferida da alma em aberto
É a falta do cheiro, do beijo
A ansiedade do risco
E do riso que desarma
O limbo das decisões por impulso
O coração fora do peito

É a saudade
Essa nova unidade de medida
Que me dilacera

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