«Encontra o caminho aquele que rompe as próprias máscaras, encara a verdade sobre si mesmo, experimenta a amplitude de sua vulnerabilidade e age, superando-se continuamente», Maria Aparecida Giacomini Dóro.
Fiquei a conhecer o projeto «If you really knew me...» (podem saber em que consiste aqui) através do blog da Bu' e já há algum tempo que queria participar. Contudo, acho que me faltou a coragem suficiente para fazê-lo mais cedo. Não é fácil pousarmos a máscara que usamos para nos proteger de algumas coisas e sermos nós sem qualquer filtro, sobretudo quando isso implica expor-nos sem medos. A verdade é que os temos e nem sempre são poucos. Mas como em tudo na vida, chega a uma altura em que percebemos que tem que ser. E a sensação de liberdade que surge depois disso é reconfortante. Senti que era o momento de me dar a conhecer, talvez de uma maneira que só eu me conheço. E sabem uma coisa? Fez-me bem! Sem mais demoras, deixo-vos com o meu simbólico contributo:
Se tu realmente me conhecesses saberias que...
Nunca me achei bonita. Quando me olho ao espelho não consigo encontrar algo que seja suficientemente merecedor de atenção por parte das outras pessoas. Eu sei, o que importa - ou o que deveria importar - é a personalidade, mas todos nós sabemos que ainda há quem viva de aparências, como se beleza fosse sinónimo de sermos boas pessoas. Nunca gostei do meu corpo, porque sempre fui gorda. Inevitavelmente, há complexos que surgem e mecanismos de defesa que se desenvolvem. Tento muitas vezes lutar contra isso, mas por qualquer razão volto à estaca zero, como se me sabotasse propositadamente. Ou me tivesse conformado que seria assim para o resto da vida.
Não me lembro de alguma vez ter ouvido um rapaz dizer que era bonita ou a mulher da vida dele. Nem me recordo do que é estar numa relação, sentir-me amada e desejada. E muitas vezes questiono-me se algum dia voltarei a sentir tudo isso. A ter aquele frio na barriga e saber que do outro lado há correspondência. Sou insegura quanto às minhas qualidades, duvido muitas vezes que sou capaz e tenho medo da solidão. Sempre quis casar e ser mãe, mas às vezes pergunto-me se algum dia realizarei esse sonho porque acho que nunca serei suficientemente boa para que alguém queira passar o resto da sua vida ao meu lado. Tenho vinte e dois anos, muito pela frente, mas há momentos em que me sinto a ficar para trás.
Guardo muitas coisas só para mim. Prefiro ouvir os problemas dos outros, para os tentar ajudar, do que preocupá-los com os meus. Choro sozinha e odeio que me vejam chorar. Não porque veja isso como uma fraqueza, mas precisamente por não querer que se preocupem comigo. Nunca me vitimizei, nem sinto pena de mim. Nunca me olhei como «coitadinha», nem o podia fazer. Se calhar, hoje gosto um pouco mais de mim, mas ainda tenho um longo caminho pela frente. Aceitar-me como sou devia ser intrínseco à personalidade, mas é das coisas mais difíceis de se conquistar. E a minha timidez leva-me a ter receio de avançar.
Tenho muitas saudades da minha avó. Ainda há alturas em que espero que, por volta do meio dia, chegue a casa depois do seu passeio diário. Há coisas que continuam a magoar, pessoas que deviam ter estado presentes e não estiveram. Talvez me falte a capacidade de perdoar essa falha dos outros. Tenho igualmente saudades do meu avô. E o dia em que faleceu, por ter sido no dia do meu aniversário, foi - e continua a ser - o mais traumático. Já tinha partilhado esta informação com algumas pessoas próximas, mas só o ano passado é que consegui escrever detalhadamente sobre o assunto, muito por culpa da música «Volta» do Diogo Piçarra.
Nos últimos dois anos desiludi-me com duas pessoas bastante importantes e acho que isso abalou a minha confiança e fez-me repensar na forma como me entrego aos outros . Amei em segredo e engoli muitos sapos em prol de amizades. E no fim sempre achei que a culpa das coisas não resultarem era minha, que podia ter feito mais. E talvez hoje continue a achar o mesmo. E que, se calhar, se fosse embora daqui não faria assim tanta falta.
Independentemente de tudo isso, saio sempre de casa com um sorriso nos lábios e continuo a acreditar que um dia vou encontrar o amor da minha vida. Continuo a achar-me a pessoa mais sortuda do mundo por ter a família que tenho e os amigos que conheci ao longo do tempo. Aprendi a ter força e a não deixar que algumas coisas me derrubem. Há pormenores que só eu sei, dúvidas que me perseguem, inseguranças que não consigo deixar para trás. Mas esta sou eu, sem filtro e sem máscaras. E talvez um dia descubra que sou bonita exatamente por ser assim.
E se eu te conhecesse realmente como seria?