Entre Margens

«A recordação é o perfume da alma. É a parte mais delicada e mais suave do coração, que se desprende para abraçar outro coração e segui-lo por toda a parte», George Sand  


A Cátia do blog Linhas tortas teve a ideia de criar o seu moleskine viajante (ver publicação aqui). Para quem não sabe, é um caderno que circula entre várias pessoas e onde cada uma pode fazer o que quiser: escrever, desenhar, colar... Basta deixar fluir a imaginação. Adorei esta iniciativa e senti logo que tinha que participar. Além disso, não foi nada difícil saber qual seria o meu contributo. Na passada quarta-feira recebi uma encomenda e pelo envelope percebi logo o que era. Agora só preciso de começar a trabalhar no que pensei. Não vos posso revelar muito, até para não estragar a surpresa, mas levanto a ponta do véu para vos dizer que envolve um pouco de trabalho manual e uma espécie de edição especial de uma das rubricas que podem ler n' As gavetas da minha casa encantada. Estou ainda a pensar enviar uma recordação, mas continuo indecisa entre dois objetos. Quando regressar ao destino e se a responsável me permitir partilho detalhadamente o que fiz nestas páginas que ficarão preenchidas de histórias de toda a parte.

Quem está a participar? Conseguem adivinhar o que vou fazer?

«Por isso pára de chorar, carrega no batom, abusa do verniz, põe os pontos nos "is"»

Antes de sair de casa olhei-me ao espelho. E silenciosamente pensei «és bonita», de forma a mentalizar-me que tenho que me aceitar como sou. Depois sai porta fora pronta a conquistar o mundo.

«Gosto de gente simples e generosa, gente de afectos, que gosta com o coração todo, que ajuda, que dá sem pensar em contrapartidas, que ouve, que sorri com os olhos, que se emociona e que se entusiasma com as pequenas coisas. Gosto de pessoas que gostam das outras pessoas. Sem filtros».


As nossas ações têm consequências. Inevitavelmente. E acho que, por vezes, nos esquecemos do quanto as nossas palavras podem tocar alguém e que um simples gesto faz a diferença. Estava longe de imaginar o impacto que o texto de ontem teria, por isso só vos posso agradecer por todas as mensagens que me fizeram chegar. Foram incríveis e deixaram-me de coração cheio. 

Chorei e sorri ao ler cada comentário. A força que recebi de todos eles nunca serei capaz de esquecer. Nem quero! Além disso, saber que ajudei alguém a desabafar é a melhor sensação de sempre. Receber uma mensagem de uma pessoa com quem nunca falei, mas que reconheço de vista, a partilhar um pouco da sua experiência deixou-me feliz. Naturalmente, preferia que não se tivesse identificado com a minha partilha, mas sentir que confiam em mim para libertar um pouco dessas inseguranças fez-me perceber que escrever este texto foi das decisões mais acertadas que tomei. 

Como o referi, adiei muitas vezes escreve-lo. Por vergonha, por receio, por não ser fácil. Mas quando finalmente decidi que estava na hora de falar disto sem medo de represálias fi-lo não por ter pena de mim, porque nunca tive, mas para conseguir ajudar de alguma forma. Muitas vezes só precisamos de um incentivo para libertar os nossos fantasmas. E é quando nos permitimos falar sobre eles que compreendemos que nunca estamos sozinhos. Não estamos. Do outro lado da estrada, do mundo, da vida há sempre alguém igual a nós. 

Há várias formas de nos sentirmos amados. E ontem foi assim que me senti! O caminho é longo, mas todos os dias vou gostando um pouco mais de mim. Vocês que estão desse lado, que me acompanham há algum tempo, não tinham qualquer obrigação de escrever o que escreveram e mesmo assim fizeram-me ganhar o dia. Não nos conhecemos pessoalmente, tudo o que sabemos uns dos outros é do que vamos partilhando neste espaço em comum, mas nada disso vos impediu de revelar a imagem que têm daquilo que sou. Acreditem, foi muito importante. Obrigada.

Todos nós temos algo que nos atormenta, por mais mínimo que nos pareça comparado com outros problemas. Não devemos desvalorizar, até porque os danos na auto-estima podem ser elevados. É por isso que tenho um desafio para vocês: são capazes de responder ao «If You Really Knew Me...»? 

Muitas vezes duvidamos que exista alguém com o mesmo problema que nós, porque nos parece tão insignificante que mais ninguém se lembrará dele. Há tantos mais importantes, como é que podemos deixar que aquele pormenor nos derrube? Vamos surpreender-nos com a quantidade de pessoas que pensam o mesmo e que todos os dias colocam esta questão. Também duvidei muitas vezes, mas hoje arrependo-me de não ter publicado este texto mais cedo. É importante partilharmos as nossas experiências, nunca sabemos quando é que através dela vamos ajudar alguém.

Vamos fazer a diferença?  

«Encontra o caminho aquele que rompe as próprias máscaras, encara a verdade sobre si mesmo, experimenta a amplitude de sua vulnerabilidade e age, superando-se continuamente», Maria Aparecida Giacomini Dóro.


Fiquei a conhecer o projeto «If you really knew me...» (podem saber em que consiste aqui) através do blog da Bu' e já há algum tempo que queria participar. Contudo, acho que me faltou a coragem suficiente para fazê-lo mais cedo. Não é fácil pousarmos a máscara que usamos para nos proteger de algumas coisas e sermos nós sem qualquer filtro, sobretudo quando isso implica expor-nos sem medos. A verdade é que os temos e nem sempre são poucos. Mas como em tudo na vida, chega a uma altura em que percebemos que tem que ser. E a sensação de liberdade que surge depois disso é reconfortante. Senti que era o momento de me dar a conhecer, talvez de uma maneira que só eu me conheço. E sabem uma coisa? Fez-me bem! Sem mais demoras, deixo-vos com o meu simbólico contributo:


Se tu realmente me conhecesses saberias que... 

Nunca me achei bonita. Quando me olho ao espelho não consigo encontrar algo que seja suficientemente merecedor de atenção por parte das outras pessoas. Eu sei, o que importa - ou o que deveria importar - é a personalidade, mas todos nós sabemos que ainda há quem viva de aparências, como se beleza fosse sinónimo de sermos boas pessoas. Nunca gostei do meu corpo, porque sempre fui gorda. Inevitavelmente, há complexos que surgem e mecanismos de defesa que se desenvolvem. Tento muitas vezes lutar contra isso, mas por qualquer razão volto à estaca zero, como se me sabotasse propositadamente. Ou me tivesse conformado que seria assim para o resto da vida.

Não me lembro de alguma vez ter ouvido um rapaz dizer que era bonita ou a mulher da vida dele. Nem me recordo do que é estar numa relação, sentir-me amada e desejada. E muitas vezes questiono-me se algum dia voltarei a sentir tudo isso. A ter aquele frio na barriga e saber que do outro lado há correspondência. Sou insegura quanto às minhas qualidades, duvido muitas vezes que sou capaz e tenho medo da solidão. Sempre quis casar e ser mãe, mas às vezes pergunto-me se algum dia realizarei esse sonho porque acho que nunca serei suficientemente boa para que alguém queira passar o resto da sua vida ao meu lado. Tenho vinte e dois anos, muito pela frente, mas há momentos em que me sinto a ficar para trás. 

Guardo muitas coisas só para mim. Prefiro ouvir os problemas dos outros, para os tentar ajudar, do que preocupá-los com os meus. Choro sozinha e odeio que me vejam chorar. Não porque veja isso como uma fraqueza, mas precisamente por não querer que se preocupem comigo. Nunca me vitimizei, nem sinto pena de mim. Nunca me olhei como «coitadinha», nem o podia fazer. Se calhar, hoje gosto um pouco mais de mim, mas ainda tenho um longo caminho pela frente. Aceitar-me como sou devia ser intrínseco à personalidade, mas é das coisas mais difíceis de se conquistar. E a minha timidez leva-me a ter receio de avançar.

Tenho muitas saudades da minha avó. Ainda há alturas em que espero que, por volta do meio dia, chegue a casa depois do seu passeio diário. Há coisas que continuam a magoar, pessoas que deviam ter estado presentes e não estiveram. Talvez me falte a capacidade de perdoar essa falha dos outros. Tenho igualmente saudades do meu avô. E o dia em que faleceu, por ter sido no dia do meu aniversário, foi - e continua a ser - o mais traumático. Já tinha partilhado esta informação com algumas pessoas próximas, mas só o ano passado é que consegui escrever detalhadamente sobre o assunto, muito por culpa da música «Volta» do Diogo Piçarra.  

Nos últimos dois anos desiludi-me com duas pessoas bastante importantes e acho que isso abalou a minha confiança e fez-me repensar na forma como me entrego aos outros . Amei em segredo e engoli muitos sapos em prol de amizades. E no fim sempre achei que a culpa das coisas não resultarem era minha, que podia ter feito mais. E talvez hoje continue a achar o mesmo. E que, se calhar, se fosse embora daqui não faria assim tanta falta.  

Independentemente de tudo isso, saio sempre de casa com um sorriso nos lábios e continuo a acreditar que um dia vou encontrar o amor da minha vida. Continuo a achar-me a pessoa mais sortuda do mundo por ter a família que tenho e os amigos que conheci ao longo do tempo. Aprendi a ter força e a não deixar que algumas coisas me derrubem. Há pormenores que só eu sei, dúvidas que me perseguem, inseguranças que não consigo deixar para trás. Mas esta sou eu, sem filtro e sem máscaras. E talvez um dia descubra que sou bonita exatamente por ser assim. 

E se eu te conhecesse realmente como seria? 

«Solidão é o modo que o destino encontra para levar o homem a si mesmo», Hermann Hesse


E de repente
Percebemos que o mundo não para
E a dor da mágoa
Se espalha
E de nada vale 
Fechar a janela
Quando a noite impera em nós.
E o sol continua
A brilhar lá fora
E os pássaros não voam do ninho
Cantando.
E quem perde somos nós
Que deixamos de viver
E agarrar a beleza
Que permanece no lado de lá do vidro
Por quem já não lembra
E já nada quer daquilo que fomos.


M, 06.07.2014

«Só há uma coisa para a qual não admitimos que nos seja exigido pensar. Chama-se paixão


Quase tudo o que há na vida nos obriga a pensar demais. Das decisões profissionais, aos destinos de férias, às contas ao dinheiro que, mesmo antes de se fazer ouvir na conta, já vem invariavelmente repartido por uma série de variáveis, também estas previamente identificadas. Nem o sexo escapa ao planeamento estratégico do ato. Não se admite que não saibamos as posições que eles mais gostam e, se dúvidas existirem sobre a real localização do ponto G, em qualquer lado se encontra uma resposta apropriada e ilustrada.

Só há uma coisa para a qual não admitimos que nos seja exigido pensar. Chama-se paixão. E, de facto, esta não tem posologia, não traz informações sobre os efeitos secundários, não é planeável, não é pensável. É só ficar a vê-las chegar: tropas e tropas de borboletas paraquedistas que vão poisando e borboleteando na barriga.

Do chegar desta paixão ao iniciar de um namoro não é preciso muito, basta que nos deixemos guiar pela mão desta felicidade fácil e irracional. Mas é certo e sabido que há castigo para tudo o que deixamos que nos escape à razão, até para a felicidade. Aqui, o castigo maior é quando percebemos que esse tal namoro nem está prestes a acabar, mas que na verdade nunca chegou a começar. Noite da inauguração volvida, desligam-se os holofotes e, antes que a coisa comece a dar algum trabalho e nos obrigue a voltar à rotina do pensamento, o ideal é recorrer a uma digna e rápida rescisão por mútuo acordo.

Já o (n)AMOR(oro) não tem nada a ver com isso. Namorar alguém por amor é ter o coração ocupado 24h/7 e aceitar que daí vão começar a surgir preocupações relacionadas com o não cumprimento de determinadas obrigações contratuais. É deixar que as tropas de borboletas exibam agora os seus músculos militares e, de botas bem engraxadas, deixem para trás os paraquedas para ocuparem, não provisoriamente, o arco do triunfo do coração. Requer planos, reflexões, considerações. É uma atenção e uma dedicação que se implanta na vontade dos amantes e que são inatas a isto que é... o amor.

Se o namoro é um brunch de ocasião e de fácil digestão, o (n)AMOR(o), esse, alimenta-se de banquetes de expectativas, inquietações e algumas agonias. É aceitar que da irracionalidade da paixão nasceu uma nova atividade. Chama-se continuar e não faz finca-pé com a razão ou com o pensamento. Ela requer que nos tornemos guardiões do n(AMOR)o e solicita sistemas comunicação e planos de ação suficientemente aplicados para que não se deixe o amor empalidecer, apodrecer, morrer.

No que toca ao (n)AMOR(o), pensar demais não mata. Tomar por garantido é que mata.

E o (n)AMOR(o) não compactua com funerais dignos». (Catarina Sanches, aqui)

«O que é mais difícil não é escrever muito; é dizer tudo, escrevendo pouco», Júlio Dantas. 


Vi a TAG «Uma só palavra» no blog Morning Dreams e achei-a mesmo interessante. O objetivo é responder às perguntas, tal como o nome indicada, com uma única palavra. Não é nada fácil, até porque se algumas são óbvias outras nem por isso. Ainda assim, e mesmo não tendo sido nomeada diretamente, quis fazê-la pelo desafio que é. Vamos ver se o consegui superar?


1 - Onde está o seu telemóvel?
Mesa

2 - Seu parceiro?
Caderno

3 - Seu cabelo?
Encaracolado

4 - Sua mãe?
Vida

5 - Seu pai?
Vida

6 - Seu objecto preferido?
Livro

7 - Seu sonho da noite passada?
Calmo

8 - Sua bebida predilecta?
Chá

9 - O carro dos seus sonhos?
Porsche

10 - O quarto onde você está neste momento?
Sala

11 - Seu ex?
Distante

12 - Seu medo?
Desiludir

13 - O que você deseja ser em 10 anos?
Feliz

14 - Com quem você passou a noite passada?
Família

15 - O que você não é?
Irresponsável

16 - O que você fez por último?
Catequese

17 - O que você está usando?
Roupa

18 - Livro predilecto?
Principezinho

19 - A última coisa que você comeu?
Pão

20 - Sua vida?
Boa

21 - Seu humor?
Constante

22 - Seus amigos?
Essenciais 

23 - Em que você está pensando neste momento?
Concerto

24 - O que você está a fazer neste momento?
Escrever

25 - Seu verão?
Espetacular

26 - O que está passando na sua TV?
Castle

27 - Quando você sorriu pela última vez?
Hoje

28 - Quando você chorou pela última vez?
Quinta

29 - Escola?
Objetivo

30 - O que você está escutando nesse momento?
Volta

31 - Actividade predilecta dos finais de semana?
Passear

32 - Profissão dos seus sonhos?
Educadora

33 - Seu computador?
Necessário

34 - Do lado de fora da sua janela?
Rua

35 - Cerveja?
Preta

36 - Comida mexicana?
Incógnita

37 - Inverno?
Agasalho 

38 - Religião?
Acreditar

39 - Férias?
Conhecer

40 - Em cima da sua cama?
Almofadas

41 - Amor?
Imprescindível

Foste a loucura que sempre quis viver até não te querer a viver mais dentro de mim.

#pessoal #loucura #vida #amor #coração #longe #semti #afastamento 

04.09.2014

«É uma alegria representar este clube. Sempre o disse. Cada vez amo mais este clube, vestir esta camisola, representar o clube e a cidade. É isto que nos motiva...», Ricardo Quaresma.


Subestimam-te, mas ainda não perceberam que não te derrubam. É esse amor que tu tens, maior do que todos, que não te deixa desistir. A irreverência, o talento, a capacidade de encontrar espaços, as fintas, os rasgos de genialidade que deixam uns quantos para trás, a garra, a raça, a vontade são todas as qualidades que te distinguem e te levam ao topo. Para junto dos gigantes. O Harry Potter do Dragão é feito de magia pura e é isso que nos prende à cadeira, como se o nosso coração parasse de palpitar por segundos, e logo a seguir nos faz levantar numa ovação entusiasmante e apaixonante. Mas o Quaresma não é só isto. É muito mais do que isto. Porque se desafia e, consequentemente, se supera. E é melhor todos os dias. A equipa não é só ele, nem o pode ser, porque antes das individualidades está um nome mais importante: o do clube. Contudo, ontem foi mais uma prova, sem teres que provar algo a alguém, que o banco não te pertence. O teu lugar é dentro de campo, a fazer o que sabes com mestria, a desequilibrar, a proporcionar momentos de qualidade a quem assiste no estádio, em casa ou no café. Porque o Porto também és tu, que o sentes como se te estivesse cravado no sangue desde que nasceste. «Os artistas são assim: teimam em escolher caminhos difíceis». E eu sei, porque o sinto também, que dás tudo o que tens. E por mais difícil que o caminho seja tu hás-de estar lá, sem medos, por nós. «O avançado correu em direção ao centro, agarrou a camisola e gritou para os céus. Aquele tinha de ser o momento do jogo». E foi! Para mim ainda mais por significar o teu regresso, onde demonstraste, novamente, a honra com que defendes o emblema que carregas sobre o lado esquerdo do peito. Essas duas cores são o nosso amor por inteiro. Por mais que digam que não sabes o que é ser Porto, és a maior referência deste plantel. E é com tristeza que te vejo relegado a um lugar que nunca será o teu. Ficou a certeza de que nunca serás o problema, mesmo quando nem tudo corre bem, mas a solução. Deram-te o estatuto de Herói, para mim ele acompanha-te todos os dias. Tu sabes para onde queres ir. Chegas e conquistas. Partilhamos o grito da glória, aquele com que deviam dizer o teu nome sempre que sobes ao relvado. E eu continuarei aqui, com o orgulho a transbordar porque não existe algum outro jogador que me encha tanto as medidas como tu. És o maior. Precisamos de ti, Guerreiro! 

«Enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar», Jorge Palma

«Eu sei que o tempo não pára. O tempo é coisa rara e a gente só repara quando ele já passou», Mariza.


Um ano. É mesmo verdade? O tempo avançou assim tão rápido para nem darmos por ele? Há dias em que acho que a minha memória me atraiçoa, baralha as datas e troca as lembranças. Hoje não é o caso, passou mesmo um ano. E vejam onde nos tem levado toda esta aventura!

Vamos recuar a vinte de outubro de dois mil e treze e saborear este percurso em câmara lenta. Lembram-se dos Bring Us Tomorrow? Sim? Eu também! E tudo começou assim: com outro nome. Mas a essência dos Aurora esteve sempre ali, bem dentro de cada um deles. Talvez não o soubessem na primeira vez que pisaram o palco, ainda em separado, mas depressa chegaram lá. Ao projeto mais fascinante de toda a competição. A «Homem do Leme» com que se deram a conhecer elevou a fasquia, não só para eles, mas para todos os outros concorrentes, por ter sido cantada, tocada e interpretada de forma tão brilhante. Estavam ali para vencer, para marcar a diferença, e isso ficou claro, pelo menos para mim, quando afirmaram com toda a convicção que iam cantar em português porque «devemos valorizar a nossa língua». Conquistaram-me naquele instante. E desde então nunca mais parei de me render a todo o talento que têm. 

Há um ano compramos um bilhete sem volta para esta viagem alucinante que têm sido os Aurora. Se a música dos Xutos&Pontapés marcou o início de algo tão fantástico, a «Sete Mares», dos Sétima Legião, encerra um ciclo. E a chegada de uma nova etapa. Pelo meio muitas foram as músicas que nos deixaram sem palavras. Em êxtase. A sorrir. De lágrimas nos olhos. E por mais distintas que sejam têm todas em comum a entrega, o respeito e o amor com que se dedicaram a trabalhá-las. Porque ser Aurora é inovar. E tornar a música portuguesa ainda mais bonita.

Por gostar tanto do que é nosso, cresci a ouvir todos os temas que cantaram no Factor X. E não podia ter ficado mais orgulhosa por vê-los a fazê-lo com tanta alma. Nunca me esquecerei do choque, acompanhado de uma grande satisfação, quando percebi que iam cantar a «Cenário», dos Toranja - é das minhas músicas favoritas e acho que nunca ouvi alguém a interpretá-la num programa deste género. Além disso, foi uma honra sabe-los trazer a palco grandes nomes como António Variações, Heróis do Mar, Resistência, Sitiados, Rui Veloso, Pedro Abrunhosa, Ornatos Violeta. 

Superaram medos, dúvidas, nervos e pressão. Aliaram-se e encontraram o caminho certo. E a amizade que criaram é um dos trunfos mais valiosos. Nada os fez parar. Podem não ter sido os vencedores em título, mas o que é que isso importa quando aquilo que fizeram gala após gala foi único e insuperável? Claro que mereciam sê-lo, por mais suspeita que possa ser, mas venceram no exato momento em que se juntaram e começaram a traçar o seu destino: original, criativo, sem máscaras. Tudo o que são é tudo o que nos mostram. E isso tem que valer alguma coisa. Para mim valerá sempre mais do que um troféu.

Cresceram tanto! A rampa de lançamento que o programa se tornou depressa os fez voar mais alto, mas nunca perderam o norte. E foi mesmo de Norte a Sul que deixaram a sua marca, em todos os concertos que ficam para a história. O público é cada vez maior e isso é a consequência inevitável e merecida por serem tão incríveis. Mesmo que as pessoas os reconheçam de um programa de televisão a verdade é que rapidamente se descolaram dessa imagem. São os Aurora. Ponto. Essa fase das suas vidas fará sempre parte daquilo que são, mas hoje, um ano depois, são muito mais que isso.   

Perdoem-me o egoísmo de recordar este ano pelos meus olhos, pelo que me transmitem e por tudo aquilo que são para mim. Passou tão rápido! E no decorrer desta viagem podemos escrever dois originais, um projeto solidário, um vídeo oficial e um álbum a caminho. Partilhamos momentos, alguns à distância e outros bem perto. Partilhamos o aniversário do David em palco, em Arouca; partilhamos a Gafanha da Nazaré e Espinho. Deixaram-me sem saber o que dizer em todas as atuações, em todos os textos meus que partilharam, por nos abrirem o vosso mundo e nos deixarem acompanhar os vossos passos. E nunca me cansarei de realçar o cuidado que têm com quem os acompanha. Acho que não falo só por mim quando afirmo que é o mínimo que podemos fazer por tudo aquilo que nos fazem sentir. Sou mesmo feliz a ouvi-los!

Se há algo que se mantém comum ao dia em que começaram? Há! A humildade, a maturidade, a consideração pelo trabalho dos outros, o amor ao que fazem. Cresceu a dedicação, o talento, a entrega, a vontade, o à vontade em palco, a ligação entre eles. Fizeram crescer todas as qualidades que já tinham. Intensificaram-nas. Deram-lhes muito mais valor e significado. E a evolução é notória. Sempre que os ouço soam-me melhor. Pergunto-me muitas vezes como é que o conseguem e a resposta é sempre a mesma: porque querem! E fazem acontecer. Há muito futuro aqui!  

Há um ano deram início a esta família e agora têm um mundo inteiro pela frente para conquistar. Hoje celebram o primeiro aniversário e muitos mais virão depois deste. Estou aqui, desde o primeiro dia, até ao fim - mesmo que a idade pese e me obrigue a andar encurvada ou de bengala. Envolvemo-nos todos de alma e coração porque acreditamos em conjunto. Só faria sentido assim. Obrigada por este ano tão extraordinário. A partir daqui é a sempre a subir. Parabéns!
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