Entre Margens

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«A música dá alma ao universo»


A música é terapêutica. E tem o poder de moldar ou de validar as nossas emoções, por vezes em simultâneo, porque nos mostra que, independentemente da bagagem que transportamos no peito, há alguém que compreende o que sentimos - partilhando-o ou não. E este talvez seja o traço mais empático desta bela arte.

O conforto que advém das letras e das melodias é o suficiente para que invista a energia certa nas mais diversas situações. E esta dinâmica nem sempre é consciente. É, antes, uma transição natural entre a história cantada e o que tenho para contar. Porque já subsistimos em perfeita simbiose, como se, em mim, não respirassem mais do que versos ritmados e vozes que, sem me conhecerem, são parte da minha essência.

O gira-discos cobre, assim, a casa de amor. E estes foram os álbuns que vieram iluminar os meus dias.


DEAR JEAN, FINGERTIPS

- um leve recuar à minha infância/adolescência, com uma banda que marcou o meu crescimento -



PHALASOLO, NEW MAX

- a energia certa para um final de dia descontraído -



SEM OLHAR O TEMPO, MANUEL MAIO

- intimista, um pedaço de alma a transbordar -



DO ROBERTO, BIA MARIA

- algo sombrio, algo nostálgico; as raízes que vêm de dentro -



TRAVESSIA, CAIO

- o nome assenta que em uma luva, porque é uma travessia emocional imperdível -



ROSÁRIO, BEATRIZ ROSÁRIO

- a calma e o traço intempestivo; uma tempestade harmoniosa -



CHÁ LÁ LÁ, MIGUEL ARAÚJO

- ninguém conta histórias como o Miguel Araújo -



ILUSÃO, JOANA ALMEIRANTE

- uma voz doce, que nos canta de coração aberto -



CARROSSEL, MENINOS DA SACRISTIA

- eletrizante, viciante, uma ponte para um palco de festa constante -



PARTE, REDOMA

- uma espécie de regresso às origens, com rimas e batidas cruas e orelhudas -



Que álbuns têm iluminado os vossos dias?

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Tema 37: Língua


O peito batia descompensado, num descontrolo provocado por uma adição silenciosa. E como se as paredes da casa começassem a encurtar a liberdade, transformando a sala num cenário de tortura e de horror, Miguel correu para a rua, para conseguir respirar. Mas o desnorte era tão grande, que não o permitia recompor-se.

Era noite cerrada e o jovem seguia sem saber onde se encontrava. Ao seu redor, tudo era feito de pequenos pontos luzidios, que o levavam em direção ao desconhecido. Mas ele prosseguia. E o seu peito ia apertando com mais força, sugando-o. Descompensando-o. Desesperando-o. E deixando-o perto de enlouquecer.

Entrou num jardim qualquer e a língua inquieta de um dinossauro atraiu-o. A multidão gritava-lhe: parte enfurecida, parte com olhares nervosos. Mas, para Miguel, ninguém estava ali. Só ele e aquela voz; aquele robot robusto que, no seu entender, era a figura esguia de uma mulher. Por isso, continuou para a alcançar.

De repente, um som gutural cobriu o ar e as sirenes dos carros da polícia afluíram ao local. Depois de buscas exaustivas, parecia que tudo aquilo não tinha passado de um mal entendido. Enquanto a língua do dinossauro se revestia de um mistério sombrio, o corpo de Miguel esfumou-se como uma espécie de nevoeiro falso.

Hoje, há uma lenda que habita o jardim. E todas as noites 7 de março, durante visitas noturas, existe quem garanta que se ouvem passos e um respirar lento, como se estivesse alguém submerso a tentar salvar-se.

Fotografia da minha autoria



«É como se Emily Brontë desfizesse tudo aquilo que conhecemos dos seres humanos»

Avisos de Conteúdo: Preconceito, Morte, Violência


O ser humano tem comportamentos incompreensíveis, que nos deixam sempre no enlace de uma tragédia inevitável. Por receio, mera curiosidade ou preocupação vamos ficando, vamos procurando por justificações, para que nada fique preso ao acaso. E foi um pouco desta energia que encontrei no livro de Emily Brontë.


HIPOCRISIA, OBSESSÃO E VINGANÇA

O Monte dos Vendavais teve, para mim, um início algo confuso, porque é necessário acompanharmos bem os graus de parentesco - para não nos perdermos - e porque parece não existir um propósito que valide a sequência de acontecimentos. No entanto, assim que entramos no seu ritmo, torna-se bastante intuitivo.

«(...) felizmente para o meu coração suscetível, o único sentimento 
que eles transmitiam oscilava entre o desdém e uma espécie de desespero, 
uma emoção muitíssimo pouco natural num rosto assim»

É uma narrativa sombria, pautada por egos, hipocrisia, obsessão e vingança. E, em todos os jogos de interesse explanados, é evidente que são maiores e mais complexos os conflitos internos das personagens. Movendo-se num plano familiar dramático, no qual o preconceito em relação a classes sociais ditas inferiores é praticamente palpável, transformando-se num ponto de discórdia, compreendemos que a história dos Earnshaw - e, mais tarde, dos Linton - corrompe aquela que poderia vir a ser uma grande história de amor.

«Não me tardou a ocorrer, porém, que fazia mais sentido tentar reparar algum 
do mal que lhe faziam do que derramar lágrimas por causa das agruras dele»

No entanto, sem que me conseguisse relacionar com os protagonistas, questionei-me se existiu mesmo amor ou se apenas houve uma vontade obscura, diabólica, de fazer prevalecer uma ideia e uma desfeita. Senti, portanto, que a memória do passado os desvirtuou e que potenciou, entre eles, uma série de ressentimentos.


UM RETRATO DOS VALORES HUMANOS

A escrita da autora encaminha-nos para uma análise sobre a natureza humana, cujos valores e moralidade, neste enrede cheio de camadas, ficam marcados pela mesquinhez e pelo ódio. Com uma forte carga emocional e uma comunicação débil, é doloroso perceber que é maior o desejo de provocar a desgraça na vida de quem se ama do que tentar cultivar a felicidade. E é neste contexto de infortúnio que se perde o afeto.

«(...) e lamentou aquela perda com a amargura intensa que brota naturalmente 
de um coração generoso, ainda que seja rijo que nem aço temperado»

O Monte dos Vendavais tem uma das histórias mais tristes. E, ainda assim, não deixa de ter uma certa beleza.


|| Disponibilidade ||

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«Aprendi a gostar de poesia lendo o seu silêncio»


O meu peito pensa em verso. E quando me sento a escrever, quando permito que a minha alma faça a travessia nas minhas palavras, preenchendo folhas em branco com pensamentos nem sempre ficcionais, nem sempre biográficos, é a poesia - sempre a poesia - que floresce na ponta da caneta e no coração em alvoroço.

Neste processo de fazer nascer um livro, inquietava-me não encontrar o meu dialeto. Inclusive, perdi-me na certeza falaciosa de ter de me concentrar em crónicas ou num romance. No entanto, por mais que me entusiasmem esses registos, não eram o impulso que procurava; não eram a identidade que acreditava representar-me em pleno. Por outro lado, como já tive oportunidade de partilhar, cheguei a uma altura em que me convenci que o texto lírico era demasiado complexo, demasiado ambicioso para o meu talento. Não que, hoje, sinta que estou num nível transcendente, mas, pelo menos, parei de me sabotar. Sobretudo, porque compreendi que o mais importante é respeitar o que me move e, depois, ir aperfeiçoando a minha escrita.

Pode soar a um lugar comum, mas foi quando me perdi nestas inseguranças que decifrei qual queria que fosse o meu caminho e, por consequência, como queria que fosse o meu primeiro manuscrito. Assim, alinhada com a poesia, quase como numa epifania, tornou-se claro. Portanto, sem saber o que reserva o futuro, há uma certeza: o livro que, um dia, chegará às vossas casas [se o pretenderem, naturalmente] será neste género que me define e que tanto me incentiva a enlaçar-me com o meu caderno para deixar a imaginação voar. Porque, tal como o silêncio de um verso, fui-me apaixonando pelas suas entrelinhas e descobri-me digna desse amor.

Neste Dia Mundial da Poesia, creio ter dado um passo confiante rumo à concretização de um sonho - e até já selecionei um título. Não obstante, também sei que esta jornada foi sendo inspirada por escritores que me mostram o quanto é distinto e mágico escrever poemas - mais ou menos densos, mais ou menos extensos.

É este o meu verdadeiro idioma. E estes têm sido os livros de poesia que mais me têm emocionado e aos quais regresso sempre que o meu coração se enche de saudades e necessita de um pouco mais de alento.


OS LIVROS DE POESIA QUE ME TÊM INSPIRADO










Que outros livros de poesia aconselham?


«Podes não estar a ganhar
Nem ter forças para subir
Terás sempre o teu lugar
Só tens que o descobrir

Às vezes não está tudo bem
Temos mesmo que assumir
O eufemismo a disfarçar
Antítese em confundir

A vida é mais que um Homem
Maior que a multidão
É o que tu quiseres, amor
A vida é mais que um sopro
Maior que o furacão
É o que tu quiseres
Tuas mãos no avanço, amor»

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... Rebuçados!

[É raro comer - e dificilmente habitam cá por casa. Mas tenho particular preferência por estes de fruta. Acho que têm um travo que aconchega e que, sem saber explicar com exatidão, me transporta para a minha infância. Talvez seja por culpa das sacas de brindes que eram oferecidas/recebidas nas festas de aniversário. Ainda assim, reconheço, pode ser por qualquer outro motivo mais oculto. Seja como for, o certo é que nunca resisto a esta lambarice. E, muito recentemente, tive a oportunidade de recuperar a doçura destes rebuçados]

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«Até as ruínas podemos amar neste lugar»

Avisos de Conteúdo: Morte


As histórias que marcam a nossa pegada literária podem ter muitas identidades e propósitos; podem ser tudo aquilo que pretenderem, desafiando a nossa sensibilidade e astúcia, quase como se se manifestassem em inúmeros microclimas emocionais. E eu aprecio esta dinâmica que nos tira o tapete, transportando-nos para camadas narrativas ora simples, ora complexas, tal como aconteceu no livro de estreia de Matilde Campilho.


UM ÁLBUM DE VERÃO

Jóquei, nas palavras de Pedro Mexia, é um álbum de verão. E eu consigo compreender esta associação, porque há um toque quente nas suas palavras: não só pelas temáticas, mas também por nos aproximar da temperatura do Rio, construindo pontes entre Lisboa e o Brasil. Socorrendo-se da transversalidade da língua portuguesa, a sua poesia e prosa poética encaminham-nos por planos enigmáticos e vivências comuns.

«foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos»

Não fui arrebatada por completo, reconheço, mas foi interessante deambular pelos seus devaneios; pelos retalhos do quotidiano, pela fugacidade das circunstâncias e, até, dos nossos sentimentos. Não fiquei, propriamente, fascinada com a inclusão de versos em inglês, mas comovi-me com os fragmentos sobre amor, desnorte, dúvida, desamor, saudades e viagens. Além disso, parece que o sujeito poético fala sempre para alguém em específico, envolvendo-nos neste diálogo unilateral, que experiencia uma autêntica travessia.

«Certas formas nos pertencem muito para além da memória»

Jóquei é um livro que nos aproxima de questões nem sempre óbvias, mas que nos fazem compreender que, até nas ruínas, é possível amar. Voltarei a estes mundos tão distintos que se escondem nas suas palavras.


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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«É sentir em demasia»


Fecho a consciência numa gaveta e avanço. Ignoro os perigos assinalados num tom quente, como se o meu maior objetivo fosse fazer-me mal. Castigar-me por algo que não me lembro de merecer pena tão dolorosa.

Não sei ser menos do que isto: do que a imprudência que se reflete em todas as feridas que teimam em não sarar. Porém, quero mudar a trajetória e recuperar quem eu já fui e diminuir a vontade de agir sem pensar. Preciso de reeducar os meus impulsos. Parar. Curar. E ser mais do que aquilo que fui alguma vez: por mim.

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«Éramos ingénuos, tão ingénuos, que acreditamos que tudo duraria para sempre»

Avisos de Conteúdo: Referência a Violência, 
Suicídio e Homofobia, Drogas, Doença e Morte


O curso da nossa vida é bastante imprevisível, podendo virar-nos do avesso e quebrar-nos os alicerces daquilo que, inocentemente, julgaríamos eterno. Porque nada é para sempre e, por isso, há momentos em que perdemos o chão. E é este choque de realidade que encontramos no mais recente livro de Maria José Núncio.


NARRATIVA A DUAS VOZES

O Momento Em Que Nos Perdemos permite-nos conhecer a história de Maria dos Remédios, que «perdeu a família nas cheias de 1967», e Toni, que «prestes a completar dezanove anos, foi expulso d[e] sua casa», porque «o pai recusava-se a ter um filho homossexual». Estando ambos marcados por passados tão dolorosos, serão as suas escolhas e decisões, numa cidade em transformação, a ditar o futuro que os espera.

«(...) porque o mais longe dos longes é sempre o que nos mora na alma»

Náufrago. Talvez seja esta a palavra que marcará a minha memória acerca da história em questão, porque existe uma constante sensação de ir ao fundo, nem sempre com a capacidade de emergir - pela força das circunstâncias, por falta de recursos ou pela falta de vontade. Por oposição, há um apontamento de permanente sobrevivência, muito por culpa da amizade que se manifesta como principal fonte de salvação.

«(...) porque o primeiro amor é, pelos vistos, algo que se nos imprime na pele e 
que aí fica, até essa pele deixar de o ser e nós regressarmos ao pó original»

A escrita da autora envolve-nos na sua simplicidade e no seu ritmo fluído, que nos desperta o desejo de saber mais, de descobrir o depois. E enquanto deambulava por esta narrativa a duas vozes, oscilando entre a angustia e um salto de fé, comovi-me e senti-me a afundar nesta tristeza que, ironicamente, tem algo de belo.


DO SUCESSO AO DECLÍNIO

Numa época em que a moda portuguesa conheceu o seu auge, assistimos ao sucesso e ao declínio das personagens principais. Pelo meio, como se vida fosse um jogo de sombras e perdas subtis, mas com um impacto barulhento no quotidiano, é fácil perceber que nem sempre é evidente o momento em que nos momentos; que, se calhar, nos vamos perdendo aos poucos, até já não ser mais possível colarmos os cacos.

«Sentíamo-nos livres, como se já nada pudesse deter-nos»

Ainda assim, faltou-me algo, porque gostaria de ter tido mais momentos de interação entre os protagonistas. Creio que a narrativa ficaria com outro brilho e acabaria por responder a algumas questões que ficaram em suspenso. Preferências à parte, é uma história que nos desarma, que nos transporta para os anos 80 e que nos deixa a refletir sobre problemas sociais graves, até porque tece um retrato fidedigno da nossa sociedade.

«Como era possível que duas pessoas que se amaram como nós nos amámos 
(e ainda hoje posso jurar que amámos) soubessem tão pouco uma da outra?»

O Momento Em Que Nos Perdemos mostra-nos o peso do esquecimento, da comunicação débil e dos preconceitos. Reconhecendo que a nossa história pode alterar-se num segundo, também nos faz ter esperança: porque, no meio dos destroços, nesse caos que não controlámos, há alguém que nos dá a mão.


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«Você não pode comprar felicidade, mas pode comprar livros que é a mesma coisa»


A vontade de comprar livros nunca esmorece, porque a possibilidade de conhecer novas histórias é demasiado entusiasmante. Portanto, respeitando a minha essência de pessoa poupada, mas que abre uma exceção para estes pedaços de felicidade, perco-me de encantos pelos vários catálogos das livrarias - físicas ou online.

Ter a casa revestida de obras literárias, que nos abrem tantas portas, é reconhecer que não estou sozinha. Muito pelo contrário, há tanto mundo a envolver-me. Por isso, procuro rodear-me dos títulos certos para mim: aqueles que, mesmo sem saber do que se tratam, são colo e são asa. E o meu meio de transporte favorito.

Contudo, é necessário existir equilíbrio. E para ter o cuidado de não fazer compras desenfreadas, num registo que me mantenha presa às mesmas paisagens, há quatro regras que sigo antes de adquirir livros novos.


PONDERAR BEM SE QUERO, EFETIVAMENTE, LER AQUELE LIVRO

Sei que parece uma atitude óbvia, mas a verdade é que existem livros que adquirimos por influência de terceiros e, depois, ficam perdidos na estante. Naturalmente, isso pode acontecer em qualquer circunstância, porque crescemos, amadurecemos os nossos gostos e há obras que deixam de se encaixar nessas preferências. No entanto, quando compro um livro, faço-o com a clara intenção de descobrir a sua história.


ARRISCAR EM NOVOS AUTORES E/OU GÉNEROS

É entusiasmante ir à boleia de autores que já conhecemos e que nos transmitem aquela sensação aconchegante a casa. Ainda que uma coisa não invalide a outra, sempre que faço uma compra nova, procuro equilibrar as escolhas: ou seja, incluir títulos de escritores que nunca li, alargando horizontes. E também procuro sair da minha zona de conforto no que diz respeito aos géneros literários que habitam nas prateleiras.


NÃO TER OUTROS LIVROS DO AUTOR EM ESPERA

Há autores cuja obra pretendo ler toda. Apesar disso, tento não acumular muitos livros do mesmo na estante dos que estão por descobrir. A não ser que encontre uma promoção imperdível, ou sejam trilogias/séries, tento ter algum controlo nesse sentido. Assim, tenho a possibilidade de me cruzar com novas vozes, diversificando as leituras, ao mesmo tempo que sei que ainda terei outros exemplares desse escritor para encomendar.


APOSTAR NA REPRESENTATIVIDADE

Quero que a leitura continue a ter um traço de lazer no meu quotidiano. Mas, por outro lado, como creio que também é uma forma de lutarmos pela igualdade, pela representatividade, quero que seja informativa. Por isso, vou-me educando para que as minhas escolhas reflitam isso mesmo: um mundo onde há espaço para todos.


Têm alguma regra antes de comprar livros novos?

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Tema: Um livro que dê voz a minorias

Avisos de Conteúdo: Menciona Racismo, Segregação, Violação, Preconceito


O tom de certos livros torna-se importantíssimo, sobretudo, quando coloca uma bandeira na consciencialização racial. Enquanto sociedade, não deveríamos «ver cor», se isso significasse que já não discriminamos terceiros por essa característica. No entanto, enquanto escolhermos esse caminho como forma de, consciente ou inconscientemente, perpetuarmos desigualdades, é urgente ver cor e abraçar obras como a de Lúcia Vicente.


A IMPORTÂNCIA DA REPRESENTATIVIDADE

Raízes Negras é uma «celebração de pessoas negras visionárias que tiveram a coragem de sonhar e mudar a sua vida. E a dos outros». Mas importa fazer uma ressalva, porque este livro, tal como mencionou Beatriz Gomes Dias, não procura dar voz. Pelo contrário, pretende confirmar que essas vozes sempre estiveram presentes, porém invisíveis, como se não merecessem ser encontradas nas histórias com que nos cruzamos.

«Jurou a si própria que tudo faria para que mais nenhum africano fosse 
subjugado e prometeu lutar com unhas e dentes contra a escravatura»

As 50 biografias aqui compiladas corroboram a necessidade de promover não só uma dignidade racial e direitos sem segregação, mas também a representatividade. Porque é crucial que as crianças se revejam nestas personalidades; é crucial que acreditem que, também elas, poderão ter um futuro promissor, com acesso a oportunidades justas. Partindo dos seus contributos para a sociedade, abre-se uma porta para discutirmos sobre desigualdades, racismo e representações estereotipadas, erradicando os preconceitos.

«Voava de braços abertos e brincava com as correntes 
dos ventos amenos que lhe beijavam o rosto»

A luta é urgente, constante e impossível de ignorar. E este livro encaminha-nos na direção certa.


VOZES QUE CONTESTAM A NORMA QUE EXCLUI

Com uma linguagem acessível, que adquire força nas palavras e nas ilustrações, esta leitura enriquece-nos e incentiva-nos a conversar sobre problemas tão estruturais. Portanto, conhecendo o percurso e as conquistas de vozes mais ou menos icónicas, que sempre contestaram a norma que segrega e o lugar da não-existência, fica claro que ganhamos todos ao sermos influenciados pelos seus exemplos de coragem e perseverança.

«Lembra-te, menina ou menino: o teu corpo, as tuas regras. Nunca te cales!»

Raízes Negras tem uma carga emocional inspiradora. Evocando o passado, planta um futuro mais consciente, empático e luminoso. Porque as vidas negras importam. E chega de calarmos, ocultarmos, as suas vozes.


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