Entre Margens

Fotografia pessoal



«O primeiro livro de Patti Smith em prosa»

Avisos de Conteúdo: Morte, Luto, Aborto, Abuso de Substâncias


As biografias - e livros de não ficção, no geral - raramente figuram nas minhas escolhas literárias. Mas depois sou arrebatada por exemplares como o de Patti Smith e compreendo o laço umbilical que potenciam, sobretudo, quando são escritos com tanta verdade e vulnerabilidade, entregando-nos o seu coração por inteiro.


UMA RELAÇÃO DE AMOR

Apenas Miúdos não é só um livro de memórias. É, acima de tudo, um reflexo de uma relação de amizade e de amor no estado mais puro. Por isso, fiz por me demorar na sua narrativa e em todas as lembranças que recupera, porque é indescritível o afeto deste testemunho. E nota-se, inclusive, uma certa poesia nas suas palavras, aproximando-nos ao ponto de ficar a ilusão de estarmos a escutar a autora numa longa conversa.

«Por um breve instante julguei que iria morrer; 
e igualmente de imediato soube que tudo iria correr bem»

Os dois protagonistas mostram-nos Nova Iorque no fim dos anos 60; mostram-nos o sonho de ser artista, as dúvidas, os sacrifícios e os vícios. Além disso, são o rosto de uma geração a batalhar pelo sucesso dos seus trabalhos e a tentar não sucumbir às dificuldades, à falta de dinheiro, em prol da resistência, em prol da arte que era o motor e o propósito das suas vidas. E, juntos, traçaram um caminho de coragem bastante inspirador.

«Esse pequeno gesto deu-me forças e selou uma duradoura amizade»

Com uma escrita direta e visceral, é fácil embarcarmos nesta aventura e ficarmos fascinados com tudo o que passaram - e ultrapassaram. Conhecia pouco dos seus percursos e acabei por me sentir parte da caminhada - e, em parte, gostaria de ter estado ao lado deles, mesmo sabendo que ficaria destroçada com várias situações.


UMA LIGAÇÃO INQUEBRÁVEL

Esta história divide-se por imensos temas. E, apesar de já sabermos o desfecho, ansiamos por uma reviravolta. Chorei muito na reta final do livro, porque há despedidas que magoam, porque criamos uma ligação com Patti e com Robert e queremos impedir que sofram. Sem egos e sem falsas modéstias, a doença, a sexualidade e a vida de rock'n'roll são retratadas com naturalidade e respeito. E isso mostra bem a luz que os habita[va].

«O riso. Um ingrediente essencial à sobrevivência. E nós ríamo-nos muito»

Apenas Miúdos é a prova que existem elos inquebráveis. Eles eram dois miúdos a tentarem encontrar o seu lugar no mundo, a descobrirem a sua voz. Mas, ainda que tudo falhasse, continuavam a cuidar um do outro.


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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Fotografia da minha autoria



«Nunca perdi o meu norte»


O meu core, isto é, o que faz de mim quem sou, é feito de inúmeros detalhes, de um mundo tão plural, que abrange tudo aquilo que me apaixona - sempre com espaço extra para acolher novos interesses. E aprender a decifrá-los, a reconhecê-los e a cuidá-los fora do peito é uma parte imprescindível desta minha jornada.

Inspirada pela partilha da Inês Mota, sentei-me a registar as peças que aconchegam a minha personalidade.


#Moraiscore é...

Acordar cedo, todos os dias, para desfrutar do silêncio da casa, para absorver a paz de momentos lentos e conseguir dedicar-me a tarefas que me acrescentam sem ter a necessidade de andar a correr.

As gavetas da minha casa encantada, escrever sempre à mão e embalada por música portuguesa, na maior parte das vezes. É pensar em poesia e transportar os meus versos para o papel. É ter vários cadernos, cada um para um tema específico, canetas e material de papelaria.

Perder-me de amores pelo Porto - cidade e clube. É emocionar-me em cada reencontro com o Dragão. É vestir a camisola sempre que o Porto joga. É poder descobrir os recantos da Invicta como fosse a primeira visita.

Preferir a primavera e o outono, ansiar por segundas-feiras, beber chá o ano todo e sentir-me relaxada a fazer panquecas. É não resistir a gomas e a Francesinha. É reavivar memórias quando a casa cheira a Natal.

Noites de S. João em família, caldo verde com duas rodelas de chouriço e recusar sardinhas. É gostar mais de gelados no inverno e deliciar-me com um abatanado depois do jantar.

O Alma Lusitana e a Portugalid[Arte], unhas pretas mate e máscara de pestanas. É não ligar a maquilhagem, mas não desistir de saber fazer um eyeliner aceitável.

Colecionar dedais, viajar de Norte a Sul de Portugal, sonhar com uma Pão de Forma e andar sempre com a minha Canon atrás, para fotografar cada pormenor. É reservar os sábados de manhã para fotografar para o blogue e maratonar séries.

Visitar livrarias, feiras do livro e bibliotecas. Entrar nos Jardins do Palácio de Cristal e ler ao sol. É viver dentro de abraços e nas brincadeiras com os meus gatos. É amores-perfeitos, camélias e eucaliptos.

Reorganizar as minhas estantes mil vezes e pensar em conteúdo com/sobre livros. É ter sempre um podcast para descobrir, chorar a ver o UP, acender velas, ser feita de saudades e andar sempre de sapatilhas.

Saídas com os meus, curtir a minha neura e ver o copo meio cheio. É não gostar de praia, mas adorar passear perto do mar. É cerveja artesanal, caçadores de sonhos e preferir que me tratem pelo apelido.


Qual é o vosso core?

Fotografia da minha autoria



Tema: Um livro de capa azul

Avisos de Conteúdo: Linguagem Explícita, Morte, 
Menção a Doenças Terminais, Violência


A tonalidade do nosso imenso céu azul norteia vidas que desconhecemos, realidades que, perante um olhar atento, escondem camadas indecifráveis, como se a solidão fosse um dialeto comum e intransponível. Por isso, unidos através de uma série de fios invisíveis, os trajetos vão-se cruzando sem que o percebamos, criando narrativas distintas, por vezes deconexas, como as que encontramos no livro de Rui Cardoso Martins.


UMA COMÉDIA HUMANA

O Osso da Borboleta permite-nos conhecer uma sociedade tipicamente portuguesa: conformada com a ideia de fracasso, mas sempre predisposta a sobreviver, a procurar por maneiras de contornar as adversidades. É por esse motivo que detetamos um tom de desgraça transversal a toda a história e aos seus intervenientes.

«É como acho que devem ser os pesadelos, saberem com educação 
retirar-se sozinhos, mostrarem respeito pela cabeça alucinada que os inventou»

O início pode ser um pouco confuso, porque não é evidente o propósito do narrador, nem aquilo que podemos esperar do enredo. No entanto, o seu relato é tão honesto e vulnerável, que somos atraídos pelo seu desnorte, pelos seus pensamentos sobre tudo e sobre nada e pela necessidade de permanecer oculto. Oscilando entre o passado e o presente, sem perspetivas de futuro, há uma profecia que nos parece encaminhar para o abismo.

«Há conversas de onde não se regressa»

Este romance, que é feito de amor, ruína, miséria, infelicidade e oportunidades perdidas, transporta-nos para um ambiente surreal, mas igualmente cómico. Afinal, «apesar de tudo, o mal pode morrer e a vida continuar».


ENCONTRAR UM LUGAR NO MUNDO

A beleza desta obra encontra-se nos detalhes, no modo como as personagens se cruzam e vão revelando o que as move, o que as afasta, o que as inquieta. Unidas pela tragédia, torna-se evidente que, se algo tiver de correr mal, há-de seguir esse curso. Porém, tal como uma crisálida, saem do seu casulo para a metamorfose.

«- Nunca te metas num sítio de onde não possas sair sozinho»

O Osso da Borboleta é fascinante na sua estranheza. Desconstrói a solidão como se fosse um destino. E mostra bem a tentativa do ser humano em encontrar o seu lugar no mundo, garantindo que lhe pertence.


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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Fotografia da minha autoria



«A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida»


Capítulo Sete. Ou, melhor dizendo, mais uma maneira de celebrar uma data tão especial como o dia do Autor Português - para além do compromisso de, em maio, só ler escritores nacionais. Portanto, nada como fazê-lo através daquilo que os distingue: as palavras que nos levam por viagens únicas e a sua identidade literária.


 CAPÍTULO SETE 

Vai às tuas estantes e seleciona livros de autores portugueses que admires e/ou que te tenham inspirado. Abre-os, como o nome permite antever, no capítulo sete e transcreve as citações que mais te tocaram, emocionaram, fizeram refletir ou sonhar, em cada um deles, independentemente do motivo que as sustente.

Após deambular pelas prateleiras tão coloridas e de recordar inúmeras passagens, escolhi as seguintes:








 EPÍLOGO 

A história termina, mas, quando nos transforma, quando se cola à nossa pele, permanece o desejo de ver surgir mais um capítulo, só para que a despedida tarde. É por esse motivo que as minhas iniciativas literárias têm sempre um lado complementar: porque posso prolongar a conversa sobre uma das minhas paixões.

1. Um livro que dava pouco por ele, mas que me surpreendeu



2. Um livro que recomendo sempre a toda a gente



3. Um livro onde gostava de viver durante 24 horas



4. Um livro para ler perto do mar



5. Um livro com personagens marcantes



6. Um livro para uma tarde de outono



7. Um livro que podia virar filme/série



Feliz Dia do Autor Português ♥


«O sorriso na minha cara
Não diz bem como estou
Às vezes ponho a capa
E quando o dia acaba
Eu esqueço-me quem sou

[...]

Visto de coragem
Só que é tanta bagagem
Eu nem sei para onde vou

[...]

Tentar outra vez
Ou esquecer-me de vez
Já tentei fintar
Mas está tudo a apontar
Ao meu peito furado
São pregos e cravos

Eu sem ti não vou chegar
Sei que é tarde para voltar
Mas no fim tu vais lá estar
Acorda-me quando acabar»

Fotografia da minha autoria



... Natureza!

[Caminhar, perder-me por trilhos desconhecidos e respirar o ar puro que nos envolve. Há poucas coisas na vida que têm esta paz, por isso, sou feliz a repetir qualquer um dos cenários, até porque parece que estreitam laços e que o mundo desacelera. Além disso, gosto sempre de incluir a minha máquina fotográfica nesta equação, para deixar registados alguns fragmentos. Quando as saudades ecoam mais alto, os álbuns de memórias voltam a ser abertos. Ou, então, aproveito a desculpa para regressar a paisagens de tirar o fôlego].

Fotografia da minha autoria



«Cidade de fronteira»


O princípio de não regressar aos lugares onde fomos felizes não se coaduna com a minha essência. Compreendo a teoria da questão, porém, creio que poucas coisas aconchegam tanto como a sensação familiar de chegarmos, de estarmos em sítios que [re]conhecemos e nos quais construímos memórias inesquecíveis. É por isso que, sempre que seja possível, redireciono a rota para aqueles destinos que se vão tornando casa.

Três anos separam o presente desta partilha. E não deixam de ser impressionantes as metamorfoses de Monção, uma vila localizada «entre dois fenómenos geográficos». A existência de passadiços foi a mais evidente, assim como o seu centro histórico bastante renovado. Apesar disso, é no interior das suas muralhas que descobrimos traços românticos e que nos perdemos nas ruelas com detalhes de uma beleza singular.












Fotografia da minha autoria



«(...) romance colorido e extraordinariamente inteligente»

Avisos de Conteúdo: Doença Prolongada, Álcool, Morte, Suicídio, 
Negligência Parental, Violência, Homicídio


As atitudes que temos com os nossos - e com todos aqueles que nos rodeiam sem conhecermos - pode ou não validar a nossa essência, mas, pelo menos, expõem aquilo que transportamos no lado esquerdo do peito. E quando o amor é a nossa linguagem, movemos mundos e fundos para satisfazermos os sonhos de quem queremos bem. E é este cenário que encontramos num dos exemplares mais encantadores de Afonso Cruz.


JERUSALÉM NUMA ALDEIA ALENTEJANA

Jesus Cristo Bebia Cerveja é uma história de amor de uma neta pela sua avó. Por norma, procuro partilhar poucas informações sobre o enredo: não só para evitar condicionar [ou estragar] a experiência de leitura, mas também porque a sinopse pode ser lida em qualquer plataforma online que inclua a obra em questão. No entanto, sinto que, para esta, vale a pena contextualizar para ser evidente toda a dimensão da sua beleza.

«- Em pequena, deixava flores às criadas do meu pai com o nome de outra criada. 
E a criada que recebia a flor ficava encantada e dava uma flor de volta. 
Punha toda a gente a dar flores a toda a gente»

Rosa vive com a avó Antónia, cujo último desejo de vida é visitar a Terra Santa. Tendo em conta as dificuldades de ambas - financeiras, de saúde e logísticas -, talvez fosse impensável concretizá-lo. Em parte, sim. Mas se elas não conseguem ir até Jerusalém, Jerusalém renascerá numa aldeia alentejana, num gesto de empatia e entreajuda extraordinárias. No meio de um turbilhão de personagens peculiares, com papéis muito próprios, é comovente como o ser humano tem a capacidade de se reinventar e de unir esforços em prol dos demais.

«Sentam-se junto à água em silêncio e ficam assim algum tempo»

A ternura desta encenação não camufla, ainda assim, a realidade dura da protagonista, como se caminhasse de mãos dadas com a tragédia. Com uma escrita bela, poética e tão distinta, embarcamos numa narrativa triste, divertida, irónica e emotiva, que explora temas delicados como gravidez, traição, fé, religião e morte. Além disso, privilegiando um tom singelo, que «desafia todas as convenções», são muitas as cordas - e as rotas - que entrelaçam as personagens que compõem o quadro, permitindo-nos refletir sobre o que as move.

«As memórias devem ser procuradas, não na cabeça encanecida, mas no corpo. 
As memórias enraízam-se nos ossos, na pele, nas rugas»

Jesus Cristo Bebia Cerveja parece um livro dentro de outros livros. Com apontamentos profundos e um final atípico, que nos desarma por completo, mostra-nos que todos nós procuramos amar e ser amados. Ter colo. E pertencer - a algo, a alguém. E subindo a interminável escadaria da nossa jornada, gerindo emoções e fatalidades, o copo vai esvaziando até à última gota, resgatando-nos para aquilo que temos de mais poderoso.

«Nós não somos nós, somos o que damos»


|| Disponibilidade ||

Wook: Livro | Edição Especial | eBook
Bertrand: Livro | Edição Especial | eBook

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Fotografia da minha autoria



«Uma das mais belas atrações naturais»


O nosso país tem paisagens deslumbrantes, transportando-nos para cenários mágicos e quase transcendentes, como se chegássemos a uma realidade paralela. Por isso é que dedico tempo, em passeio, a absorver cada detalhe. Porque contam histórias distintas e porque têm tanto de fascinante para desvendar.

Sou apaixonada por cascatas, por estas quedas de água de um tom cristalino, que nos refresca a alma. Localizada na Serra d' Arga, no Alto Minho, descobrimos uma que nos era, totalmente, desconhecida: as Cascatas da Ferida Má - ou Cascata do Pincho -, que é uma sucessão de cascatas ao longo do Rio Âncora.

É inegável a beleza desta «escadaria pelo rio acima», mesmo em dias cinzentos. Com uma piscina natural límpida, este paraíso algo escondido emana paz. É irresistível. E pretendo regressar em dias mais solarengos.












Fotografia da minha autoria



Tema 39: Navio + Gelado + Música


O sol deitou-se no horizonte
Do meu cone de gelado
Com sabor a bolacha
Partida, perdida
Um mero reflexo em água doce
Numa nota melódica nostálgica

Recordando uma longínqua noite de verão
Com navios soltos no mar
Partiu a saudade
Rumo a um peito inquieto
A uma miragem
Nesta paisagem imensa e uniforme

E a música já em surdina
Deixou-os a navegar
Navegar
Navegar


«Passei por vidas vividas
E vi algumas nascer
Sentei-me bem perto delas
Eu sempre quis aprender

A viver bem com o que tenho
E a não querer ser o primeiro
A descobrir por inteiro
Que também vim para sofrer

[...]

Quero ter-vos ao lado
Assim bem entonados
Que nem chinelos usados
Tão apegados ao dono

Parte disto é conversa
A outra já não interessa

[...]

Convém acomodar
Em cabanas a família
O primeiro a acordar
Incomoda os terceiros

Proeza de aceitar
O tempero desses primos
Tantos putos bem dormidos
Azucrinam-me o descanso»
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andreia morais

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