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As histórias nunca têm apenas uma versão, no entanto, se só escutarmos um dos lados da narrativa, naturalmente, será esse a prevalecer. Assim, «até que os leões contem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça» e é este provérbio africano que dá mote e acompanha a nova aposta audiovisual da RTP.
Novas Narrativas de Caça pretende ser um espaço de conversa, que rejeita os habituais lugares comuns associados à comunidade afrodescendente em Portugal e evidencia o racismo estrutural existente em situações mundanas. Nas palavras de Luís Almeida, o autor da ideia da série, cada episódio é um lugar de fala, por isso, encontramos temas como identidade, pertença e opressão, a partir da escrita de diferentes argumentistas. Ademais — ou por causa disso —, contactamos com «histórias que partem de dentro», edificando pontes para realidades da nossa sociedade que necessitamos de reavaliar.
A falácia de existir apenas «uma experiência negra» é desconstruída desde o começo, até porque, ao longo de sete episódios independentes, percebemos como é que várias situações afetam as personagens, como é que cada uma delas as encara e gere. Podem existir elementos transversais, ainda assim, acabam por nos mostrar distintos pontos de vista, distintas camadas da luta «para fazer parte de uma sociedade que as ignora».
É, portanto, na diversidade que as narrativas florescem e nos implicam, confrontando-nos com comportamentos inadequados, que se escudam na ausência de maldade, mas que não deixam de ser parte do problema: a intenção pode não ser diminuir, subjugar, só que o resultado contribui precisamente para cimentar a sensação de isolamento, de exclusão. No final, talvez não sejamos capazes de calçar estes sapatos, mas creio que ficamos um pouco mais conscientes de como podemos agir para ir quebrando o ciclo.
Outro aspeto valioso desta série, para mim, é a representatividade, sobretudo, porque nos mostra que, se lutarmos pela igualdade de oportunidades, tornamos o mundo num lugar mais justo; porque, se formos mais empáticos na forma como tratamos o outro e não fecharmos portas por causa da sua cor de pele (ou de outro fator diferenciador), há patamares que se tornam acessíveis e não só uma miragem para muitos que querem lá chegar. Neste manifesto cultural, o tom é claro: tirar o filtro da invisibilidade, destacar os preconceitos tão enraizados e combater a segregação de dentro para fora dos ecrãs.
Com humor e crueza, levantando questões sociopolíticas, emocionais e de ética, Novas Narrativas de Caça é plural até nos géneros que explora, proporcionando uma boa dose de entretenimento, mas sem perder a sua componente reflexiva e de «literacia cívica».
episódio um: moamba
Leandro conhece os pais da namorada branca pela primeira vez, o que protagoniza um momento confrangedor, «fruto de comentários e mal entendidos». Apesar de ter raízes africanas, o protagonista é português e este cenário remete-nos, de imediato, para algo recorrente: a nacionalidade ser questionada devido à cor de pele. Em simultâneo, paira uma discussão pertinente sobre herança cultural, gastronomia, tradições e escravidão, sem que exista violência no diálogo ou no tratamento. Aliás, acho que a maior valência do episódio reside na não violência, no facto de a simpatia das personagens camuflar o quanto certas observações não deixam de ser manifestações racistas. A maneira como o humor é utilizado nestas cenas evidencia, por um lado, a cegueira do que tentamos justificar como curiosidade e, por outro, a necessidade de diminuir o desconforto, de o desvalorizar, porque, deste modo, talvez cause menos cicatrizes e danos emocionais.
episódio dois: recursos humanos
A irmã de Taís, Maya, desapareceu misteriosamente, há cinco anos. As perguntas sem resposta não atenuam a angústia e, a tentar descobrir alguma pista que explique o que aconteceu, Taís acaba por conseguir emprego no mesmo local onde Maya trabalhou. A energia daquele lugar não lhe inspira confiança, não só pelas interações forçadas, mas também por uma questão que fica a ecoar: a rotatividade dos funcionários negros, sem que exista justificação. Este segundo episódio, confesso, foi o que mais me perturbou, porque é impressionante a discriminação laboral, o peso do silêncio, o que se cala por medo. Além disso, choca pela consciência de que «a carne mais barata do mercado é a carne negra», como eternizou Elza Soares, não restando qualquer dúvida sobre o quão pouco mudaram certas práticas com o tempo. Ainda assim, também é o meu favorito.
episódio três: once you go black
As palavras pesam e, neste caso, uma expressão aclamada como elogio, que mais não é do que a propagação de um estereótipo, foi o ponto final de uma relação interracial. A história de Salomé serve de mote para debatermos se é possível «desejarmos e sermos desejados despojados de construção social», convidando-nos a mergulhar mais fundo, porque isso traz, também, um olhar crítico sobre fetichização e intimidade. Ao ter um encontro inesperado com alguém do passado, a protagonista embarca numa conversa «intelectual sobre existencialismo, amor e raça», o que nos ajuda a ter noção de todas as vezes em que parece ter de se justificar, quase pedir licença para existir. Há, aqui, um retrato de vulnerabilidade muito bem construído e que nos tira o tapete no final.
episódio quatro: limbo
Nuno é filho de cabo-verdianos, mas teve um educação portuguesa. A atravessar as oscilações da adolescência, há uma fragilidade identitária que parece ocupar os seus pensamentos, sentindo-se um pouco perdido. É quando marca presença numa festa que, pela primeira vez, a sua cor de pele lhe pesa tanto. Achei mesmo interessante a interação entre Nuno e Artur, pela honestidade, pela credibilidade e por representar uma rede de apoio nem sempre visível. E, depois, impressionou-me a fragilidade da alegria, a facilidade com que os acontecimentos escalam e a violência assume todo o protagonismo. Com uma crítica evidente ao abuso de poder e às narrativas que não controlamos, porque alguém o decidiu, é impossível não questionar a quantidade de casos semelhantes ao que é retratado e o sentimento de impotência que nos reveste.
episódio cinco: sobrevivente
Portugal mergulha numa guerra civil e a «elite conhecida como Os Vanguardas cria a Nova Capital, um território seguro longe do conflito». Os olhares focam-se em Shakali, uma ex-militar da Nova Capital, que foi violada por um Vanguarda e engravida. Perante este cenário de horror, torna-se imperativo lutar pela sua sobrevivência e essa luta é, sem margem para dúvida, um profundo «ato de resistência». O que mais me fascinou neste episódio foi o vínculo que um inimigo comum pode desencadear, pesando em diferentes momentos, e o facto de termos uma mulher a mudar o curso da revolução — o brilho que isso provocou em quem o menciona é a prova que a representatividade influencia a maneira como nos vemos e como acreditamos nas nossas capacidades.
episódio seis: undeu
Isaac é acusado de roubar o supermercado onde trabalha, por isso, sem algo a perder, agride o patrão. Entretanto, a namorada conta-lhe que está grávida e este escalar de acontecimentos precipita o desespero, a sensação de ficar sem rumo e de assistir, na fila da frente, à morte de um sonho. As nossas escolhas têm consequências e, mais do que isso, vêm sempre de um lugar, mesmo que não o identifiquemos logo. Ao longo do episódio, vai ficando claro que os fantasmas do passado se transformaram em revolta e que são um gatilho silencioso para várias atitudes. Naturalmente, isso não pode ser justificação para tudo, mas ajuda a contextualizar, a perceber que existem situações pendentes. Neste episódio, as personagens tentam construir um futuro diferente, mas torna-se angustiante constatar que as barreiras sociais podem ser um muro gigante.
episódio sete: codé
Cíntia decide voltar sozinha para a Guiné-Bissau, ainda que o seu desejo fosse levar o pai consigo. No entanto, ele é peremptório a recusar, o que a entristece, talvez por não compreender a resistência de Augusto. Enquanto ela sente necessidade de conhecer as suas raízes, o pai parece não querer voltar a um lugar que já não é aquele que, um dia, teve de deixar para trás. É neste limbo entre o passado e o presente, entre a herança e a memória, que a protagonista deambula e se descobre. A comoção por encontrar a sua família e um pedaço da sua história torna-se um impulso para estar mais em paz com o seu lugar no mundo, como se estivesse a encaixar as peças de um puzzle. Por um lado, gostava que Augusto tivesse ido com a filha e redescobrisse a sua terra natal, porque sinto que isso o ajudaria a sarar algumas feridas, mas, por outro lado, acho que ela precisava de ir sozinha e trilhar esse caminho sem interferências. A par de Recursos Humanos, este episódio tornou-se um dos favoritos, porque é humano e comovente.






1 Comments
Ando a ver e tambem recomendo.
ResponderEliminarSerie muito necessaria nos tempos que correm.
https://matildeferreira.co.uk/