Entre Margens


«[...]
Alguns amigos e conversas pelo meio
Uma manta, tanta coisa para não dizer
Meias de lã, um abraço a meias

[...]

Conforto é
Chocolate
Água do mar
Ervas de provença
Sol de fim de tarde

[...]

Sonho para devorar
Ar no peito
E jeito para agradecer

Tanta coisa para não dizer
Tanta coisa para não fazer»

Fotografia da minha autoria



... Physalis!

[Um fruto com uma forma peculiar, que parece trazer um mundo de segredos por dentro. Só de imaginar, há uma série de memórias de infância que reaparecem. E tanto o sabor, como a cor continuam a fazer as minhas delícias. Agora, não como com tanta frequência, porém, sempre que ia a casa dos meus padrinhos e eles tinham, era ver-me a desembrulhar esta pequena iguaria. A juntar a toda esta carga emocional, parece que as physalis têm uma função anti-inflamatória e ajudam na recuperação de células neuronais. Ainda assim, reconheço, não sei até que ponto esta informação é credível. Só sei que é uma das minhas frutas de eleição].

Fotografia da minha autoria



«Episódios da vida romântica»

Avisos de Conteúdo: Morte, Suicídio


A minha maturidade literária demorou a construir-se, porque tardei a apaixonar-me por esta arte. Minto, tardei a priorizá-la, isso sim. Portanto, quando o meu caminho se cruzou com Eça de Queiroz, não tive sensibilidade para acompanhar a narrativa e para equacionar tudo aquilo que era motivo de análise, num plano ficcional. Mas faz tudo parte do crescimento, incluindo a vontade de revisitar as obras que não compreendemos.


O PODER DAS RELEITURAS

Os Maias, cujo exemplar veio parar à minha estante quase como se fosse uma passagem de testemunho, continuava à espera do momento mais oportuno para redescobrir a sua história, que tem tanto de complexa, como de fascinante. É por esse motivo que sou tão apologista das releituras: porque abrem-nos outras portas.

«Era um amor à Romeu, vindo de repente numa troca de olhares fatal e deslumbradora»

Este romance intemporal tem um início bastante lento, mas o seu simbolismo marca o tom do enredo, não só por uma questão de contexto, mas também por ser palco de vivencias e fases antagónicas de uma família em particular. E é através dos Maias que conhecemos um pouco melhor a sociedade portuguesa do século XIX, naquilo que eram os seus luxos e os seus vícios; e, ainda, a sua visão erigida por um certo nível de privilégio.

«(...) as lágrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba branca»

Sem esta releitura, certamente que continuaria a formular uma imagem errada - condicionada por pensamentos de terceiros - e a não ser capaz de identificar todas as referências sociais e culturais que a tornam tão rica.


RAMALHETE: ESPLENDOR E DECADÊNCIA

A propriedade central - que merece uma descrição detalhada - mais parece uma das personagens principais, atendendo à importância que adquire. Porque o Ramalhete é mais do que uma casa: é um espaço de crescimento, de tragédia, de desnorte, de amor e desamor e, inclusive, é um espelho da vida boémia, das relações familiares - com todos os dramas e sentimentos que lhes são inerentes - e das desigualdade sociais.

«(...) tudo em Sintra é divino. Não há cantinho que não seja um poema»

É, também, neste lugar que assistimos à dor de um pai e ao renascer de uma das minhas personagens favoritas: Afonso da Maia. Embora, em determinados momentos, possa ser moralmente questionável, é inegável que se renovou perante um acontecimento atroz. E é na sua figura - austera e frágil - que equilibramos a diversão, o desleixo e a sobriedade. É na sua intervenção que compreendemos que o seu traço mais duro não o impede de ser extremoso. Assim, vai estabelecendo pontes com várias ligações interpessoais.

«- Nunca sabe a gente quem mete em casa»

Neste cenário, assistimos, portanto, ao esplendor e à decadência, pautados pela ironia da escrita e pelas almas corruptiveis, de personalidades ora incoerentes, ora bem intencionadas. Em simultâneo, é neste declínio que acabamos por nos reconhecer, pois esta narrativa representa uma caricatura muito fiel do ser humano.


UM AMOR EM SEGUNDO PLANO

A história deste amor impressiona-nos, sobretudo, pela sua natureza, pelas reviravoltas imprevisíveis e por estar contaminada, desde o primeiro momento, pela irresponsabilidade daqueles que nos deveriam proteger. No entanto, confesso, o que me conquistou foi mesmo o drama familiar, porque foi o impulso para o peso dos segredos, para o desgosto inerente à mentira e para a tragédia física e emocional. É por esse motivo que, para mim, o romance ficou em segundo plano: porque, apesar de ser crucial, é só uma parte de algo maior.

«- É a tua mentira que nos separa, a tua horrível mentira...»

Os Maias é irónico, é cómico, é desconcertante. Preferia que o final fosse menos célere, porque senti que poderia seguir por outro rumo. Apesar disso, é credível. E é notável que o seu retrato permaneça tão atual.


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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Fotografia da minha autoria



«Cada momento é pior»


Desembarcou um corpo sem luz
Numa narrativa perdida
De onde já não saem versos
Palmilhados a papel

E que nem comboio
Sobre carris enferrujados
Soltei da minha mão
Um sonho longo
Um sonho lento
Saturado do silêncio que foi ficando

Talvez noutro dia
Procure por uma vida
Onde os caprichos
Já não sejam mais a vista
De uma varanda abandonada

Mas sendo pedaço de coisa
Pasmo-me e vou permanecendo
Escorregando no desejo
De ver nascer só mais um canto
E um jogo de luz deitado ao mar

Fotografia da minha autoria



«Uma gargalhada por dia não sabe o bem que lhe fazia»


O riso é curativo, porque nos permite descontrair, porque estimula a redução de stress e, inclusive, porque fortalece os nossos laços com os outros - sejam eles mais ou menos próximos. Perante a sua lista interminável de benefícios, é inegável que se torna uma fonte de bem estar. E, por mais que existam alturas em que não nos sentimos capazes de lhe conceder protagonismo, cada gargalhada torna-nos sempre muito mais leves.

O Dia Internacional do Riso celebra-se hoje, o que demonstra bem a sua importância - quer estejamos sozinhos, quer estejamos acompanhados. Portanto, construindo mais um pretexto para me aproximar da sétima arte, reuni três comédias que figuram na minha enorme lista de espera e outras três que adoro rever.


TRÊS COMÉDIAS PARA VER

🎬 Não Olhem Para Cima
«Quando se apercebe de que um cometa de enormes proporções está em rota de colisão com a Terra e que o facto se irá consumar em breve, o astrónomo Dr. Randall Mindy e a sua aluna Kate Dibiasky sabem que têm de fazer alguma coisa. Mas, apesar do esforço de convencer colegas, governantes e, já em desespero, a opinião pública, eles deparam-se com um novo problema: ninguém os leva a sério. Numa sociedade obcecada com internet e redes sociais, onde as “fake news” e teorias da conspiração proliferam, como é que duas pessoas como eles hão-de chamar a atenção para a hecatombe que se aproxima?»

🎬 As Vigaristas
«A elegante e sofisticada Josephine Chesterfield é uma vigarista especializada em burlar milionários. Certo dia cruza-se com Penny Rust, uma australiana desajeitada que, apesar do seu inegável talento para o embuste, tem ainda grandes lacunas no que se refere à verdadeira arte da dissimulação. Fascinada com os métodos de Josephine, Penny pede-lhe que se torne sua mentora e a ajude a melhorar a sua técnica. É assim que as duas seguem viagem até à Riviera Francesa, onde tencionam ludibriar Thomas Westerburg, um bilionário da informática. Mas o que elas não sabem é que ele também esconde alguns segredos».

🎬 Central de Inteligência
«Esta comédia de acção centra-se em dois amigos de liceu que voltam a encontrar-se anos depois. O primeiro, interpretado por Dwayne "The Rock" Johnson, é Robbie Weirdicht, que era gozado na escola por excesso de peso e, com uma envergadura física muito diferente daquela que tinha na altura, tornou-se agente da CIA. O segundo, Calvin Joyner, a quem é dada vida pelo cómico Kevin Hart, é hoje contabilista e era, dos tempos de liceu, dos poucos amigos de Weirdicht. O primeiro transforma o segundo num operativo da agência secreta».


TRÊS COMÉDIAS PARA REVER

🎬 A Proposta
«Margaret (Sandra Bullock) é uma editora de péssimo feitio prestes a ser deportada para o seu país de origem, o Canadá, após o seu visto expirar. Para resolver a questão decide-se por um casamento de conveniência com o seu mais do que explorado assistente Andrew (Ryan Reynolds), e assim conseguir um visto de permanência nos Estados Unidos. O problema surge quando viajam para o Alasca para visitar a extravagante família do "noivo". É então que Margaret começa a ponderar se todos os sacrifícios valerão a pena».

🎬 A Ressaca
«De casamento marcado para daí a dois dias, Doug Billings decide despedir-se da sua vida de solteiro nas loucas noites de Las Vegas com os seus três melhores amigos. Depois de uma noite, durante a qual tudo parece ter acontecido, acordam sem qualquer recordação, mas com a vida do avesso: encontram um tigre na casa de banho e um bebé de seis meses dentro do guarda-roupa do seu quarto de hotel. Para tornar tudo ainda mais bizarro, Doug desaparece deixando os amigos desesperados. Agora os três têm de tentar perceber o que se passou, encontrar o amigo, devolver o tigre e encontrar a família do bebé. E, depois de tudo isto, voltarem para Los Angeles a tempo do casamento, antes que alguém dê por falta do noivo».

🎬 O Agente Disfarçado
«Malcolm Turner é um agente especial do FBI conhecido pela sua mestria em disfarces. É um homem multifacetado, capaz de alterar o seu aspecto e a sua voz em poucos minutos. A sua actual missão consiste em capturar um perigoso assaltante de bancos que fugiu recentemente da prisão. Para isso, desloca-se até uma pequena cidade do Sul dos Estados Unidos para vigiar a casa onde se encontra Sherry, a namorada e suposta cúmplice do fugitivo. A casa é da avó de Sherry, uma septuagenária tipicamente sulista conhecida como Big Momma. Tudo está a correr bem quando, subitamente, a velha senhora se ausenta da cidade. Para garantir que Sherry não se vá embora também, o agente Turner só tem uma hipótese: disfarçar-se de Big Momma».


🎫 Deixo-vos, ainda, com um pequeno extra, no qual há gargalhadas garantidas:

Uma Série: Pôr do Sol
Um Solo: Consciente, Luís Franco-Bastos
Um Livro: Vai Correr Tudo Mal, Joana Marques
Um Podcast: Terapia de Casal, Rita da Nova & Guilherme Fonseca

Fotografia da minha autoria



«Vamos viajar à volta do Mundo?»

Avisos de Conteúdo: Violação, Bullying, 
Violência Doméstica, Homicídio, Linguagem Explícita


A viagem reservava outro bilhete de ida, uma vez que o livro selecionado para o Clube Leituras Descomplicadas foi Vivo ou Morto, de Michael Robotham. No entanto, tendo em conta que a Austrália é um dos meus destinos de sonho, quis embarcar nesta aventura à boleia de uma autora que já figurava na minha lista de desejos: Liane Moriarty. E foi assim que me rendi a uma das suas obra - com adaptação a série pela HBO.


A PREMISSA

Pequenas Grandes Mentiras decorre numa vila costeira de Pirriwee, que é caracterizada como um ótimo lugar para se viver. Cruzando a história de mulheres muito diferentes entre si, há um acidente que as unirá numa amizade inquebrável - e, talvez, improvável. Para tornar o enredo mais estimulante, multiplicam-se as versões acerca desse acontecimento, deixando o leitor com imensas questões e a descobrir confissões antagónicas.

«A raiz de todos os conflitos encontra-se sempre nos 
sentimentos magoados de alguém, não lhe parece?»


UMA PACATEZ FALACIOSA 

O suposto ambiente de festa que nos recebe esconde um universo muito mais sombrio, até porque ocorreu uma tragédia e isso é evidente desde o início. Não obstante, fui avançando na leitura com a sensação de existir um segredo maior, uma realidade ainda mais angustiante, embora vários aspetos não fossem explícitos.

«Talvez a mudança para ali fosse o início 
de qualquer coisa, ou o final, o que ainda seria melhor»

Portanto, o que me inquietou foi o silêncio. Foi o que ficou por partilhar verbalmente, surgindo em pormenores subtis. Porque a aparente pacatez do local não se coaduna com os comportamentos dos intervenientes. Ademais, a verdadeira história, percebemos depois, acontece dentro de casa, onde as aparências já não podem iludir quem nos observa, na tentativa de não quebrarmos a fachada edificada para nossa proteção.

«Há uma diferença entre ter o coração partido e estar fragilizado»

É este tom algo dicotómico e misterioso, brilhantemente alternado por uma certa leveza e traços cómicos, que nos arrebata e que nos envolve no real impacto das situações - muitas vezes, sem percebermos bem como atingimos aquele ponto da ação, porque a ânsia de desvendarmos as motivações intrínsecas é muito maior.


QUEM CONTA UM CONTO

A autora fez um trabalho excelente a estruturar a narrativa. Porque construiu um leque de protagonistas fascinantes, cujas personalidades têm tanto de complexo e intrigante, como de frágil. E, sobretudo, porque conseguiu humanizá-las, ao ponto de nos identificarmos. Aquele contexto é completamente diferente da minha realidade, porém, senti-me parte do quotidiano descrito, quase como se todos os dramas me pertencessem.

«Os pais tendem a julgar-se uns aos outros. Não sei porquê. 
Talvez porque nenhum de nós saiba realmente o que anda a fazer»

Em simultâneo, foi impressionante acompanhar a agilidade com que se criavam teorias e juízos de valor, dando voz a múltiplas versões dos mesmos factos. O que nos faz refletir sobre o caráter do ser humano e sobre as alianças potenciadas em benefício próprio. Recorrendo a analepses, mas resgatando-nos sempre para o tempo presente, esta história é sobre pessoas. E sobre quem somos, quando estamos numa comunidade.


UM RETRATO DE ASSUNTOS DELICADOS

Esta obra confronta-nos com temas delicados e urgentes: bullying, relações familiares negligentes e conturbadas, violência doméstica, preconceito, pressão escolar e falta de diversidade. Mostra-nos a necessidade de recomeçar e de deixar de perseguir o passado. E explora o caminho que poderia ser traçado por qualquer um de nós. Por isso é que este enredo tem tantas reviravoltas surpreendentes, mas credíveis.

«Gostamos de achar que somos tremendamente diversificados, 
mas a única coisa que varia são as contas bancárias»

Pequenas Grandes Mentiras divide-se por vidas aparentemente perfeitas, com os segredos a serem desvendados no momento certo, numa tensão ténue, mas persistente: para desconstruir estereótipos e para nos levar a reconhecer as mentiras que contamos aos outros e, pior, a nós, na tentativa de não sucumbirmos - aos medos, à imagem que construíram sobre nós e, quem sabe, ao término daquilo que julgávamos eterno.


|| Disponibilidade ||

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Bertrand: Livro | eBook

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«Fica só um pouco mais
Qualquer impasse que se ponha entre nós
Sei que vais largar o orgulho
Para não ficar a sós

O dia não espera por ti
E a cada riso teu
Eu caio mais

Minha paz és só tu quem a traz
Com cada instante teu
Eu vivo mais

Se contigo o medo passa

[...]

O aroma paira em cada traço teu
Que pinto ao te respirar»

Fotografia da minha autoria



... Agendas!

[O meu recurso a agendas nem sempre foi constante, porque sentia que a minha vida não tinha assim tantos eventos que o justificassem. No entanto, agora, mesmo continuando a não os ter, não dispenso, porque é a maneira mais prática de não me esquecer do que tenho para fazer/ver/ouvir. Sim, porque incluo sempre os episódios das séries e dos podcasts que acompanho. De todos os modelos disponíveis no mercado, prefiro que tenham vista semanal e, se possível, um planner - a d' O Principezinho foi a mais perfeita nesse sentido. Portanto, na reta final de cada ano, abraço a missão de encontrar a que se adequa mais ao meu propósito].

Fotografia da minha autoria



«Somos estantes lotadas de livros com histórias sem final»


A plataforma Goodreads tem sido uma presença constante na minha pegada literária, desde 2015. No entanto, apenas beneficiava do desafio de leitura, o Reading Challenge, explorando pouco as restantes potencialidades. Pontualmente, ia acrescentando títulos que pretendia ler, mas acabavam por cair no esquecimento, visto que não voltava para os procurar por lá. E senti que era o momento mais indicado para inverter esta tendência.

Quando criei o grupo para o Alma Lusitana, concentrei-me num segmento em específico: as estantes. No meu perfil, continuavam a constar as três basilares [e transversais a todos os utilizadores]: Read - com os livros lidos -, Want To Read - com os que queremos ler - e Currently Read - com os que estamos a ler. Porém, senti vontade de personalizá-lo, tornando-o mais próximo da minha identidade. Assim, organizei outras estantes.

O princípio que as une a todas é tornar o processo mais intuitivo e funcional; é, através de um clique, alcançar as obras que procuro, enquadrando-as nas categorias/desafios para as quais as idealizei. E, deste modo, saber quais os livros que ainda me faltam ler - embora tenha esse registo no meu Bullet Journal Literário, deixa de ser tão óbvio quando compro novos. E é, sobretudo, uma forma de manter tudo estruturado, para facilitar.

Para além de ter separado os livros pelos respetivos anos de leitura [perfazendo um total de 11 estantes], foquei-me em quatro tópicos centrais. Um pormenor: denominei-os como Estante Cápsula, porque me transportam para uma iniciativa especial, que representa aquilo que acredito que os livros privilegiam: o sentido de comunidade. E a infinita rota de mundos e emoções que podemos descobrir sem sairmos do lugar.


       AS MINHAS ESTANTES NO GOODREADS       


1. Estante Cápsula | 30 Antes dos 30
Aqui figuram os títulos que me faltam para o desafio dos livros que pretendo ler antes de fazer 30 anos.

2. Estante Cápsula | Alma Lusitana
Uma estante dedicada às obras que selecionei para o meu clube de leitura. Iniciei-a com 12 [uma para cada tema], mas poderá sofrer alterações ao longo do ano, dependendo da possibilidade de acrescentar outras.

3. Estante Cápsula | Clubes & Desafios
Neste momento, tenho os exemplares que quero descobrir graças ao Clube Leituras Descomplicadas, ao Clube do Livra-te e ao desafio As Estações de Mia Couto. Claramente, também é uma estante em crescimento.

4. Estante Cápsula | Por Ler
Para saber quais as histórias que permanecem à espera, cá em casa, sem as perder de vista.


Usam Goodreads? Como são as vossas estantes?

Fotografia da minha autoria



«E essa é a magia da leitura: estar deitada 
na cama a ler e ao mesmo tempo na Lua»


O momento em que seleciono a minha próxima leitura reveste-se com um cuidado particular: fazê-la de peito aberto, sem condicionantes, para desfrutar do melhor da narrativa. É certo que, por vezes, não é simples equilibrar expectativas, mas procuro que não me limitem. Portanto, tal como em qualquer outra componente da nossa jornada, há histórias que nos arrebatam. E há outras que se dispersam dos nossos pensamentos.

Creio, inclusive, que seria impossível não sentir este contraste num ano que me permitiu transitar por tantos enredos. Faz parte do processo, porque nem todos os livros nos tocam da mesma maneira. Além disso, cada leitura tem o seu tempo, que pode ou não coadunar-se com o nosso. É por esse motivo que sou tão apologista das releituras, pois captamos sempre uma energia distinta, uma mensagem que não fomos capazes de interpretar ou, por oposição, confirmamos que, de facto, não combinamos. O que é perfeitamente legítimo.

Observando a lista dos meus livros de 2021, houve 12 que não corresponderam ao que esperei. Nenhum deles foi uma perda de tempo, atenção, porque encontrei pontos positivos, apenas senti que teriam outro impacto.


 FÁBRICA DE MELANCOLIAS SUPORTÁVEIS , Raquel Gaspar Silva 

Os pontos altos da narrativa:
O tom pético;
O palco que é dado às tradições;
O impacto de algumas memórias;
A fragilidade.

Porque não correspondeu às expectativas:
Embora a escrita seja cativante, faltou-me mais profundidade. Há temas delicados que mereciam outra abordagem, pois ficam a deambular à superfície. Também por isso não me relacionei em pleno com as personagens. É um livro que se lê bem, mas não inquieta. E uma história destas precisa de o fazer.


 RED, Sara Marques 

Os pontos altos da narrativa:
A premissa tem tanto de cativante, como de angustiante;
O foco nos direitos humanos;
Conseguir abordar temas sérios, mas preservar alguma leveza;
O sentido de família.

Porque não correspondeu às expectativas:
Se, por um lado, deparei-me com aspetos interessantes e surpreendentes, por outro, senti que existiram várias incoerências que quebraram o ritmo. Depois, acho que pecou por repetir a reviravolta mais incrível do enredo.


 A FLOR MARGARIDA, Inês Vieira Brandão 

Os pontos altos da narrativa:
Dar voz à empatia, à amizade e à aceitação;
Levar-nos a refletir sobre nós.

Porque não correspondeu às expectativas:
A narrativa é amorosa e com uma partilha pertinente. No entanto, pareceu-me demasiado célere. Gostava que algumas passagens tivessem um desenvolvimento maior, para transmitirem melhor a sua mensagem.


 NA MEMÓRIA DOS ROUXINÓIS, Filipa Martins 

Os pontos altos da narrativa:
A escrita quase poética;
Uma premissa curiosa;
Representatividade [a voz/história do casal homossexual foi o mais entusiasmante de toda a narrativa].

Porque não correspondeu às expectativas:
Escolhi este livro, praticamente, às cegas e senti-me um pouco perdida, pelo seu desenvolvimento algo confuso. Inclusive, cheguei ao fim sem ter completa certeza de qual é a sua história, porque há muita coisa a acontecer em simultâneo. Tem potencial, mas carece de um propósito mais sólido, mais focado.


 RIO DO ESQUECIMENTO, Isabel Rio Novo 

Os pontos altos da narrativa:
A escrita cuidada e elegante;
Um interessante retrato de época.

Porque não correspondeu às expectativas:
A história em si não me cativou, uma vez que me pareceu esgotar-se num tema de sentido único, tornando-me repetitiva. Pelas temáticas que tenta explorar, esperava outra abordagem e que tivesse um impacto maior.


 AQUI HÁ MEL, Fabiana Couto 

Os pontos altos da narrativa:
A filosofia consciente e otimista;
Transportar-nos para o Alentejo;
O jogo visual de certas palavras.

Porque não correspondeu às expectativas:
Os lugares comuns de alguns versos - gosto de um bom cliché, mas poderiam ser menos. Além disso, por algumas das coisas que fui lendo da Fabiana, confesso que esperava uma poesia mais inquietante.


 GABRIEL 120419, Liliana Rodrigues Brito 

Os pontos altos da narrativa:
A pertinência dos temas;
A mensagem tão bonita.

Porque não correspondeu às expectativas:
Esperava um relato mais emocional, mais visceral. No entanto, por ser uma história curta, é difícil que assim seja, porque os acontecimentos têm de fluir com outra rapidez. Tem potencial, no entanto, os temas centrais ficaram a pairar numa certa superficialidade e mereciam ser desenvolvidos para despertarem outra emoção.


 O GATO PRETO E OUTROS CONTOS, Edgar Allan Poe 

Os pontos altos da narrativa:
Os contos O Gato Preto e Os Crimes da Rua Morgue.

Porque não correspondeu às expectativas:
Achei que ia encontrar enredos assustadores - ou, pelo menos, mais sombrios. No entanto, excluindo os contos que mencionei, não foi o que senti. Aliás, alguns tornaram-se um pouco aborrecidos, por serem tão descritivos. Creio que houve um esforço grande para ser uma obra de horror, ficando longe desse patamar.


 AS NOVAS IDENTIDADES PORTUGUESAS, Patrícia Moreira 

Os pontos altos da narrativa:
A representatividade;
A desconstrução de preconceitos;
A premissa importantíssima.

Porque não correspondeu às expectativas:
Senti o livro um pouco disperso. Centra-se numa realidade fulcral, mas as reflexões parecem forçadas, quase construídas. Se os temas fossem mais aprofundados, acredito que a leitura fosse, de facto, impactante.


 SÓ TINHA SAUDADES DE CONTAR UMA HISTÓRIA, Joel Neto 

Os pontos altos da narrativa:
Ser descontraída, o que é ideal para aquelas alturas em que procuramos leituras menos exigentes;
O impacto de contar histórias.

Porque não correspondeu às expectativas:
Esperava um livro mais inspirador. É certo que, pela sua dimensão, não podemos exigir o mesmo impacto que um romance, mas acreditava que pudesse ter outra abordagem. Lê-se bem, mas não é extraordinário.


 A TRANÇA DE INÊS, Rosa Lobato de Faria 

Os pontos altos da narrativa:
A escrita da autora;
A originalidade do enredo;
O retrato sobre o amor e a loucura.

Porque não correspondeu às expectativas:
A dinâmica é interessante, mas a execução revelou-se um pouco confusa, afastando-me das personagens.


 MERDA PARA AS MUSAS, João Coles 

Os pontos altos da narrativa:
A viagem pela ausência;
Desperta-nos para uma procura constante.

Porque não correspondeu às expectativas:
O estilo poético não me arrebatou. Teve apontamentos interessantes, mas não me senti envolvida na poesia.


Faço só uma ressalva: estas observações não passam da minha opinião. Se algum destes livros vos interessar, arrisquem. As experiências de leitura são únicas e é maravilhoso fazermos as nossas descobertas.

Fotografia da minha autoria



«O silêncio é ouro»


O teu silêncio é assustador. Angustia-me imaginar que nunca mais voltarei a ouvir a tua voz. Não sei no que me tornei para merecer tamanho desprezo da tua parte, mas começo a sentir-me sufocada por esta ausência.

Fechaste a porta de tua casa no dia em que abri as do meu coração. Senti-te a partir numa viagem de comboio sem bilhete para regressar e eu sem poder evitar a colisão. E não sei se é mais problemático não teres como retribuir os meus sentimentos ou ficar nesta dúvida constante do impacto que as minhas palavras tiveram.

Não estou preparada para o teu silêncio. Peço-te que o quebres, porque começo a entrar numa fase de declínio . E não sei se terei estrutura - ou mecanismos de defesa - para aguentar esta carga emocional. Eu dei-te as indicações, mas és tu que escolhes a direção que queres seguir. Só não fiques parado na estrada.

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