Entre Margens

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«Talvez Cândida queira viver num mundo que já não existe»

Avisos de Conteúdo: Referência a Vícios e Morte


O meu caminho já se tinha cruzado com a Ana Gil Campos, na obra Lobos Sedentos da Respiração dos Dias, e reencontrei-a, graças à generosidade da autora, que me enviou um exemplar do seu anterior romance.


A CIDADE, A ALDEIA E TUDO O RESTO

Correria dos Pássaros Presos coloca-nos na rota de Cândida, que experiencia algo que a inquieta. Retratando «a vida de uma sociedade imaginada», é através das suas decisões que estabelecemos uma ponte entre a realidade e a ficção; é através das suas escolhas que compreendemos a epidemia virtual que se expande.

«Retirou-se do mundo virtual para estar mais presente na vida, 
na dela e na dos outros, mas aconteceu exatamente o contrário»

O tom descomplicado, mas com alguma ironia e subtis críticas sociais, mostra-nos a dependência das novas tecnologias e a dificuldade que o ser humano tem para criar laços fora de um ecrã. Se, por um lado, a evolução tecnológica é um marco importante, por outro, evidencia carências sociais gritantes, refletindo essa dicotomia.

«Compreendeu que aquilo que tanto procura nos outros é um sentido»

Houve aspetos que, ainda assim, não funcionaram para mim, porque gostava de os ver mais aprofundados, não só por acreditar que a narrativa ficasse com outro impacto, mas também para estabelecer uma maior relação emocional com as personagens. Não obstante, achei muito pertinente a quantidade de reflexões.


TRÊS REFLEXÕES QUE O LIVRO POTENCIA

1. A urgência de estarmos sempre online
Ativos nas redes socais, como se não pudéssemos desligar, como se tivéssemos de estar sempre envolvidos em tudo. Parece que, de repente, só somos socialmente aceites se tivermos uma presença online constante.

2. A falsa sensação de conhecermos o outro
Atendendo a que acompanhamos o que os outros partilham, temos esta utópica ideia de os conhecermos bem, de sabermos quais são os seus gostos, os seus dramas, os seus momentos felizes e os seus propósitos. E esquecemo-nos, tantas vezes, que apenas temos acesso a uma ínfima parte - selecionada - das suas vidas.

3. A solidão no meio de tanta gente
Quando a luz do telemóvel se apaga e não estamos atentos a números, fica um vazio. E, no meio de tanta gente, acabamos por sentir o peso da solidão, porque torna-se notória a dificuldade de comunicar cara a cara.


A pegada digital pode ser maravilhosa, quando gerida com equilíbrio: não precisamos de banir as redes por completo, nem de partilhar tudo ao segundo. Neste livro percebemos todos os malefícios dos extremismos.


🎧 Música para acompanhar: Olá Solidão, Os Quatro e Meia
📖 Da mesma autora, li e recomendo: Lobos Sedentos da Respiração dos Dias


Disponibilidade: Wook

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«O mistério adensa-se»

Avisos de Conteúdo: Morte, Violência, Linguagem Explícita


Os Flamingos, segundo a tradição de um lugar no Sul de Moçambique, anunciam esperança. Portanto, não deixa de ser curioso - e, até, bastante irónico - que Mia Couto os tenha incluído no título do seu livro.


ENTRE A REALIDADE E A FANTASIA

O Último Voo do Flamingo transporta-nos para Tizangara, nos primeiros anos do pós-guerra. Apesar da aparente normalidade reposta nesta vila, existe algo de muito estranho que vem quebrar o processo de paz: os capacetes azuis destacados para vigiarem o processo começam a explodir. Sem se compreenderem as razões desse acontecimento, há uma pergunta a pairar: «morreram ou foram mortos»

«Quando o silêncio clareia é que se escutam os escuros presságios»

A narrativa, com vários trocadilhos, mitos e sabedoria popular, demonstra bem o quanto o país ficou traumatizado com a guerra e o quanto os habitantes estão a gerir os efeitos do colonialismo. Neste cenário de crise, verificamos como os poderosos roubam os mais desfavorecidos. Assim, somos confrontados pela corrupção, pelo crime e pelo abuso de poder que desfragmenta o povo.

«(...) cada um deixa cair o que não pode segurar»

Oscilando entre a realidade e a fantasia, deambulando entre vivos e mortos, Mia Couto, com a sua escrita poética, recupera o chão desta terra fragilizada para nos falar sobre ausência: de valores, de compromisso, de verdade por parte de quem tem nas mãos as ferramentas para um futuro melhor. Houve momentos do enredo que não funcionaram comigo, no entanto, é fascinante como o autor constrói as suas histórias e como transita entre assuntos tão sérios através de um recorrente jogo de palavras.


🎧 Música para acompanhar: Bloco Novo, Omar Sosa & Tiganá Santana
📖 Do mesmo autor, li e recomendo: Terra Sonâmbula e a trilogia As Areias do Imperador


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«A Rita acha que tem sempre razão. O Guilherme também»


Os meus propósitos para este ano deveriam ter contemplado um tópico cultural, isto porque pretendo marcar presença em mais espetáculos ao vivo - é que sou mesmo felizes nesses contextos. O ideal seria ter um para cada mês, no entanto, aceito que não será sempre possível e que precisarei de priorizar eventos. Isso não constituirá um problema, se conseguir (re)encontrar-me com momentos tão especiais como os dois seguintes.


TERAPIA DE CASAL

A minha semana começa na companhia da Rita e do Guilherme, até porque o Terapia de Casal é um dos meus podcasts favoritos. Quando o áudio cresceu para livro, não perdi a oportunidade de marcar presença na tour de apresentação do mesmo. Portanto, em 2021, estive na sala 2 do Hard Club a ver a magia a acontecer ao vivo.

Um ano e uns meses depois, apresentaram novas datas da tour e, claro, tinha de ir vê-los outra vez, pois adoro a dinâmica entre eles e estava bastante curiosa para perceber como seria o conceito destes novos espetáculos. Assim, na companhia da Sofia, regressei ao Hard Club para os ver a brilhar, desta vez, na sala 1.

Não vou revelar o que aconteceu em palco, uma vez que as gravações destas datas estarão à venda, mas permitam-me confessar que o momento de terapia foi hilariante. Não quero, de todo, diminuir a primeira parte, mas a segunda foi mesmo inesquecível. Só de pensar, já fico a chorar de tanto rir. E gabo-lhes o profissionalismo de terem prosseguido com perguntas, porque eu, certamente, não teria a mesma habilidade.

No final, fomos pedir autógrafos e conversar um bocadinho com a Rita e o Guilherme. Fico sempre envergonhada nestas situações, mas acho que consegui disfarçar os nervos: 1) porque estive o tempo todo na fila a conversar com a Sofia e a incentivá-la a terminar o livro do Guilherme; 2) porque eles são extremamente amorosos, deixando qualquer um à vontade. Foi terminar a noite da melhor maneira possível. Obrigada!

      

Vemo-nos em 2025? Já coloquei na agenda.


AS COISAS QUE FALTAM

A memória de quando comecei a ler a Rita não é nítida, mas sei que me rendi, de imediato, à sua forma de comunicar, à forma como as suas palavras contam histórias distintas. E, assim que percebi que queria escrever livros, acalentei o desejo de os ter na minha estante. Sem qualquer cobrança na afirmação seguinte, esperei muito por esse momento e foi com a maior felicidade que vi As Coisas Que Faltam a chegar às livrarias.

Portanto, estava bastante curiosa para descobrir o enredo e o seu dialeto em ficção literária. Mas também tinha medo: medo de ter elevado as expectativas em demasia, medo de não me identificar, medo de ter de lhe admitir isso mesmo, medo de me desiludir. Sei que seria muito improvável acontecer esta última parte, ainda assim, admito que respirei de alívio quando terminei a leitura, porque foi muito mais do que esperei; foi a prova de algo em que acredito profundamente: a Rita tem tudo para ser uma das nossas maiores vozes literárias.

Naquele abraço, no Hard Club, eu queria que tivessem cabido muitas palavras, queria que aquele singelo «parabéns» tivesse sido um espelho de tudo o que a história me fez sentir, do quanto fiquei encantada com a Tia Ermelinda, do privilégio que foi vê-la crescer através de personagens imperfeitas, humanas, tão diferentes e iguais a mim, e do quanto acredito que narrativas como esta têm o dom de agregar muitas partes de nós - tendo ou não passado pelas mesmas experiências. Talvez o abraço à Ana Luís fosse mais ou menos assim.

Felizmente, houve sessão no El Corte Inglês e já pude conversar um pouquinho mais sobre algumas questões. É por essa razão que acho fascinante assistir a apresentações de livros, porque parece que temos acesso a um capítulo extra e porque conhecemos melhor a perspetiva e o propósito do autor. Além disso, pelas perguntas que são feitas, também conseguimos ter uma pequena amostra de como é que aquela história chegou aos vários leitores da sala e acho que isso alarga horizontes, permitindo refletir sobre outros detalhes.

Não achei que fosse possível apaixonar-me mais por esta obra, mas enganei-me. E hei-de revisitá-la, sabendo que, mesmo que nos faltem muitas coisas, as palavras da Rita nunca nos deixarão desamparados.

      

 Aguardo por uma sessão para pessoas que já tenham lido o livro. Seria incrível!

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«Só se chega lá com muita luta»


A luta feminista não é recente, mas permanece crucial, porque a mulher continua a não ser educada para se pôr no mesmo patamar do homem, porque a sociedade continua amplamente machista, patriarcal, e porque, em pleno século XXI, parece que temos de gritar para nos fazermos ouvir e sermos consideradas relevantes.

Quando leio um livro centrado nesta problemática, não espero um cenário distinto do que conhecemos. Espero, isso sim, ser confrontada com novas perspetivas, provenientes da experiência do autor, pois acredito que um lugar de fala ocupado na primeira pessoa tem outro impacto. E foi isso que encontrei na obra de Ruth Manus.


MULHERES NÃO SÃO CHATAS

Mulheres Não São Chatas, Mulheres Estão Exaustas não é revolucionário, mas comprova que ainda existem muitos campos de batalha a precisarem de intervenção. Desde o sentimento de culpa à autossabotagem, passando pelo poder conferido ao homem e pela pressão dos padrões, é percetível que não nos vemos como uma prioridade, que somos tratadas com condescendência e que se perpetua um contínuo plano de cobrança.

A escrita de Ruth Manus é muito próxima, descomplicada e, inclusive, cómica, mas com uma dose de realidade que incomoda e que, honestamente, nos deveria envergonhar como sociedade, já que parece impossível cruzarmo-nos com tantos comportamentos que diminuem as mulheres. O grave é que existem e nas mais diversas e subtis situações. Num período em que temos acesso a tanta informação e que debatemos questões sobre igualdade, insistimos na ignorância e numa mentalidade obsoleta, que nos divide em cidadãos de primeira e cidadãos de segunda - e não é difícil perceber que género pertence a cada uma destas categorias.

Envolvendo-nos nas reflexões da autora, compreendemos a urgência de reivindicarmos os nossos direitos.


MULHERES ESTÃO EXAUSTAS: CINCO CITAÇÕES QUE MOSTRAM QUE SÓ SE CHEGA LÁ COM MUITA LUTA

Tenho o livro marcado com muitos post-its, para eternizar ideias, conclusões e temas relevantes. Não obstante, creio que estas cinco citações são um exemplo fidedigno do quanto precisamos de uma mudança estrutural.

📖 "Culpa é um substantivo feminino. Será coincidência" ➤ porque há sempre julgamentos e dedos apontados a tudo o que a mulher faz, como se ela não pudesse falhar, como se tivesse de caber nos padrões criados;

📖 "Na escola, nas aulas de matemática, aprendemos fórmulas e teoremas com nomes de homens (...) Em física (...) Em química (...) Em história (...) Em geografia (...) Nas aulas de literatura lusófona (...) Como esperam que as meninas acreditem, de facto, que podem ocupar as mesmas posições que os meninos?" ➤ esta falta de representatividade, de exemplos femininos, distorce o futuro, limita-nos, corta-nos as asas, porque passamos a acreditar que há lugares inalcançáveis para as nossas competências;

📖 "Lembremo-nos sempre. Nada veio de graça" ➤ como se nos fizessem um favor por nos permitirem termos acesso a direitos básicos, como se estivéssemos sempre em dívida por esta falsa generosidade;

📖 "Já disse e repito: a vida da mulher não é património público. O útero da mulher não é património público (...) privacidade e intimidade têm de ser conceitos muito claros" ➤ portanto, já é hora de compreendermos que não nos compete opinar sobre todas as decisões que a mulher toma, sobretudo, quando são diferentes daquilo que achamos ser o correto. Além disso, seria interessante desprendermo-nos desta dualidade de critérios; 

📖 "Enquanto uma de nós não usufruir da liberdade, continuamos todas a ser prisioneiras" ➤ porque a luta é de todos e porque nada é garantido. A história mostra-nos isso. As notícias alertam-nos para isso todos os dias. O caminho continua longo, por isso, não podemos abrandar, muito menos desistir.


DIA DAS MULHERES

Feliz dia das Mulheres. Plural. Porque não somos um só corpo, uma só uma identidade, uma só voz - mas podemos uni-las para quebrar barreiras e estereótipos. Somos várias, com todas as diferenças que nos devem empoderar e nunca diminuir, sem termos de pedir licença para estar, para ocupar lugares de destaque; sem termos de pedir desculpa por existirmos. Sejamos livres, feministas, de braço dado com a sororidade. Sempre!

Fotografia da minha autoria



- título sugerido pela Matilde Ferreira -


A primeira caixa foi selada e colocada no alpendre. Não havia outra maneira de garantir que este gesto penoso não seria separado da sua intenção: enterrar o passado com tudo aquilo que lhe pertence.

Existia, ainda assim, uma sensação estranha a pairar, quase como se aquele pedaço de cartão frágil estivesse incompleto. Ao vê-lo abandonado, tive vontade de tombar na cadeira, porque ninguém se quer despedir do pouco que lhe resta. Genuinamente, não sabia que a nossa vida podia ser acondicionada num espaço tão mínimo. Parece que não passamos de cinzas, à espera que o vento nos leve para longe.

O tempo está ameno e eu continuo a empacotar tralhas. Desastrada, talvez pela comoção, acabo por partir uma caneca. Por sorte, foi aquela vermelha horrorosa com corações - desculpa -, mas os cacos deixaram o chão da sala numa confusão ainda maior. Mas a culpa é minha, já que, reconheço, por orgulho recusei qualquer ajuda - achei que seria mais fácil gerir a mágoa se não existissem testemunhas, até porque, se quebrasse, não haveria ninguém em cuidados, desconfortável, para me recompor.

Preciso de uma pausa e mando vir comida. Lembras-te quando te dizia que um poema era uma fatia de pavlova? Tu não compreendias a associação e eu explicava-te que era por ser um misto de doçura e crocância, a precisar de ser confecionada no ponto. Sorrias e servias-me uma taça de mousse. Não era a mesma coisa, contudo, tinha o teu toque e não havia prova de amor maior do que essa. Agora que te enterrei, quem é que saberá ouvir as minhas tentativas de tornar o mundo num verso?

Aguentei aqui o tempo necessário para tratar de todas as burocracias, portanto, estava na altura de esvaziar a casa, decidir o que era para guardar, o que seria para doar e o que, simplesmente, poderia ser deitado fora. O problema é que não era fria o suficiente para fazer essa divisão. Aliás, como é que poderia desfazer-me de um simples objeto da pessoa que mais me ensinou e amou? Seria uma traição.

Adiante, preciso de me recompor, preciso de sair daqui. Queria fechar a casa, hoje, mas talvez precise de adiar a partida. Guardo a chave na primeira gaveta do armário e reparo que contém um envelope azul, que nunca tinha visto antes. Hesito, porque continua a parecer-me estranho invadir a tua privacidade, avó, mas se for algo importante também nunca me perdoarei por o ignorar. Abro-o e fico a saber muito pouco, já que só tem um papel com duas frases e uma morada.


"Para corações partidos, apenas precisas de quem seja lar. 
Se já não couberes aqui, diz só o meu nome quando lá chegares

Rua das Tupilas nº71"


Que parte da tua vida é que nunca conheci? O que haverá na Rua das Tulipas? Será que devo ir? Petrifico e tento acalmar os nervos. Ainda que a tua memória caiba sempre em mim, sei que não posso cá ficar, porque, assim, nunca aceitarei a tua morte. Desafio-me a ir, apesar de saber a loucura que isto soa. Mas, realmente, estou de coração partido e tu nunca aumentarias o meu sofrimento. Está decidido, vou!

Parece que já escuto as vozes inquietas dos telefonemas inevitáveis; parece que já sei de cor as tentativas para me persuadirem, porque isto é imprudente.

- Como é que sabes que aquela mensagem era para ti? Poderia ser para a tua avó...

Não sei, segredei mais para mim do que para quem estava do outro lado da chamada. No entanto, sinto que deve ser. Só pode ser. Porque só para mim é que ela escreveria uma espécie de poema.

Precisava de obter algumas respostas, como não é possível, por estarmos em planos opostos da vida, limito-me a reorganizar a desarrumação, talvez assim organize as ideias. Reúno alguns bens essenciais, pego na chave do carro e atraso as despedidas mais um pouco. Se calhar, será mais fácil depois, quando a distância limpar os destroços da tua ausência.

O relógio marca as 16 horas. Sei que seria mais sensato esperar por amanhã, no entanto, já não consigo aguentar este silêncio - e já nada me prende aqui. Faço uma última paragem por cortesia e deixo que a estrada me encaminhe por paisagens desconhecidas. Em surdina, acompanho a voz da senhora do GPS. Irrita-me um bocado, mas quero garantir que não falho a saída - já há várias coisas a falhar no meu peito despedaçado.

Tenho medo, sabes? Medo que tudo isto seja em vão. Medo que isto seja uma ilusão de esperança. Medo de não ser capaz de avançar e de continuar a ver sinais inexistentes, apenas para te manter perto, para não ter de lidar com esta dormência. Medo, sobretudo, de continuar agarrada à impulsividade de partir à tua procura e nunca mais assentar raízes. Sem me aperceber, sinto lágrimas a cair pelo meu rosto. E há algo de catártico.

A senhora do GPS avisa que o meu destino fica à esquerda e eu desperto do transe em que aparentava deslocar-me. Do lado direito, existe um mural com uma nota de saudação: «Bem-vindo a Mil Flores». Estaciono o carro e faço intenções de ir perguntar por ti. Será que há alguém à minha espera?

Mil Flores. A vida não deixa de me surpreender com a sua subtil ironia. Eu que nunca fui apegada à primavera, vim agora desabrochar neste lugar.

Fotografia da minha autoria



«A palma da mão nua/entretinha a casca limpa/do desejo adoecendo ao sol»

Avisos de Conteúdo: Referência a Morte


As saudades de ler poesia eram evidentes. Por qualquer alinhar de astros que não sei explicar, o Alma Lusitana ergueu uma ponte para este género, este mês, e, assim, fui descobrir a portuense Andreia C. Faria.


COMPILAR MUNDOS

Alegria Para o Fim do Mundo (curiosamente, o mote para a Feira do Livro do Porto) compila os anteriores livros de poesia da autora e leva-nos numa viagem muito interessante, que transita entre vários estados de alma e memórias. Com um tom intimista e desarmante, podemos seguir a ordem das páginas ou, então, criar a nossa sequência de leitura. Independentemente do método escolhido, espera-nos um caminho melancólico e belo.

«Se pela boca começasse
a alma a abrir-se e por tal paisagem
divisasse eu primeiro
a oclusão do céu deixando
intacta na terra
a geração dos vivos
poderia (e tu pela raiz)
salvar-me antes mesmo
de aprender a ler»

Optei por abraçar a ordem prévia dos poemas e sinto que, por isso mesmo, assisti a um crescimento quer ao nível da escrita, quer ao nível da abordagem dos temas. Deambulando pela infância e pela fase adulta, existe um jogo de sombras nas palavras. Há planos dicotómicos de felicidade e de angústia. Há sedução, medos, crenças e desejo. E há, ainda, uma voz que se vai tornando menos metafórica, como se se fosse libertando do pudor de se mostrar vulnerável e se fosse tornando mais confiante para partilhar vivências e inseguranças.

«Para que eu não temesse a respiração das coisas nocturnas
minha mãe lançava a corda ao fundo do poço
e agitava a escuridão»

Flúor parece-me o começo, o deslumbramento pelo que nos rodeia; a perceção do mundo e a construção da nossa jornada, ora inocente e frágil, ora cética e provocante, mantendo figuras de referência, abrindo portas ao passado. Um Pouco Acima do Lugar Onde Melhor se Escuta o Mundo apresentou-se como um livro mais maduro e contrastante, porque explora situações distintas e a própria linguagem é menos filtrada. Embora não deixe de contemplar alguma impaciência e urgência, existe uma certa calma a equilibrar a mensagem. Tão Bela Como Qualquer Rapaz é mais visceral, com uma consciência audível acerca do envelhecimento. Além disso, é uma viagem de autodescoberta. As Ervas Altas e os Pulsos é sobre finitude. É sobre o fim do percurso e a oportunidade de descansar. É a noção de morte que permite ajustar a perplexidade e apenas viver.

«Podemos pensar-nos em paz - a mesma
palidez é a de um pêssego e a do desespero
Podemos pensar-nos sozinhos e sonoros, únicos
sobreviventes de todo o barulho,
de tanta geração bravia»

Alegria Para o Fim do Mundo é profundo, com retalhos que se colam à nossa pele, visual e irónico, e convida-nos a regressar aos seus versos, para descobrirmos de quantas camadas são feitas as suas (entre)linhas.


🎧 Música para acompanhar: Alegria, Francesca Gagnon


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«Tudo bem, leva-me a calma
Se calhar, ficar sem ti
Estava escrito na palma
Da mão que não quer largar-te
Nesta estação tão fria
Ver-te ir embora
Leva o calor dos meus dias

[...]

Tudo bem, mas fazes-me falta
Eu procurei e fiquei sem nada
De novo tudo me lembra
Dessas saudades que sinto
O ficar sem ti tira a cor à primavera

Agora o céu está coberto
E eu cada vez mais certo
Quanto mais eu te peço
Mais te sinto a fugir
Tão longe que não sabes voltar

Fecha essa porta
Não quero ir embora
Já só quero estar a sós
Contigo é esquecer-me do tempo
Nem tu sabes aquilo que me dás

Diz-me agora
Que nada importa

[...]

Volta, volta para casa»

Fotografia pessoal



«quero ser inteira sozinha»


Não me importa que berres aos meus ouvidos
Para calares a minha voz

Quero escutar o silêncio
Que vem de dentro do meu peito
Devolvendo a paz do agora
Onde tentas penetrar
Mas não chegas

E vem de mansinho
A falar num sussurro
Porque mesmo em ponto de ebulição
Sei como te fazer recuar

Fotografia da minha autoria



«O livro é uma extensão da memória»


O leitor transita por várias fases, mas acredito que existem quatro que tendemos a repetir de um modo quase circular: ler, conversar sobre livros, comprar livros, adicionar livros à lista de desejos e/ou aos carrinhos virtuais das livrarias online que frequentamos. E há sempre algo de estimulante em todo este processo livrólico.

Para este ano, resolvi abraçar um book buying ban, com três ocasiões de pausa, como partilhei aqui. Até ao momento, tenho superado bastante bem o teste - e sinto que está a ser mais fácil do que da primeira vez. Só vacilei um pouco, quando o Livra-te anunciou os livros de fevereiro, porque estive para comprar uma das escolhas, por altura do Natal, mas resisti. A verdade é que abril é já amanhã (por favor, vamos acreditar que sim) e, portanto, já posso pensar nos exemplares que vou querer adquirir no mês do meu aniversário.

Claro que o objetivo é ser ponderada e não comprar por todos os dias em que não o fiz, porém, tenho perfeita noção que estragos serão feitos. Nesse sentido, partilho convosco os títulos que figuram na lista dos que quero que venham morar nas minhas estantes - talvez não os compre a todos, mas prefiro ter várias possibilidades.


📖 MÃE, DOCE MAR, JOÃO PINTO COELHO
«Depois de passar a infância num orfanato, Noah conhece finalmente Patience, a mãe, aos doze anos. Mas, apesar de ela fazer tudo para o compensar, nunca se refere ao motivo do abandono; e, por isso, seja na casa de praia de Cape Cod, onde passam temporadas, seja no teatro do Connecticut onde acabam a trabalhar juntos, há um caminho de brasas que teima em separá-los mas que nenhum ousa atravessar».

📖 DIVISÃO DA ALEGRIA, RAQUEL NOBRE GUERRA
«O que significa ‘Divisão da Alegria’? Um gesto franciscano (a que não faltam idílios campestres ou uma gata chamada Ninotchka); uma alusão às canções sem alegria de Ian Curtis; o contingente dos amigos; os pequenos prazeres; aquilo que vem depois do luto (evitando a melancolia); ou a própria tarefa do poeta, ‘príncipe das metades’?».

📖 A MANDÍBULA DE CAIM, TORQUEMADA
«Seis assassinatos. Cem páginas. Milhões de combinações possíveis… Mas apenas uma está certa. Será que consegue solucionar o mistério? Em 1934, o autor das palavras cruzadas crípticas do jornal inglês The Observer, Edward Powys Mathers, publicou um romance que é, ao mesmo tempo, um mistério policial e o mais difícil puzzle literário escrito até hoje. As páginas foram impressas numa ordem completamente aleatória, sendo no entanto possível - através da lógica e de uma leitura inteligente - ordená-las corretamente, revelando assim as seis vítimas de assassinato e respetivos assassinos».

📖 RÁDIO SILÊNCIO, ALICE OSEMAN
«Frances Janvier é uma máquina a estudar, uma aluna exemplar. Presa na pressão de entrar numa universidade de elite que ela mesma se impôs, prefere não lidar com o passado ou com quem é de verdade. Quando conhece Aled Last, o rapaz tímido e inteligente responsável pelo podcast de ficção científica que secretamente adora, Frances sente, pela primeira vez, que pode ser quem verdadeiramente é».

📖 LISBOA, CHÃO SAGRADO, ANA BÁRBARA PEDROSA
«Eduarda, Mariana, Noé, Matias e Dulcineia são os eixos desta história, numa teia que se estende de Lisboa ao Rio de Janeiro, do interior da Bahia à Palestina. Nas ligações entre as personagens, a cama aparece como lugar de animalidade onde todos os conflitos, materiais ou emocionais, se resolvem: o amor, a falta dele, o tédio, a tristeza, o luto, a vingança, a excitação, o estímulo da decadência. De resto, são as expectativas frustradas, os desencontros, o improviso perante o novo».

📖 TRÊS, VALÉRIE PERRIN
«Uma história em que a adolescência, a passagem para a vida adulta e as dores de crescimento nos mostram de que matéria é feito um dos mais profundos sentimentos da vida: a amizade».

📖 TUDO É RIO, CARLA MADEIRA
«Lucy e o casal, Dalva e Venâncio, protagonizam um triângulo amoroso que se afasta dos lugares-comuns dos romances e nos faz questionar, sob formas surpreendentemente originais, quais os verdadeiros limites do perdão, até onde pode ir a intensidade de um amor, de que valores se reveste a importância da família e, acima de qualquer outra coisa nesta história, quão forte ou fraca pode ser a afeição entre mulheres».

📖 QUANTOS VENTOS NA TERRA, MARIA ISAAC
«Cuca, a menina albina que acredita nos segredos de fantasmas de homens mortos, arrasta o bando dos canaviais para uma inesperada aventura de caça ao tesouro. Quando também os adultos, deslumbrados e cheios de certezas, se lançam na corrida ao ouro, uma pequena vila é devastada pelos seus sonhos tornados realidade. Esta vila, talvez já a conheçam, chamada de Mont-o-Ver, e quem sabe, até ouviram falar de alguns dos seus pequenos vilões».

📖 NA TERRA SOMOS BREVEMENTE MAGNÍFICOS, OCEAN VUONG
«Na Terra Somos Brevemente Magníficos é a carta de um filho à mãe que não sabe ler. Escrita quando o narrador não tem ainda trinta anos, a carta evoca o passado de uma família e narra uma história que tem como epicentro o Vietname, desvendando aspetos da sua vida que a mãe nunca conheceu e levando a uma inquietante revelação final».

📖 AINDA BEM QUE A MINHA MÃE MORREU, JENNETTE MCCURDY
«Jennette McCurdy tinha seis anos quando fez a sua primeira audição. A mãe queria torná-la uma estrela e ela não a queria desiludir, por isso sujeitou-se às restrições calóricas e a vários makeovers caseiros, entre ralhetes do tipo: "Não vês que as tuas pestanas são invisíveis? Achas que a Dakota Fanning não pinta as dela?" Até aos 16 anos era a mãe que lhe dava banho e tinha de partilhar com ela os diários, o e-mail e todo o dinheiro».

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