Entre Margens

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«Um poeta, quando escreve um poema e levanta a folha onde 
o escreveu, descobre uma infindável pilha de poemas»


A magia dos livros é feita de inúmeras camadas e uma delas é a capacidade de nos mostrar pormenores completamente novos, quando optámos por reler as suas histórias, já que não estamos no mesmo estado emocional, já que temos uma mala de viagem mais cheia e a voz dos livros nos orienta por outras direções.

É por esse motivo que sou tão fascinada por releituras, embora faça poucas (mais um drama de leitor, porque o tempo escasseia para tudo o que queremos ler). Pelos motivos mais singulares, há narrativas que me marcam tanto, que acalento a vontade de as reencontrar e, assim, reparar em detalhes que me possam ter escapado. Nesse sentido, fui estabelecendo alguns rituais para que essa vontade não ficasse só perdida numa ideia.

Não tenho um calendário pré-definido - vai depender sempre da minha disposição - e há anos em que não conto qualquer releitura na lista de livros anual. Não obstante, tenho sete livros que já li mais do que uma vez.


O PRINCIPEZINHO, ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY
Faço por relê-lo todos os anos, pelo meu aniversário, alternando entre as diferentes edições que tenho.

O MENINO, A TOUPEIRA, A RAPOSA E O CAVALO, 
CHARLIE MACKESY
Quando procuro por mais um pouco de esperança, este quarteto é o conforto a que recorro.

ORGULHO E PRECONCEITO, JANE AUSTEN
Por vezes, nem releio a obra inteira, mas gosto de revisitar passagens específicas.

COMO É LINDA A PUTA DA VIDA, MIGUEL ESTEVES CARDOSO
À semelhança de Orgulho e Preconceito, posso não reler o livro de uma ponta à outra, porém, há alturas em que abro uma crónica ao acaso e perco-me no humor tão característico de Miguel Esteves Cardoso.

TRÊS-VEZES-DEZ-ELEVADO-A-OITO-METROS-POR-SEGUNDO, NOISERV
Trouxe-o da livraria Centésima Página (em Braga) e, quando preciso de um novo fôlego, gosto de me sentar a reler esta pequena maravilha - que termina num sopro, mas que é feita de uma poesia particular.

A BELA E O MONSTRO, WALT DISNEY
Originalmente escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, esta história já sofreu algumas alterações e inúmeras adaptações. É uma das minhas favoritas e regresso à sua narrativa para redescobrir a inspiradora Bela.

O QUEBRA-NOZES, E. T. A. HOFFMANN
Um livro - favorito de sempre - que faço por reler durante a quadra natalícia.


LIVROS PARA RELER: 
Myra (Maria Velho da Costa), A Breve Vida das Flores (Valérie Perrin), Conversas Sobre o Amor (Natasha Lunn), A Educação de Eleanor (Gail Honeyman), Ensina-me a Voar Sobre os Telhados (João Tordo), Heartstopper (Alice Oseman), Capitães da Areia (Jorge Amado), Crónica de Uma Morte Anunciada (Gabriel García Márquez), Persépolis (Marjane Satrapi) e Entre o Deserto e a Montanha (Gonçalo Câmara).

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«Os livros que lemos construíram-nos»


As leituras que vou fazendo, nos momentos mais distintos, moldam o meu caráter, porque me predispõem para uma série de questões que podiam não estar tão claras em mim. É por esse motivo que as minhas estantes me representam tão bem: porque em cada um dos exemplares que as preenchem há um pedaço de quem sou.

Reorganizo a minha modesta biblioteca com frequência e, em todas essas ocasiões, paro para observar uma obra em concreto, recordando o que me fez sentir, quão maravilhoso seria transportar-me para aquele enredo ou, então, como seria se tivesse a possibilidade de me esquecer da história para a ler pela primeira vez.

Foi com a última imagem no pensamento que voltei a olhar para a lista de livros lidos para perceber quais é que poderiam figurar neste cenário. A verdade é que tinha várias possibilidades, mas, no total, selecionei dez.


OS HOMENS QUE ODEIAM AS MULHERES, STIEG LARSSON

É o primeiro volume da Saga Millennium. E abre-nos a porta a uma premissa original, intrigante e complexa, que ultrapassa a componente policial, privilegiando o jogo psicológico constante. Percebemos, de imediato, que há um ritual que se repete ano após ano. E que isso levanta suspeitas, pois é impossível que o seu remetente corresponda ao indicado. No entanto, se há algo que fica claro durante toda a narrativa é que nem tudo é o que aparenta ser. E, embora tenha feito uma releitura, dei por mim a mergulhar nesta história com a mesma urgência da primeira vez. Determinados sinais tornaram-se mais evidentes, sobretudo, porque tenho outra maturidade e perceção dos factos, porém, continua a não ser óbvio se existe um assassino e, se houver, quem poderá integrar a lista de suspeitos. Muito menos detetamos as contrariedades que nos esperam.


A SOMBRA DO VENTO, CARLOS RUIZ ZAFÓN

Tornou-se num dos meus favoritos. Pela escrita cuidada e quase poética. Pela sobreposição de temáticas. Pelo enredo imprevisível. E pelo amor à literatura. O autor teve a mestria de partir de um lugar mágico para nos levar numa viagem sentimental e sombria, muito fiel ao que poderia ser o relato da existência de alguém. Porque sinto que um dos pontos fulcrais desta obra é mesmo o seu caráter relacional e credível.


CAI A NOITE EM CARACAS, KARINA SAINZ BORGO

Transporta-nos para a Venezuela, um país em crise, no qual impera a corrupção, a criminalidade e a repressão. E a história deste lugar, que se funde com a da personagem principal, chega-nos pelo relato avassalador de Adelaide: uma mulher de 38 anos, de luto pela morte da mãe. Pouco tempo depois dessa perda, a sua casa é ocupada por um grupo de mulheres às ordens do regime. Sem nada, completamente à deriva, compreende que, tendo perdido tudo, a única alternativa que lhe resta é sobreviver.


FILHO DA MÃE, HUGO GONÇALVES

É um relato biográfico, despretensioso e comovente sobre a perda: da mãe e de identidade. Assim, recuando à tarde em que recebeu a trágica notícia do falecimento da sua progenitora, leva-nos numa viagem introspetiva, na qual procura pistas que interliguem as suas recordações e fragmentos que apaziguem a dor, ao mesmo tempo que mantenham presente esse elo relacional, porque é pavoroso termos a noção que nos estamos a esquecer, aos poucos, de características tão identitárias de alguém que significa o mundo para nós. E é através de uma luta interior, com vários percalços pelo meio, que o autor compreende a importância do luto.


O BAIRRO DAS CRUZES, SUSANA AMARO VELHO

É uma história ficcional, com personagens construídas para aquele contexto. Porém, guarda acontecimentos tão plausíveis, que se torna intuitivo senti-la como se fosse parte da nossa realidade, quer enquanto seres autónomos, quer enquanto país. Além disso, atendendo a que atravessa o período histórico da ditadura, é fácil alimentarmos essa sensação de pertença, mesmo que nos magoe e que nos pese. Porque, lá no fundo, são a prova de uma união que não se quebra, sobretudo, quando há laços familiares a amparar cada passo.


AS FALSAS MEMÓRIAS DE MANOEL LUZ, MARLENE FERRAZ

Alterna entre dois planos - flores e livros -, permanecendo interligados por um tom poético que marca toda a narrativa. Além disso, faz uma clara alusão à história de Portugal, numa transição do Estado Novo para a Liberdade. E é neste enlaço que somos confrontados com segredos, ilusões, dicotomias, silêncios e dúvidas, tão próprios de quem vai construindo a sua identidade e gerindo o turbilhão de emoções que florescem num peito inquieto e desejoso de ser grande. Só que o nosso discernimento nem sempre privilegia a postura mais correta, porque nos deslumbramos e criamos ideais frágeis, que nos fazem ruir.


O LUGAR DAS ÁRVORES TRISTES, LÉNIA RUFINO

Coloca-nos ao lado da curiosa Isabel, que procura descobrir a verdade sobre um assunto que a vai atormentando. Aparentemente desamparada, porque ninguém pretende esclarecê-la, acabará por desenterrar fantasmas de um passado pautado por mentiras, maldade e um crime hediondo.


O PINTASSILGO, DONNA TARTT

A premissa é simples, mas vai-se complexificando, até pelos temas, pelas experiências, pelas ligações e pelas filosofias abordadas. Com inúmeros "ses", partimos do presente para conhecermos o passado, regressando ao fatídico dia que mudou a vida de Theo para sempre. Este flasback permite estabelecer um fio condutor e compreender não só o que aconteceu, mas também as repercussões da tragédia. Por sua vez, as constantes reviravoltas ligam-nos à personagem principal, mesmo que nem sempre tenha seguido o caminho mais correto e/ou desejável. Porque vamos procurar colocar-nos no seu lugar. Consequentemente, a sua vida vai proporcionar-nos ensinamentos inesquecíveis, ao mesmo tempo que implicará descobertas intra e inter pessoais, daí que considere O Pintassilgo extremamente fascinante e rico!


PARA ONDE VÃO OS GUARDA-CHUVAS, AFONSO CRUZ

Abriga um mundo de histórias e de personagens com percursos distintos e, aparentemente, autónomos, mas que encontram uma forma de se interligarem. Tendo o Oriente como pano de fundo, através de efabulações e traços mais fantásticos, somos capazes de estabelecer uma ponte com o nosso quotidiano, porque todos procuramos algo na vida, mesmo que os nossos contextos divirjam. Além disso, é o retrato fiel do «equilíbrio desequilibrado» do universo, que nos coloca à prova e nos leva a reconsiderar decisões e a ponderar uma maneira de quebrar as barreiras que ainda envolvem o ser humano.


A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS, VALTER HUGO MÃE

Escrita em minúsculas, numa clara utopia de igualdade, parte da vida de um barbeiro reformado para nos impulsionar a refletir sobre conceitos que nos transformam, durante o nosso crescimento: família, amizade e compromisso. Além disso, atribui voz à velhice, à solidão e ao luto. Através de um discurso poético, é impensável não ponderarmos o que nos reservará o futuro e quais as implicações de certas perdas: sejam elas referentes a um cenário de autonomia, sejam elas referentes à morte de alguém que é tudo para nós. Porque cada uma delas dilacera à sua medida, condicionando uma parte do nosso presente.


* os títulos das obras encaminham-vos para a opinião completa dos mesmos

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«Abrir um livro é abrir pessoas»


As boas histórias ficam connosco para sempre, mesmo quando nos esquecemos dos seus contornos mais profundos, porque há uma memória emocional que nos recorda desse vínculo, que nos relembra do seu traço. Mas será que essa categorização depende apenas do enredo em si ou é influenciada por outros fatores?

Quando inicio uma leitura, é evidente que a narrativa é relevante, caso contrário, não existe motivação para continuar. É, portanto, imprescindível que a ação seja estimulante, para nos impulsionar a unir as pontas soltas e a compreender cada uma das suas camadas. Isso não significa que seja sempre imprevisível, tem é de ser bem construída para nos envolver. E, grande parte das vezes, esse elo é conseguido pelas personagens.

Tal como escreveu Afonso Cruz, «o território inexplorado dentro de nós é acessível através dessa imersão em personagens que nunca fomos e jamais seríamos ou talvez venhamos a ser». É por isso que tanto nos deixamos cativar, como nos afastamos de certos protagonistas: porque despertam partes da nossa identidade que nos levam a repensar o mundo (o de dentro e o de fora). Além disso, sendo «um meio de transporte para o que não somos, ou melhor, para o que somos sem ser», também nos inspiram a ser mais do que aquilo que alcançamos - ainda que não passemos de um plano imaginário - ou a abraçar a normalidade que nos habita.

Na literatura, encontramo-nos com vários tipos de personagens, cada uma com a sua importância. Ainda assim, tenho percebido que há um grupo que me está a atrair muito mais: personagens que não são heroínas, que podem ser um retrato de uma pessoa comum, que se cruza connosco na rua e até passa despercebida, porque mesmo nos livros é importante ter acesso ao quotidiano - por mais desinteressante que aparente ser.

É claro que também adoro ler para descobrir cenários, por vezes, inalcançáveis, com culturas e mentalidades distintas do meu meio. Mas também preciso de abrir um exemplar e encontrar personagens com dilemas parvos como aqueles que eu tenho, com problemas ou conquistas que poderia experienciar. Quando conversei com a Rita da Nova, antes da apresentação da sua obra, em Gaia, repeti que a Ana Luis me fez lembrar Eliete por causa disso: por ser alguém credível, a viver a sua vida como qualquer um de nós, com medos, com poucas certezas, com rasgos de força e sem pretensões de maior. E isso não deixa de ser espetacular.

Personagens heroínas, cujas jornadas sofrem metamorfoses completas e encontram um novo propósito transformador, são fundamentais para sonharmos, para alargarmos horizontes, para não desistirmos e acreditarmos que as mudanças são possíveis - e tendo em conta que lemos, muitas vezes, para embarcar em realidades paralelas, distantes da nossa, elas impulsionam-nos nesse sentido. No entanto, histórias sem personagens heroínas têm o poder de nos acolher, de nos mostrar que nem tudo é fogo de artifício e que não estamos sozinhos na luta. Podíamos ser nós naquela história e não há algo de errado nessa simbiose. Sei que podemos ter a tendência de nos afastar das últimas por serem um espelho das nossas quatro paredes e nem sempre queremos ser confrontados por isso, mas estas chamadas de atenção também nos ajudam a crescer. 

Assim, trouxe cinco livros com personagens que tinham tudo para serem esquecidas, por não apresentarem curvas de vida memoráveis, mas que fizeram morada em mim por me provarem que há beleza no que é banal.


PESSOAS NORMAIS, SALLY ROONEY

📖 Dois jovens inseguros, com graves problemas de comunicação

Conta-nos a história de um casal adolescente, que tanto procura crescer em sintonia, como tenta distanciar-se, compreendendo a dificuldade que se encerra nesse passo. Porque, por maiores que sejam as diferenças, existem sentimentos inquebráveis. Com uma narrativa coesa, que nos embala em várias sensações, emoções e traumas, é percetível que esta relação reflete o impacto de uma comunicação débil, que constrói inúmeras barreiras e que acaba por condicionar o lado mais sóbrio e puro das nossas interações. (opinião completa)


ELIETE, DULCE MARIA CARDOSO

📖 Uma mulher a passar por uma crise de identidade

É a história de uma mulher de meia idade, que se movimenta num quotidiano pacato, trivial - pelo menos, assim se assemelha. No entanto, tal como uma brisa subtil, que não incomoda, há um vendaval que se vai aproximando. E mesmo que pouco aponte nesse sentido, ficamos presos aos seus contornos, a esse prenuncio de fatalidade prestes a mudar o rumo da personagem. (opinião completa)


AS COISAS QUE FALTAM, RITA DA NOVA

📖 Uma mulher à procura de algo, oscilando entre o conformismo e a persistência

É a história da Ana Luís, uma menina de oito anos que não conheceu o pai, porque nunca lhe foi concedida essa permissão por parte da mãe. Por esse motivo, é também um passaporte emocional para todas as respostas que procuramos, para todos os nós que vamos tentando atar na nossa história, para que nada seja ao acaso, ilógico. Em simultâneo, foi tantas vezes chão e tantas vezes colo. (opinião completa)


MAR ALTO, CALEB AZUMAH NELSON

📖 Dois jovens que procuram descobrir o seu lugar no mundo, que se vão conhecendo em simultâneo e conversando muito por entrelinhas - e através de silêncios que contam tanta coisa sobre eles e a sociedade.

A narrativa parece uma dança lenta e sedutora, ora envolvente, ora esquiva, fazendo-nos rodopiar por uma série de questões que nos moldam enquanto seres humanos, que nos obrigam a sair da nossa bolha e a compreender que nem todos sabemos o que é sair de casa a desconhecer como voltaremos - se voltaremos -, porque somos colocados num perfil único e correspondemos sempre «à descrição».


M TRAIN, PATTI SMITH

📖 Há dias na vida de Patti Smith que podem não parecer banais (pelas viagens que faz, pelas pessoas que conhece), mas a maneira como os descreve é tão despojada, que me fez todo o sentido incluir este livro. Ainda para mais, este diário tem muitos episódios triviais, com dilemas peculiares que qualquer um de nós tem.

É uma viagem muito bonita, porque a escrita consegue ser, simultaneamente, poética e comum, focada em pensamentos profundos ou dilemas peculiares. E acho que gostei tanto de ler este livro porque há um tom de normalidade na sua partilha, no qual não se leva nada a sério e quase parece esquecer-se que é a Patti Smith. Ter a oportunidade de descobrir estes textos é ter a sensação que estamos sentados ao seu lado, a escutar uma série de peripécias, viagens e memórias, enquanto desfrutamos de uma chávena de café.

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«A leitura deve resultar numa transformação»


A mais recente edição do Alma Lusitana esteve quase para se manter por temas, mas, como optei por outra abordagem, os tópicos ficaram na gaveta, à espera de uma oportunidade para potenciarem outros desafios.

Nesta semana temática, pensada para celebrar o livro e os direitos de autor, percebi que fazia todo o sentido recuperar os temas em questão e, numa espécie de TAG, marcar histórias - revisitando algumas narrativas.


um livro para rir

📖 Isto Vai Doer, Adam Kay
É um diário de um médico, que foi escrevendo para aliviar a pressão e o desgaste da profissão. Compilando episódios com vários pacientes - cujas identidades foram preservadas -, casos insólitos e traumas, é um relato bastante honesto, visceral, e que tem tanto de cómico como de angustiante, porque a sua escrita torna mais leve as situações que nos pesam e que o levaram a abandonar a sua carreira na medicina. (opinião completa)

📖 Sou Um Crime, Trevor Noah
É um relato na primeira pessoa, sobre a vida do comediante e apresentador sul africano, durante os últimos anos do Apartheid e os primeiros de democracia, com a eleição de Mandela, em 1994. E é impressionante como o seu próprio nascimento é considerado um crime, visto que é fruto de uma relação entre raças. Além disso, desperta, em nós, uma certa ignorância, atendendo a que, ao avançarmos na contextualização histórica, compreendemos que sabemos tão pouco acerca de um regime segregacionista, que ainda hoje tem repercussões na sociedade. Em simultâneo, fez-me refletir sobre o limbo em que as pessoas mestiças se sentiam neste ambiente discriminatório, quase como se fossem, como alguém descreveu, «terra de ninguém». E no quanto é simples julgarmos determinadas realidades, quando temos outras opções. (opinião completa)


um livro para viajar no tempo

📖 A Rede de Alice, Kate Quinn
Uma história intensa e emocional, que tem tanto de desumanidade, como de alento por aquilo que pode ser a sociedade mundial. O cenário de guerra, pautado por um enorme espírito de sobrevivência [e de vingança], transporta-nos para duas marcas temporais distintas, cujos caminhos se interligam por um objetivo comum - ainda que, depois, os propósitos divirjam. Fiquei encantada com a energia do trio tão disfuncional na sua essência, mas tão poderoso nos valores que os move e na empatia subtil que partilham uns com os outros. Transmitindo traços de solidão, perda, desnorte, culpa e esperança, a coragem das protagonistas é inegável.


um livro para sair da zona de conforto

📖 Ás de Espadas, Faridah Àbíké-Íyímídé
Abre-nos as portas do colégio particular Niveus, reconhecido pelo seu prestígio e, por consequência, pelo seu elitismo, atendendo a que apenas são admitidos os melhores estudantes - preferencialmente, de famílias abastadas. O foco central da narrativa divide-se por dois protagonistas - Chiamaka e Devon -, uma vez que começam a sofrer uma perseguição doentia e anónima, por serem os únicos alunos negros. Embora apresentem personalidades e histórias de vida antagónicas, unirão forças. (opinião completa)


um livro que gostavas que fosse abordado numa aula de português

📖 Alegria Para o Fim do Mundo, Andreia C. Faria
Curiosamente, foi o mote para a Feira do Livro do Porto, e compila os anteriores livros de poesia da autora e leva-nos numa viagem muito interessante, que transita entre vários estados de alma e memórias. Com um tom intimista e desarmante, podemos seguir a ordem das páginas ou, então, criar a nossa sequência de leitura. Independentemente do método escolhido, espera-nos um caminho melancólico e belo. (opinião completa)

📖 O Osso da Borboleta, Rui Cardoso Martins
Permite-nos conhecer uma sociedade tipicamente portuguesa: conformada com a ideia de fracasso, mas sempre predisposta a sobreviver, a procurar por maneiras de contornar as adversidades. É por esse motivo que detetamos um tom de desgraça transversal a toda a história e aos seus intervenientes. (opinião completa)


um autor a que queres voltar

📖 Isabel Rio Novo
O primeiro contacto não foi memorável por causa da história (podem descobrir a minha opinião aqui), mas apreciei a escrita da autora. Por isso, quero dar-lhe uma nova oportunidade e descobrir outros títulos.


um livro que aconselhas a toda a gente

📖 Balada Para Sophie, Filipe Melo & Juan Cavia
É uma das mais belas e brilhantes narrativas [escritas e ilustradas] que tive a oportunidade de descobrir, porque fui envolvida na sua melodia sem ter noção da leveza com que o tempo avança, atendendo a que apresenta um desenvolvimento que nos inebria; que tanto nos entretém, como nos comove. (opinião completa)


um livro para ler à lareira

📖 Vertigens, Valentina Silva Ferreira
É uma viagem feita em duas linhas temporais: o presente e o passado, em finais dos anos 70. Comum a ambas, temos o Caniço, «uma cidade costeira na ilha da Madeira», e as protagonistas desta narrativa singular, Ana Clara e Anita, duas vizinhas que, solitárias, desenvolveram «uma amizade inesperada». (opinião completa)


um livro para ler no teu lugar favorito

📖 Como Se Fôssemos Vilões, M. L. Rio
Acompanha sete amigos que frequentam um curso de Teatro centrado em William Shakespeare, «numa escola de artes de elite». Esta apresentação aparenta ser simples e pouco impulsionadora de uma ação intrigante, porém, percebemos que um dos protagonistas esteve preso, durante uma década, graças a algo que aconteceu nesse lugar «mágico, isolado e elegante». Com a pena cumprida, e a última investida do detetive responsável pelo caso para atar as pontas soltas, vamos desvendar a verdade. (opinião completa)


um autor que devia ser mais falado

📖 Djaimilia Pereira de Almeida
Li dois livros que gostei imenso - Luanda, Lisboa, Paraíso e Esse Cabelo - e quero aventurar-me noutros títulos - sobretudo, Maremoto. Talvez não tenha argumentos suficientes para explicar o quanto deveria ser mais falada, no entanto, do pouco que li, acho mesmo que merecia outro destaque, pela escrita e pelas narrativas.


um livro para esquecer porque não encheu as medidas

📖 A Loja de Antiguidades, Charles Dickens
A sinopse intrigou-me e até comecei a leitura expectante, curiosa para compreender os seus contornos. Embora considere interessante a escuridão que paira em grande parte das personagens, confesso que a história não resultou comigo, porque se foi dividindo por muitos caminhos alternativos. Além disso, pareceu-me que passou demasiado tempo a construir um contexto que demonstra a mesquinhez e a crueldade do ser humano para, depois, as conclusões serem céleres - Reconheço que pode não ter sido o momento certo.


um livro que achaste que nunca ias ler

📖 A Cidade das Mulheres, Elizabeth Gilbert
É uma longa carta, escrita por Vivian Morris, para alguém de quem apenas conhecemos o nome. Transportando-nos para Nova Iorque, nos anos 1940, com a guerra em cenário de fundo, somos recebidos pelo «decadente teatro de variedades» da sua tia Peg, o Lily Playhouse. E é a partir deste palco que o espetáculo se constrói, até porque acompanharemos a metamorfose de uma jovem de 19 anos. (opinião)


um livro que esteja na tua estante há mais de um ano

📖 Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa
«Revolucionário na forma - praticamente inventou uma língua nova - e no conteúdo, Grande Sertão: Veredas mudou a literatura e assumiu-se, desde o primeiro dia e ao longo do tempo, como uma das mais importantes obras literárias da língua portuguesa, comparada - na ambição e na universalidade - a obras como Os Lusíadas, Dom Quixote e Fausto».

📖 Rapazes de Zinco, Svetlana Alexievich
«De 1979 a 1989, o exército soviético combateu o Afeganistão, uma guerra que gerou cerca de quinze mil mortos e mais de quatrocentos e cinquenta mil feridos e doentes, atingindo profundamente toda uma geração. Alvo de contestação e polémica na União Soviética por altura da sua publicação, acusado por críticos de ser «uma fantasia carregada de mentiras» e parte de «um coro histérico de ataques perversos», Rapazes de Zinco oferece um testemunho sentido e afetuoso dos soldados, enfermeiras, mães, filhos e filhas que viveram a guerra e os seus efeitos devastadores».

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«A cidade respira porque há livros a ser abertos»


Os leitores dedicam muito do seu tempo aos livros, a observar e a comprar estantes, a visitar livrarias, a tirar anotações e a desempenhar uma série de comportamentos/atividades que os aproximam desta paixão - e, claro, eu incluo-me em todas estas opções. No entanto, nem só de livros se fazem os amantes de literatura.

As páginas a transbordar de histórias são sempre a rota principal, mas existem muitos artigos alternativos, dentro do tema, que nos encantam e que, não tão raras vezes assim, se tornam essenciais de leitura, porque nos facilitam a jornada. Além disso, podem ser itens úteis para oferecer. Caso conheçam alguém que adore ler, mas tenham receio de o presentear com um livro, são capazes de fazer um brilharete com estas peças.

Assim, trago-vos uma lista com algumas sugestões, que já não dispenso, para vocês e/ou para os vossos.


TOTE BAGS
Este artigo não é exclusivo do mundo dos livros, mas é uma excelente opção para os transportarmos com maior segurança - e levar tudo o que seja fundamental para a nossa experiência de leitura. Se procurarem peças personalizadas, aconselho a Joana Costureira, porque tem imenso cuidado em todo o processo criativo e na concretização do artigo. Deste modo, ficam com algo só vosso e apoiam pequenos projetos nacionais.

MARCADORES DE LIVRO
Para que nunca percam a página em que vão. Se procurarem um marcador à vossa imagem, contactem a Bárbara, do Olha o Que Eu Já Li, porque tem um catálogo muito versátil e com qualidade (tenho dois marcadores cá em casa para o comprovar). Recentemente, cruzei-me com o projeto da Daniela (@fangirlishwandering) e fiquei bastante tentada a adquirir um marcador que mais parece um bilhete.

CADERNO INTELIGENTE OU CADERNOS DE LEITURA
Para registar tudo sobre as nossas leituras (desde citações aos pensamentos mais aleatórios). Têm, por exemplo, cadernos inteligentes da marca Caderno Inteligente ou da Talia, caso pretendam construir o vosso BuJo de raiz, os InfiniteBook, os Cadernos de Leitura da Alma dos Livros ou os Book Journal da Magapaper.

CARIMBOS
Para deixarem os livros com um toque pessoal e alinhados com a vossa biblioteca particular - e, caso os emprestem, para garantir que as pessoas não se esquecem que vos pertence. Estou a construir um design que me encha as medidas, porque quero comprar um através da Carimbaria Portugal ou, então, da Sim Carimbo.

POST-ITS
Para tirar notas ou marcar citações favoritas/passagens para reler.

LUZ DE LEITURA
Disponível em vários formatos, para conseguirmos ler em qualquer lugar e hora do dia.

CAPA PROTETORA PARA LIVROS
Para quem anda sempre com um livro na mochila/carteira, em viagens intermináveis ou passeios para ler, é uma excelente opção para minimizar danos. Visitem, por exemplo, a BookChic ou a Dressed Up Books.


Outros artigos: canecas ou t-shirts temáticas, canetas e marcadores, porta-livros (para organizar), separadores de página, almofadas ou suportes de leitura, assinaturas de clubes de leitura ou caixas literárias.

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«Os livros completam-nos e oferecem-nos múltiplas vidas»


As pessoas são feitas de histórias: das suas, das que vivem com os seus e das que leem. Por esse motivo, «os livros são uma das nossas vozes possíveis», desbloqueiam conversas e validam pensamentos soltos; são refúgio e porta aberta para corrermos o mundo pelas palavras de quem tem na escrita a sua forma de ser.

Na contracapa d' O Vício dos Livros, de Afonso Cruz, ficamos a saber que por cima da porta de entrada da biblioteca do faraó Ramsés II estava escrito «casa para terapia da alma». E eu sinto que qualquer espaço que se revista desta arte consegue transmitir a mesma sensação, visto que nos proporciona uma maneira de nos abstrairmos do que nos rodeia, de mergulharmos para outras realidades e, ainda, de nos compreendermos.

Portanto, viajar através de narrativas é maravilhoso, mas tudo melhora quando folheamos livros sobre livros. Existe um certo alinhar de perspetivas, que não só entusiasma qualquer leitor, como também faz com que as coisas adquiram outro significado. Assim, trouxe uma lista com nove títulos que encaixam nesta categoria


1. O HOMEM QUE PASSEAVA LIVROS, CARSTEN HENN
«Todos os dias, ao fim da tarde, Carl carrega a mochila com uma série de livros embrulhados com esmero. Fecha a porta da livraria e começa a ronda pelos clientes habituais, a quem secretamente dá nomes de personagens. Entrega as obras porta a porta ao milionário recluso, à jovem melancólica, à última freira do convento. É assim há décadas, até ao dia em que uma miúda de nove anos lhe aparece no caminho».

2. OS LIVROS QUE DEVORARAM O MEU PAI, AFONSO CRUZ
«Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo. Esta é a sua verdadeira história — contada na primeira pessoa pelo filho, que irá à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras».

3. A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS, MARKUS ZUSAK
«Quando a morte nos conta uma história temos todo o interesse em escutá-la. Assumindo o papel de narrador, vamos ao seu encontro na Alemanha, por ocasião da segunda guerra mundial, onde ela tem uma função muito activa na recolha de almas vítimas do conflito. E é por esta altura que se cruza pela segunda vez com Liesel, uma menina de nove anos de idade, entregue para adopção, que já tinha passado pelos olhos da morte no funeral do seu pequeno irmão. Foi aí que Liesel roubou o seu primeiro livro, o primeiro de muitos pelos quais se apaixonará e que a ajudarão a superar as dificuldades da vida, dando um sentido à sua existência. Quando o roubou, ainda não sabia ler, será com a ajuda do seu pai, um perfeito intérprete de acordeão que passará a saber percorrer o caminho das letras, exorcizando fantasmas do passado. Ao longo dos anos, Liesel continuará a dedicar-se à prática de roubar livros e a encontrar-se com a morte, que irá sempre utilizar um registo pouco sentimental embora humano e poético, atraindo a atenção de quem a lê para cada frase, cada sentido, cada palavra. Um livro soberbo que prima pela originalidade e que nos devolve um outro olhar sobre os dias da guerra no coração da Alemanha e acima de tudo pelo amor à literatura».

4. DOIDOS POR LIVROS, EMILY HENRY
«Nora vive para os livros. É agente literária e defende os seus escritores apaixonadamente. Charlie é editor literário e tem o dom de publicar bestsellers. E é o inimigo n. º 1 de Nora. Nora adora a sua profissão e não se imagina a viver noutro sítio que não Nova Iorque. O que ela não adora é a sua vida amorosa. Já perdeu relações suficientes por não se conformar com o papel de namorada dócil e caseira. Está farta! Por isso, quando a sua irmã, Libby, lhe propõe uma viagem a duas, Nora aceita. Sunshine Falls, uma amorosa vila na Carolina do Norte onde decorre a ação do bestseller do momento, está longe de ser o seu destino de férias ideal. Mas Libby escolheu esta radical mudança de cenário de propósito para incentivar a irmã a viver a vida de forma real e autêntica e não apenas através dos livros. Durante um mês, Libby tudo fará para que Nora seja a protagonista da sua própria história (romântica, de preferência)».

5. CONTRA A AMAZON, JORGE CARRIÓN
«Enquanto a Amazon conquista espaços na nossa vida, Jorge Carrión, o autor de Livrarias, publicado pela Quetzal em 2017, visita bibliotecas (reais e imaginárias) e livrarias em todo o mundo e insiste no valor do livro e da sua proximidade como pilares da nossa educação sentimental e intelectual. Neste livro-manifesto, Carrión defende a figura do livreiro e da livraria contra o mundo impessoal da livraria global e algorítmica, ao mesmo tempo que entrevista Alberto Manguel em Buenos Aires, evoca Borges, caminha ao lado de Iain Sinclair em Londres, desvenda os segredos das bibliotecas imaginárias (a de Babel, a de Dom Quixote e a do Nautilus), mostra como as livrarias de Tóquio se reinventam, fala dos livros como instrumento de consolação diante da angústia da internet - e de como a pandemia da Covid-19 passou pelas livrarias de Lisboa».

6. O MERCADOR DE LIVROS, LUIS ZUECO
«Houve uma altura em que os livros revelaram novos mundos, abalaram os dogmas mais sagrados e mudaram o curso da História. Numa união perfeita de rigor histórico e intriga, Luis Zueco conduz-nos a uma aventura épica e emocionante, numa época em que a palavra impressa podia ser uma arma muito perigosa. A extraordinária viagem de um livreiro para recuperar uma obra roubada da maior biblioteca do ocidente».

7. A VIDA ESCONDIDA ENTRE OS LIVROS, STEPHANIE BUTLAND
«No coração de York, em Inglaterra, uma pequena livraria tornou-se o refúgio da jovem Loveday Cardew — o único sítio em que a tímida livreira se sente segura. Só aí pode cuidar dos livros da mesma forma que os livros cuidam de si, ensinando-a a entender os sentimentos que a inquietam: a solidão, com Anna Karénina; a alegria de viver, com A Feira das Vaidades; as paixões avassaladoras, com O Monte dos Vendavais. Depois de uma tragédia que lhe roubou tudo, uma infância passada com uma família de acolhimento e um relacionamento falhado, não é de admirar que Loveday prefira os livros às pessoas. Até que um dia, numa paragem de autocarro, ela encontra um livro perdido. Em busca deste livro surge Nathan, um poeta que se deixa encantar pela jovem livreira mas que não consegue quebrar a sua barreira de gelo, a não ser com a ajuda de Archie, o excêntrico dono da livraria onde trabalha».

8. OS LIVROS DO FINAL DA TUA VIDA, WILL SCHWALBE
«Forçados por uma trágica circunstância, Will Schwalbe e a mãe ficam longas horas em salas de espera de hospitais. Para passar o tempo, decidem falar dos livros que estão a ler. Através das suas leituras, percebemos o quanto os livros são reconfortantes, surpreendentes e maravilhosos».

9. QUEIMAR LIVROS, RICHARD OVENDEN
«Durante três mil anos, destruir o saber foi um objetivo comum e deliberado de várias pessoas, regimes e grupos. Esta é a extraordinária história de sobrevivência da verdade - a que os livros registam, as bibliotecas preservam e nós temos hoje, mais do que nunca, de salvar».

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andreia morais

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