Entre Margens

Fotografia da minha autoria



«Quantas possibilidades perdi pelo caminho para me transformar nesta que sou agora?»

Avisos de Conteúdo: Violência, Negligência Parental, Referência a Suicídio


A linguagem do trauma tem uma melodia própria: nem sempre fácil de escutar, pelo desgaste emocional que provoca, mas sempre arrebatadora, quando nos enlaça nos seus acordes. No fundo, conserva um lirismo que só se reconhece nos sentimentos mais dolorosos. E é neste ritmo que descobrimos o novo livro de Aline Bei.


O PODER DEVASTADOR DAS RELAÇÕES HUMANAS

Pequena Coreografia do Adeus é a história de Júlia, uma mulher a tentar «juntar os cacos de um relacionamento destroçado». Aliás, diria que não foi apenas um, o que condicionou o seu crescimento, as suas vivências e os seus sonhos. Neste ambiente sufocante, ladeado por uma destrutiva negligência/ausência parental, a protagonista vai-se movimentando para se libertar das amarras que a impedem de voar.

«como recolheria os meus cacos se eles são invisíveis?»

A escrita da autora é crua, no entanto, parece uma dança sincronizada em compassos equilibrados, porque é melancólica e, ao mesmo tempo, bela, é leve e, ao mesmo tempo, intensa. E é através de um jogo de contrastes que nos mostra todas as emoções que habitam a personagem. Um aspeto que me fascinou foi mesmo a capacidade de ser delicada, elegante no relato, embora sejam maiores os destroços ao seu redor.

«o silêncio da casa era sempre uma fermentação»

Escrito em verso, este livro não nos permite ir embora, uma vez que nos alinha com as suas dores, as suas angústias e com as projeções num futuro que aparenta não ter espaço para si. Além disso, tem um discurso tão próximo, que é impossível não nos lermos nas suas palavras. A minha bagagem não se assemelha à de Júlia e, ainda assim, consegui reconhecer-me nela - em todas as circunstâncias que nos separam, só me apetecia acolhê-la num abraço, para que sentisse que há amor no mundo e que também é digna de o receber.

«o nosso jeito de conversar, diretora, é machucando-nos
não por mal, não somos maus
somos tristes e isso é o que fazemos com a nossa solidão»

O passado que continua a pesar nos seus passos, as sombras que persistem e a débil esfera familiar levam-nos até à sua infância/adolescência, como se procurasse compreender melhor os factos e colar os tais cacos que a devastaram. Por esse motivo, estamos perante uma narrativa intimista, de autodescoberta, onde as cicatrizes têm voz, mas onde também existem pedaços de luz a querer quebrar todos os recantos fragilizados.

«mas no fim o que cada um constrói com o outro
quando não estamos no recinto»

Pequena Coreografia do Adeus lê-se num sopro, mas vai-nos inquietando: pelo impacto dos afetos (ou da ausência deles), pelas pessoas que nos agregam, pela solidão e pelo amor que nasce e nos renova.


🎧 Música para acompanhar: Travessia, Milton Nascimento
📖 Da mesma autora, li e recomendo: O Peso do Pássaro Morto


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Wook: Livro | audiolivro [narrado por Aline Bei]
Bertrand: Livro | audiolivro [narrado por Aline Bei]

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Fotografia da minha autoria



«A cada passo, uma flor floresce»


Saem flores do meu peito
Empedernido, raso
Desnudo de afeto

Saem flores do meu peito
E enquanto as colho solitária
A brisa corre
Sem gente para saudar

E florescem flores
Em terreno baldio

Fotografia da minha autoria



«A geração Soviética caída na guerra do Afeganistão»

Avisos de Conteúdo: Cenas/Linguagem Explícitas; 
Referência a Morte, Suicídio, Violência, Violação


A verdade à vista de (quase) todos, no entanto, era maior o medo de a comprovar. E foi ao tentar evidenciar essa verdade, através dos relatos sofridos de mães, de filhos, de esposas, de soldados, de enfermeiras, que Svetlana Alexievich se viu julgada em tribunal, acusada de distorcer os factos que compilou neste livro.


A GUERRA, SEMPRE A GUERRA

Rapazes de Zinco centra-se na guerra do Afeganistão, que gerou cerca de «quinze mil mortos e mais de quatrocentos e cinquenta mil feridos e doentes», combatida entre 1979 e 1989. No decorrer deste acontecimento nefasto, houve uma geração a ficar condicionada física, emocional e psicologicamente, por ter sido envolvida em algo sem qualquer sentido e que, na falta de melhor argumentação, não procurou.

«Sei que me vai procurar, que me vai pedir perdão. Mas quem é que lhe pede perdão?»

Conhecer a parte história é fundamental, claro, mas fascina-me sempre mais descobrir o lado humano, os testemunhos tantas vezes silenciosos de quem, direta ou indiretamente, viu a sua vida virada do avesso (no mínimo). É o segundo livro que leio da autora e sinto que, sem romantizar as vivencias, nunca fere a dignidade daqueles que lhe abriram o coração, muitas vezes a medo, muitas vezes sem saberem a extensão das repercussões dessa decisão, porque precisavam de ser ouvidos, precisavam que a verdade ficasse escrita.

«Agora sinto-me partida, esmagada. O que aprendi cá? 
Será que cá se pode aprender a bondade ou a compaixão? Ou a alegria?»

É impressionante a lucidez destes retratos, que nos desarmam, que nos demonstram a violência, o sofrimento, a destruição (interior e exterior), o medo, a espera e todos os traumas que se multiplicam com o tempo - ou com as recordações. Ninguém fica indiferente ao avançar nestas páginas, que contestam a mentira e evidenciam a brutalidade da guerra, a sua inutilidade e a vergonha camuflada na culpa de quem regressa.

«A quem grito? Quem me ouvirá?»

O próprio significado do título é prova da desumanidade e do quanto há valores trocados no mundo. Há muita dor nestas palavras, sonhos desfeitos e narrativas que chocam, mas nunca ao ponto de o sentirmos na pele, porque estamos longe de imaginar a angústia de ver os nossos a voltar a casa, mas sem sabermos como é que regressam, porque as pessoas que partiram - e quem ficou a vela-las - nunca mais serão as mesmas.

«Em casa, guardávamos silêncio»

Rapazes de Zinco é o espelho de mais um período histórico devastador. Por isso, é uma leitura que nos pesa, ao mesmo tempo que também nos mostra a coragem que é necessária e a empatia que nos deveria mover.


🎧 Música para acompanhar: Relva Junto a Casa (título traduzido), Zemlyane
📖 Da mesma autora, li e recomendo: Vozes de Chernobyl


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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«Não creio que as margens de um rio sofram por deixá-lo correr»


A nossa existência é feita de margens: as físicas, que nos coordenam os passos, para que não percamos o norte, as emocionais, que nos inquietam e nos impulsionam num grito de autodescoberta, as de uma folha em branco, que tantos mundos nos permitem criar, e as invisíveis, que não se enquadram numa categoria só, mas que nos aproximam de quem somos. Porque as nossas margens são uma maneira de não ficarmos à deriva, de continuarmos a correr, sentindo o convite para observarmos mais longe ou para o outro lado do cais.

Há dez anos, quando abri estas gavetas, soube que tinha chegado a bom porto. O nome demorou a surgir, mas a comparação com as gavetas que temos em casa, cada uma com a sua funcionalidade, pareceu-me apropriada e foi assim que, publicação após publicação, fui abrindo compartimentos conforme a inspiração e a pertinência. No entanto, dez anos depois, sinto que é um nome que já não encaixa bem no meu propósito.

Os últimos tempos têm sido bastante introspetivos, nesse sentido. Ponderei vários caminhos nesta aventura que é a criação de conteúdo e a verdade é que As gavetas da minha casa encantada começou a soar infantil (na falta de melhor designação) para a fase em que me encontro. Além disso, queria um nome mais curto, mais intuitivo e mais próximo daquela que sinto ser a minha identidade, no entanto, sem deixar de ser plural.


O ENTRE MARGENS

Assim, no décimo aniversário do blogue, este espaço irá renascer nos detalhes

∿ Muda o nome e o cabeçalho;
∿ Na barra lilás superior, têm acesso a algumas etiquetas que utilizo nas publicações, para ser mais fácil encontrar alguns tópicos (sobretudo, aqueles que abordo mais);
∿ Os ícones das redes sociais ficam depois do cabeçalho, reencaminhando-vos diretamente para o instagram, para o pinterest, para o goodreads, para o grupo do Alma Lusitana no goodreads e para o twitter;   
∿ A newsletter também fica com um destaque central.

Um ponto importante é que o próprio endereço do blogue também será diferente, porque quero um link que me permita ter maior liberdade, caso decida mudar novamente. A partir de amanhã, encontrar-me-ão aqui:

   https://andreiapmorais.blogspot.com   


Eu sou feita de muitas margens e, enquanto edifico todas aquelas que coabitam no meu peito, perco-me nas das minhas cidades, consciente que, mesmo no meio da neblina, nunca perco o caminho para casa.

Levei comigo a tua raiz, sejam bem-vindos ao Entre Margens.

Fotografia da minha autoria



«(...) há aqueles que se vão da lei da morte libertando»

Avisos de Conteúdo: Referência a Racismo, Sexismo, Assédio, Abuso, 
Suicídio, Depressão; Linguagem Explícita


A morte é o que temos de mais certo na nossa jornada. Por mais mórbida que seja esta imagem, por mais que até seja um lugar comum, a verdade é que «não vale a pena esperar outra coisa da vida a não ser o seu fim». E, atendendo a que tem um método de ação bastante eclético, independentemente do nosso estatuto, personalidade, beleza ou legado, tocar-nos-á a todos, tal como verificamos no livro de Hugo Van Der Ding.


BIOGRAFIAS BREVES DE GENTE QUE JÁ LÁ ESTÁ

Vamos Todos Morrer apresenta uma versão mais extensa da sua rubrica - com o mesmo nome - na Antena 3. Embora não seja a ouvinte mais regular (escutando episódios soltos e de forma espaçada), sempre achei o conceito fascinante e reforcei essa perceção, ao ler os textos compilados, porque sinto que há um excelente equilíbrio entre os factos históricos e o traço de entretenimento. Melhor, é-lhe muito natural essa dança.

«Tinham carros, aviões a jato e iates. Brinco, estamos no quattrocento, não havia cá dessas coisas»

Não vou partilhar detalhes concretos do que poderão encontrar, visto que tem mais graça se lerem estas biografias breves, que tentou que fossem o mais inclusivas e diversificadas possíveis. Ainda assim, deixo-vos com algumas das personagens mais marcantes, para mim: Josephine Baker, Simone de Beauvoir, Maya Angelou, Sophia de Mello Breyner, Marsha P. Johnson, Aga Khan, Frida Khalo, Rosa Parks e Snu Abecassis. Condensando o que de mais relevante aconteceu nas suas vidas (nas que destaquei e nas restantes), sempre com um apontamento sarcástico e crítico, as referidas almas ficaram com um obituário bastante original.

«Onde, não me canso de repetir: morreu o rei D. Sebastião. Acordem. Ele morreu. 
Cresçam. Ele m-o-r-r-e-u. Ele não vai voltar. Not gonna happen»

As personalidades deste livro, coitadinhas, morreram todas muito novas (umas mais do que outras, claro), não obstante, viveram o suficiente para fazer história (nem sempre pelos melhores motivos). Seja para ler de seguida, seja para desfrutar aos poucos, é uma leitura que cai sempre bem, em qualquer altura. Não me importava nada de, um dia, ter umas notas necrológicas com tanta pinta como estas. Brinco. Ou talvez não.


🎧 Música para acompanhar: Love Is a Dreamer, Josephine Baker


◾ DISPONIBILIDADE ◾

Wook: Livro | eBook
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«Café, livros e pessoas»


O regresso a Guimarães não estava planeado, no entanto, aconteceu recentemente e permitiu-me colocar mais um carimbo no meu passaporte livrólico. Ainda que este elemento seja fictício (imaginem o quão incrível seria ter um autêntico), o certo é que, passo a passo, vou conseguindo visitar as livrarias que tenho anotadas.

Localizada no Largo Condessa do Juncal, a Rimas e Tabuadas é um espaço encantador, que combina literatura e as histórias que se contam numa mesa de café. Foi fundada em 2017, «marginal e inesperada, num tempo em que se diz que os livros têm os dias contados». Quem entra na livraria percebe que essa imagem não podia estar mais desfasada da realidade - e que bom que é perceber que os livros ainda movem pessoas.


Adoro este conceito em que se combina, no mesmo espaço, cafetaria e cultura, porque sinto que torna a experiência mais intimista, convidando-nos a ficar, convidando-nos a saborear narrativas e iguarias.

Aproveitando elementos que poderíamos encontrar em casa, como armários, gavetas e prateleiras, até a decoração nos leva numa viagem literária. E não posso deixar de referir a simpatia da Ana e da Sílvia, duas irmãs que tiveram a ideia de abrir um espaço «para quem gosta de livros e de boa conversa», que tão bem me receberam. Deixaram-me à vontade a descobrir os exemplares disponíveis - uma seleção que inclui vários géneros e autores -, a fotografar e, no fim, ainda conversamos um pouco sobre um livro que procurava. Foi uma interação breve, mas senti que se interessam genuinamente pelas pessoas que recebem nesta casa.


Combinando o melhor de vários mundos, há sempre algo a acontecer. Trouxe uma obra da Ana Pessoa, Mary John, e prometi regressar, porque é impossível não querer voltar a lugares que nos fazem sentir bem-vindos.

Fotografia da minha autoria



Um catálogo de arte com identidade portuguesa


A Portugalid[Arte] está em mudanças. Bebemos um chá gelado, enquanto vos ponho a par das novidades?

O projeto nasceu em 2020, porque sou uma eterna apaixonada pela cultura portuguesa e queria um formato que me permitisse escrever sobre os artistas e as obras que fazem parte do meu quotidiano. Uma vez que procurava algo externo ao blogue, pensei construir uma espécie de revista, enviada mensalmente, de forma gratuita e por e-mail, a quem quisesse embarcar na aventura. A cada novo número, sentia o entusiasmo de quem está a dar o primeiro passo, de quem não sabe bem para onde é que isto pode escalar, mas que quer ir na mesma. Nada disso se alterou, no entanto, a caminho da quarta temporada, senti vontade de arriscar.


PORTUGALID[ARTE]: A NEWSLETTER

Até aqui, limitava-me a alterar as cores e o design, para que cada temporada tivesse a sua imagem. Contudo, não me estava a relacionar com as opções disponíveis e acho que isso era influenciado pelo facto de procurar uma concretização diferente. Assim, a hipótese de transformar a Portugalid[Arte] numa newsletter conquistou espaço - e ganhou mais força, desde que começaram a surgir problemas com o tamanho dos documentos.

Depois de alguma pesquisa, criei conta na plataforma online Substack. E fi-lo por duas razões: a primeira, porque me parece uma infraestrutura bastante intuitiva; a segunda, porque, para além de enviar a newsletter, permite que as publicações fiquem agrupadas no mesmo espaço (quase como se fosse um blogue).

A minha preocupação, na preparação de cada número, era não ocupar muito tempo de leitura, mas existiam tópicos em que me apetecia divagar e não o fazia, para impedir que os segmentos ficassem extensos. E, depois, síndrome do impostor ou não, comecei a pensar que, ao manter esse registo, os textos ficariam menos pessoais e eu quero conseguir transmitir o entusiasmo que senti por ler determinado livro, por ver determinada série, a título de exemplo. Portanto, a essência será a mesma, a maneira como a farei chegar é que mudará.


SUBSTACK: O QUE PODERÃO ENCONTRAR

Vamos por tópicos, para facilitar

✏ A ideia é trazer conteúdo semanal, partilhando livros, músicas, séries, filmes, entre outras manifestações artísticas que me marcaram durante a semana, de modo a garantir um contacto mais imediato;

✏ Estou a pensar enviar a newsletter sempre às segundas-feiras, eventualmente às 9h (durante o mês de agosto não o posso prometer a 100%, por causa das férias, mas a intenção é essa);

✏ Um dos segmentos que tinha no formato anterior era o A Tua Voz, para que, quem quisesse, também pudesse partilhar a sua opinião sobre algum livro/série/filme/tema cultural que lhe fosse querido. Não sei se, agora, fará muito sentido mantê-lo, mas estarei sempre de portas abertas para escutar as vossas opiniões;

✏ Dentro do tópico anterior, acho que também deixarei de incluir o Tema Extra, que tanto podia ser uma reflexão sobre algum assunto cultural, como podia ser uma lista de livros. Outra hipótese, será deixá-lo para a última newsletter de cada mês (ainda tenho de estudar melhor esta questão);

✏ Apesar de ter tópicos definidos, nenhum deles será fixo, porque dependerá muito do que conseguir ler/ver/ouvir durante a semana. Deste modo, os separadores pensados são: 
  • Estante Cápsula (para as leituras); 
  • Gira-discos (para temas e álbuns);
  • Caixa Mágica (para tudo o que estiver relacionado com filmes, séries e vídeos no youtube);
  • Gavetas (destinado a publicações, artigos, partilhas que me fizeram sentido);
  • Biblioteca Sonora (para os podcasts);
  • Cartaz (para eventos/espaços culturais);
  • Bilheteira (com sugestões que decorrerão durante o mês).

No tema Casa, dos Da Weasel com o Manel Cruz, há um verso que é «acabado de entrar, pensava como reconforta a alma» e é isso que eu espero que seja este novo lar da Portugalid[Arte]. Com novas divisões para descobrir, ponham-se confortáveis, afinal, esta também será a vossa casa e será um gosto receber-vos.


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Fotografia da minha autoria



«Ainda não é o fim nem o princípio do mundo»


O meu evento favorito do ano já tem data marcada: de 25 de agosto a 10 de setembro, os Jardins do Palácio de Cristal abrem as portas para acolher uma nova edição da mágica e extraordinária Feira do Livro do Porto.

O entusiasmo aumenta, até porque 1) regresso a um lugar que é casa, 2) tenho a oportunidade de voltar a comprar livros, já que entro na segunda pausa do book buying ban. Assim sendo, já comecei os preparativos.

À semelhança do ano anterior, vou aproveitar a ocasião para me inspirar para a próxima edição do Alma Lusitana. Tenho alguns nomes pensados, mas, visto que a lista não está definida na totalidade, talvez encontre outros autores que não me ocorreriam. Além disso, como pretendo continuar a ser consciente nas minhas escolhas, para não comprometer o trabalho desenvolvido, não sei se adquirirei alguma obra para o projeto (só se as encontrar a preços imperdíveis). Portanto, a ideia será investir em títulos que lerei a curto prazo.

Outro aspeto que terei em consideração é a aposta em escritores estrangeiros. Aprecio muito que a minha estante de livros por ler tenha mais literatura portuguesa à espera de ser descoberta, mas estou a precisar de equilibrar a lista disponível. Assim, deixo-vos com os livros que pretendo comprar na Feira do Livro do Porto.


ONTEM À NOITE NO TELEGRAPH CLUB, MALINDA LO
«Lily Hu não se consegue recordar do momento exato em que a pergunta se enraizou na sua mente, mas a resposta surgiu, como se um candeeiro de rua se acendesse numa noite negra, quando ela e Kathleen Miller caminharam sob o letreiro néon de um bar lésbico chamado Telegraph Club».

O TERCEIRO PAÍS, KARINA SAINZ BORGO
«Angustias Romero e o marido fogem da peste, a caminho das montanhas e da ansiada segurança no país vizinho; levam, atados às costas, os dois filhos ainda bebés. À sua volta, apenas miséria, calor e poeira. Os gémeos não sobrevivem à viagem, e Angustias é abandonada pelo marido. Na fronteira, Angustias chega ao Terceiro País, um cemitério ilegal vigiado pela mítica Visitación Salazar. Contra a oposição dos barões da droga e da violência, a coveira garante aos sem-terra um último local de descanso».

MUNDO BELO, ONDE ESTÁS, SALLY ROONEY
«Alice, uma jovem romancista, conhece Felix, que trabalha num armazém, e pede-lhe que viaje com ela para Roma, aonde vai promover o seu mais recente livro. Entretanto, em Dublin, a sua melhor amiga, Eileen, está a ultrapassar uma crise amorosa e envolve-se novamente com Simon, que conhece desde criança. Enquanto o verão se aproxima, as duas amigas trocam emails, pondo-se em dia com as suas vidas. Falam da sua amizade, das relações que mantêm, de arte, literatura e de um futuro cada vez mais incerto. Querem encontrar-se logo que possível, mas ignoram o que irá acontecer quando isso suceder».

TRÊS, VALÉRIE PERRIN
«Uma história em que a adolescência, a passagem para a vida adulta e as dores de crescimento nos mostram de que matéria é feito um dos mais profundos sentimentos da vida: a amizade».

A NATUREZA DA MORDIDA, CARLA MADEIRA
«Biá, uma psicanalista já reformada e apaixonada por livros, aborda a jovem jornalista Olívia, que está devastada por uma perda recente, com uma pergunta agitadora: «O que perdeu que a entristeça tanto?» Olívia, sentada à mesa, aceita a inesperada provocação, bem como o carinho e o interesse daquela mulher, afinal apenas uma estranha, desencadeando-se uma sucessão de encontros marcados por uma galopante intimidade entre as duas mulheres, que aos poucos vão revelando as suas histórias. «A nossa amizade começou assim, enquanto nos afogávamos», relata Olívia».


Estes cinco são prioritários, mas tenho outras opções, caso não os encontre à venda ou sinta que podem esperar um pouco mais. No fundo, esta lista é um guia de apoio, que me ajuda a estruturar e a cumprir o orçamento definido para o evento. Depois, é uma questão de aliar a oferta com as oportunidades irresistíveis.

Fotografia da minha autoria



«A narração acontece em torno do não contado»

Avisos de Conteúdo: Morte, Abandono, Doença, Linguagem Explícita


A omissão é um terreno ardiloso, mesmo quando o preparamos com cuidado, porque nos esconde numa bolha de proteção ilusória. No fundo, não nos prepara para lidar com as situações, apenas adia o contacto, podendo ser mais sérias as repercussões. E nós vamos percebendo isso mesmo no livro de Rute Simões Ribeiro.


ETERNIDADE VS FINITUDE

A Breve História da Menina Eterna permite-nos descobrir a menina M, uma criança inocente, curiosa, com a particularidade de não conhecer a morte, porque lhe foi ocultada: talvez para ser poupada ao sofrimento, talvez porque, embora seja algo natural (mas não menos custoso por isso, é certo), continuamos a não saber como abordá-la. Apesar dos motivos, persiste um hábito: evitar envolver as crianças em assuntos complexos.

«Na ausência de realidade que lhe bastasse, decidiria fazer de conta»

Por um lado, creio que essa postura demonstra o quanto diminuímos a maturidade dos mais novos, quando lhes deveríamos disponibilizar mecanismos que os ajudassem a gerir a perda, a dor, a ausência, adaptando sempre o discurso à faixa etária e ao nível de entendimento. Por outro, parece-me que, deste modo, vão preservando a sua pureza, vivendo de uma forma mais livre, descomplicada e com medos equilibrados. Assim, fica claro que há uma forte influência cultural, que repete padrões e que nos orienta numa narrativa quase transversal. Neste contexto, ao não saber o que é a morte, M viveu a construir uma noção de eternidade.

«E se nada estiver à nossa espera?»

É uma visão falaciosa e, por isso, vamos compreendendo o impacto da sua desconstrução e os sentimentos que surgem, quando a utopia se quebra. Gostei de encontrar um narrador que conversa connosco e que nos vai lançado alguns avisos, porque sinto que aumentou o mistério e a maneira como me envolvi na narrativa. Não obstante, num momento inicial, a estrutura da narração pode parecer um pouco estranha, mas o lirismo da escrita, o tom filosófico/reflexivo e a honestidade das suas palavras fazem-nos ultrapassar qualquer barreira.

«A morte será a falta de ti, o silêncio que virá depois, o sítio onde não te 
chegarei mais, será este vazio cheio, esta saudade sem cura»

Nesta obra, a autora convida-nos a pensar sobre finitude, sobre o modo como observamos o mundo e sobre a ingenuidade que nos habita. Dentro de um ambiente de quimera, que nos inquieta pelo que não é dito, A Breve História da Menina Eterna transborda de poesia e de simbolismo, porque estas páginas leem-se num sopro, mas ficam. Além disso, é impressionante como vemos a M a florescer - e como nós renascemos com ela.


🎧 Música para acompanhar: Menina, Márcia & Samuel Uria


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Wook: eBook em Português do Brasil
Bertrand: eBook em Português do Brasil

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«O prazer da descoberta»


Os leitores não se fazem só de livros, mas também de todas as vias que preservam esse legado livrólico, porque a experiência multiplica-se de conhecimentos e sensações. No fundo, a viagem fica mais completa.

Há uns meses, quando a Bertrand partilhou um artigo sobre Museus Literários, parti à descoberta dos nomes sugeridos e deixei-o na secção dos guardados, no Instagram, já que gostaria de criar o meu itinerário. Não tinha qualquer viagem planeada, mas isso nunca foi impedimento para acrescentar pontos turísticos ao mapa.

Conhecer os lugares através de paragens literárias parece-me fabuloso e muito a minha cara. Portanto, concentrando-me apenas em possibilidades nacionais, existem cinco espaços museológicos que pretendo visitar, até porque mantêm viva «a ligação entre a literatura e o prazer da descoberta e das viagens».


CASA-MUSEU DE CAMILO CASTELO BRANCO 
[SÃO MIGUEL DE SEIDE]
«Foi mandada construir nos inícios do séc. XIX por Manuel Pinheiro Alves, um brasileiro de torna viagem. Depois da sua morte, em 1863, o escritor português veio instalar-se na mansão com Ana Plácido, onde permaneceu com certa regularidade e onde escreveu a maioria das suas obras. Foi também aqui que se suicidou a 1 de junho de 1890. Atualmente conserva mobiliário que pertenceu a Camilo Castelo Branco e à sua família, utensílios de uso pessoal, bibliografia do escritor e sobre o escritor, obras pertencentes à biblioteca particular do romancista, cartas, recortes de imprensa de teor camiliano, periódicos e peças de iconografia».


CASA FERNANDO PESSOA
[LISBOA]
«É a casa em que o poeta português viveu nos últimos 15 anos de vida, entre 1920 e 1935. Com a missão de manter vivo o legado do autor e dar a conhecer o seu singular universo criativo, mantém para além de uma exposição sobre a vida e obra do poeta, uma biblioteca de acesso livre especializada em Pessoa e em poesia internacional. Foi inaugurada a 30 de novembro de 1993, no dia do aniversário da morte do poeta, tendo o edifício sido reconstruído, segundo o projeto da arquiteta Daniela Ermano. Os livros que pertenceram a Fernando Pessoa são o maior acervo que guarda e divulga, sendo também um importante centro cultural».


FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO
[LISBOA]
«A Fundação José Saramago é uma instituição cultural privada com sede na Casa dos Bicos, na cidade de Lisboa, contando com uma delegação em Azinhaga, terra natal do escritor José Saramago. Constituída pelo próprio escritor em Junho de 2007, tem como objetivos a defesa e difusão da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a promoção da cultura em Portugal e em todo o mundo e a defesa do meio ambiente. A Casa dos Bicos, sede da instituição desde Junho 2012, oferece uma exposição permanente dedicada à vida e obra de José Saramago, intitulada A semente e os frutos, e outras atividades culturais como apresentações de livros, representações de peças de teatro, conferências e colóquios. Em Tías, na ilha espanhola de Lanzarote, pode ser visitada A Casa José Saramago, residência do escritor e de Pilar del Río até 2010».


CASA DE JOSÉ RÉGIO
[VILA DO CONDE]
«A Casa de José Régio não é um espaço museológico de base, é antes de mais a residência que o poeta escolheu para habitar após a sua aposentação, refletindo a vontade do poeta, no modo e na forma como todos os objetos se encontram dispostos nos diferentes espaços. No ano de 2005, a Câmara Municipal de Vila do Conde levou a efeito uma importante obra de beneficiação da Casa de José Régio, no sentido de garantir a estabilidade do edifício e, simultaneamente, criar condições de conservação ao importante acervo aí instalado. Paralelamente, na casa de Benilde, foi desenvolvida uma obra que visou a instalação do Centro de Estudos Regianos, para além de um conjunto de serviços de apoio à Casa de José Régio, tais como receção, sala de exposições temporárias e auditório».


MUSEU JÚLIO DINIS
[OVAR]
«O Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense tem como missão valorizar a passagem do famoso escritor português por Ovar, dando destaque à influência que esse período teve na sua obra literária, associando-lhe a preservação da típica casa vareira que ele habitou em 1863 – a Casa dos Campos. Pretende-se salvaguardar uma herança cultural local de repercussão nacional, focalizada no séc. XIX, criando condições museológicas adequadas às suas especificidades e conferindo-lhe uma leitura contemporânea».


Para complementar a aventura, deixo-vos com três roteiros que também adorava fazer:

🚶 Escritores a Norte - «Vidas com obra em casas d' escrita;

🚶 Roteiros Literários dos Açores - «Nas ilhas atlânticas dos Açores, com as suas paisagens de origem vulcânica é fácil ficar impressionado pela natureza. No entanto, esses passeios podem ganhar outros sentidos quando guiados por pessoas que lá viveram e que no seu testemunho chamam a atenção para os pormenores que alimentam a paixão pelas ilhas. Em cada ilha, deixe-se acompanhar por um escritor ou uma personalidade açoriana, pelas suas memórias e histórias e dê outros sentidos à sua viagem»;

🚶 Os Percursos de Saramago em Arcos de Valdevez - «A autarquia de Arcos de Valdevez lançou um novo roteiro turístico, inspirado nas palavras que José Saramago dedica ao concelho minhoto no livro Viagem a Portugal, publicado em 1981. Integrado ainda nas comemorações do centenário do nascimento do escritor português, celebrado em 2022, o roteiro propõe a visita a quatro dos locais mais emblemáticos do concelho, entre citações da obra e contextualizações históricas».

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