recomeçar, maría dueñas

Fotografia da minha autoria



O nome que desencadeou a mais recente edição do desafio literário que tenho com a minha amiga Sofia3 autoras para 2026 —, foi María Dueñas. Por um lado, sinto que não podíamos ter começado melhor e, por outro, na mesma proporção, acredito que se tornará uma autora de referência, de quem quererei ler tudo.


 um misto de leveza e coração ferido

Recomeçar narra a história de Blanca, professora universitária «com uma carreia consolidada» e mãe de dois filhos jovens. O seu casamento terminou com feridas expostas, o que a motiva a deixar para trás a vida que conhece e a trilhar um novo caminho. É assim que se muda para Santa Cecília, na Califórnia, «com a missão de organizar o espólio deixado por Andrés Fontana», um professor espanhol expatriado e esquecido, e que se começam a entrelaçar três vidas.

Cuidarmos da nossa paz parece sempre um capricho, dito desta forma, mas é imprescindível. E se isso implica fazer as malas e ir para longe, então, que seja. Naturalmente, essa decisão não deixa de albergar medos e dúvida, e a protagonista demonstrou-o sem grandes filtros, contudo, achei inspirador o seu lado pragmático, a visão assertiva em relação àquilo que precisava para não sucumbir. Para quem está de fora, talvez seja fácil afirmar que Blanca simplesmente fugiu, mas acredito mais que, no meio do desgosto, preferiu escolher-se e colar os estilhaços. Este amor próprio, que já tinha sentido n' O Tempo Entre Costuras, foi um dos aspetos que mais me fascinou, porque acho que se afasta de descrições unidimensionais, padronizados, como se apenas existisse uma forma de lidar com estes tipos de luto.

Não sei explicar, mas há uma calma na escrita da autora que me seduz, ainda que borde enredos intensos, com vulnerabilidade e corações feridos. E isso, se calhar, explica o facto de não sentir urgência em regressar ao livro, mas de querer ficar sempre mais um pouco assim que retomava a leitura. A construção da história é lenta, até porque se divide em narrativas paralelas, convidando-nos a descobri-la sem pressas, convidando-nos a prestar atenção a todos os detalhes, ao modo como se estreitam relações, como se unem pontas soltas, como se preenchem espaços vazios. Perante três vidas tão distintas, estava muito curiosa para perceber como é que se cruzariam e encaixariam com sentido.

«Pela primeira vez na vida, tive consciência de como é frágil aquilo que julgamos permanente, a facilidade com que o estável abre fendas e as realidades se podem volatizar com um sopro de ar que entra pela janela»

Em conversa com a Sofia, não pude deixar de concordar que este livro é capaz de nos transportar para outras obras, porque também fui reconhecendo a mesma energia, o mesmo ambiente, certas características nas personagens: Silêncio no Coração dos Pássaros, da Lénia Rufino, por causa do contexto das protagonistas (duas mulheres divorciadas a tentar refazer a sua vida), A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, por causa do mistério em torno de Fontana, e Stoner, de John Williams, por causa do ambiente académico — aliás, um dos apontamentos que fiz no meu BuJo foi, e passo a citar, que não acharia estranho se o Stoner aparecesse em algum momento da história. E só porque já tinha saudades desta energia académica, ainda que em nada se assemelhem no conteúdo, quase senti A História Secreta, de Donna Tartt, a espreitar. Estes livros divergem em muitos aspetos, mas gosto quando uma leitura nos proporciona estas pontes, por mais subtis que sejam.

Um dos aspetos fortes, para mim, prende-se com a capacidade da autora para manter as três narrativas equilibradas. Em nenhum momento passou a sensação de estar apenas a preencher páginas, antes pelo contrário, fica claro que a individualidade de cada uma delas se abrilhante à medida que compreendemos as suas ligações. Além disso, gostei da maneira como introduziu a componente histórica dos lugares, aproximando-nos de realidades que não temos tão presentes, como se nos movêssemos por territórios inacessíveis e familiares, em simultâneo. 

Recomeçar constrói-se num misto de serenidade e inquietação, sobretudo na reta final. Ao permitir-nos, ainda, refletir sobre luto, esquecimento e diferentes tipos de traição e perdão, mostra-nos que as segundas oportunidades podem surgir de várias formas, para várias pessoas, porque nunca é tarde para reconstruirmos o nosso caminho, iluminando as sombras do passado, e descobrirmos onde pertencemos.


 notas literárias
  • Desafio: 3 autoras para 2026
  • Lido entre: 3 e 10 de janeiro
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Romance
  • Banda sonora: Pa’ Todo El Año, José Alfredo Jimenez | Postdata, Joaquín Sabina

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