espias

Fotografia da minha autoria


A minha formação, sobretudo do básico ao secundário não me preparou, totalmente, para a história do meu país. Recuando a 1941, Portugal não está em guerra, mas vai-se confrontando com rostos da tragédia. Enquanto a Segunda Guerra Mundial assola o continente, nós vivemos num aparente clima de neutralidade. Não obstante, a intriga diplomática adquire força e há portugueses a servir os Aliados, outros a apoiar o Eixo e os mais ousados a prestar contas a ambos os lados. Nesta batalha silenciosa, onde é evidente a luta pela sobrevivência, percebemos que as movimentações que ocorrem na sombra não são tão inocentes, cedendo espaço à espionagem e à contrainformação.

Estávamos em 2020 quando escrevi este parágrafo introdutório sobre uma das séries que mais me marcou, até hoje, na RTP: A Espia. Cinco anos depois, numa altura em que já não estava confiante de que pudesse assistir a uma segunda temporada, eis que anunciam uma espécie de spin off desta história «de homens contada por mulheres».


 considerações após o primeiro episódio

Espias é um thriller de espionagem, gravado entre Lisboa e a Figueira da Foz, durante a Segunda Guerra Mundial, numa altura em que Portugal «serve de porto de abrigo e de placa giratória a milhares de refugiados». No entanto, o que está em jogo vai muito para além desse lado humanitário, vai ao ponto de camuflar um palco de interesses e de tentativas subtis de obter «informações vitais para vencer o conflito». É assim que uma rede de espias, recrutadas pelo MI6, entra em ação: por um lado, para descobrir o «posicionamento dos submarinos alemães na Batalha do Atlântico» e, por outro, para «iludir os Nazis sobre os planos futuros dos Aliados», enquanto Salazar «continua a enriquecer os cofres do Estado». A aparente neutralidade do país começa, então, a revelar as suas verdadeiras intenções, embora exista margem para a ambiguidade.

No primeiro episódio, recuamos a outubro de 1942 e reencontramo-nos com caras que já se tornaram familiares, com o entusiasmo de compreender quantas camadas novas trarão para o enredo. Sem querer aprofundar em demasia, dei por mim a pensar que é preciso um certo cinismo para embarcar nesta dança duvidosa: não só porque nunca sabemos quem poderá estar a mentir, mas também porque há valores que são postos em causa. Será que em algum momento se sentem a vacilar pelo peso na consciência? Ou será que estão tão treinadas para esta realidade que isso nem lhes chega a pesar?

Creio que valeu a pena esperar por Espias, sobretudo porque a atenção ao ambiente, ao preciosismo dos diálogos, à tensão social é fascinante. Estava bastante curiosa para ver até onde a ação das protagonistas escalaria e que mudanças provocariam nesta guerra — e não só porque o final do primeiro episódio me deixou completamente em suspenso.


 considerações finais sobre a série

O mundo está em guerra, mas «Portugal parece um oásis no Atlântico», muito pela sua aparente neutralidade perante o conflito. A questão é que este jogo é só uma fachada.

Com o clima de tensão a escalar, é necessário reforçar o plano de ataque e escolher os aliados com todo o cuidado, para evitar traições assombrosas. O problema é que neste ambiente de incerteza, pautado por vários encontros secretos, mensagens codificadas, chantagem (muitas vezes emocional), corrupção e tortura, nem sempre é evidente qual é o lado de cada pessoa. E esse foi, para mim, um dos pontos centrais do enredo, uma vez que tornou o desenrolar dos acontecimentos imprevisível. Aliás, no momento em que acreditávamos ter compreendido a origem da jogada e, inclusive, as motivações dos envolvidos, tiravam-nos o tapete e deixavam-nos à deriva, porque havia camadas bem mais profundas do que aquelas que nos permitiam antever. O que não é dito tem muito peso e, aqui, escondia uma mensagem que podia mudar totalmente a história.

Outro aspeto que achei curioso foi a construção emocional das personagens: com os dias a serem manobrados através de um certo cinismo e sangue frio, para não darem parte fraca e contribuírem para a luta que defendiam, há sempre um gatilho que as leva a vacilar. Mesmo quando isso não é percetível, mesmo quando isso não chega a comprometer o plano geral, acho que fica claro que todos temos um ponto fraco — e que haverá sempre alguém a aproveitar-se disso para conseguir de nós o que quer.

O constante jogo duplo e a postura de «contar muito e dizer pouco» para confundir o inimigo deixou-me, por um lado, sempre em alerta e, por outro, a duvidar de todos os protagonistas: Em quem é que podia confiar? Será que aquela personagem está apenas à espera da ocasião devida para se revelar? Que segredos é que escondem? Quantas destas informações foram implantadas para desorientar? No meio de tantas questões, fui avançando nos episódios com o coração em sobressalto, sempre à espera do pior.

Espias é uma série minuciosa, que também nos faz refletir sobre a pertinência destes esquemas pantanosos. Apesar de termos acesso a diversos pontos de vista e narrativas, nunca é fácil identificarmos aqueles que merecem o nosso apoio, porque a causa em si pode ser nobre — e queremos posicionar-nos ao lado daqueles que procuram garantir a liberdade do ser humano —, mas os meios nem sempre acompanham essa luta. Além disso, espelha a hipocrisia política e social, os jogos de poder e a facilidade com que se descartam as pessoas do nosso caminho, quando sentimos que já não nos são úteis.

Foram sete episódios muito intensos e viciantes. Preciso de uma segunda temporada.

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