entrelinhas janeiro



O compromisso de reservar publicações individuais para os livros sobre os quais tenho mais a dizer manter-se-á, em 2026, mas admito que não me estava a apetecer continuar com o nome «reviews relâmpago». Uma vez que pretendo fazer este conteúdo mensalmente, tenho liberdade para me estender um pouco mais na minha opinião (apenas não terão publicações isoladas), o que não me parecia bem alinhado com o conceito de reviews rápidas. Assim, recuperei o termo entrelinhas, que, aliás, foi o primeiro nome da minha rubrica literária.

Todas as obras portuguesas que incluir neste formato, como terão uma versão longa na Portugalid[Arte], serão acompanhadas pelo link para o respetivo número da newsletter, caso tenham interesse em ler.


entrelinhas de janeiro


Uma Falha nos Dentes, João Gesta

A Feira do Livro do Porto tem figuras incontornáveis, nomes que citamos de cor, uma vez que os reconhecemos como parte essencial da sua história, como é o caso de João Gesta, o coordenador da programação do evento. Habituada a vê-lo pela Avenida das Tílias e pela Biblioteca Municipal Almeida Garrett, senti que tinha chegado a ocasião de descobrir a sua voz poética, lendo o volume que integra a coleção elogio da sombra.

Uma Falha nos Dentes é um nome que nos transporta logo para um espaço vazio, para algo que parece estar em falta e que pode (ou necessita de) ser preenchido, quem sabe, substituído. Com textos escritos entre 1993 e 2018, e integrando alguns inéditos, não deixa de ser curioso que esta brecha seja já um convite para abraçarmos a imperfeição.

A partir do erro, ironiza, provoca, rima, satiriza, entrelaça imagens improváveis, usa trocadilhos, escreve sobre sensualidade e sexualidade sem filtros, sem temer qualquer noção do ridículo, porque está confortável na sua pele. A obra, sem estar certa disto, não me parece autobiográfica, mas creio que beba de várias experiências vividas na primeira pessoa — ou vistas na primeira pessoa — e isso torna a leitura um pouco mais íntima, visceral, até na maneira como nos arranca gargalhadas. Honestamente, acho que nunca me tinha rido tanto a ler poesia e isso, admito, tornou-se refrescante.

↠ Opinião completa: Portugalid[Arte] #127



Natureza Urbana, Joana Bértholo

Natureza Urbana apresenta-nos uma mulher cujo nome nunca chegamos a conhecer e a sua intenção de responder à pergunta «como foi que vim aqui parar?». Visto que não é capaz de contar a história de uma forma breve — palavras da narradora —, leva-nos a percorrer os seus passos, a redescobrir partes de uma vida atribulada, das dificuldades que se entranharam em cada poro da sua existência e da relação oscilante com a mãe.

É um conto que se lê num sopro, embora tenha preferido demorar-me um pouco mais nele, embalada pela necessidade que a protagonista tinha de «caminhar devagar», mas que, acredito, ressoará por dentro: primeiro, pelas mudanças recentes e, segundo, pelo tom triste que explica e justifica essa vontade de caminhar devagar, e que acaba a abrir a porta para um conjunto de acontecimentos inquietantes. Se, por um lado, parece que esta mulher abraça uma espécie de libertação, contactando com um mundo que lhe foi vedado, por outro, ecoa a sensação de serem inquebráveis as amarras que a revestem.

↠ Opinião completa: Portugalid[Arte] #128



Na Terra dos Outros, Manuel Abrantes

O título foi um dos cenários onde mais me demorei, porque acredito que acaba por ser um espelho dessa incompatibilidade entre vontade e concretização, entre o propósito com que partimos e a realidade que habitamos. Através da personagem principal, fica claro que há ali um espaço que nunca é bem seu, como se fosse figurante ou, pior, um rosto invisível numa história que sempre destacou mais a necessidade de terceiros. A função principal de Carmo era servir e, por consequência, anular-se ao máximo para que a sua presença não atrapalhasse e isso abre janelas para vários tipos de reflexões.

Na Terra dos Outros explora desigualdades, ausências, subserviência, competição e dor, mas também nos faz navegar por um lado diferente, pelo lado de quem cuida, de quem descobre o mundo com uma dose modesta de espanto (mesmo que a principal razão se prenda com a praticidade) e muda toda a sua trajetória por mais uma oportunidade, já que a história não terminou. É um livro sobre conflitos (internos e externos), relações sociais e emancipação, tudo condensado na figura de Maria do Carmo, que se colou à minha pele. Confesso, porém, que gostava de ter encontrado uma coesão maior entre as diferentes partes, porque acusei algumas transições céleres e perguntas pendentes.

↠ Opinião completa: Portugalid[Arte] #129



Paradaise, Fernanda Melchor

Os elogios rasgados à escrita de Fernanda Melchor não me passaram despercebidos e, por esse motivo, decidi que seria a minha requisição de janeiro na BiblioLED. Invertendo um pouco a ordem, fui primeiro descobrir a sua segunda obra.

Paradaise acompanha Polo, «um adolescente nascido no meio da pobreza e da violência», obrigado «a servir os ricos e a ser explorado pelo seu odioso patrão». Enquanto jardineiro num condomínio de luxo, o protagonista é a ponte entre esse ambiente sumptuoso e a «localidade mexicana de Progreso, onde vive» e de onde almeja sair, por acreditar que merece uma vida melhor. E é, precisamente, a trabalhar no Paradise que conhece Franco, descrito como alguém obeso, solitário, filho de um advogado influente e viciado em pornografia. Através desta amizade de circunstância, há muitos limites a serem transpostos.

De facto, fiquei rendida à escrita da autora, à narração que nos deixa quase em apneia e a toda a tensão que resulta da revolta, do querer ser livre e, até, da solidão. Ainda assim, como parece que tudo acontece demasiado rápido, faltou-me espaço para parar e ser impactada por esta história que tem tanto de intrigante como de horrível. Paradaise é extremamente duro, porque nos mostra que a pobreza não é apenas material e que a de espírito pode levar-nos a alinhar em planos macabros, pelo pretexto de se «obter, sem olhar a meios, o que julgam[os] merecer».

Num retrato que expõe a banalidade da violência e a complexidade do mal, bem como disparidades sociais e económicas, também achei interessante perceber como é que a história das personagens se funde com a dos lugares. Se tiverem este livro na vossa lista, mas forem mais sensíveis a linguagem bastante gráfica e explícita, vão com cuidado.

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