pátria, fernando aramburu

Fotografia da minha autoria



O livro de Fernando Aramburu foi sendo mencionado, com alguma regularidade, nas conversas sobre livros que vou tendo com o meu vizinho, que já o tinha lido e não o poupou a elogios. A minha curiosidade aumentou com o passar do tempo e percebi que não podia passar 2025 sem o descobrir. Resultado: ainda bem que deixei de adiar esta leitura.


 um épico familiar

Pátria é «o retábulo sobre mais de 30 anos da vida no País Basco sob o terrorismo». Quando a ETA anuncia que abandonará as armas, «Bittori dirige-se ao cemitério para, na sepultura do marido, Txato, (...) lhe contar que decidira voltar à casa onde tinham vivido os dois». Este contraste no cenário pareceu-me uma porta aberta para acedermos à História de uma perspetiva individual, familiar e intimista.

A primeira impressão que tive prende-se com a facilidade com que entrei na narrativa, até porque creio que traz um prisma distinto deste conflito com tantas frentes ativas, incluindo a humana. Ademais, ficamos rapidamente a perceber que existem feridas abertas há demasiado tempo, que há um certo desejo de vingança e que tudo implode pelo extremismo. E nós vamos oscilando entre «a impossibilidade de esquecer e a necessidade de perdoar».

Por outro lado, graças a este épico familiar, que opõe duas famílias marcadas pela tragédia, vivenciamos o impacto do luto e das questões políticas que parecem ter estreitado vínculos poderosos, amplamente marcantes, enquanto cada uma das personagens sustenta a sua causa num suposto bem maior.

«Fizeram-me tanto mal que não me podem fechar nenhuma ferida. Todo o meu corpo é uma ferida»

O contexto político é o fundo desta narrativa, mas agradou-me — na mesma medida que me surpreendeu — que acompanhássemos as vidas das personagens, uma vez que nos mostra as verdadeiras consequências do que estava a acontecer e que humaniza todos os cenários. Na realidade, sinto que é um livro sobre pessoas, sobre os seus medos, as suas dores e as suas crenças e, por isso, acabamos a analisar cada situação como se estivéssemos lá.

Durante a leitura, questionei-me muito sobre fanatismo, sobre a necessidade de defendermos algo cegamente, acima de todas as coisas. Onde é que isso nos leva? Ganhamos ou perdemos mais nessa abordagem? Que voz é esta que aceita extremos sem considerar que do outro lado continuam a existir pessoas? Parece surreal assumir uma postura desta magnitude e, no entanto, sem chegarmos a respostas concretas, a obra vai esbatendo algumas fronteiras e apresentando diferentes motivações que escalam para um tom de radicalismo.

Pátria oscila numa narração entre a primeira e a terceira pessoas, na qual a voz do narrador se confunde com a das personagens, para nos fazer duvidar dos nossos sentimentos em relação a cada uma delas e, talvez, para compreendermos que nenhuma decisão é linear. Explorando cenários de poder, caos, destruição, sempre com uma escrita inebriante, o autor construiu uma obra extraordinária, muito real, que nos acolhe como se lhe pertencêssemos. E o final? Absolutamente maravilhoso!


 notas literárias
  • Gatilhos: Luto, referência a suicídio; linguagem explícita
  • Lido entre: 23 e 30 de novembro
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Pontos fortes: A construção das personagens, a contextualização, ser um livro de pessoas
  • Banda sonora: Where Is My Mind?, Pixies | Ojalá, Sílvio Rodrigues | Txoria Txori, Mikel Laboa | Todo Cambia, Mercedes Sosa

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