a subtração, alia trabucco zerán

Fotografia da minha autoria



A experiência de ler o Limpa, de Alia Trabucco Zerán, foi oscilante: por um lado, adorei a narradora pouco confiável, mas, por outro, não adorei a sensação de andar em círculo. O certo é que o livro cresceu um pouco em mim com o tempo e impulsionou o regresso à escrita da autora.


 uma amizade inseparável

A Subtração é feito de trevas e de traumas, que revisitamos através de Iquela e Filipe, «filhos de ex-militares da resistência chilena», amigos inseparáveis, a sentir na pele as «sombras de morte e terror do regime de Pinochet». Quando Paloma, também ela figura central deste enredo, «regressa do exílio para repatriar o corpo de sua mãe», o trio embarca numa viagem até à Argentina.

O tom de tragédia nunca os abandona, mas é nesta travessia, à qual acresce a missão de cumprirem «a última vontade da mãe de Paloma», que recordam memórias de infância, que tentam compreender o legado que lhes foi deixado e, inclusive, que se tentam distanciar de uma herança horripilante. E é, ainda, nesta travessia que se torna evidente que o presente é um espaço confuso, turvo, mas que, de um modo imprevisível e natural, os permite encontrar uma espécie de abrigo.

Curiosamente, a narrativa talvez seja menos linear nesta obra, exigindo uma concentração maior para acompanhar a mudança de perspetivas/vozes, já que não temos apenas um narrador, mas senti-me muito mais envolvida, muito mais presa às situações, provavelmente devido às personagens tão imperfeitas, impactantes e reais.

«Resisti ao silêncio fazendo uma lista mental desse espaço, evitando assim que o desconforto se refletisse nos meus olhos, sempre incapazes de disfarçar»

Este livro tinha tudo para ser apenas escuridão — e não deixa de a evidenciar —, mas encontra a sua luz no modo como Iquela, Filipe e Paloma interagem, avançam, se entregam às suas missões individuais; no modo como transformam o luto em partilha, em resistência e, acima de tudo, em lembrança. Houve muitos anónimos a morrer por causa da ditadura e isso não pode cair no esquecimento.

A Subtração tem um significado surpreendente e desarmou-me pelo retrato tão credível destas personagens (que, na realidade, representam uma sociedade inteira). Entre destroços e reconciliação, há cicatrizes que não perdem voz.


 notas literárias
  • Gatilhos: Luto, linguagem explícita
  • Lido entre: 17 e 20 de novembro
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Pontos fortes: A abordagem dos temas, a humanidade das personagens, o facto de serem uma ponte tão evidente com a sociedade da altura
  • Banda sonora: Labyrinthine, Julianna Barwick | Desafío, Arca | The Carpathians, Ben Frost | Con Toda Palabra, Lhasa de Sela

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