o avesso da pele, jeferson tenório

Fotografia da minha autoria



O livro de Jeferson Tenório foi-me aparecendo um pouco por todo o lado, mas havia sempre algo a adiar este encontro, quase como se fosse um sinal de que ainda não era o momento de o ler. Felizmente, em dezembro, alinhamo-nos e percebi que é um autor para continuar a acompanhar.


 o lado mais visceral do ser humano

O Avesso da Pele é uma conversa particular entre Pedro e o pai. E digo particular porque o pai faleceu e o narrador sente necessidade de o interpelar em relação a determinados acontecimentos/sentimentos, enquanto, indiretamente, nos leva numa viagem de autodescoberta.

Comecei a ler em público e acho que só por esse motivo é que fui capaz de controlar as lágrimas que estavam prestes a formar-se logo na primeira página. Há inícios que nos desorganizam por dentro e este conseguiu-o de um modo ainda mais intenso, porque é impactante, melancólico, poético, comovente e intimista, tudo em simultâneo. Portanto, fiquei logo destruída, mas muito curiosa para perceber o que viria a seguir, que novas camadas emocionais explanaria.

A partir da relação entre pai e filho, e acompanhando uma linha cronológica que nos permite conhecer várias fases da vida dos pais, o autor estende o enredo para refletir sobre identidade, intimidade e raça, fazendo-o através das personagens e de um modo natural, credível.

«Eu queria ter morado num pensamento teu como uma forma de amor. Um amor entre pais e filhos. Um amor intelectual, silencioso e delicado. Mas eu tenho a morte de um pai ainda muito próxima. Acho que inventei uma memória sobre você sem a distância e a maturidade necessárias. Sei disso, mas a minha ingenuidade é tudo que tenho. Esta história é ainda a história de uma ferida aberta. É uma história para me curar da falta daquilo que você, repentinamente, deixou de ser»

A escrita é muito pessoal e bonita, e acredito que o uso da segunda pessoa nos aproxima ainda mais de Pedro, das suas emoções, porque, sem esforço, sentimo-nos ao seu lado a viver, a ver tudo a acontecer, a gerir as ausências, as dores, os medos. Além disso, sem qualquer moralismo ou condescendência, também nos confronta com o privilégio de não sofrermos na pele o peso da desigualdade.

O Avesso da Pele floresce da empatia e do equilíbrio entre temas cruciais para a sociedade e relações humanas. Num misto de comoção e revolta, vai-nos lendo por dentro.


 notas literárias
  • Gatilhos: Racismo, violência, abuso, abandono, drogas
  • Lido entre: 4 e 6 de dezembro
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Pontos fortes: A musicalidade da escrita, a ausência de filtros, as temáticas, o traço intimista
  • Banda sonora: Abundantemente Morte, Luiz Melodia | Ao Que Vai Nascer, Milton Nascimento | Imagens, Jards Macalé | Lágrimas Negras, Gal Costa 

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