Entre Margens

Fotografia da minha autoria



«(...) a força da gravidade que estatela os corpos no chão»

Avisos de Conteúdo: Referência a Bulimia e Suicídio, Linguagem Explícita


Dulce Maria Cardoso entrou na minha vida com O Retorno e escalou, rapidamente, para o meu grupo de autores favoritos, porque a sua escrita é maravilhosa. Assim, assumi o compromisso de ler toda a sua obra.


ONDE CABE O (DES)AMOR

O Chão dos Pardais é feito de várias histórias e com muitas vozes dentro. É por esse motivo que ficamos a conhecer Afonso e Alice, Clara e Manuel, Sofia e Júlio, Eugénia e Elisaveta. Os elos que interligam os seus caminhos são imprevisíveis e complexos. E vamos perceber que, embora a narrativa se centre neles, o enredo não se limita às suas vivências: no fundo, é sobre todos nós e sobre o quanto as nossas vidas são imperfeitas.

«Fala muitas vezes sozinha. Terá sido por isso que 
ganhou o hábito de deixar as frases por acabar»

O que mais me fascinou neste livro foi a sua aparente simplicidade e o facto de não existir só um protagonista, mas de os intervenientes irem dividindo palco consoante as circunstâncias. Nesta história, há um profundo vazio, indiferença e falta de amor, há várias maneiras de comunicar e de manter o silêncio e há vários tipos de relações condenadas. Pelo meio, acompanhamos uma série de conflitos internos que poderiam pertencer-nos.

«Pensa que um abraço não pode aleijar assim. Mas aleija»

Tenho de confessar que senti falta de um pouco mais de desenvolvimento em relação a algumas personagens, porque fiquei com questões pendentes, porque queria saber mais sobre os seus futuros. Deambulando por cenários distintos e disfuncionais, compreendemos que, apesar de todo o drama existente, continuamos a resistir. E que, por mais curvilínea que seja a estrada, estamos sempre à procura de um propósito - e de amor.


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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«Eu juro se pudesse
Voltava já para trás
O tempo anda, eu não noto
Mas sei que ainda gosto
De te ver a chegar aqui

Mas se um dia não voltas
Eu vou ficar sem notas
Para te cantar canções
Eu quero ser mais forte
Mas se o coração bate
Mais rápido por nós

[...]

À noite quando falas
O meu coração diz que sim
Depois entre as palavras
Respiras e eu deitada
Imagino-me ao pé de ti

Diz-me se é defeito
Querer-te tanto, eu sei que
Por vezes falo até de mais
Só que quando eu me deito
Ainda penso e sei que
Contigo é o meu lugar

[...]

Diz-me se é para sempre
Ou por vezes pensas no tempo
Em que andamos sempre os dois
Onde estás?

Ainda me lembro das frases
Ainda me lembro, não pares
Não pares, não

Não te quis largar, foi o vento
Que me tirou do lugar certo
E eu agora não sei voltar»

Fotografia da minha autoria



«Um romance baseado numa história real»

Avisos de Conteúdo: Violência Doméstica, Depressão, Morte


A minha infância, do pouco que me recordo, foi tranquila e saudável, sobretudo, no que diz respeito ao ambiente familiar, pautado por dinâmicas funcionais, muito amor e respeito entre todos. Foi com estes alicerces que cresci, por isso, não posso fingir que compreendo a mágoa de um filho que é vítima de um cenário de horror constante. Mas sei que ler o livro de Nelson Nunes tornou-se importante por esse mesmo motivo.


UMA CARTA DE AMOR, UMA HISTÓRIA DE SALVAÇÃO

Preciosa é um relato duro e desarmante, de alguém que já poderia não estar aqui para partilhar todos estes episódios que o moldaram, que lhe mostraram que o ser humano consegue ser protagonista de atos hediondos, mas que há quem se recuse a seguir esta linha e que seja um verdadeiro exemplo de coragem.

«Quando há medo, tudo o que habita fora dele não existe»

Creio que deve existir um grande sentido de empatia pelo próximo para que se revisitem assuntos tão privados, cujas feridas e traumas talvez nunca venham a sarar por completo. É através da visão de Marco que conhecemos a infância e a adolescência do autor, que é, também ela, um espelho da realidade de várias famílias, onde o medo, a instabilidade emocional, as agressões e a ausência de liberdade são dialetos transversais. Com um certo distanciamento, Nelson Nunes expõe o seu tormento de uma maneira muito lúcida.

«O resultado está à vista de todos e é por isso que o escrevo. De maneira a que se entenda que, quanto tudo parece prestes a desmoronar-se, a acção de um único ser humano pode ser capaz de transformar o mundo à sua volta...»

Aninhei-me a ler esta história e senti-me pequena. Aliás, acho que não é possível avançar nesta leitura com outra sensação, quando é evidente que continuamos a falhar enquanto sociedade; quando é evidente que nem dentro de quatro paredes há segurança, conforto e uma noção fidedigna de lar. Quando uma das pessoas que mais nos deveria proteger é fonte permanente de traumas, como é que se sobrevive? Como é que se consegue andar na rua sem se olhar sempre por cima do ombro, à espera que o pior desfecho se concretize?

«Tinha diante de si a prova de que estava sozinha 
e à mercê do monstro. Ou fugia ou deixava-se matar»

Esmeralda é exemplo de resiliência e comprova que a salvação é possível. Mas nem todas as mulheres conseguem fugir desta toxicidade, ainda são demasiadas as que morrem às mãos de um cobarde e de um sistema que retira qualquer esperança de justiça, de paz. Ainda assim, é possível escrever uma história diferente, se não fecharmos os olhos, se não nos tornarmos «cúmplices pela ausência». Por isso, sinto que a mensagem é crucial, porque pode despertar mecanismos de defesa, sem nunca ocultar que o caminho é difícil.

«Qualquer agressão é um acto de cobardia. Não apenas por diminuir fisicamente a vítima, 
mas por querer exibir, de forma cruel e descarada, que se é melhor do que o outro»

Estava à espera de encontrar outra estrutura narrativa, com menos saltos cronológicos e no tipo de narrador. No entanto, é um livro imprescindível, que nos alerta para uma realidade ainda invisível, da perspetiva de quem, muitas vezes, não tem voz. Sem floreados, sem qualquer pretensão de camuflar a dor extrema, Preciosa reveste-se com um fundo de amor e com uma história de salvação com o condão de nos reerguer.


🎧 Música para acompanhar: Tempestade, Carolina Deslandes
📖 Do mesmo autor, li e recomendo: Com o Humor Não se Brinca


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Bertrand: Livro | eBook

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- título sugerido por O Último Fecha a Porta -


A casa está desértica. Entram tímidos raios de luz amarela, mas parece cadavérica, uma autêntica ruína do tempo, como se tivesse passado por aqui um furacão, com molduras inclinadas, paredes rachadas e espaços vazios; e já sem qualquer retrato que demonstre uma réstia da vida que existiu dentro destas quatro paredes.

O cenário é frio. Luminoso, pela localização, mas bastante gélido. E eu sinto-me uma estrangeira ao percorrê-lo. O silêncio que, outrora, foi conforto é, hoje, um campo de batalha sem a mínima possibilidade de se reconstruir. Por maior que fosse a vontade, não restou alguém para limpar os destroços - nem mesmo eu.

Sentei-me na única poltrona disponível, num tom de caramelo salgado que adoçou muitas das nossas memórias, a recordar um passado que me parece demasiado longínquo. Olho à minha volta e sinto que nunca habitei este chão. Será que criamos morada num lugar que cremos não nos pertencer? Será que algum dia esta foi a nossa história? Há sempre um apontamento de mágoa que me parece fruto de um longo pesadelo.

Decido levantar-me e percorrer o corredor estreito, que sempre constatei ser demasiado pequeno para os nossos sonhos de algibeira, mas excessivamente largo para o sofrimento de um embate violento. Prossigo e entro no primeiro quarto: imperfeito, desnudo de traços humanos, ainda que tenha reencontrado um álbum fotográfico aberto em cima da cama, na posição em que o larguei, quando as lágrimas se tornaram insuportáveis e eu prestes a sucumbir. Vi-nos em fotografias mentirosas, que recordam passeios à beira-mar, tardes de cinema e viagens pelo mundo. Não sei quem são estas pessoas. Certamente, já não somos nós.

No dia em que me levantaste a mão, prometi não voltar. Recuei. Não por medo, não por pena, muito menos por esperança na redenção. Voltei por despeito, para provar que o apocalipse que criaste não seria unilateral.

Escolhi o caos à condescendência e nunca me calei. Regressei, agora, a uma casa vazia, apenas para garantir que compreendeste a força da minha voz. Penso que me ouviste, por isso, foste embora, mas não sem antes voltares a escolher a destruição: desta vez, já não foi o meu corpo a arcar com as consequências da tua ira.

Abro as janelas para expiar fantasmas e nódoas negras. Encaminho-me para a cozinha, para vasculhar o frigorífico, porque as memórias são amargas, mas há gelado no fundo da gaveta - de caramelo salgado, porque o destino é irónico. Observo-me, como se estivesse fora do meu corpo, como se esta realidade não fosse minha. Não consigo ir embora. Afinal, contra tudo o que pensei, um novo futuro será escrito nesta casa.  

Fotografia da minha autoria



«Ser filha, ser mãe e todos os sentimentos desmesurados pelo meio»

Avisos de Conteúdo: Linguagem/Cenas Explícitas, Morte


A vida parece uma repetição de ciclos. Quando vivemos experiências semelhantes a quem nos é próximo, ficamos com perspetivas distintas, quase como se soubéssemos o antes e o depois. Assim, deixei-me envolver nesta dança narrada no livro de Tati Bernardi, que foi a minha escolha para o Clube Leituras Descomplicadas.


REVISITAR PAPÉIS

Você Nunca Mais Vai Ficar Sozinha, ao contrário do que esperava, não um livro de não ficção: é um romance que nos permite conhecer Karine, uma mulher de 35 anos, grávida. E esta nova fase é-nos relatada ao longo de várias consultas com a sua enfermeira, que servem de impulso para refletir sobre uma série de memórias.

«Agora não dá tempo de cair. Pular da janela está programado para quando meu filho estiver indo pra faculdade. 
Me desesperar, estou sem horário nesse semestre. Crise de pânico, tentei encaixar, mas não encontrei data»

Ri-me muito com a protagonista, porque tem uma forma descomplicada de ver o mundo, ainda que também se revista de inseguranças e de medos. Inclusive, acho que o que torna este livro tão especial é mesmo o equilíbrio entre a tristeza e o sarcasmo, entre a angústia e a tentativa de amenizar os receios e as preocupações. Karine é despretensiosa e as coisas são como são, por isso, em nenhum momento faz por romancear o que lhe acontece e o que pensa, nem sequer filtra a sua personalidade. Nascida «numa família disfuncional», acaba por revisitar o seu papel enquanto filha, agora que está a pouco tempo de se tornar mãe.

«Já tenho preguiça da opinião do vizinho, da crítica da avó, 
do revirar de olhos das pessoas sem filhos na ponte aérea»

Por falar em mãe, esta narrativa é um retrato fabuloso deste vínculo familiar, em específico, uma vez que nos mostra uma dinâmica conturbada, que oscila entre o amor e a raiva, entre a dependência, a loucura e atos de pura rebeldia. Além disso, mostra-nos o quanto nos vamos moldando através destas relações afetivas. Portanto, embora exista um cenário de inquietude, com alguns traços neuróticos, o título da obra demonstra o destino da personagem - consoante a ocasião, isso talvez pareça mais uma prisão do que um estado de graça.

«Fui entendendo que só meu corpo falho, sobretudo falhando, poderia receber amor»

Você Nunca Mais Vai Ficar Sozinha está escrito com humor, mas é nesse tom que explora expectativas, traumas, transformações corporais e o peso da solidão, porque a maternidade não é linear e porque, no meio de um caminho assustador, há espaço para que cada pessoa se redescubra e se liberte dos seus fantasmas.


🎧 Música para acompanhar: Lugar Certo, Iolanda


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Wook: Livro | eBook [português do Brasil]
Bertrand: Livro | eBook [português do Brasil]

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«Mesmo que a vida nos separe
Eu quero ver-te pela casa
Com o pé descalço
Estavas tão bem do meu lado
Antes olhava para as estrelas
Hoje entre nós só há espaço
Estamos no mesmo caminho
À distância de um abraço
Porque o tempo é infinito
Mas com ela passa tão rápido

[...]

Quanto estou contigo o tempo é ágil
E não está fácil para mim
Não pensar em ti então sai
Da minha cabeça que com tanto peso ela cai
Mas o problema é mesmo não saber onde vai

[...]

Tristeza aqui já não cabe
Enquanto tu estiveres nos meus braços»

Fotografia da minha autoria



«Cativante e imersiva»

Avisos de Conteúdo: Morte, Luto, Violência Doméstica


Os elos de amizade são, inúmeras vezes, a nossa tábua de salvação. No entanto, não estão isentos de percalços, nem se inibem de serem vocais em relação ao que não funciona, porque há um nível de conforto que impede filtros. E é precisamente isso que encontramos no livro de estreia de Valentina Silva Ferreira.


DUAS MULHERES UNIDAS PELO DESTINO

Vertigens é uma viagem feita em duas linhas temporais: o presente e o passado, em finais dos anos 70. Comum a ambas, temos o Caniço, «uma cidade costeira na ilha da Madeira», e as protagonistas desta narrativa singular, Ana Clara e Anita, duas vizinhas que, solitárias, desenvolveram «uma amizade inesperada».

«Não estou sozinha, nunca estarei sozinha, tenho este anjo às costas, que me pressiona os nós 
do pescoço e murmura um fio de história, baixo o suficiente para eu ser a única que o ouve»

A forma como as duas mulheres cruzam os seus caminhos tem laivos de destino, ainda que pareça surreal colocar as coisas nestes termos, mas a verdade é que precisaram de estar no lugar certo, à hora certa, para que a vida de ambas mudasse para sempre. Movidas por uma vontade imensa de compreender uma realidade antiga e de quebrar as amarras que as prendiam, fizeram das suas fragilidades um impulso para voarem dali.

«Seríamos mais felizes se comunicássemos em silêncio. O barulho dói, 
o movimento dói e no silêncio cabem todos os vocábulos necessários para sermos inteiros»

É impressionante como, no meio do silêncio e da liberdade que procuram alcançar, existem histórias duras, vertiginosas e resilientes a serem tecidas com laços inquebráveis; é fascinante como de uma aparente fraqueza encontram força suficiente para que o futuro não seja um mero presságio evocado por terceiros.

«-Às vezes, não falar é um ato de resistência»

Nesta obra, que transborda de uma honestidade desarmante, fiquei encantada com o enredo e com a construção das personagens: humanas, a destacar o melhor e o pior que cada um de nós pode carregar dentro de si. Poderia ser um relato belo do quanto a amizade nos salva - e não deixa de o ser -, mas é, acima de tudo, uma lição de vida. Porque, mesmo perante um elo de sororidade, sabemos que nem sempre remamos numa direção comum; verificamos que partilhamos amor, mas que talvez seja maior o que une a nossa dor.

«A gratidão também é sinónimo de amor»

Vertigens é uma história sobre perdão. E, por isso, é uma narrativa que emociona, que nos faz sentir cada pulsar. Reconheço que houve passagens que me pareceram um pouco desconexas, mas é um livro maravilhoso, até porque nos permite refletir sobre o papel da mulher, crenças, ciclos abusivos e saúde mental. Com uma escrita poética e com jogos de luz, há muitas coisas que pairam para além do que fica escrito.


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Fotografias da minha autoria



«Cozinhar é como tecer um delicado manto»


A secção dos guardados, no meu Instagram, é uma panóplia de várias coisas: livros, eventos e publicações inspiradoras, pois agrego tudo o que me parece útil. Por isso, lá pelo meio, também encontro algumas receitas.

Uma vez que a minha relação com a cozinha não é a mais estreita, prefiro sempre propostas descomplicadas, para ganhar confiança aos poucos, que resultem melhor como pequeno-almoço ou como lanche. A que trago, hoje, cumpre todos estes requisitos basilares [e básicos] e já andava há imenso tempo para a tentar replicar.

A receita em questão pertence à Nadia - Nadia's Healthy Kitchen - e é nada mais nada menos do que taças de aveia e chocolate com manteiga de amendoim - mas adaptada, porque não segui todos os seus passos.


INGREDIENTES

- 70 gramas de flocos de aveia;
- 2 colheres de sopa de manteiga de amendoim;
- 70 gramas de chocolate negro.


MODO DE PREPARAÇÃO

- Misturar os flocos de aveia com a manteiga de amendoim;
- Pressionar um pouco do preparado numa forma de silicone, de modo a criar a primeira camada;
- Para a camada intermédia, espelhar manteiga de amendoim;
- Derreter o chocolate;
- Cobrir as duas camadas com o chocolate derretido;
- Repetir o processo até encher todas as formas de silicone;
- Levar ao frigorífico para endurecer.



NOTA

- A receita rende para seis formas de silicone;
- Podem usar formas de cupcake ou, até, fazer a receita em formato de pão;
- Para a primeira camada, podem acrescentar sal para ativar os sabores;
- Podem substituir a manteiga de amendoim por tahine.

Fotografia da minha autoria



«Esta ideia de que havia uma espécie de fio invisível a ligar as filhas aos pais faz sentido»

Avisos de Conteúdo: Morte, Ausência Parental


O envelope trazia um manuscrito, um sonho e um gesto de tremenda generosidade. A Rita da Nova escreveu o seu primeiro livro de ficção, com lançamento a 15 de fevereiro, e ofereceu-me a possibilidade de o ler ainda durante o período de pré-venda. Vibro muito com as conquistas das minhas pessoas e de pessoas que me inspiram, como é o caso da Rita, por isso, foi mesmo de coração cheio que embarquei nesta narrativa.


UM LUGAR SOLITÁRIO

As Coisas Que Faltam é a história da Ana Luís, uma menina de oito anos que não conheceu o pai, porque nunca lhe foi concedida essa permissão por parte da mãe. Por esse motivo, é também um passaporte emocional para todas as respostas que procuramos, para todos os nós que vamos tentando atar na nossa história, para que nada seja ao acaso, ilógico. Em simultâneo, foi tantas vezes chão e tantas vezes colo.

«Sabia estas questões de cor porque as fazia todas as noites 
antes de adormecer, mas apenas de mim para mim»

A personagem principal não nos apaixona desde o início, talvez até nos provoque uma certa distância pela forma como gere diversas situações e conflitos internos, mas acompanhei-a de peito apertado e com alguma dose de esperança; acompanhei-a, inclusive, com algum fascínio pela sua passividade. E terminei completamente rendida, porque, para mim, foi importante entender que não era uma personagem apenas construída para este enredo. Assim, dei por mim a colocar-me no lugar da Ana Luís, a tentar sentir como seria viver a minha vida toda sem uma figura paterna. E desabei, pois tenho no meu pai um dos meus maiores pilares. Por outro lado, quis muito que ela viesse para o meu lado e sentisse todo este amor que lhe faltou.

«Como se houvesse uma idade certa para sentirmos que nos falta algo»

A escrita da Rita é cuidada, mas próxima o suficiente para nos sentirmos perto da protagonista. E sem lhe conhecer a voz, escutei-lhe este desabafo sobre o quanto a ausência de respostas pode ser um lugar solitário.


UM LIVRO TOCANTE

Os ecos do silêncio, mesmo quando tentamos unir as peças, também nos permitem refletir sobre os elos que moldam a nossa jornada, sobre a beleza que existe na vulnerabilidade, sobre a própria noção de família e sobre aqueles que caminham no mesmo compasso que nós e que têm uma forma menos afetuosa de demonstrar o quanto nos amam. Porque, é inevitável, passamos a vida a errar, mas a dar o nosso melhor.

«Analisando melhor, provavelmente haveria até mais significado 
no não dito do que nas parcas palavras que me dirigiu»

Este livro é tocante por ser tão real, por nos mostrar personagens imperfeitas e credíveis. Sem qualquer tentativa de embelezar a dor, as ausências e as falhas, torna-se evidente que, aqui, ninguém está completo e que existem vazios a exigir cedência e compromisso. Além disso, achei muito bonita a maneira como a personagem principal percebe as motivações da sua progenitora. Acredito que crescer também é isto.

«Um pássaro pode ser capaz de voar com uma asa ferida, 
mas não se as duas estiverem desfeitas»

É impressionante como nos pode pesar tanto o que não conhecemos e como há ciclos que, inconscientemente, tendemos a repetir. Mas, no meio de tudo o que sentimos estar em falta, vamos compreendendo o que nos pertence, qual é o nosso lugar. As Coisas Que Faltam é tudo o que nos representa.


🎧 Música para acompanhar: Love Me More, Sam Smith
📖 Da mesma autora, li e recomendo: Terapia de Casal 


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Fotografia da minha autoria



«O gosto pela escrita cresce à medida que se escreve»


A minha liberdade tem inúmeras formas e uma delas é o gesto continuado de agregar letras e frases numa folha em branco. Além disso, é parte do meu processo criativo e de uma paixão que, acredito, já nasceu comigo. Por isso, continuo a escrever à mão: as publicações do blogue, os meus contos, a minha poesia.

O ano passado, partilhei os meus essenciais de escrita. Com uns dias de atraso, resolvi atualizar esta lista: porque ainda utilizo a maioria dos artigos mencionados e porque lhes acrescentei novas aquisições.


BULLET JOURNAL LITERÁRIO

Numa versão nova, mas com o mesmo propósito: registar tudo o que diga respeito às minhas leituras, 
desde pensamentos até estatísticas que me pareçam relevantes.



AGENDA 2023

Para este ano, escolhi a agenda da Clara Não, quer pelo design, quer pela dose certa de realismo 
e amor próprio. Em simultâneo, tem uma vista semanal que, para mim, é mais apropriada.



CADERNO MICKEY

Foi uma prenda de Natal e tem sido um companheiro valioso para registar tudo o que vai acontecendo na minha vida, nas mais diversas situações. É quase como se fosse um diário, mas mais centrado.



CADERNO PRINCIPEZINHO

Para trabalhar no meu manuscrito em construção, que está a ser revisto, 
de modo a garantir que engloba os poemas que mais me fazem sentido.



CADERNO HOGWARTS

O artigo selecionado para me dedicar à escrita de contos, 
respondendo ao desafio a que me propus: Um título por um conto.



CURAR ATRAVÉS DAS PALAVRAS

O livro mais recente de Rupi Kaur, com vários exercícios de escrita. 
Estou a descobri-lo lentamente e a deixar-me mergulhar nas propostas, de modo a desafiar-me 
e a explorar caminhos que, talvez, de outra forma não seguiria.

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