Entre Margens

Fotografia da minha autoria



«Se soubesse como era
sentir-me segura»


De um riso o meu chão se desfez em lágrimas
Por um amor perdido, traído, como se o mundo
Estivesse perto de ruir pela falha
Pela mágoa que dilacera o meu peito ardente
Como garra de leão, enjaulado, em apuros
Procurando uma saída, um pedaço de luz
Que lhe conceda um pouco de paz
E no meio de uma centena de estilhaços
Caí desamparada na revolta
Humilhada pelo olhar mortificado
Como prata de um garfo deitado ao lixo
Ó meu ardente céu azul
Meus olhos de água em sofrimento
Perdi-me de mim no meio de um descampado
Barulhento, oscilante, tão desconexo da minha dor
E enquanto a minha dignidade se despedaçava
O mundo continuava a girar
A seguir sem empatia pela vida que eu
Perdia diante dos meus olhos
Mas como uma borboleta
Hei-de renascer, voar adiante
Para lá da nuvem de breu
Que encerra a minha tempestade
E como jóia sem qualquer valor
Perdida em mentiras vãs
É só mais um segundo que enfrento
Até que o relógio deixe de bater

Fotografia da minha autoria



«O que aqui se escreve é para as pessoas»

Avisos de Conteúdo: Referência a Morte, Perda


A Inês Meneses, nas palavras de Valter Hugo Mãe, é a mais perigosa das mulheres, porque nos fica com o coração e eu consigo compreender esta imagem. O seu nome tornou-se familiar, mas sem ser próximo, e foi ao escutar o podcast O Coração Ainda Bate que percebi que queria ler tudo o que fosse da sua autoria.


ISTO É SOBRE A VIDA

Caderno de Encargos Sentimentais é uma compilação de pensamentos, sensações e reflexões do quotidiano, que não precisa de ser lida por uma ordem sequencial, atendendo a que os textos são todos independentes. Apesar de o ter feito, gosto quando um livro nos permite esta liberdade, porque torna a experiência mais íntima.

«Respeito tanto a bênção de termos comida à mesa 
que a isso junto música, e depois, sempre, um brinde»

Numa entrevista dada ao JN, a jornalista e radialista referiu que «temos uma relação muito engraçada com a literatura», uma vez que pensamos «que tem de ser complexa para nos validar», e contrapõe com um argumento que, no meu ponto de vista, descreve bem esta obra, porque a literatura «deve ir direta ao coração das pessoas sem grandes fantasias ou universos por descodificar». Assim, sem qualquer pudor de dizer o que sente, afasta-se de uma escrita polida, mas preserva um toque a poesia, ainda que se manifeste em prosa.

«De todas as coisas fortes que já experimentei, a mais desafiante é ser sincera»

Este livro, que me arrebatou na primeira página, tem lugar para vários assuntos, para partilhas mais profundas ou, até, para os lugares comuns; sobretudo, tem espaço para sermos e para nos comovermos. Além disso, a ponte que estabelece com a música torna a leitura mais entusiasmante. Neste híbrido, que reúne tantos géneros e memórias, percebe-se que o pulsar é sobre a vida, dando-nos fôlego para a aproveitarmos melhor.


🎧 Música para acompanhar: É P'ra Amanhã, António Variações


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«Preparem-se para uma experiência surpreendente»


O meu Porto de mil encantos tem, no Parque da Cidade, um acesso privilegiado a experiências bastante diversificadas e únicas. Uma delas acontece no Pavilhão da Água, que proporciona «um mergulho no conhecimento», podendo ser partilhado em família ou entre amigos, porque tem atividades para várias idades.

Por questões profissionais, tive a oportunidade de visitar o edifício pela segunda vez. Num intervalo de quatro anos entre as duas ocasiões, salvo erro, confesso que já não tinha presente todos os espaços disponíveis, portanto, este reencontro teve sabor a estreia - e penso que também sofreu algumas renovações, que vieram acrescentar uma maior interatividade nas dinâmicas e maior equilíbrio entre «diversão e aprendizagem».


No Pavilhão da Água é tudo pensado ao detalhe, por isso é que a visita é divida em três áreas distintas, tendo o rio como fio condutor. Esta estrutura permite debater a importância da água, as suas propriedades, a ligação dos portugueses aos rios e ao mar, fenómenos naturais e a força da água para produzir energia elétrica.

Iniciamos a exploração numa sala imersiva, «que atravessa montanhas, planícies e oceanos», e deixamo-nos guiar, depois, por algumas brincadeiras e experiências, para assimilar a informação transmitida no filme.

   

Para além da exposição permanente, existem workshops de verão, laboratórios adequados a diferentes faixas etárias e, ainda, a possibilidade de realizar festas de aniversário. Em simultâneo, o Pavilhão promove o Programa Bandeira Azul e desenvolveu o projeto H2Out, com o intuito de levar os laboratórios realizados nas instalações a escolas, empresas e instituições. Com a pandemia, estenderam a sua intervenção ao digital.

No site, podem consultar curiosidades, aceder à newsletter, ler notícias e saber todas as informações necessárias para marcarem a vossa visita (os preços variam consoante a modalidade desejada).


Sabias que os ventos num tornado podem atingir mais de 400 km por hora? Sabes para que serve uma barragem de retenção? Podes descobrir isto e muito mais no Pavilhão da Água, até porque, «do alto das penedias, um pequeno arroio ganha força e corrente». E a água, com as suas formas, dá «vida à Natureza».

Fotografia da minha autoria



«Uma vida comum, com altos e baixos»

Avisos de Conteúdo: Referência a Violência Doméstica, Morte, 
Luto, Episódios de Bullying e Ansiedade


O meu interesse por novelas gráficas tem aumentado e, dentro do género, há títulos que me chamam logo à atenção. Quando comecei a ver partilhas sobre o lançamento mais recente da Raquel Sem Interesse, adicionei-o à minha lista de desejos, com o intuito de o adquirir na Feira do Livro do Porto, no entanto, quis o destino - ou, melhor dizendo, o saldo da Wook a expirar - que nos cruzássemos mais cedo. E ainda bem.


UMA HISTÓRIA TRANSVERSAL

E Agora? concentra-se nos altos e baixos da vida da Raquel, nas alegrias, nos contratempos e nos desgostos que tem de superar. Enquanto «saltita de um emprego precário para outro», procura por oportunidades que teimam em não chegar, o que contribui para uma sensação de instabilidade e insegurança constantes.

«Nunca percebi como é possível viver assim uma vida inteira»

Os nossos percursos são diferentes, mas existem traços que se tornam transversais, porque todos nós, em algum momento, já sentimos as angústias aqui espelhadas. Com um traço que cativa e um discurso bastante franco, também me senti representada no desnorte e na perda, no futuro penhorado de alguém que tenta manter na mesma bagagem as responsabilidades que adquire com o tempo e os sonhos que tenta não perder; senti-me representada no medo, nas desilusões e nas pequenas vitórias que nos motivam a continuar.

«Era uma rotina intensa e regressar a casa era a minha parte favorita do dia!»

Dividido em quatro capítulos, cada um com uma cor própria, E Agora? recupera memórias e ligações afetivas que moldaram a sua história, explora cenários de dor e de amor, evidencia mudanças, problemas e o seu processo criativo. Encaminhando-nos desde a sua infância até à idade adulta, este livro funciona como uma catarse. Além disso, é um retrato intimista de uma vida comum, que poderia muito bem ser a nossa.


🎧 Música para acompanhar: Agora Vira, Edmundo Inácio


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«Nunca pedi emprestado
Para não ficar a dever
Já dizia a minha mãe
Pobre de quem se atreveu
De viver para inglês ver

Eu não quero discutir
Com quem não pode aprender
Num país desinformado
Governo desgovernado
E dívidas para abater

[...]

Fiz as malas e parti
Cá não dava para ascender
Investi no meu ensino
Da carteira fiquei fino
E o dinheiro vim cá meter

[...]

Vivemos numa sociedade
Onde o pensador vira aldrabão
Andamos por aqui desorientados
Com nossos tostões contados
E ninguém nos dá a mão

E agora vira a nossa vida
Porque assim tem de ser
Para pagar aquela dívida
Que custa a perceber»

Fotografia da minha autoria



«O verão está a chegar ao fim»

Avisos de Conteúdo: Morte, Cenas Explícitas, Relações Tóxicas


A Livraria Flâneur, na reta final de março, anunciou a chegada do novo livro de Ana Pessoa (e Bernardo P. Carvalho nas ilustrações). A capa laranja e o desenho de um corneto, aludindo ao verão, deixaram-me intrigada, porém, foi o tema central que me fez acrescentá-lo à lista de títulos para descobrir com urgência.


CHEGAR À NOSSA MARGEM

Mar Negro é o 100º livro editado pela Planeta Tangerina e volta a reunir Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho, numa novela gráfica que aborda o tema da identidade. Transportando-nos até ao Conchas, o bar da praia onde trabalham os protagonistas (e que é o cenário da cena final de Desvio, a obra anterior desta dupla), ficamos a conhecer JP, Inês e tudo aquilo que os diferencia, até que um acontecimento dramático acaba por os unir.

«Trabalhámos juntos o verão inteiro e não sei nada sobre ti»

A adolescência, a um passo da idade adulta, pode manifestar desafios complexos, sobretudo, quando não estamos seguros de quem somos. Assim, neste enredo, exploramos uma sensação constante de desnorte, a tentativa de perceber que caminho devemos seguir e qual a nossa voz no mundo. Em simultâneo, remete-nos para as primeiras paixões e para a realidade inerente aos trabalhos de verão - e/ou aos trabalhos temporários.

«Mas ela era uma daquelas pessoas que brilham no escuro»

Nas palavras da autora, houve, ainda, a tentativa de explorar o tema do doppelganger, isto é, a ideia de encontrarmos um duplo, «uma pessoa que, sendo idêntica, é, ao mesmo tempo, o completo oposto», mostrando-nos diferentes versões de quem somos. E é nesta ambiguidade, que alcançamos de uma perspetiva exterior, que vamos procurando unir todas as pontas soltas da nossa vida, mesmo que demore.

«Inês, nós somos sempre outros»

Em relação à componente escrita, embora seja descritiva o suficiente, houve alturas em que senti necessidade de ter mais contexto, no entanto, ao demorar-me na componente ilustrativa, percebi que há inúmeros pormenores que respondem às nossas questões. Além disso, gostei que os diálogos apresentassem algumas provocações, o que permitiu que a amizade entre Inês e JP, de si peculiar, crescesse de um modo muito bonito.

«O romantismo não tem a ver com a nossa relação com o outro, 
mas antes com a afirmação da nossa própria identidade»

Mar Negro, só pelo título, evidencia logo sinais de uma certa dicotomia, porque, embora revolto em determinadas ocasiões, o mar preserva uma transparência inigualável. A associação «negro» remete-nos, de imediato, para a possibilidade de algo sombrio. E se a capa transmite, também, um toque de leveza, a verdade é que o conteúdo se afasta dessa característica, porque aborda temas sensíveis. Nestas oscilações, temos acesso a um retrato «da vida como ela é», aproximando-nos e afastando-nos da pessoa que julgamos ser.


🎧 Música para acompanhar: Café da Esplanada, Nena


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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«A vida, na verdade, é um grande podcast»


A atualização dos podcasts que entram na minha rotina ocorre, por norma, aquando da celebração do Dia Internacional do Podcast (ou, pelo menos, procuro aproximá-la dessa data: 30 de setembro). Uma vez que tenho liberdade para escrever sobre o assunto em qualquer ocasião, apeteceu-me verificar a lista mais cedo.

Mantendo a dinâmica de ter projetos para quase todos os dias da semana (as sextas estão livres), acrescentei podcasts à lista dos que estou a descobrir devagar e à lista dos que faço por ouvir mal sai um episódio novo.


OS QUE ESTOU A DESCOBRIR DEVAGAR

O Coração Ainda Bate, Inês Meneses
As crónicas da Inês Meneses, para o Público, tornaram-se ainda mais acessíveis. É mesmo um encanto ouvi-la, porque tem uma voz que nos serena, mesmo quando os temas se afiguram mais delicados - e é quase palpável o afeto no seu diálogo. Os episódios são curtos, mas estou a saboreá-los lentamente.

Vale a Pena, Mariana Alvim
Todas as semanas, Mariana Alvim tem um convidado e procura conhecê-lo enquanto leitor. Acho esta dinâmica muito interessante, até porque a forma como a realidade e a ficção se encontram é distinta de pessoa para pessoa. Além disso, a conversa escala sempre para sugestões que me deixam intrigada e com vontade de ler.

Assim Se Faz Portugal, Maria Rueff
Maria Rueff dá voz - e vida - às palavras de Luisa Costa Gomes, Manuel Monteiro, Filipe Homem Fonseca e Afonso Cruz. Estes autores, nos textos que escrevem, espelham sempre a sua visão «crítica e apurada» sobre o que os rodeia e Maria Rueff interpreta-os, evidenciando o humor, a sátira e a reflexão que os caracteriza.

Menina Alzira, José Luís Peixoto
O autor conversa com a sua mãe sobre os mais variados assuntos, o que resulta numa partilha bastante terna e recheada de memórias. É mesmo comovente escutá-los e até parece que estamos ao lado deles.


OS QUE OUÇO MAL SAI UM EPISÓDIO NOVO

Afinal, Em Que é Que Ficamos?, Andreia Moita e Rita Nobre Mira
A Andreia e a Rita lançam as questões que importam, como, por exemplo, «falar ou ouvir?», «fazer planos ou deixar ir?», dar recomendações ou não?... Poderia continuar, mas acho que se percebe o propósito. Assim, semanalmente, escolhem um tema e apresentam as suas visões - quase sempre divergentes - do mesmo.

Só Se Estraga Uma Estante, Ana Grifo e Tomé Ribeiro Gomes
Descobri este podcast no Discord do Livra-te e, deste então, entrou na lista de prioritários, porque rendi-me à dinâmica do casal de leitores que lhe dá voz. Ana Grifo e Tomé Ribeiro Gomes, todas as quintas-feiras, têm um episódio dividido em duas partes: na primeira, cada um fala sobre um livro à sua escolha, estabelecendo uma análise sobre o mesmo; na segunda, debatem um tema literário. Têm sido uma companhia agradável.

Isso Não Se Diz, Bruno Nogueira
É um projeto da autoria do Bruno Nogueira e, só por isso, para mim, já valia o investimento, porque adoro ouvi-lo e perceber até onde é que podem escalar as suas dissertações. Um bocado na onda de Como é Que o Bicho Mexe, a conversa toca em várias frentes e é isso que entusiasma - também podem aparecer convidados.

Debaixo da Língua, Rui Maria Pêgo
Rui Maria Pêgo regressou a Portugal e à Rádio Comercial, abraçando o projeto Debaixo da Língua. Todas as semanas, tem encontro marcado com figuras de áreas distintas, para uma conversa franca e intimista.

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«Há seis mil idiomas no mundo»

Avisos de Conteúdo: Referência a Prostituição, Violação, Violência, Demência e Suicídio


As palavras ecoam, muitas vezes, sem que compreendamos o seu verdadeiro valor. Porém, quando se começa a desenhar a hipótese de passarem a ser taxadas, equacionamos a diferença entre esse conceito e o preço a que pretendem restringi-las. Será que no livro de Joana Bértholo chegamos a alguma conclusão?


A PRIVATIZAÇÃO DAS PALAVRAS

Ecologia é uma distopia centrada numa sociedade distinta daquela que conhecemos, atendendo a «que se fundiu com o mercado». Com o avanço tecnológico e com a certeza de existirem tantos idiomas no mundo, as palavras passam a ser pagas, de um modo gradual, porque comunicar não pode continuar a ser gratuito.

«Ele acordou com a boca cheia de sonhos e dentro dele 
existem ainda todas as palavras do mundo»

Estava muito curiosa com o livro e o início deixou-me expectante: porque fui avançando sem saber bem para onde ia, mas com vontade de lá chegar. É que a escrita da autora, aliada à estrutura, envolve-nos nos detalhes que revela, porém, sem que o faça em demasia. Há coisas que nos mostra sem estarem escritas e acredito que isso torna a experiência mais estimulante. Além disso, também me agradou o tom da narração, porque temos alguém a falar connosco, mas sem perdermos a noção de que acompanhamos uma personagem.

«Muito mudou em pouco tempo. Sim, só faltava o medo»

Houve, ainda assim, partes descritivas que não me pareceram vitais para a narrativa, no entanto, fiquei fascinada com as linhas paralelas, com a sociedade a ser reestruturada e com a sensação de estranheza que, lentamente, se torna mais familiar. E também fiquei rendida a Candela, que, para mim, é uma das protagonistas mais incríveis e genuínas de todo o leque de intervenientes - confesso que me senti representada em algumas das suas questões e dúvidas e que me ri com algumas das suas observações.

«Finalmente há silêncio entre nós»

Neste livro, em que nada é colocado ao acaso, Joana Bértholo leva-nos a refletir sobre o que nos rodeia, o ambiente em que nos inserimos e a forma como a linguagem nos molda, quer em relação às nossas convicções, quer em relação à maneira como interagimos com os outros. E não deixa de ser curioso que, num enredo em que a comunicação tem tanto peso, existam tantas personagens a não saber comunicar entre si, provocando mal entendidos, cobranças, muros, ligações tóxicas e pouco cordiais e interpretações dúbias.

«Falar desta e doutras formas começa a mudar a forma como as pessoas pensam, 
e mudar a forma como as pessoas pensam sobre o mundo é mudar o mundo»

Com um trabalho de investigação fabuloso, que se alia ao desenrolar trivial dos dias, também nos permite observar o impacto da cultura do medo e o efeito de uma liberdade condicionada. Além disso, é uma obra bastante dinâmica, porque inclui códigos QR, citações, imagens, mapas, discurso técnico de programação, que enriquecem o propósito inicial, mas exige atenção redobrada, precisamente por explorar várias camadas.

«- As palavras por dizer são as flores do silêncio»

Sinto que me falta um pouco mais de cultura geral para decifrar todas as referências, mas, apesar da complexidade, proporcionou-me uma viagem memorável, que aconselho, e à qual regressarei. Ecologia aproxima-nos «do caos em que vivemos», ao mesmo tempo que estimula o nosso pensamento crítico.


🎧 Música para acompanhar: Língua dos Pês, Luisa Sobral


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«Comem para se sentir ligadas»


A mãe de Michelle Zauner expressava o seu amor através da comida. Sem querer revelar muito, é das primeiras características que partilha sobre a progenitora, em Lágrimas no Mercado, e eu achei este detalhe maravilhoso, porque acredito que a comida conserva infinitas memórias afetivas, para além de estreitar laços.

Não tenho o vínculo mais intimo com a cozinha, mas sempre me fascinou estar sentada à mesa entre conversas prolongadas, tachos, panelas, aromas variados e a possibilidade de aconchegar o estômago e a alma. E é em toda esta afeição, que irradia de cada refeição, que me relembro da minha avó materna, que também embalava o seu amor nos meus pratos favoritos ou quando tentávamos, só as duas, fazer bolas de carne com distintas variações, criando recordações inesquecíveis, insubstituíveis, que se perpetuam no tempo.

Portanto, enquanto avançava na leitura, refletia sobre como é fascinante a maneira como demonstramos amor pelos outros, porque creio que isso é um traço de personalidade que, por vezes, adquirimos sem grande consciência, mas que se cola à nossa pele - e que manifestamos com todos aqueles que queremos bem.

Neste sentido, dei por mim a pensar sobre o modo como demonstro amor pelos meus. E cheguei a algumas conclusões, porque não sou muito verbal em relação aos meus sentimentos e consigo ser um pouco desnaturada a ligar/enviar mensagens e, até, a combinar programas. No entanto, evidencio-o de outras formas:

⚓ Com abraços (espontâneos, demorados, que acolhem);
⚓ A fazer claque nos projetos das minhas pessoas-casa;
⚓ Ao pedir que avisem quando chegam a casa (depois de irmos sair);
⚓ A respeitar silêncios e a estar, confortavelmente, em silêncio na companhia dos meus;
⚓ Ao reservar tempo de qualidade; 
⚓ Quando mando mensagem a dizer algo como «vi isto, lembrei-me de ti»;
⚓ Fazer-me presente.

O amor vem com confiança dentro, por esse motivo, quando não me inibo de cantar perto de alguém, é porque existe esse vínculo sentimental. Aliás, é sinal que vos amo o suficiente para não me sentir confrangida, nem estar preocupada com as figuras que faço ou com a fragilidade que se torna evidente. Sinto que não há algo de mais bonito do mundo que conseguirmos fortalecer este laço estreito com alguém que nos enche a vida.

Talvez nunca venha a demonstrar o meu amor através da comida, mas hei-de continuar a cuidar, sem dar as minhas relações por garantidas. Embora não existam elos vitalícios, demonstro amor a tempo inteiro.

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«Escrita quando o narrador não tem ainda trinta anos»

Avisos de Conteúdo: Violência, Bullying, Consumo de Drogas, 
Referência a Doenças Terminais e Aborto, Linguagem Explícita


A capacidade de transformar uma narrativa triste em algo belo é surpreendente, desarmante, porque nos orienta para outra camada interpretativa. Como é que um autor o consegue fazer com tanta subtileza, como se fossem partes indissociáveis? Talvez nunca o venha a descobrir, mas Ocean Vuong elevou a fasquia.


INTIMO, DESTRUTIVO, CHEIO DE AMOR

Na Terra Somos Brevemente Magníficos é a carta emotiva de um filho para a sua mãe vietnamita, que não sabe ler. Sendo a mãe e a avó o epicentro da sua história, estas palavras são, também, a tentativa de conhecer as suas origens, de unir as pontas soltas de todas as memórias que foi ouvindo ao longo do tempo.

«Escrevo para chegar a ti - ainda que cada palavra que registo 
seja uma palavra mais longe de onde estás»

Little Dog, transitando entre o passado e o presente, quase como se acompanhássemos os seus pensamentos ao momento, abre o coração para partilhar com a progenitora a sua homossexualidade e a sua incursão no mundo da droga e para debater traumas, violência, racismo, imigração e projeções para o futuro. Embora nos envolva neste discurso intimo, fica a sensação de que entre mãe e filho existe um muro intransponível. Aliás, nas suas palavras transparece a ideia de só explorar certas situações por saber que a mãe nunca o lerá.

«Quando termina uma guerra? Quando poderei dizer o teu nome e 
ele significar apenas o teu nome e não tudo o que deixaste para trás?»

A escrita lírica, crua, quase exuberante tira-nos o fôlego, porque sentimos cada manifestação de dor, de silêncio, de perda. Este livro destruiu-me e houve passagens em que, sem me aperceber de imediato, as lágrimas se tornaram inevitáveis, porque não há filtros. Há, sim, uma prosa poética e uma luta constante para chegar ao outro lado, para quebrar o tal muro que os laços afetivos/familiares não foram capazes de impedir.

«Num mundo infinito como o nosso, o olhar é um ato singular: 
observar qualquer coisa é preencher a vida inteira com ela, ainda que brevemente»

Na Terra Somos Brevemente Magníficos há muita mágoa, «uma investigação sobre raça», tentativas para ser ouvido, perguntas que inquietam e preconceitos. Há, ainda, um manifesto de amor e de ousadia. Acho que ficou muito por dizer e, no entanto, as vírgulas de cada relação contaram muito mais do que as palavras.


🎧 Música para acompanhar: Fast Car, Tracy Chapman


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