Entre Margens



Março começou na pista de dança, levou-me para Monte Gordo e até às minhas origens; fez-se de palavras, de silêncios, de homenagens. E, com temas que ainda são tabu, terminou numa espécie de bolha a sarar feridas.


os álbuns de março


KISS ALL THE TIME. DISCO, OCCASIONALLY, HARRY STYLES

A associação talvez seja um pouco rebuscada, mas o mais recente álbum do Harry Styles transportou-me para os versos «eu não sabia que dançar era por dentro/Eu não sabia que dançar era até ao fim», da Filipa Leal: não porque faltem motivos para movermos o corpo em pistas de dança improvisadas (ou não), mas porque sinto que este gingar é mais um estado de espírito.

Kiss All The Time. Disco, Occasionally chega depois de um período de pausa, para repensar, para se reencontrar enquanto artista, para compreender o que o motiva, e é interessante identificar esse contraste e, também, a sua identidade a florescer noutras direções; é interessante verificar a vontade de não cair no conforto, de fazer pelos motivos certos, sem dar o percurso por garantido. E achei mesmo bonita a forma como construiu tudo isso neste álbum.

A energia de pista de dança é a inspiração, mas adoro que este trabalho seja disco sem ser totalmente disco, ou seja, que tenha melodias que nos transportam para esse género, expandindo-se, recuperando uma certa nostalgia. Convida-nos a dançar, no entanto, sem ser de um modo frenético, explosivo, como se a música abafasse tudo ao seu redor. Acho, pelo contrário, que nos convida mais para o conceito do que para a concretização, que nos leva para a ideia que uma ida para a discoteca pressupõe: o convívio, a preparação prévia, o sentido de comunidade.

Kiss All The Time. Disco, Occasionally também nos parece transportar para diferentes estados da mesma noite, numa escalada intimista, visceral. A música cresce e nós crescemos com ela. Acalma e nós acompanhamos esse desacelerar. E, depois, parece que tudo recomeça, como se tivéssemos recarregado a bateria. E voltamos a reencontrar a nossa energia no meio da multidão, neste jogo psicadélico de luzes e escuridão, sem nos preocuparmos se estamos entre amigos ou perfeitos desconhecidos.

Com várias linhas paralelas, sinto que Harry Styles está a mergulhar numa história de descoberta, sem receio de ir ao passado, mas sem ficar preso nas suas ramificações. Coming Up Roses levou-me às lágrimas, por isso, sei que este álbum nem sempre me deixou com vontade de dançar, mas acolheu-me, fez-me sentir ouvida, apagou as luzes para que estivesse à vontade. No fundo, fez-me sentir que também lhe pertenço e que posso chorar no club sempre que me apetecer, porque arranjaremos forma de exorcizar as nossas dores.



CUÍCA, MAR

A MAR foi entrando nas minhas playlists devagar, mas para ficar, porque adorei a escrita sem filtros das suas canções. E, este mês, chegou o tão desejado álbum.

Cuíca é «o nome dado às mulheres de Monte Gordo». Embora não seja «o nome oficial», é assim que se identificam e a escolha deste termo para o título do seu primeiro longa duração é uma pista para o quanto este será feito de raízes, de uma história que começou a ser escrita desde a infância e que acompanhou a menina que vemos na capa. Portanto, e recorrendo a uma das faixas do disco, temos um livro aberto para as vivências e emoções da artista.

Num registo autobiográfico, oscilando por géneros distintos, o jogo de palavras, a honestidade e os cenários tão seus impressionam-me sempre, porque acho que é preciso uma maturidade bem cimentada para transformar aquilo que é, pensa, vive e observa em arte, e um tipo de arte que se torna transversal. Este álbum, como a MAR partilhou em entrevista, «é uma viagem por tudo aquilo que [aprendeu] desde o princípio disto tudo até à última barra da última canção que [escreveu]», mas sei que falará perto com muitos de nós, por nos conseguirmos rever em certas passagens/músicas.

Cuíca é um tipo de poesia onde faço por regressar, porque também descubro novas camadas de mim.



CANTAR AS DORES BAIXINHO (VOL. 1), CAROLINA DESLANDES & RODRIGO CORREIA

As nossas vidas podem ser muito diferentes, mas todos nós carregamos dores por dentro e há alturas em que precisamos de as libertar.

Carolina Deslandes e Rodrigo Correia juntaram-se para Cantar as Dores Baixinho, num primeiro volume que chega sem filtros, com uma abordagem intimista e profundamente humana. Só «com uma voz e uma guitarra», gravado «live on take, sem edições ou correções», os dois artistas quiseram contar seis histórias que tanto podem ser as nossas, como de alguém próximo. 

Confesso que demorei um pouco a encaixar em algumas das melodias, mas achei interessante e valioso que trouxessem para um lugar mais visível problemas que permanecem silenciosos, tantas vezes julgados pela sociedade, como «a solidão associada à adição», alertando-nos para a necessidade de estarmos mais atento ao outro.



VIDA DE CÃO, EDMUNDO INÁCIO

A prova cega do Edmundo Inácio no The Voice não me foi nada indiferente e, a partir daí, passei a estar atenta ao seu percurso (dentro e fora do programa), à voz que enche a sala, à capacidade impressionante de reinventar a música popular portuguesa. E, agora, tenho mais um álbum onde posso redescobrir todo o seu talento.

Vida de Cão interliga crítica social, ironia e um tom autobiográfico, com histórias que não pretendem ser um lamento, mas que «quis muito transformar em canções», até porque é inegável o quanto todos estes elementos se cruzam, se influenciam, se condicionam. Não existimos fora do mundo, somos sempre o produto do que nos inspira e do que nos acontece, do que acreditamos e do que deixamos cair. Por isso, compilou todos estes cenários dicotómicos nesta viagem, que também explora diferentes tipos de deslocação — geográfica, social e emocional.

Entramos no comboio «procedente de Portimão», com destino a Lisboa, a todos os espaços que possibilitem o contacto com novas e melhores oportunidades de vida, cantando-nos sobre precariedade, cansaço, migração, pressões sociais, sonhos suspensos, emoções omitidas, silêncios, trabalhos invisíveis e resistência. Assim, consciente do quanto tudo isto interfere consigo, com o seu quotidiano, traça um retrato da sociedade, da apatia, do conformismo, de todas as escolhas que não partem de nós.

Vida de Cão sustenta as suas raízes na música tradicional, mas fá-lo com um revestimento de modernidade. E, neste património, não descarta a tristeza, a vulnerabilidade e o que precisa de ser adiado, enquanto se continua a lutar para que o sonho não seja só uma fantasia.



CINCO DOIS, PH, LÓJICO & TAB

Cresci a ouvir que o mais bonito de Gaia é a vista para o Porto, mas isso é porque, para além de não conhecerem a cidade, não sabem de todo o talento que habita neste lado da margem.

O hip hop faz parte das minhas origens, por isso, não podia deixar de descobrir o álbum que junta Ph, Lójico e Tab: Cinco Dois. Com uma sonoridade que mistura o lado mais underground com a intenção de explorar melodias diferentes, são as letras incisivas que nos fazem parar e perceber que é tempo de esquecer o passado e começar a trilhar o futuro.

Neste trabalho colaborativo, é interessante perceber como as raízes florescem, como há espaço para o ego e para a vulnerabilidade, como somos feitos de tantas certezas e tantas dúvidas. É bom estar em casa, a vê-los alargar horizontes.



BRUTA, RITA ONOFRE

O tema Corpo ao Mar, que integra o Volume I de Avalanche, deu-me a conhecer a voz fabulosa da Rita Onofre, que passei a acompanhar de perto. E um dos aspetos mais entusiasmantes de ser admirador de um artista é poder assistir à sua metamorfose — que bonita tem sido a da Rita.

Bruta atira-nos para o limiar, para o limbo de tudo, onde as emoções ficam sempre à flor da pele. Com uma sonoridade mais eletrónica, faz coabitar vulnerabilidade, melancolia e espiritualidade e, como a própria artista afirma, «é um álbum para levar nos phones para enfrentar o mundo, como uma experiência íntima e profunda».

O propósito destas canções não é tanto o de aconchegar, mas mais o de desafiar, de nos abanar por dentro, levando-nos a experienciar diferentes sensações, a contactar com algo mais visceral. Também por esse motivo, Bruta é um manifesto, mostrando-nos o lado poderoso de todas as nossas emoções.



FLORBELA, VÁRIOS ARTISTAS

Florbela Espanca é um dos nomes maiores da poesia portuguesa e a sua obra foi revisitada num disco-tributo.

Com direção artística de João Só, Florbela compila «14 sonetos musicados e interpretados por algumas das vozes mais relevantes da música portuguesa atual». Para tornar a homenagem ainda mais especial, o álbum saiu na véspera do Dia Mundial da Poesia, sublinhando «o caráter literário e cultural deste projeto».

Tenho regressado a estas canções pontualmente, quase como se estivesse a ouvir um poema por dia, porque tem sido maravilhoso descobrir novas camadas destes versos através da visão e da sensibilidade artística dos convidados, tendo em conta que conseguimos compreender a forma como estes sonetos lhes chegaram, qual a interpretação que fizeram, estabelecendo uma ponte entre diferentes gerações.



POR DIZER, MATILDE LEITE

O timbre da Matilde Leite conquistou-me assim que a ouvi na canção que partilha com a Rita Onofre, Medo. Mais tarde, voltou a conquistar-me na Não Não, deixando-me muito curiosa com o seu álbum de estreia.

Por Dizer diz-nos tudo o que precisamos sobre as palavras «que serviram de mecanismo para ultrapassar tempos mais difíceis», que espelham aprendizagens, dúvidas, um turbilhão de emoções e estilhaços de um coração ferido. No fundo, é como se estes temas fossem a sua catarse, a sua forma de expulsar fantasmas do passado e renascer com novas respostas — e perguntas também.

Estava a escutar a cadência deste disco e, sem conseguir explicar bem porquê, senti-me num lugar mais distante, isolado, onde paira uma certa acalmia, ao ponto de sermos capazes de ouvir os nossos pensamentos. Parece que a artista se recolheu para escrever cartas que, agora, partilha com o mundo, de um modo generoso, para que a escutemos, para que possamos encontrar nestas canções um refúgio.

Interligando o Fado e o Pop, sempre com harmonia, adorei as várias camadas destes poemas. Nem sempre dizemos as coisas nas alturas certas, por vezes precisamos de nos afastar para compreender melhor e Por Dizer é esse elo entre o silêncio e a evolução que surge com a maturidade.



ESCREVI CANÇÕES E SÃO TODAS IGUAIS, LATTE

É curioso como nos cruzamos com certos nomes, mas depois desaparecem do nosso horizonte. Isso aconteceu-me com a Latte, que fiquei a conhecer graças ao tema Se Me Vens Salvar, com a Mónica Teotónio. Após um hiato considerável, só voltei a recordar-me do seu nome quando o tema 1,2,3, com o Zarko, viralizou, novamente, o ano passado. Agora, já não a perco de vista.

Escrevi canções e são todas iguais parece um murmúrio, uma lengalenga que repetimos para nos convencermos de algo ou, então, para nos irmos libertando. Naturalmente, o título não é uma representação fiel do que encontramos no alinhamento, mas achei interessante a designação, atendendo a que há temas que se repetem, porque não deixa de ter um toque sarcástico, que brinca com a ideia de músicas mais melancólicas soarem ao mesmo. Mas não soam, até porque há sempre uma forma diferente de abordarmos o mesmo tópico e cada um terá a sua voz nesse processo.

Uma das provas maiores de que as canções não são todas iguais prende-se com a sonoridade, porque cada uma delas tem uma melodia muito própria, fazendo sobressair a sua identidade. E é nessa diferença que nos vamos descobrindo, que compreendemos os silêncios, que nos despedimos, que abraçamos e lidamos com a dor.

Escrevi canções e são todas iguais abre-nos as portas de um mundo muito íntimo, quase confessional.



Este mês, ainda ouvi os álbuns By Your Eyes, do Dinis Mota, e A Bela Paranoia, dos Bela Noia, mas preciso de me dedicar mais um pouco a estas propostas para formular uma opinião mais coesa.


O mês começou com leituras ao sol, quase como se estivesse a carregar a bateria, e comigo a não sair dos álbuns do Espama Trincana — nunca pensei dizer isto, mas o tik tok levou-me para esse buraco negro e eu tenho-me divertido imenso com isso.

Em março, sobretudo nas últimas semanas, precisei mesmo de me recolher, porque a bateria social esteve a cumprir serviços mínimos, ainda assim, houve exceções que trouxeram um pouco de fulgor a estes dias. Mas confesso que estava desejosa que o mês terminasse, já que sinto que permitirá abrandar e voltar a reorganizar algumas questões pendentes, a ver a vida para além desta lente de cansaço mental que se tem instalado.

Preciso, no entanto, de tirar este tom fatalista, uma vez que março teve coisas maravilhosas, poesia, música ao vivo e um dos melhores espetáculos a que assisti. E teve tulipas ♡


as coisas maravilhosas de março


 os fragmentos aleatórios

Chega março e o meu quarto reveste-se com tulipas, uma flor que terá sempre tanto de saudade como de colo. Curioso como encontro alento nas suas pétalas a desabrochar.

Kiss All The Time. Disco, Occasionally tem estado em repetição, no meu Spotify, e não perdi a oportunidade de adquirir esta edição especial em formato físico, que muito tem preenchido a casa. Além disso, o xtinto também lançou uma edição de livro e cd do seu Em sonhos, é sabido, não se morre e eu fui a correr à Fnac comprar um exemplar. Sou mesmo feliz a comprar discos de artistas que admiro — já preciso é de começar a pensar noutro sítio para os acomodar.

Estou muito satisfeita com os meus batons, mas precisava de um para aqueles dias em que não me apetece usar grande coisa de maquilhagem, num tom mais suave. Por isso, trouxe este do Mercadona e estou mesmo rendida ao conforto e à duração. Não prometo que aguente as 12 horas, mas a verdade é que dificilmente preciso de retocar.



 as músicas e os álbuns

A playlist de março, à semelhança do mês anterior, também parece ter acolhido tudo o que foi saindo (perdoem-me o exagero). A grande diferença é que houve temas a ficar com todo o meu coração, principalmente o do Richie, e artistas que me surpreenderam imenso, ao ponto de já não os querer largar.

As músicas que marcaram o mês: O Que Tu Quiseres, Espama Trincana | No Meu Quarto, Murta | Responso, Iolanda | Talvez, Santos, Só | Matahari, Ella Nor & Mogno | You, Richie Campbell.


Os álbuns que marcaram o mês: Kiss All The Time. Disco, Occasionally, Harry Styles | Cuíca, MAR | Bruta, Rita Onofre | escrevi canções e são todas iguais, Latte.


 as publicações

96 ao infinito: ou como o legado do passado abre portas ao futuro
O Expresso do Submundo fez a sua primeira viagem em 1996, quando o Pentágono — DJ Guze, Expeão, Fuse, Maze e Mundo Segundo — gravou o EP de estreia, em cassete, e «o foi distribuir de mão em mão pelas ruas de Vila Nova de Gaia e do Porto», cidades de onde são naturais. E eu tenho a forte convicção de que o meu fascínio por margens, por estas margens em concreto, e pela escrita poética despertou graças a este vínculo (publicação completa aqui).

combater a síndrome do impostor: ou como decidi pedir macchiatos
Uma das minhas resoluções para 2026 era silenciar esta voz pouco simpática a pairar, sobretudo no que concerne a receber dinheiro por aquilo que crio. Em 2025, quase cheguei lá, mas depois fui adiando porque me soava descabido cobrar por algo que construo a partir de casa, sobre conteúdos que leio/ouço/vejo sem pretensões de maior, apenas por gostar ou ter curiosidade em descobrir. Às vezes, existe alguma pesquisa, mas é tudo muito mais emocional (publicação completa aqui).

No meu substack poético — No Silêncio —, celebrei o Dia Mundial da Poesia com Versos Que Gostava de Ter Escrito e não estive sozinha nessa partilha. Como gostei muito da publicação, apesar de simbólica, não queria deixar de a incluir aqui.


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, trago uma série, uma conversa e três episódios de podcast.

Algodão a Frio
Algodão a Frio, que começou por ser um nome provisório, mas que acabou por «ajudar a cimentar o conceito da série», abre as portas de uma lavandaria self-service, onde sete desconhecidos ficam presos, «por consequência de um violento atropelamento e fuga». Sara é a única testemunha desta ocorrência e «esconde o paradeiro da vítima de Jorge, um homem misterioso que procura o atropelado por motivos sinistros». Peça a peça, ficamos a conhecer todas personagens e as linhas paralelas que se cruzam neste local.

FILTR'd Convo de Yang com Épico
O Yang foi um dos artistas que fez o meu 2025, muito graças ao seu EP Astros e Afetos, que combina vulnerabilidade, introspeção e melodias mais dançáveis. Recentemente, e com novos trabalhos lançados, esteve à conversa com o Épico, na FILTR’d Convo. Naturalmente, os tópicos foram desencadeados pela música, desde o processo criativo até à concretização da ideia, contudo, também houve espaço para falar sobre amizade, família e basquetebol, porque existem vários paralelismos entre ser atleta e ser artista.

Podcasts: Palavrão #09 com Sara Barros Leitão | Hotel ao Vivo - O Despejo | Hotel ao Vivo - Especial História de Portugal.


 os livros

Um mês dedicado às mulheres e à poesia, que me permitiu arriscar em novas vozes literárias e regressar a algumas que já fazem parte da casa.

Os favoritos do mês: Em Nome da Filha, Carla Maia de Almeida | Um Cão no Meio do Caminho, Isabela Figueiredo | A Desobediente, Patrícia Reis.

Outros livros lidos: Alegria Para o Fim do Mundo, Andreia C. Faria (releitura) | A Bastarda de Istambul, Elif Shafak | Guia Prático Antimachismo, Ruth Manus | Sede de me beber inteira, Liana Ferraz | Oxe, Baby, Elayne Baeta | Poemas de Amor, Emily Dickinson | Autobiografia Não Autorizada 2, Dulce Maria Cardoso.


 os momentos

Leituras ao sol. Ler poesia. Escrever poesia. Tulipas por todo o lado. Matar saudades das minhas pessoas. Lanches que são colo. Comprar poesia. Dançar ao som de Harry Styles. Ouvir o João Só e o Tiago Nogueira. Ficar maravilhada com o Gregório Duvivier. Ter Em sonhos, é sabido, não se morre em formato físico. Desligar. Ficar só na minha bolha. A francesinha do mês no sítio de sempre. Jantares em família. Música a curar feridas.





O Céu da Língua, Gregório Duvivier
A Inês lançou a proposta e a Sofia e eu não recusamos. Queria muito ver a peça do Gregório Duvivier e, admito, foi dificílimo calibrar as expectativas, até porque só lia maravilhas, mas a verdade é que não precisava de o fazer, porque superou-as a todas! Que texto e interpretação fabulosos, que ritmo frenético e contagiante; que bom que foi sentir todo aquele amor às palavras, a musicalidade, a mente de um criativo que não fica à superfície, que mergulha às profundezas sem qualquer receio. Ainda preciso de organizar melhor os meus pensamentos, porque o monólogo continua a ressoar em mim, mas escalou rápida e facilmente para a lista de melhores espetáculos a que assisti na vida.

João Só e Tiago Nogueira no Casino da Póvoa
O João e o Tiago construíram um alinhamento que nos permite ouvir «os temas que os ensinaram a gostar daquela que é, provavelmente, a arte mais ancestral que existe». E, assim, numa espécie de «conversa romântica» ou numa travessia por várias gerações e estilos, é um espetáculo para quem gosta de palavras, da intemporalidade das canções, da versatilidade que encontramos dentro do meio, quer nacional, quer internacional. Sei que ficaria bem a ouvi-los só aos dois, durante horas, não obstante, a Elisa trouxe outro brilho a uma noite que, já de si, nos estava a abraçar a todos. Ouvir Como é Fraco o Coração, Este Meu Jeito e Poeira interpretados por este trio encheu-me as medidas e, admito, o primeiro tema eriçou-me a pele (só não houve lágrimas por um triz). Mas o reportório estendeu-se por tantos outros que nos transmitem aconchego.


Abril, sê gentil ✨



Março leu-se no feminino e com particular foco na poesia, combinando, desta forma, duas comemorações simbólicas, que me fazem todo o sentido. Fugi um pouco da minha zona de conforto ao arriscar em nomes desconhecidos, mas também regressei a autoras que coexistem nesta casa.

Desta vez, não terminei o mês com poesia, mas acabei por a encontrar espelhada por todos estes livros.


a tbr de março
  • Um Cão no Meio do Caminho, Isabela Figueiredo (alma lusitana);
  • A Bastarda de Istambul, Elif Shafak (3 autoras para 2026);
  • Alegria Para o Fim do Mundo, Andreia C. Faria (12 meses, 12 livros de poesia);
  • A Desobediente, Patrícia Reis;
  • Em Nome da Filha, Carla Maia de Almeida (ler ffms);
  • Guia Prático Antimachismo, Ruth Manus;
  • Autobiografia Não Autorizada 2, Dulce Maria Cardoso.

 o que li em março

Para além da tbr definida, li:
  • Sede de me beber inteira, Liana Ferraz;
  • Oxe, Baby, Elayne Baeta;
  • Poemas de Amor, Emily Dickinson.


 algumas curiosidades

Em março, li
  • 10 livros: poesia (4), romance (2), não ficção (3) e crónica (1);
  • 10 autoras: portuguesas (5), turco-britânicas (1), brasileiras (3) e norte-americanas (1);
  • 4 autoras pela primeira vez: Carla Maia de Almeida, Liana Ferraz, Elayne Baeta e Emily Dickinson.

Favoritos do mês
  • Em Nome da Filha, Carla Maia de Almeida;
  • Um Cão no Meio do Caminho, Isabela Figueiredo;
  • A Desobediente, Patrícia Reis.


 vamos a contas?

Tinha dois livros na lista e acabei a encomendar mais um do que tinha pensado, porque não dava para não aproveitar as promoções da FNAC para o Dia Mundial da Poesia, mas tudo controlado no orçamento.

  • Comprei 3 livros (As Filhas do Capitão, O Olhar Diagonal das Coisas, Poemas Completos) e gastei 86,38€;
  • Ativei a subscrição do Kobo Plus, que me custou 7,99€. Li 6 eBooks, poupando 74,96€;
  • Comecei março com 80€ na Apparte. No total, amealhei 18€, transitando para abril com 98€.


 banda sonora



 a tbr de abril
  • O Homem Sem Mim, Rute Simões Ribeiro (alma lusitana);
  • As Filhas do Capitão, María Dueñas (3 autoras para 2026);
  • Jóquei, Matilde Campilho (12 meses, 12 livros de poesia);
  • A Religião dos Livros, Carlos Maria Bobone (ler ffms);
  • A Malcriada, Beatrice Salvioni;
  • Notas Para Joan, Joan Didion.



O entrelinhas de março só inclui dois livros e, por isso, estive quase para os agregar ao entrelinhas do mês seguinte, mas desisti da ideia. Dos dez livros que me acompanharam, um deles foi uma releitura (aqui), três foram lidos para ir celebrando o dia mundial da Poesia (aqui) e os restantes terão reviews individuais.


entrelinhas de março


A Bastarda de Istambul, Elif Shafak

A autora Elif Shafak foi levada a tribunal, na Turquia, acusada de «insultar a identidade turca» num dos seus livros, no qual aborda, de forma indireta, o conflito Arménio-Turco, cujo genocídio nunca foi assumido pela República da Turquia. Sendo a nossa autora de março, parti para a leitura bastante intrigada.

A Bastarda de Istambul oscila entre memórias e esquecimento, entre a «necessidade de reavaliar o passado e o desejo de o apagar». Certo dia, uma mulher solteira de 19 anos entra num consultório médico, declarando que precisa de fazer um aborto. A partir desse momento, a sua vida mudará para sempre. Vinte anos depois, em linhas que se cruzam de uma forma quase mística, os segredos do passado reaparecem.

É impressionante como a escrita tão melódica e sensorial de Elif nos transporta para lugares e realidades que desconhecemos — ou que, pelo menos, não nos são tão próximos. No entanto, devo confessar que esta história não resultou muito bem comigo: primeiro, porque achei os saltos temporais demasiado céleres, deixando pontas soltas, e, segundo, porque senti que algumas partes precisavam de ser mais aprofundadas, justificando escolhas para além das marcas do passado. Naturalmente, há feridas que parecem nunca sarar e isso pesa, apenas gostava de ter visto a narrativa a escalar para outros patamares, a explorar camadas menos óbvias.

Por oposição, interessou-me muito a sensação de ser forasteira, revelada por uma das personagens, que me recordou de Sasha, uma das protagonistas de A Casa de Pineapple Street, e do esforço para pertencer a uma família que nunca lhe abriu a porta; interessou-me a dinâmica familiar e o quanto os seus elementos podem ter particularidades curiosas, pouco adaptáveis, mas que fazem funcionar; interessou-me a amizade das personagens mais novas, coração desta narrativa, que gostava que tivesse um desenvolvimento mais calmo, estruturado, para que sentíssemos na pele o verdadeiro impacto do legado que carregam.

A Bastarda de Istambul deixou-me a pensar sobre crenças e tradições, sobre o quanto é fascinante perceber que o mesmo acontecimento pode ser defendido por duas verdades: a que não esquece e a que omite. Acima de tudo, fez-me questionar até que ponto é justo cobrarmos a quem não fez parte da História, apenas por ser filha de um dos lados. Este livro traz temas preponderantes para o debate, só fiquei com a sensação agridoce de que precisava de atar melhor os seus nós, porque os ingredientes estão cá todos.



Autobiografia Não Autorizada 2, Dulce Maria Cardoso

As crónicas de Dulce Maria Cardoso foram compiladas num primeiro volume que me comoveu pela transparência e pela intimidade. Por esse motivo, adicionei o segundo à minha lista de desejos, assim que anunciaram o lançamento, mas, por uma qualquer razão que não sei explicar, adiei sempre a sua compra. No início do ano, precisei de ir trocar livros e achei que era a altura ideal para o trazer comigo. Além disso, como em março tento ler apenas autoras, integrei-o na tbr mensal e deambulei nas suas visões.

Autobiografia Não Autorizada 2 volta a unir histórias verdadeiras com relatos ficcionais, numa proposta de auto-ficção particular, cirúrgica e com um olhar sensível acerca dos assuntos que explora. Assim, viajamos muito à infância, a Angola, a eventos literários, a amores, a feridas, mas questionando a veracidade das descrições, questionando se o que está a ser contado serve apenas o texto ou se é um espelho fiel dos acontecimentos.

O meu exemplar veio com um defeito — tinha crónicas repetidas e outras em falta — e, enquanto aguardava a chegada de um novo, curiosamente, regressei muitas vezes a esta capacidade de Dulce Maria Cardoso, porque acho fascinante a abordagem e, mais do que isso, acho fascinante o processo de plantar a dúvida e de estimular o nosso lado crítico, relembrando-nos que é fundamental permanecermos alerta: é que as histórias podem ter várias versões e quem as conta usa sempre as palavras a seu favor. A destreza de partir de certos elementos e revesti-los de um contexto que pode só existir no papel e/ou na imaginação é o que nos permite oscilar por distintos planos narrativos.

Por um lado, senti que as crónicas ficarão datadas, porque é evidente o período a que pertencem, mas, por outro, senti que tinham um tom mais melancólico, a interpretar o que podia ter sido, o que ficou ausente. Embora não tenha ficado tão impactada como fiquei no primeiro volume, é sempre maravilhoso regressar à escrita desta autora.

Fotografia da minha autoria


A minha lista de leituras para março sustenta-se sempre a partir do mesmo propósito: incluir, maioritariamente, livros de autoras, numa celebração e homenagem simbólica pelo dia internacional da mulher. Assim, a narrativa que me acompanhou no primeiro fim de semana do mês não foi inocente, uma vez que li o retrato escrito pela jornalista Carla Maia de Almeida, em 2017, para a Fundação Francisco Manuel dos Santos.


 violência na intimidade

Em Nome da Filha, com o subtítulo Retratos de Violência na Intimidade, é composto por «testemunhos de mulheres vítimas de violência doméstica». Por motivos de segurança, todas estas partilhas foram feitas sob anonimato, a partir de vários pontos do país e de diferentes contextos, sem falsos moralismos, apenas a mostrar os inúmeros ângulos de uma mesma realidade. Dividido em três partes, o livro nasceu, então, de uma urgência comum: «lutar contra um problema que não é doméstico, mas de toda a sociedade».

As estatísticas fazem-nos recuar mais de dez anos, no entanto, continuam atuais. Pior, continuam a evidenciar o aumento de casos e que, embora em Portugal a lei esteja a evoluir, ainda falta o pior: mudar mentalidades. É que «uma em cada três mulheres é vítima de agressões físicas, psicológicas e sexuais, pelo simples facto de ser mulher». Números à parte, ainda que sejam amplamente ilustrativos da situação, o que choca, o que revolta, é sentir que a impunidade prevalece, que o discurso só muda de tom, visto que reproduz argumentos que vamos conhecendo de cor, como se legitimassem ações.

Já canta o xinto que «entre marido e mulher é que se faz um país», no entanto, parece que insistimos na narrativa de não ser assunto nosso — e o ditado é antigo. Apesar de, por vezes, existir uma infinidade de condicionantes, porque há limites para aquilo que podemos fazer, o cenário talvez fosse diferente se não perpetuássemos certos ideais, se não fechássemos os olhos, assobiando para o lado que convém, parafraseando Sérgio Godinho. E, enquanto lemos os testemunhos, somos confrontados com esta dualidade.

«Mas a verdade é que a Fernanda já tinha morrido há mais tempo, debaixo das telhas que escondiam muita coisa, no silêncio indigno das mulheres maltratadas»

Acredito que a maior valência da obra seja alertar, levar-nos a questionar o que precisa de ser reestruturado, quais as desigualdades que precisamos de combater, o que é que permanece invisível e a corroer a estabilidade e a segurança destas mulheres. Quando cheguei à segunda parte, lembrei-me da série Casa-Abrigo, porque estes locais têm um papel preponderante enquanto rede de apoio e porque, à semelhança do que senti ao assistir aos episódios, voltou a pairar uma sensação de injustiça: por um lado, é vital que estes espaços existam, para que as vítimas de violência encontrem um pouco de paz e consigam, pouco a pouco, recuperar a autonomia, mas, por outro, não parece lógico que seja a vítima a alterar toda a sua vida, a afastar-se daquilo que conhece, a recomeçar noutro lugar. Uma vez mais, as consequências pendem para o lado errado.

Sem condescendência, com sensibilidade e margem para escutar diferentes pontos de partida, realidades e formas de encarar a situação, achei interessante a abordagem e o facto de as partilhas serem complementadas com pareceres profissionais, uma vez que nos ajudam a compreender melhor a extensão deste flagelo e do impacto que têm as suas ramificações. Portanto, ao cruzar números, estatísticas e as histórias de cada uma destas protagonistas, é fácil — e doloroso — constatar que o caminho ainda é longo.

Em Nome da Filha mostra-nos que existem ciclos que se repetem, que a manipulação é um dialeto bastante audível, que há verdades demasiado enraizadas; mostra-nos que é usual encontrar justificações para certas reações. Enquanto sociedade, temos de fazer mais, educar melhor, questionar, denunciar, porque não podemos ficar indiferentes. O livro é forte e impactante, sobretudo, por ficar claro que continua a ser tão necessário.


 notas literárias
  • Desafio: Ler FFMS
  • Lido entre: 7 e 8 de março
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Não Ficção
  • Banda sonora: Tempestade e Não Me Importo, Carolina Deslandes

Fotografias da minha autoria


As tradições não se multiplicam nos metros quadrados que me edificam, mas encontro conforto em pequenos rituais que parecem acrescentar um pouco mais de cor à banalidade dos dias. E gosto, sobretudo, quando surgem de um modo desprendido e fazem todo o sentido — é a vida a tentar alinhar todas as suas facetas.

Quando assumi que um dos meus propósitos para 2026 era ser mais consistente a escrever poesia, devia ter complementado a afirmação com um «e a lê-la também», porque não só me faz falta, como também me acrescenta, e preciso de a tornar mais expressiva na minha vida e, por consequência, nas minhas estantes.

Tenho adorado o hábito de começar o mês a ler poesia e, embalada por este pensamento, consciente de que março é poesia por excelência, decidi escolher três livros de três autoras que nunca li, para ir celebrando esta efeméride para além da data em que é assinalada. Embora não tenham escalado para a lista de favoritos, o mais importante, para mim, foi a possibilidade de descobrir outras vozes, outras formas de escrever poemas, de bordar emoções às palavras. E a verdade é que em todas elas encontrei versos que me comoveram.

Tinha outras opções, mas aventurei-me nas obras de Liana Ferraz, Elayne Baeta e Emily Dickinson.


 sede de me beber inteira, liana ferraz

A vontade de abraçarmos o mundo (de dentro para fora ou vice-versa) pode manifestar-se por uma sede metafórica, que sorvemos devagar ou com sofreguidão, dependendo do estado de espírito.

Ao partir de uma chávena de chá, de café ou de uma taça de vinho, Liana Ferraz procura «beber sem medo a própria essência» e, assim, ser capaz de se compreender, de se amar inteira, de estender as margens que traçam os seus (e os nossos) limites, observando o que a rodeia com outro entendimento.

Recorrendo a jogos de palavras, a estruturas menos rígidas, numa aproximação mais livre da poesia visual, Sede de me beber inteira lê-se muito bem e tem versos encantadores — acho que quando se aventura em propostas mais longas é onde me conquista —, ainda assim, não sinto que me tenha impactado.

«quem me dera viver o presente
como a intensidade da saudade que eu sinto»


 oxe, baby, elayne baeta

A ideia de um caderno de poesia roubado parece quebrar réstias de segurança e expor uma intimidade da qual não temos qualquer pertença. Apesar disso, com toda a sinceridade e ousadia, é a autora Elayne Baeta que nos proporciona este roubo, convidando-nos a descobrir o seu primeiro livro de poemas.

Oxe, Baby, «entre metáforas com casulos, morcegos e borboletas», é um espelho da autora e das «suas experiências como uma menina que ama meninas», o que a firma como «uma das vozes mais influentes da literatura jovem adulta LGBTQ+ no Brasil». Descobri-a por acaso, mas, como «para entender uma pessoa basta outra», permiti-me mergulhar nestes amores e nestas dores.

Achei que os versos eram vulneráveis, honestos, preocupados em demonstrar que é necessário destapar o que insistem cobrir como se fosse errado, vergonhoso. No entanto, a partir de certo ponto, senti que se tornaram repetitivos. Há um tom de revolta e de afirmação, que nos impulsiona a pensar sobre desigualdades e injustiça, que se perde por isso mesmo, afastando-nos das várias camadas que compõem o livro e que seria interessante ver exploradas de outros prismas.

«quantas coisas
eu sou por dia
sem que ninguém
— sequer
perceba?»


 poemas de amor, emily dickinson

Emily Dickinson levou uma vida de reclusão, escrevendo, ao que tudo indica, «mais de mil poemas com metáforas surpreendentes, uso não convencional de pontuação e observações extraordinárias sobre muitos temas». Uma vez que já me tinham sugerido a sua escrita, fui descobri-la entre versos.

Poemas de Amor é uma coletânea dedicada ao seu grande amor secreto: a cunhada Susan Gilbert. Com uma curadoria que pretende evidenciar esse amor e todo o seu afeto, deambulamos por 40 poemas que nos mostram diferentes perspetivas, passando pela imortalidade, pela não correspondência, pela dor, pelo afastamento e, até, por apontamentos que a entrelaçam à natureza.

A afeição é notória e transversal. Confesso, ainda assim, que não me relacionei com os seus versos, porque senti que havia sempre um muro a distanciar-nos, a impedir-me de perceber a sua real mensagem — talvez me falte o contexto, para melhor entender as referências, os lugares, as memórias. Por outro lado, se calhar a intenção é mesmo essa, mostrando-nos fragmentos sem relevar toda a essência, mas faltou-me algo.

«Agora eu sabia que a tinha perdido
Não que ela tivesse ido
Mas o afastamento passeou
Por seu rosto e sua língua»

Fotografia da minha autoria


O livro de André Tecedeiro, cujo título despertou sempre um certo fascínio em mim, veio morar cá para casa sem data para ser descoberto. Contudo, com a última semana de fevereiro a ser um pequeno caos de cansaço, precisei de recuperar energias no meio da poesia e estes versos foram, sem qualquer margem para dúvida, um grande amparo.


 encontrar o poema que temos em nós

A Axila de Egon Schiele remete-nos para um pintor austríaco e para o expressionismo, ao qual está ligado. Esta referência, como se vai percebendo ao longo da obra, não é inocente, até porque o movimento caracteriza-se, em traços gerais, por se focar numa componente subjetiva das emoções, no sentir do artista. Para além de termos poemas que parecem saídos de um quadro — ou que dão vontade de ser emoldurados num —, é notório que o autor mergulha no lado mais humano e mais íntimo das nossas almas.

Como Tecedeiro escreveu, «cada um lê no poema/o poema que traz em si» e este verso talvez seja tudo o que esbate a fronteira entre a leitura e a sensação de nos estarmos a ver ao espelho. Aliás, houve vários momentos em que divaguei para longe, quer por ter representados pensamentos e estados de espírito recorrentes, quer por ter encontrado e revisitado situações cravadas no meu peito — desde a urgência da escrita ao luto. É capaz de ser egocêntrico querer tanto este vínculo entre a palavra escrita e as nossas emoções, mas foi impossível passar por estes poemas sem me sentir neles, sem sentir que são, eles próprios, uma travessia de crescimento, de descoberta, de transformação.

Ao colocar-se a nu nestas linhas que vão muito além do que é visível, cujas entrelinhas trazem tantas camadas desarmantes, incentiva-nos a fazer o mesmo, mas sem que haja desconforto. Aqui, somos todos vulneráveis, observadores, curiosos; aqui, todos temos de aprender a escutar, a cuidar, a lidar com perdas, dificuldades, dúvidas e solidão. Sou capaz de ter mentido ao afirmar que não há desconforto, porque ele existe, no sentido em que o autor imprime em nós parecer crítico, uma necessidade de levantar a cabeça para ver aquilo que nos rodeia. A realidade nem sempre apazigua as nossas dores, nem sempre atenua a culpa e o desencanto, no entanto, entranha-se em cada poro, por isso, reconhecê-la pode quebrar a nossa bolha, impulsionando-nos a sentir. Assim, sem «ter medo de mexer nas zonas que outros evitam», mostra-nos que não há temas interditos.

«E ninguém o compreende
porque quanto mais urgente
a escrita
mais ilegível a letra»

Nesta obra, que compila seis capítulos, André Tecedeiro brinca com as palavras, fá-las oscilar entre a intimidade e a exposição, entre o corpo e a casa, entre o ir e o ficar (ou entre a fuga e a permanência), entre a desilusão e o querer, mas nem sempre neste laço de contrastes, muitas vezes como se fossem sequências de um mesmo passo, rituais a ocuparem o seu espaço neste palco mundano, onde há sempre algo a florescer. Sinto que o que mais me cativou na escrita do autor, para além da proximidade e do quanto consegue ser visual, foi mesmo o modo cirúrgico com que plantou cada palavra em cada um dos poemas, construindo-os de várias formas, ora breves, ora longas, sempre na medida certa para provocar reações, para retirarmos o que, de facto, precisamos.

Foi, igualmente, bonito perceber que a sua profundidade não larga a mão de uma certa utopia: ainda que consciente das sombras, não perde a oportunidade de se deslumbrar e convida-nos a fazer o mesmo, mas, não nos iludamos, basta um verso para nos puxar o tapete e deixar aquela mensagem a ressoar por tempo indefinido. Além disso, ao dar voz a um corpo que se habita e que se modifica, que se molda, como uma plasticina, às nossas múltiplas identidades, creio que formula um retrato precioso sobre diversidade.

A Axila de Egon Schiele, cujo último capítulo integra uma conversa notável entre André Tecedeiro e Laura Falé, ramifica-se, adapta-se e transforma-se. Sem o querer reduzir, é um livro sobre cuidar, nutrir e ser lar; é sobre ser o que nos veste de dentro para fora.


 notas literárias
  • Lido entre: 23 e 24 de fevereiro
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Poesia
  • Banda sonora: Nada Dura Para Sempre, Dealema | Praia de Tinto, Mallina | Origami, VSP AST | Pode Alguém Ser Quem Não É?, Sérgio Godinho
Fotografia da minha autoria


A síndrome do impostor planta a sua semente, florescendo que nem ramos de magnólias. Entra, senta-se à mesa sem pedir licença e transforma-se numa companhia fiel, consistente, estável, enquanto faz pulsar as nossas emoções. E, como um poema que se constrói em silêncio, permanece.

Há muitas ocasiões em que parece ausente, mas basta um olhar vacilante, um pensamento mais profundo, e cruzamos energias. Quase como um lembrete de que manter-se oculta não significa ter-se ausentado por tempo indefinido. Portanto, consciente de que se divide em mil sombras, aprendi a recebê-la em casa — mesmo que a sua presença não seja simples e leve.

Acredito, até, que escrever sobre a síndrome do impostor é uma estratégia para a desmistificar, para lhe retirar peso e poder, mas ela habita em mim e arranja sempre forma de recuperar, principalmente quando racionalizo mais de perto algum passo criativo próximo. Aí, o embate é certeiro e é como se acendesse uma luz a mostrar que outros chegaram antes de mim, que não terão qualquer dificuldade para seguir aquela narrativa. E eu que só queria o peso pluma de uma ideia que me motiva sinto a insegurança a bater à porta para se juntar a esta festa privada.

Inconscientemente, encolho-me no canto da sala para respirar fundo, para ganhar balanço, ainda que ligeiro, e não permitir que enevoe a intenção, fazendo-me recuar. Já o fiz imensas vezes e, sem querer dar margem para arrependimentos, não é agradável a sensação que fica, porque sentimos mesmo que diminuímos para encaixar numa visão que nem nos pertence bem, que apenas inflama por uma síndrome que nos rouba a voz.

Ponderar, hesitar, equacionar e, inclusive, reestruturar são passos que me parecem imprescindíveis quando queremos avançar com um projeto novo, independentemente da sua magnitude, mas sinto que há sempre um esforço acrescido para combater a síndrome do impostor e não deixar que o condene ainda antes de sair da gaveta. Nesta dança descoordenada, dei por mim a regressar aos pensamentos do costume assim que decidi criar conta no Buy Me a Coffee. Mas foi neste ponto que percebi que a minha reserva em avançar não estava só dependente da síndrome do impostor — ou, então, ela só encontrou outra maneira de se camuflar.


 parecer descabido cobrar por aquilo que criamos

Uma das minhas resoluções para 2026 era silenciar esta voz pouco simpática a pairar, sobretudo no que concerne a receber dinheiro por aquilo que crio. Em 2025, quase cheguei lá, mas depois fui adiando porque me soava descabido cobrar por algo que construo a partir de casa, sobre conteúdos que leio/ouço/vejo sem pretensões de maior, apenas por gostar ou ter curiosidade em descobrir. Às vezes, existe alguma pesquisa, mas é tudo muito mais emocional.

Logo aqui identifiquei e desconstruí um problema, porque parece que só há um certo tipo de projetos a merecer este estatuto de ser pago, quando nem é uma visão com a qual concorde. Aliás, sempre defendi que se podemos ter um extra com as ideias que desenvolvemos é de aproveitar, porque aliamos o melhor de dois mundos. Portanto, se defendo isso para os outros, porque é que coloco tantos entraves quando sou eu na mesma posição? Talvez seja uma sensação de não merecimento a precisar de ser trabalhada.

Outro aspeto que me fazia recuar eram as mensalidades que me pareciam inflexíveis. Como não queria cobrar aqueles valores, voltei a adiar. Pelo meio, conversei muito sobre o assunto e cheguei ao compromisso que se apresentou mais confortável, o Buy Me a Coffee, que é uma plataforma que permite pagar a um criador de conteúdo de forma regular ou esporádica, na qual as pessoas escolhem o valor que consideram mais adequado dentro do seu orçamento. Assim, na lógica de me pagarem um café — preferi pedir um macchiato —, decidi incluir essa opção na Portugalid[Arte], a minha newsletter cultural.

Quando, no início do ano, anexei esse recado, percebi que havia mais questões pendentes a atrasarem esse passo em frente, alimentando as dúvidas.


 rentabilizar um hobby ou deixá-lo ser só um hobbie?

A proliferação de projetos pagos deixou-me a deambular por um receio muito palpável, isto porque, ao cobrar um valor para me lerem, temia que se quebrasse a liberdade para criar. Se as pessoas aceitam pagar, inevitavelmente, tenho de corresponder, não posso permitir que se sintam defraudadas com aquilo que estão a receber. Preços à parte, é uma preocupação que me acompanha em todos os conteúdos que publico (para um seguidor ou vários), mas integrar uma mensalidade parece-me trazer uma pressão acrescida.

Por um lado, isso pode ser bom para nos desafiarmos, para procurarmos a criatividade em todos os poros da nossa rotina/existência, para, como referiu o Dengaz a propósito do seu mais recente álbum, nos lembrarmos «dessa forme e da vontade de fazer as cenas». Mas, por outro, temo que escale para um patamar tão assoberbante que comecemos a perder o brilho, o gosto de criar apenas pelo prazer que isso nos dá. No fundo, de perdermos a capacidade de nos espantarmos com o que nos impulsiona a criar só porque não queremos falhar, nem queremos que sintam que não estamos a cumprir a promessa de entregar algo diferente, que justifique estabelecer um preço.

Neste seguimento, também compreendi que a minha reserva estava muito ligada à vontade de manter os meus hobbies exatamente como tal. A beleza de investirmos nos nossos projetos está em sabermos que são um escape, uma forma de «dar a folga para não dar a fuga», como canta o Lhast, sem a responsabilidade de alimentarmos um negócio. Escrevo na internet há demasiado tempo sem qualquer retorno financeiro e isso nunca foi um problema, porque o propósito sempre foi alimentar o meu lado criativo. Ter esta divisória, sem estar preocupada em rentabilizar o meu conteúdo, sossegou um coração inquieto, onde a síndrome do impostor fez morada.

Escrever organiza-me por dentro e, por isso, ao refletir sobre estas questões e hesitações fui entendendo que não são conceitos que se excluem e que é possível rentabilizar um hobbie sem que ele se transforme em algo que não queríamos.


 combater a síndrome do impostor. fazer as pazes. repetir

O ponto que transformou a narrativa foi, precisamente, encontrar o Buy Me a Coffee, porque eu continuo a criar sem impor mensalidades fixas, enquanto as pessoas podem continuar a ler gratuitamente. A diferença é que, agora, se fizer sentido, se gostarem do meu trabalho na newsletter, podem fazer uma contribuição. Sinto que este método é mesmo o melhor para mim, já que serena todas as questões ambíguas que mencionei antes e que, à sua maneira, deixam o caminho um pouco mais turvo.

As verdades e as técnicas nunca são absolutas e nós vamos reproduzindo o que se adequa mais a nós, à nossa intenção, à nossa identidade. Eu fecho a porta de casa e sei que a síndrome do impostor permanece no lado de dentro, a fazer-me questionar algo tão simples como a pertinência de pedir que me ofereçam um macchiato. Eu puxo uma cadeira e sento-me ao seu lado, nem sempre com vontade de a olhar de frente, mas um pouco mais apaziguada, porque, neste combate, fiz as pazes com ela, sabendo que repetirei, todos os dias, os passos que me permitam ir expulsando o medo, as inseguranças, mesmo que voltem, mesmo que se façam ouvir, porque ainda sou eu a dona da casa.
Mensagens mais recentes Mensagens antigas Página inicial

andreia morais

andreia morais

a escrever entre margens, poesia e sobre cultura portuguesa


o-email
asgavetasdaminhacasaencantada
@hotmail.com

portugalid[arte]

no silêncio

instagram | pinterest | goodreads | e-book | twitter

margens

  • ▼  2026 (39)
    • ▼  abril (2)
      • gira-discos março '26
      • as coisas maravilhosas de março
    • ►  março (11)
      • notas literárias março '26
      • entrelinhas março
      • em nome da filha, carla maia de almeida
      • o que fui lendo para celebrar o dia mundial da poesia
      • a axila de egon schiele, andré tecedeiro
      • combater a síndrome do impostor: ou como decidi pe...
    • ►  fevereiro (12)
    • ►  janeiro (14)
  • ►  2025 (206)
    • ►  dezembro (21)
    • ►  novembro (12)
    • ►  outubro (14)
    • ►  setembro (16)
    • ►  agosto (1)
    • ►  julho (18)
    • ►  junho (19)
    • ►  maio (21)
    • ►  abril (22)
    • ►  março (21)
    • ►  fevereiro (19)
    • ►  janeiro (22)
  • ►  2024 (242)
    • ►  dezembro (24)
    • ►  novembro (17)
    • ►  outubro (17)
    • ►  setembro (18)
    • ►  agosto (12)
    • ►  julho (23)
    • ►  junho (20)
    • ►  maio (23)
    • ►  abril (22)
    • ►  março (21)
    • ►  fevereiro (21)
    • ►  janeiro (24)
  • ►  2023 (261)
    • ►  dezembro (23)
    • ►  novembro (22)
    • ►  outubro (22)
    • ►  setembro (21)
    • ►  agosto (16)
    • ►  julho (21)
    • ►  junho (22)
    • ►  maio (25)
    • ►  abril (23)
    • ►  março (24)
    • ►  fevereiro (20)
    • ►  janeiro (22)
  • ►  2022 (311)
    • ►  dezembro (23)
    • ►  novembro (22)
    • ►  outubro (21)
    • ►  setembro (22)
    • ►  agosto (17)
    • ►  julho (25)
    • ►  junho (30)
    • ►  maio (31)
    • ►  abril (30)
    • ►  março (31)
    • ►  fevereiro (28)
    • ►  janeiro (31)
  • ►  2021 (365)
    • ►  dezembro (31)
    • ►  novembro (30)
    • ►  outubro (31)
    • ►  setembro (30)
    • ►  agosto (31)
    • ►  julho (31)
    • ►  junho (30)
    • ►  maio (31)
    • ►  abril (30)
    • ►  março (31)
    • ►  fevereiro (28)
    • ►  janeiro (31)
  • ►  2020 (366)
    • ►  dezembro (31)
    • ►  novembro (30)
    • ►  outubro (31)
    • ►  setembro (30)
    • ►  agosto (31)
    • ►  julho (31)
    • ►  junho (30)
    • ►  maio (31)
    • ►  abril (30)
    • ►  março (31)
    • ►  fevereiro (29)
    • ►  janeiro (31)
  • ►  2019 (348)
    • ►  dezembro (31)
    • ►  novembro (30)
    • ►  outubro (29)
    • ►  setembro (30)
    • ►  agosto (16)
    • ►  julho (31)
    • ►  junho (30)
    • ►  maio (31)
    • ►  abril (30)
    • ►  março (31)
    • ►  fevereiro (28)
    • ►  janeiro (31)
  • ►  2018 (365)
    • ►  dezembro (31)
    • ►  novembro (30)
    • ►  outubro (31)
    • ►  setembro (30)
    • ►  agosto (31)
    • ►  julho (31)
    • ►  junho (30)
    • ►  maio (31)
    • ►  abril (30)
    • ►  março (31)
    • ►  fevereiro (28)
    • ►  janeiro (31)
  • ►  2017 (327)
    • ►  dezembro (30)
    • ►  novembro (29)
    • ►  outubro (31)
    • ►  setembro (30)
    • ►  agosto (17)
    • ►  julho (29)
    • ►  junho (30)
    • ►  maio (24)
    • ►  abril (28)
    • ►  março (31)
    • ►  fevereiro (28)
    • ►  janeiro (20)
  • ►  2016 (290)
    • ►  dezembro (21)
    • ►  novembro (23)
    • ►  outubro (27)
    • ►  setembro (29)
    • ►  agosto (16)
    • ►  julho (26)
    • ►  junho (11)
    • ►  maio (16)
    • ►  abril (30)
    • ►  março (31)
    • ►  fevereiro (29)
    • ►  janeiro (31)
  • ►  2015 (365)
    • ►  dezembro (31)
    • ►  novembro (30)
    • ►  outubro (31)
    • ►  setembro (30)
    • ►  agosto (31)
    • ►  julho (31)
    • ►  junho (30)
    • ►  maio (31)
    • ►  abril (30)
    • ►  março (31)
    • ►  fevereiro (28)
    • ►  janeiro (31)
  • ►  2014 (250)
    • ►  dezembro (31)
    • ►  novembro (30)
    • ►  outubro (28)
    • ►  setembro (23)
    • ►  agosto (13)
    • ►  julho (27)
    • ►  junho (24)
    • ►  maio (18)
    • ►  abril (16)
    • ►  março (14)
    • ►  fevereiro (11)
    • ►  janeiro (15)
  • ►  2013 (52)
    • ►  dezembro (13)
    • ►  novembro (10)
    • ►  outubro (9)
    • ►  setembro (11)
    • ►  agosto (9)
Com tecnologia do Blogger.

Copyright © Entre Margens. Designed by OddThemes