Entre Margens

Fotografia da minha autoria


A possibilidade de ficarmos a conhecer melhor áreas que adoramos é sempre valiosa e entusiasmante, isto porque, de repente, é como se abríssemos todas as janelas da casa e víssemos as coisas com outra luz. E, por isso, mergulhei no desconhecido e fui tentar saber mais acerca dos meandros do panorama musical, que João Gobern trouxe para o ensaio da Fundação Francisco Marques dos Santos, sendo a minha escolha de janeiro.


 a indústria musical em portugal

Tira o Disco e Toca ao Vivo, tal como um álbum que escutamos devagar, leva-nos numa análise pela musica industrial, em Portugal, e mostra-nos vários lados da equação. Se, antes, se «faziam concertos para vender discos», agora, o cenário parece ter invertido, uma vez que se «editam discos para conseguir concertos». Este arco evolutivo é já um indicativo interessante de como «a música mudou, até na forma como a consumimos».

O que é menos visível para quem é somente ouvinte, como é o meu caso, assume, aqui, um lugar de destaque. E o que achei curioso — talvez, pouco esperançoso, admito — é ver como algumas componentes continuam tão atuais. Seria expectável que, ao longo destes anos, as condições se tornassem mais seguras para os músicos, que existisse um respeito maior pela sua arte, no entanto, há linhas narrativas inalteráveis. O mercado está em expansão e, mesmo assim, é impressionante como os problemas/as carências parecem orbitar sempre nos mesmos planos, até porque aquilo que a evolução trouxe de bom continua a não ser utilizado, em primeira instância, para benefício dos artistas.

Quando João Gobern menciona como prática a ida a discotecas para comprar discos e ficar a par das novidades, num exercício de comparação com os tempos atuais, essa imagem transportou-me, de imediato, para as ocasiões em que entrava na Fnac e ia às secções com auscultadores para ouvirmos o que tinha saído e/ou para explorarmos o catálogo à disposição. Há uma parte de mim que tem saudades dessa magia; já a outra, acha espetacular que, ao ser mais fácil de aceder a trabalhos discográficos (nacionais e internacionais), o processo seja mais célere. Como alguém que continua a adquirir cd’s e vinis, queria ter ficado mais um pouco nesta memória preciosa que o autor partilhou.

Numa oscilação entre prós e contras, Gobern fez uma análise extremamente completa, focando-se em temas como o Napster, a transição do físico para o digital, os concursos de talentos, os streamings e os preços dos bilhetes para os concertos (e o descontrolo das revendas), entre outros, mostrando a pluralidade da indústria. No entanto, houve duas ideias que ficaram a ressoar cá dentro, porque penso nelas com regularidade.

«A progressiva perda de identidade cultural não parece incomodar os grandes decisores»

Num determinado ponto do ensaio, que me cativou logo pelos títulos dos capítulos, o autor focou-se na atenção que dispensamos às letras das músicas, porque existe quem acredite e defenda que a qualidade tem decrescido, argumentando-o com o recurso a um léxico que «elimina em vez de acrescentar». É certo que temos uma língua com um vocabulário rico e que usamos bem menos termos do que aqueles que existem, porém, sinto que este discurso só perpetua, ainda que de forma camuflada, um certo elitismo e a tentativa de transportar a música para um espaço onde ela não pertence, que é ser inacessível. Além disso, como Gobern referiu, e bem, essa visão é enviesada, porque, se fosse assim, «não teríamos excelentes desempenhos poéticos» em áreas como o rap.

Outro dos temas onde permaneci, por ser uma questão com a qual me debato sempre, foi nas quotas de música portuguesa a passar nas rádios nacionais. Primeiro, porque a necessidade de regular uma quota parece-me, já de si, um problema e não a solução e, segundo, porque faz-me genuína confusão vedar-se tanto o acesso aos nossos artistas — ou apenas se alargar o horizonte a meia dúzia de nomes. Acho importante que as playlists das rádios nos mostrem artistas internacionais (muitos deles, se calhar, não conheceríamos de outra maneira), porque esta abordagem cria pontes, porque é uma maneira de termos uma visão mais ampla das sonoridades, mas quantos muros estas quotas erguem a artistas nacionais? Quantos artistas nacionais passam despercebidos porque não existe uma curadoria equilibrada? Naturalmente, escutar mais ou menos música portuguesa não está unicamente dependente do que nos chega das rádios, até porque temos alternativas, mas é menos uma plataforma a estabelecer esse contacto.

Tira o Disco e Toca ao Vivo trouxe-me várias reflexões e sei que é daqueles livros onde quererei regressar: por um lado, porque gostava de perceber que existiram aspetos que ficaram datados e, por outro, porque João Gobern conseguiu elencar um retrato muito transversal deste universo, que terá sempre peso — e pertinência — pela sua história.


 notas literárias
  • Desafio: Ler ffms
  • Lido entre: 19 e 21 de janeiro
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Não ficção
  • Banda sonora: Impressões Digitais, GNR | Rio-me de Janeiro, They're Heading West & JP Simões | Há-de Passar, Deolinda

Fotografia da minha autoria

A emotividade agregada a um concerto pode reunir diversos motivos e, seguindo essa lógica, ter várias formas de se manifestar. Durante um longo período da minha vida, não cultivei o hábito de marcar presença nestes espetáculos ao vivo, apesar de ter na música uma aliada fiel, mas quando passei a fazer disso uma prioridade, dentro das minhas possibilidades, procurei sempre guardar recordações do momento. Como? Recorrendo a fotografias e a vídeos, guardados num álbum de memórias intemporal.

Há umas semanas, o Alexandre Guimarães utilizou as suas histórias de Instagram para nos convidar a ler um artigo que escreveu para a VAMMU Magazine, com o intuito de refletirmos acerca da necessidade de utilizarmos telemóveis em concertos. Do lugar de alguém que já o usou bastante e tentar usar só em pontos específicos do espetáculo, aceitei o repto indireto e mergulhei num ensaio de sensibilização — sem moralismos.


 o limite entre eternizar e condicionar

Começando por responder à questão que serve de mote para o debate — Precisamos assim tanto de telemóveis em concertos? —, sinto que depende. Por um lado, creio que não, não é algo imprescindível, porque o propósito será sempre minimizar aquilo que «desvirtua a experiência», elevando-a, mas, por outro, não sou capaz de fechar a resposta num não redondo e inflexível, atendendo a que compreendo quem o faça. E há tantos motivos associados: o querer eternizar, ser um lembrete de que se realizou um sonho, o lado saudosista que nos fará querer reviver aquele momento mais tarde.

Naturalmente, há, aqui, outro ponto que não pode ser retirado da equação, porque a minha experiência não é mais valiosa do que a de quem me rodeia, ainda para mais se estivermos a falar de concertos pagos. O bom senso tem de imperar em qualquer das circunstâncias, no entanto, seria ingénuo achar que este aspeto não pesa muito mais num espetáculo em que qualquer elemento do público adquiriu um bilhete para lá estar, sobretudo, porque o preço não inclui visibilidade reduzida por braços alheios. Portanto, seja qual for o impulso que nos leva a usar um aparelho tecnológico, nunca poderá ser maior do que o respeito por quem quer viver aquela experiência como nós.

A premissa não passa por «algemar a liberdade individual», nem por encaminhar a conduta para o «extremismo d[a] proibição», mas, antes, trazer para a mesa o impacto da passividade. Talvez o exemplo utilizado pelo Alexandre choque, se o retirarmos do contexto, porém, revela a força necessária para nos prender a atenção e para nos levar a questionar aquilo que implica. No fundo, ao sinalizar que não é novidade que a mão humana trave «a força das máquinas», impulsiona-nos a olhar para lá de uma camada superficial. Reparem, se assumir que é normal alguém passar uma hora, duas, o tempo que for de telemóvel em riste, condicionando quem está atrás, isso legitima que todas as pessoas da sala façam o mesmo. E, de repente, deixa de existir um palco, um artista e um concerto a acontecer, porque não somos mais do que uma continuação de ecrãs.

Confesso, no entanto, que consigo identificar um toque poético neste gesto coletivo: da mesma forma que me comove ouvir tantas vozes a cantar a mesma canção, também acho que há uma certa beleza em tantos braços que se elevam para eternizar um tema nas suas galerias, visto que demonstra que a mensagem chegou de um modo plural — ainda que, depois, cumpra propósitos distintos para cada um. Agora, claro, isto não pode ser um convite. Esta romantização que preferi traçar, reconheço, não pode servir como argumento para sermos permissivos em relação a um comportamento que acaba sempre por inibir e condicionar quem se encontra próximo. Aliás, a pessoa atrás de mim pode ter preferido não filmar e isso não indica que a música a emocione menos. Por isso, volto ao ponto central de tudo isto: não nos esquecermos de ter bom senso.


 arco evolutivo

O Alexandre refere, e bem, que «é importante não menosprezarmos aquele que é um ato de cultura a acontecer». Uma vez que sempre fui mais atenta à nossa — com maior incidência na música e na literatura —, escudei-me muitas vezes neste argumento, na vontade de partilhar aqueles que me inspiram, de partilhar aquele momento que, por ser ao vivo, se revestiu de uma aura única, impossível de reproduzir, estreitando laços com o artista. No blogue, isso já acontecia, contudo, tomou outras proporções com a newsletter. Embora não anexe os vídeos, gosto sempre de intercalar as palavras com registos fotográficos. Se tenho, forçosamente, de o fazer? Não tenho, apenas sinto que ajudam a ilustrar melhor a ocasião, mas procuro não perder a decência pelo caminho.

Eu sei que o ensaio não é para apontar dedos, não é uma crítica gratuita e transversal. Eu sei que o problema não está em quem doseia e é consciente no modo como vive o concerto, permitindo que os demais o vivam também, mas refletir acerca deste arco evolutivo ajuda-me a entender melhor as razões que me levam a determinadas ações.

Quando, há mais de dez anos, fui à Gafanha da Nazaré ver Os Aurora, sei que gravei todas as músicas (e ainda as tenho disponíveis no Youtube), com uma qualidade de imagem e de som péssimas, mas fi-lo, primeiro, porque estava na primeira fila e não corria o risco de incomodar terceiros e, segundo, por estar a guardar memórias. Anos mais tarde, quando vi Kaiser Chiefs, na Queima das Fitas do Porto, não fiz qualquer registo e isso entristece-me, apesar de as recordações permanecerem. A diferença, se calhar, prende-se com a maneira como posso minimizar as saudades: Os Aurora já não existem enquanto banda, mas sei que terei sempre aqueles vídeos a transportarem-me para épocas muito felizes; quanto aos Kaiser Chiefs, como não sei se os voltarei a ver ao vivo mais alguma vez, faz-me falta essa memória quase palpável onde regressar, para diminuir a distância. A minha envolvência com a música de um grupo e/ou artista não depende destes mecanismos, apenas gosto desta ideia de poder recordar, de ir aos álbuns no telemóvel e no disco externo e perder-me numa viagem sempre emocional.

Creio que, em parte, a vontade de gravar/fotografar estes momentos se vincula muito, por um lado, ao não querer perder fragmentos do que vivi e, por outro, ao facto de não dar por garantida a presença em concertos. E isto, com mais ou menos consciência, foi validando as minhas ações. Como é que passei a sentir que isto se podia transformar num problema? Quando parei para pensar do prisma de quem está em cima do palco, a dar corpo e alma ao espetáculo, e ressoou que não queria passar a vê-lo de um ecrã.

Nunca concordei com aquela máxima de que as melhores coisas não são registadas, já que, como refleti nesta publicação, não acho que registar os momentos nos impeça de os vivermos na sua plenitude, porque é a nossa presença que dita isso. Não obstante, é necessário equilíbrio, como em tudo, e em concertos, sem ter passado a abraçar uma visão antagónica, aceitei que podia explorar alternativas que condicionassem o menos possível quem me rodeia. Continuo a elevar os braços para apanhar menos cabeças, só que já não o faço durante uma música inteira (ou faço-o apenas naquelas que me leem por dentro) e retiro o brilho do ecrã. Se é o suficiente? Reconheço que talvez não seja, mas é um barómetro que me aproxima mais do bom senso do qual não quero abdicar.

A experiência de ouvir músicas que nos curam as feridas é sempre transformadora, no entanto, isso só é possível se estivermos investidos no concerto. Pessoalmente, adoro ir observando a sala e ver que somos tão diferentes na forma como o vivemos, mas que continuamos unidos por um fio invisível que só a arte sabe bordar. E, sim, não ver os telemóveis é agradável, porque parece que deixa de haver um filtro, mas qual será a solução para este flagelo? Proibir não acho que seja viável, continuar a depender do bom senso da humanidade soa-me a um trunfo imprevisível, mas, ainda assim, menos invasivo. Por outro lado, o Alexandre propôs uma abordagem que é capaz de garantir um pouco mais de qualidade: os artistas, sem que seja obrigatório, assegurarem «uma equipa focada em criar conteúdo digital». Desta maneira, «quem quiser rever o que ali aconteceu, terá essa hipótese». Sinto que é um bom compromisso, mas não há almoços grátis e este investimento pode acabar por implicar outro tipo de custos e de entraves.

Colocando de lado o vínculo afetivo, existe outro aspeto sobre o qual fico a pensar: o fator surpresa. Quando vamos a uma peça de teatro ou vamos ver um solo de stand up, por exemplo, há um cuidado maior com aquilo que partilhamos, para não estragarmos o texto, nem as dinâmicas, para não comprometermos a experiência aos que forem ver. Então, porque é que num concerto essas balizas parecem não existir? Porque motivo é mais aceitável documentá-lo com vídeos e fotografias que podem revelar parte daquilo que o artista queria que fosse surpresa? E, atenção, zero moralismos nestas perguntas, porque não me excluo do problema, trouxe-as para que sejam mais um foco de debate e para que me sirvam como mais um impulso para ser consciente no modo como vivo a arte ao vivo. No testemunho que concedeu ao locutor, Bárbara Tinoco destacou este cenário e creio que é difícil lermos as suas palavras sem pensarmos no quanto deve ser frustrante construir um espetáculo de raiz, compor cada detalhe e sentir que apenas o primeiro público será surpreendido. Se, por um lado, a partilha nas redes pode atrair ouvintes, por outro, pode levar a que parte do encanto se perca. Será que compensa?


 filmamos, fotografamos, partilhamos... mas revemos?

Recuperando uma ideia anterior, embora continue a defender que registar momentos não nos impede de os vivermos, concordo com o Alexandre quando declara que «há uma espuma de distração que arrasta a total entrega», atendendo a que «tudo continua a acontecer, mas não é igual». Nem poderia ser, já que há uns breves segundos em que o nosso foco se altera, quebrando a envolvência, o olhar cúmplice, a comoção. E dou por mim a pensar em todas as músicas que gravei, no compasso em que não estive tão presente para as eternizar; e dou por mim a pensar num cenário hipotético, onde teria a possibilidade de escutar a Foguetes ao vivo, por tudo o que significa e partilhei aqui, e sei que não, não quereria perder um segundo que fosse ou, melhor, não quereria que a minha atenção ficasse dividida entre pegar no telemóvel e a magia da canção. Agora, também acredito que possamos recuperar caso não desvirtuemos o propósito final.

Não sei até que ponto estamos a tentar ser videógrafos amadores, mas quero ir aqui: «percebermos que não vamos voltar a ver assim tantas vezes aquelas gravações», isto porque eu vejo. Não sei que valor representa este «tantas vezes», porém, regresso com regularidade aos vídeos que gravei, sobretudo se estiver há muito tempo ser ver aquele artista. O que filmei, sem qualquer espaço para dúvida, não ficou extraordinário, mas basta-me o primeiro acorde para ser transportada, para reviver (com outro impacto) o que senti, para estar grata pelo privilégio de ter assistido àquele momento, ainda para mais se o julgava impossível, como no caso dos Silence 4 ou dos Dealema. Regresso a vídeos que me enviaram, porque não pude estar presente, como o caso do concerto do Lhast no Meo Marés Vivas, porque esse cuidado atenua um pouco a ausência. Rever nunca será igual, é certo, mas apazigua qualquer coisa cá dentro que não sei definir.

Acredito que «haverá sempre mais brio ao optar por ser um espectador ativo», por isso é que fui diminuindo o tempo que passo de braços esticados, por isso é que já fiz as pazes com esta vontade de registar ao máximo com receio que se perca, porque existe magia no silêncio, nas luzes apagadas que nos envolvem numa intimidade particular.

Sei que não deixarei de gravar, da mesma maneira que sei que viverei cada concerto com a liberdade e energia que me exige, porque, sem demonizar práticas, sem elevar muros, não deixo de estar presente, nem de sentir que «estou [ali] com o artista e que, naquele momento, «não há nada mais importante» do que sentir na pele cada pedaço de história que nos está a contar — através das canções e da narrativa do espetáculo.

Debater este paradoxo parece-me sempre valioso. E se algum artista quiser alinhar «[n]uma sala sem telemóveis», como propôs o Alexandre, repitam-no no Porto, uma vez que tenho a certeza de que será uma oportunidade com memórias insubstituíveis.

Fotografia da minha autoria



O meu apreço pelas letras manifestou-se cedo e foi logo acompanhado por uma perdição por cadernos, blocos e tudo o que estivesse relacionado com escrita. Tenho presente memórias da minha secretária em frente à janela com várias folhas espalhadas e o gosto tremendo de me sentar nas cadeiras da minha sala da primária. Por oposição, não tenho qualquer lembrança relativa aos tormentos escondidos pelas margens vermelhas dos cadernos. Honestamente, acho que nunca tiveram esse efeito em mim, mas acho curioso que duas experiências possam levar-nos para lugares tão distantes.

Não estava nos meus planos regressar tão rápido a Elena Ferrante, tendo em conta que o ano passado li cinco livros da autora, mas foi a primeira proposta do Marginália, clube de leitura da Raquel Dias da Silva, e senti que fazia todo o sentido abraçar um livro com conceitos que me dizem tanto.


 nota introdutória

As Margens e a Escrita compila três palestras da autora, a convite de Constantino Marmo, «por ocasião das Umberto Eco Lectures», com o propósito de se debruçar no seu papel enquanto escritora, partindo de experiências individuais e visões mais amplas acerca desta arte. Além disso, inclui um ensaio focado em Dante, que encerrou o Congresso Dante e Alti Classici.

Parti à descoberta de mente aberta e fiquei logo surpreendida com o tom intimista dos textos, porque gosto muito mais quando o escritor partilha os seus pensamentos, as suas estratégias, os conhecimentos que vai adquirindo pela rotina ou no momento em que a decide transpor. 

Reunir um conjunto de dicas pode ser interessante (e muito válido), mas, para mim, tem mais impacto quando não enveredam por esse caminho e nos permitem aceder a um espaço privado, sempre único, até porque as vivências são diferentes para cada escritor. E, assim, fui avançando com ainda mais entusiasmo.


 a pena e a pluma

Elena Ferrante começa por refletir sobre a sua relação com a escrita, convidando-nos a fazer o mesmo. Neste ponto, achei delicioso como um aspeto simples teve a capacidade de despertar tantos debates internos. Como comecei por referir, não tenho qualquer memória de as «linhas verticais, uma à esquerda, outra à direita» dos cadernos terem sido um problema, mas isso mostra-nos como a mesma circunstância tem impactos distintos e acredito que é nesta partilha plural que compreendemos a extensão dos assuntos — e, também por isso, chegamos a lugares diferentes.

Pessoalmente, sempre achei graça a desenhar as letras e a mantê-las entre as margens, mas as linhas, para Ferrante, foram castradoras, atendendo a que havia uma consequência caso as ultrapassasse. Este retrato deixou-me a pensar no quanto é importante haver limites, mas que a forma como os procuramos impor nem sempre é a mais correta, adequada, até mesmo benéfica. Talvez seja uma visão dramática, mas este ponto de partida podia ter sido um motivo para que a autora se afastasse da escrita e, hoje, não termos este livro para debater (e, provavelmente, podia ter criado barreiras noutras áreas da sua vida). Quantas pessoas desistiram de algo pelo poder dos castigos, dos reforços negativos?

Nesta palestra escrita, também achei interessante a sua visão sobre a questão do pensamento, não só por ser uma prova da nossa identidade e individualidade, mas também por despertar um contraste entre disciplina e liberdade, entre domínio e quebra de normas.

Organizar o pensamento, torná-lo concretizável através das palavras, nem sempre é uma tarefa simples, no entanto, é no (des)equilíbrio do eu que vamos encontrando a nossa voz literária.


 água marinha

As margens podem ser uma forma de nos guiarmos, de nos orientarmos, mas transpô-las pode ser igualmente valioso, porque temos acesso a outros horizontes.

Nesta palestra, achei curioso como narrar a realidade consegue ser algo complexo, visto que somos um produto de vários estímulos. Portanto, quando tentamos descrever aquilo que vemos, por mais isentos que procuremos ser, isso será sempre condicionado por fatores distintos, desde crenças a estados emocionais. Fazer este exercício pode revestir-se de uma pontada de frustração, mas sinto que tem uma certa poesia, porque comprova que todos nós temos o poder de deixar uma pegada no mundo.

Transpondo este cenário para a escrita, Ferrante foi-se debatendo acerca da multiplicidade da escrita e da necessidade de nos inscrevermos no mundo para podermos escrever sobre ele. E esta imagem é mesmo fascinante, porque acho que também nos impulsiona a sermos inteiros naquilo que fazemos.


 histórias, eu

As palavras nunca são bem nossas, mas são as trocas com o mundo que ativam a imaginação, a subjetividade do olhar; são essas trocas que nos desbloqueiam, que nos constroem «enquanto sujeito e enquanto [autores]».

Partindo, talvez, de um «sentimento de inadequação», há, neste texto, uma perceção mais nítida daquilo que a influencia, do património literário que marcou a sua voz — porque o eu que escreve não se dissocia do eu que leu — e a constatação de que esse património ser maioritariamente masculino a encaminhou por uma rota diferente. Assim, percebe-se que a escrita, para além de tudo o resto, se transformou num ato de resistência, numa forma de metamorfosear a herança.

Outro ponto que retive foi que «escrever é tomar assento entre tudo aquilo que já foi escrito», por concordar, mas sobretudo por sentir que foi nesta palestra que nos abriu a porta para o seu momento de viragem, para a importância do «eu feminino que muda a História». Acompanhar esta transição foi inspirador.


 a costela de dante

Uma vez que nunca li Dante, foi a parte com que me relacionei menos. Sei que me falharam referências, ainda que consiga entender a pertinência da reflexão, porque Elena Ferrante é clara no discurso, é lógica nos seus raciocínios, mas acredito que terá outro impacto para quem estiver familiarizado com a sua obra.

Não obstante, retiro deste texto, por um lado, o quanto o amor em toda a sua pluralidade pode ter uma força visceral na escrita e, por outro, o impacto de uma figura feminina ocupar um espaço que lhe era vedado, incluindo na literatura. Além disso, achei mesmo curioso que, de um modo subtil, a autora nos vá confrontando com as quebras do cânone (ou como há aspetos que parecem resistir à passagem do tempo) e nos alerte para esse libertar da costela que vem de um legado tão enraizado, sobretudo para as mulheres.


As Margens e a Escrita será um livro para regressar, para absorver as camadas onde não fui capaz de chegar neste primeiro contacto, até porque fiquei mesmo rendida à(s) narrativa(s). O conceito de margem fascina-me, ou não tivesse um projeto com essa palavra no título, principalmente pela multiplicidade de contextos/significados e por oscilar num contexto que nos orienta num determinado curso, que nos dá amparo, mas que também nos pode restringir, caso nunca avancemos. E Ferrante impulsiona-nos a avançar.


 notas literárias
  • Desafio: Marginália
  • Lido entre: 15 e 16 de janeiro
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Ensaio
  • Banda sonora: sLo-Fi, Slow J (álbum) 

Fotografia da minha autoria


A primeira vez que ouvi a Gisela João ao vivo (2014) tinha a Serra do Pilar como pano de fundo. Embora já me restem poucas memórias dessa noite, perdidas numa neblina que acompanha o avançar dos dias, nada fez desaparecer o impacto da sua voz grave, quente, que parece acolher o mundo inteiro em cada palavra. Dez anos depois, voltei a vê-la na Feira do Livro do Porto, rendendo-me uma vez mais. Mas estava a faltar-me um concerto numa sala mais intimista e, desta forma, fui ouvi-la ao Coliseu do Porto.

O frio que cobriu a Invicta ficou à porta, até porque não tinha qualquer hipótese de encontrar espaço no aconchego com que a artista nos abraçou, na inquietação que nos emociona, que nos molda a respiração e nos transporta para um viagem urgente, que quase nos faz esquecer o que se passa ao nosso redor, apesar de nos manter despertos. A construção do espetáculo, que contou com uma componente visual a transbordar de força, de histórias paralelas a embalar as letras e a sonoridade dos instrumentos, fez com que me comovesse em vários momentos, porque é arrepiante o modo como, em cima do palco, parece comunicar diretamente com o público, numa conversa pessoal, onde ninguém fica de fora — aquelas vidas também nos pertencem, também existem pedaços nossos naquelas dores, naqueles sonhos, naquelas mágoas e nas hesitações.

A poesia da Gisela João vai para além dos poemas que interpreta: está, claro, na sua voz cheia, nos silêncios, nas histórias que nos conta entre canções. A sua poesia está no sorriso que não vemos, quando se posiciona de costas, mas que sentimos a formar-se nas palavras. E, por falar em palavras, não podia estar mais de acordo quando dizem que ela as defende até ao último fôlego. Esta imagem não é só belíssima, é também um retrato fiel do modo como se entrega ao poema e como respeita o legado deixado no nosso cancioneiro, por artistas que usaram a arte como arma, como rosto de liberdade.

Há uma intensidade na sua interpretação que parece quase um grito, um arrancar das entranhas pela urgência de acordarmos, de nos erguermos, porque «se dermos as mãos fica mais fácil». Mas depois, como se fizessem sempre parte do mesmo compasso, há a doçura da vulnerabilidade, a gargalhada que floresce pelas peripécias que nos conta, a metamorfose de quem se vai libertando das amarras. E houve dança, muita dança, e uma partilha muito generosa, prolongada pelos convidados que trouxe para o concerto.

Fomos Inquieta, AuRora e Gisela João. Fomos todos aqueles que carrega na voz. Não sei traduzir a força que ela imana, contudo, senti o privilégio de a poder ver tão de perto.

Fotografia da minha autoria



Janeiro e a sua (aparente) dança interminável por dentro.

Sei que não trago uma perspetiva nova, porque a sensação de um mês que se multiplica é transversal, mas há qualquer coisa em janeiro que desacelera o relógio e nos mantém em câmara lenta. E, se calhar, é mesmo disso que precisamos, para não vivermos tão a correr. 

Por outro lado, janeiro relembra-me sempre o filme Feitiço do Tempo, protagonizado por Bill Murray, no qual um meteorologista fica «preso num loop temporal, vivendo repetidamente o mesmo dia». Embora não esteja presa à mesma data, houve dias que pareceram apenas uma imitação dos anteriores. Mas, confesso, fui-me policiando nestas observações, porque estou ciente do privilégio que é ter apenas esta dor para combater, quando houve tempestades maiores a desolar uma parte da população. No meio de tanta angústia, ainda há a esperança, sempre acalentada por um povo que não larga a mão de ninguém.

Apropriei-me dos versos da Filipa Leal e dancei mesmo até ao fim.


as coisas maravilhosas de janeiro


 os fragmentos aleatórios

O ano começou com uma ideia que fervilhava cá dentro há algum tempo: avançar com um substack de poesia, porque queria ter os meus poemas num único espaço e assumir o compromisso de tornar a escrita deste género mais regular. Assim, criei o no silêncio, enviando um poema novo todas as quintas-feiras, às 07h07. 

Os batons, não é segredo, continuam a ser a minha maior perdição no mundo da maquilhagem. Por isso, estou sempre disponível para experimentar novas fórmulas e render-me àquelas que cumprem exatamente aquilo que prometem, como é o caso dos Locked Kiss Ink, da MAC. Tenho em três cores (dois tons de vermelho e um castanho) e, para além de terem uma durabilidade incrível, são bastante confortáveis, ao ponto de me esquecer que os estou a usar. O preço não é o mais simpático, mas sinto que tenho batons para a vida.

   

Para complementar, até porque os lápis de lábios fazem milagres, comprei estes dois Smashbox. Sinto que o vermelho não esbate por nada, mas o castanho é mais fácil de trabalhar, caso quisermos esbater o produto. Apesar disso, estou muito satisfeita com ambos, e até já os usei como se fossem batom. Talvez não repita a experiência, porque tenho produtos apropriados para o efeito, mas não desgostei da fórmula.


 as músicas e os álbuns

Janeiro chegou com promessas e muitas descobertas musicais, trazendo novidades que tornaram os dias cinzentos mais luminosos e levantando o véu para trabalhos futuros (para os quais estou muito entusiasmada).

As músicas que marcaram o mês: Nome, Harold | Sonhos, Dengaz | Vento, xtinto | Olha P'ra Ela, Iolanda | Aperture, Harry Styles | À Tua Espera, Yang.


Os álbuns que marcaram o mês: Por Fora Ninguém Diria, Miguel Araújo | Fazer as Pazes, Rapaz Ego | Feliz(mente) Triste, Carolina de Deus | Lavoisier, ACE.


 as publicações

bullet journal literário 2026
O planeamento do meu bullet journal literário é sempre uma das últimas tarefas do ano, até porque aproveito a leveza dos últimos dias para me sentar à secretária e deixar que a criatividade encontre o seu ritmo (aqui).

kobo: um ano depois
Na publicação sobre as motivações e primeiras impressões, destaquei aqueles que são, para mim, os pontos fortes e a maior fragilidade deste e-reader e, como mantenho a mesma opinião, vou-vos poupar a repetições. Quero, pelo contrário, mostrar-vos tudo o que li e analisar se fiz ou não uma grande poupança monetária (aqui).


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, trago um solo de comédia e um podcast.

Crente, Luana do Bem
O impacto deste solo, para mim, também passa pela interpretação, porque as palavras ganham vida no modo como as transfere para o público, como as reveste de um certo exagero e como as entoa. De uma forma muito natural, a sua expressividade transmite-nos a sensação de estarmos a viver aquelas histórias na mesma altura e com a mesma intensidade — de repente, é como se fossem nossas também. A Luana consegue ser bastante enérgica a contar as suas histórias e sinto que, aqui, usou isso a seu favor.

As Desobedientes
As «boas meninas vão para o céu, as más mudam a história», sinto, é o mote perfeito para o novo podcast da Rádio Observador, As Desobedientes, contado por Margarida Vila-Nova, Maria João Lopo de Carvalho e Alexandre Borges, ao longo de 12 episódios. O fio condutor que inspira estas conversas é o livro As Revolucionários, de Maria João Lopo de Carvalho, centrado em 12 personalidades femininas inspiradoras que, à sua maneira, foram fazendo as suas revoluções e quebrando barreiras na sociedade. Uma vez que queria apostar em projetos diferentes, achei que esta proposta seria uma boa forma de começar, até pela hipótese de descobrir nomes que não tenho tão presentes.


 os livros

Janeiro começou com poesia e terminou com um novo verbo favorito. Como seria de esperar, nem todas as leituras se tornaram memoráveis, mas sinto que o mês começou com nota positiva.

Os favoritos do mês: Recomeçar, María Dueñas | Natureza Urbana, Joana Bértholo | Outonecer, Júlio Machado Vaz.

Outros livros lidos: Uma Falha nos Dentes, João Gesta | Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, Filipa Leal (releitura) | Na Terra dos Outros, Manuel Abrantes | As Margens e a Escrita, Elena Ferrante | Tira o Disco e Toca ao Vivo, João Gobern | Paradaise, Fernanda Melchor.


 os momentos

Combinar programas com amigos. Adiar planos, por causa de constipações. Experimentar uma nova francesinha e ficar intrigada com o molho. Ir a espetáculos ao vivo. Ver vídeos de concertos. Ir votar. Combinar sessões de escrita. Voltar a receitas antigas. Escrever. Ler artigos. Responder a artigos. Avançar com novas ideias. Ver as camélias a florir. Comprar bilhetes para espetáculos futuros. Combinar lanches em casa. Voltar a ver Merlin. Janeiro teve muitas vidas dentro e eu fi-lo render em tudo o que trouxesse motivação.

      

      

Sombra, Bumba na Fofinha
Não creio que faça sentido estar a desenvolver uma consideração detalhada acerca do solo, até porque, como seria de esperar, grande parte das histórias já tínhamos ouvido e reforçaram tudo o que escrevi na newsletter 63. Não obstante, permitam-me apenas destacar o quanto continuo fascinada com a sua forma de narrar as peripécias que lhe aconteceram, o que mudou, que angústias surgiram, que lugares emocionais passou a habitar, porque fá-lo com naturalidade, a dose certa de exagero e uma graça que lhe é mesmo natural. Acho impressionante a cadência e a sua capacidade de interligar tudo como se fosse a sequência mais óbvia. Além disso, agrada-me que não tenha qualquer receio de levar o texto para uma parte mais emocional, porque não compromete o seu lado cómico, risível. Esta sensibilidade, para mim, faz com que se sobressaia no meio.

Gisela João no Coliseu do Porto Ageas
A poesia da Gisela João vai para além dos poemas que interpreta: está, claro, na sua voz cheia, nos silêncios, nas histórias que nos conta entre canções. A sua poesia está no sorriso que não vemos, quando se posiciona de costas, mas que sentimos a formar-se nas palavras. E, por falar em palavras, não podia estar mais de acordo quando dizem que ela as defende até ao último fôlego. Esta imagem não é só belíssima, é também um retrato fiel do modo como se entrega ao poema e como respeita o legado deixado no nosso cancioneiro, por artistas que usaram a arte como arma, como rosto de liberdade.


Fevereiro, sê gentil ✨



A música é uma das maiores constantes da minha vida, através de canções e de discos, através dos nomes que me chegam como novidade ou dos artistas que me preenchem todas as medidas. Por esse motivo, um dos propósitos que quis incluir em 2026 foi o de dedicar um pouco mais de atenção aos álbuns que ouço por mês.

Sei que nem todos despertarão o impulso para que escreva publicações longas, no entanto, desta forma consigo parar e refletir melhor sobre as suas múltiplas sonoridades e o que me fizeram sentir.


os álbuns de janeiro


POR FORA NINGUÉM DIRIA, MIGUEL ARAÚJO

A viragem do ano trouxe um novo álbum do Miguel Araújo e eu escolhi-o como banda sonora para o primeiro dia. O cantautor nunca falha e, por mais que me alinhe com outros nomes, acabo sempre por regressar, à procura desta familiaridade que lhe sei de cor. E o que mais me impressionou neste trabalho foi a leveza, foi a sensação de aconchego que nos convida a ir devagar.

Ouvir estas canções é ter a impressão de que vamos diminuir o ruído do mundo, a urgência desmedida, e escutar os detalhes que se ofuscam pela pressa. Além disso, sustentando-se na pluralidade (e mistério) do título, Por Fora Ninguém Diria concede-nos espaço para pensarmos em vários assuntos — mais ou menos pessoais, mais ou menos transversais a todos nós.

Sinto que é um álbum que pode soar a um abraço.



RAPHANUS RAPHANISTRUM, FILIPA MON SANT

Um álbum sobre a vida da artista, mas inspirado na vida e obra de José Saramago, o que achei particularmente curioso. Com uma sonoridade trap lo-fi, sinto que a Filipa não se socorreu de qualquer filtro, por isso, há rimas que nos impactam, que nos desorganizam por dentro, que nos confrontam com as nossas visões/crenças.

O álbum saiu em outubro de 2025, mas só agora é que o descobri e foi uma ótima surpresa, até porque pretendo acompanhar mais artistas femininas no hip hop nacional.



MOGNO, DENISE

A Denise, que também só descobri este ano, diz que Mogno é «um álbum que carrega a densidade, a resistência e a elegância da madeira nobre que lhe dá nome». Pessoalmente, acrescentaria que também é feito de silêncios e vulnerabilidade, encontrando a sua força no equilíbrio entre esses pólos.

Tenho regressado a este trabalho com regularidade, porque sinto que há temas que conversam connosco, que apaziguam algumas dúvidas — quanto mais não seja por não nos sentirmos sós. Achei-o muito honesto e só tenho pena de não o ter descoberto mais cedo, mas já não o largo.



BOLA DE BILHAR, NUNCA MATES O MANDARIM

O primeiro longa duração da banda traz um tom amadurecido, continuando a privilegiar a veia indie que os caracteriza. A parte mais fascinante é que, pelo meio, vão arriscando em sonoridades que nos impulsionam a dançar, enquanto outras conversam diretamente com o nosso lado mais emocional.

Bola de Bilhar aborda temas como a dispersão geográfica, a rotina, os papéis de género, a infidelidade, a toxicidade, a linha tão fina entre jogo e paixão. É daqueles álbuns que, sinto, crescerá com o tempo e onde quererei regressar com regularidade, até porque há um dialeto que se torna familiar, um sotaque portuense que me permite permanecer em casa.



BAIRRO DAS FLORES, BANDIDOS DO CANTE

A primeira impressão que tive a ouvir este álbum é que tem uma sonoridade melancólica, de quem reuniu todas as suas feridas e decidiu navegar fundo em cada uma delas. Embora não estivesse totalmente a contar com este registo, gostei da surpresa e deste lado pouco óbvio, digamos assim.

O cante alentejano não é protagonista, no entanto, «as raízes estão lá», criando uma ponte entre o tradicional e o moderno. Além disso, é o amor que compõe este Bairro das Flores, mostrando-nos diferentes vertentes do mesmo. E, partindo de situações comuns, torna-o ainda mais relacionável, porque conseguimos identificar-nos em algumas passagens.

Neste disco, que terá uma versão deluxe mais tarde, participaram várias pessoas, o que lhe acrescentou novas visões e experiências. No entanto, é a identidade dos Bandidos que se evidencia e acho bonito ver como conseguiram entrelaçar cada camada de um modo tão harmonioso.



BOSSA SEMPRE NOVA, LUÍSA SONZA

A Luísa Sonza não é uma artista que acompanhe com atenção, mas estava a par deste lançamento e bastante curiosa com o resultado. Quando a Sofia o elogiou, encarei isso como um sinal para o ir ouvir e rendi-me ao primeiro acorde.

A sonoridade embala-nos com serenidade, num misto de descontração, sonhos e corações partidos que nos traz um certo alento. Senti, de imediato, que será uma escolha regular, para escrever ou para ficar só a desfrutar do meu silêncio. Além disso, gosto mesmo da intemporalidade que reveste algumas canções, deslumbrando-me sempre pela pertinência, porque comprova que continuam a ter espaço, adaptando-se a qualquer toque de modernidade.

Bossa Sempre Nova não deixa margem para dúvidas, porque bossa nova cai sempre bem.



FAZER AS PAZES, RAPAZ EGO

O Luís-Montenegro-Que-Interessa, como diz a Capicua, lançou um disco novo e eu tenho gostado, cada vez mais, de me perder na sonoridade de Rapaz Ego.

Com um registo assumidamente mais intimista, pretende, como o nome do álbum espelha, fazer as pazes consigo — até porque só dessa forma será possível «fazer as pazes com os outros». Assim, abraçando uma catarse emocional, com muito pop e experimentação à mistura, também nos mostra que existe um certo alívio na maneira como observa o que o rodeia e, principalmente, o que lhe vem de dentro. No fundo, ao aceitar imperfeições, dúvidas e inseguranças, é como se renascesse e florescesse numa nova metamorfose.

Fazer as Pazes acolhe-nos como se nos lesse, como se nos partilhasse um segredo, enquanto o vemos a quebrar padrões música após música.



SO MUCH HAS CHANGED, MARO

A voz da Maro escalou muito rápido para a minha lista de favoritas, porque é de uma delicadeza que acalma, porque aquele tom rouco traz conforto e um pouco de luz para os dias mais cinzentos. Por isso, vou acompanhando com atenção os seus lançamentos musicais, ficando fascinada com a forma como se vai reinventando.

So Much Has Changed tem a sensibilidade de sempre, mas com uma sonoridade mais madura. Tem tristeza dentro e creio que falará com bastante propriedade com quem possa estar de coração ferido, mas sem largar a mão da esperança, até porque este trabalho nasce de uma fase de profunda «transformação [e] otimismo», apesar «das tantas escuridões da atualidade». Escutando o escalar das narrativas, percebe-se que é necessário enfrentar as dores de frente, mas que o caminho não tem de ser apenas feito de mágoa. Há raízes que nos permitem aceitar quem fomos e avançar, crescer, compreender e evoluir, sem nunca perder esse olhar de encanto pelo que nos rodeia.

A música pode «proteger-nos da desesperança» e, portanto, acredito que este disco se torne num refúgio.



FELIZ(MENTE) TRISTE, CAROLINA DE DEUS

O tom do disco adivinhava-se triste, por tudo o que Carolina de Deus partilhou, o ano passado, no Casino da Póvoa, mas adoro perder-me nestes trabalhos e perceber que não há somente um lado.

Feliz(mente) Triste floresce numa dicotomia constante, a começar pelo título, que nos mostra que o nosso caminho se ramifica entre força e fragilidade, entre avanços e recuos, entre inseguranças e o que nos deixa seguros. Nenhum dia é isento de nuvens, mais ou menos passageiras, mais ou menos carregadas, e nós vamos oscilando nesse limbo.

Talvez precise de organizar melhor os meus pensamentos sobre o álbum, mas gostei muito deste jogo de contrastes, de ser triste e, ao mesmo tempo, poderoso, quase como se estivesse a passar pelas várias fases de um luto e a tentar curar essas feridas. Sinto que a Carolina de Deus cresceu enquanto artista e que nos trouxe histórias vulneráveis, honestas, que marcam uma despedida e um recomeço.



LAVOISIER, ACE

A lei de Lavoisier, ou Lei da Conservação das Massas, resume que «na Natureza, nada se cria, nada se perde tudo se transforma», o que parece ser mesmo o mote certeiro para o novo álbum do ACE.

Numa combinação entre músicas conhecidas do seu espólio, agora editadas, e temas inéditos (alguns escritos há anos), criou uma sonoridade mais jazzy, concretizando, assim, uma «fantasia que vinha dos anos 90». E que bom que foi fechar janeiro desta maneira, na companhia de um artista que também moldou o meu crescimento e contribuiu para que encontrasse o meu lugar no hip hop (apenas enquanto ouvinte, claro).

Tudo neste Lavoisier aparenta resultar de uma metamorfose, até o processo criativo, e acho que é esse estímulo que torna o álbum tão apetecível, tão diferente, mas familiar. Sempre com letras incisivas, centradas naquilo que nos distingue enquanto sociedade e no poder que as nossas vivências imprimem na arte, há, também, um lado dançável e emocional que contagia.

Espero, de coração, que este não seja o último trabalho de uma longa carreira, como partilhou em entrevista, mas fico grata por nos trazer tanto.



Janeiro e os seus trezentos e sessenta e cinco dias tem espaço para tudo, até para ir acrescentando novas leituras ao plano inicial. Embora procure ler sem pressas, para desfrutar ao máximo de cada enredo, estou bem é entre histórias, portanto, todas as oportunidades são boas para avançar mais um capítulo.

Este mês começou com poesia (algo que gostava que passasse a ser uma espécie de tradição literária mensal) e terminou com um verbo que entrou para a lista dos meus favoritos.


 a tbr de janeiro

  • Na Terra dos Outros, Manuel Abrantes (alma lusitana);
  • Recomeçar, María Dueñas (3 autoras para 2026);
  • As Margens e a Escrita, Elena Ferrante (marginália);
  • Tira o Disco e Toca ao Vivo, João Gobern;
  • Paradaise, Fernanda Melchor;
  • Uma Falha nos Dentes, João Gesta;
  • Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, Filipa Leal (12 meses, 12 livros de poesia).

 o que li em janeiro

Para além da tbr definida, li:
  • Natureza Urbana, Joana Bértholo;
  • Outonecer, Júlio Machado Vaz.


 algumas curiosidades

Em janeiro, li
  • 9 livros: 2 de poesia, 3 romances, 1 conto e 3 de não ficção;
  • 5 autoras e 4 autores: 6 portugueses, uma espanhola, uma italiana e uma mexicana;
  • 4 autores pela primeira vez: João Gesta, Manuel Abrantes, João Gobern e Fernanda Melchor.
  • Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, da Filipa Leal, pela segunda vez.

Favoritos do mês
  • Recomeçar, María Dueñas;
  • Natureza Urbana, Joana Bértholo;
  • Outonecer, Júlio Machado Vaz.


 vamos a contas?

Janeiro chegou com um objetivo muito claro quanto a compras literárias e uma nova estratégia para o mealheiro da Feira do Livro do Porto. Se o primeiro ponto correu sem percalços, o segundo precisou de um reajuste, mas nada que tenha comprometido o orçamento geral.

  • Não comprei livros físicos;
  • Ativei a subscrição do Kobo Plus, que me custou 7,99€. Li 3 eBooks, poupando 27,21€;
  • Comecei janeiro com 41€ na Apparte. Uma vez que li 9 livros e a maior parte deles encaixa em mais do que uma das categorias que defini, amealhei 21€. Transito para fevereiro com 62€.


 banda sonora

  • Uma Falha nos Dentes, João Gesta: Coimbra B e Desvio na Mealhada, Nunca Mates o Mandarim;
  • Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, Filipa Leal: Dance Me To The End Of Love, Leonard Cohen | Little Girl Blue, Janis Joplin;
  • Recomeçar, María Dueñas: Pa’ Todo El Año, José Alfredo Jimenez | Postdata, Joaquín Sabina;
  • Natureza Urbana, Joana Bértholo: Casa no Campo, Capicua & Mistah Isaac | A Vida é Hoje, A garota não | Devagar, Ornatos Violeta;
  • Na Terra dos Outros, Manuel Abrantes: A Terra Gira, Os Quatro e Meia | Pela Minha Voz, Carminho;
  • As Margens e a Escrita, Elena Ferrante: sLo-Fi, Slow J (álbum);
  • Tira do Disco e Toca ao Vivo, João Gobern: Impressões Digitais, GNR | Rio-me de Janeiro, JP Simões | Há-de Passar, Deolinda;
  • Paradaise, Fernanda Melchor: Rester, Petite Amie | Mejor Mentir, Salvatore Vitale;
  • Outonecer, Júlio Machado Vaz: Eu Vim de Longe, José Mário Branco | Walk On The Wild Side, Lou Reed | Penny Lane, The Beatles.


 a tbr de fevereiro
  • Exposição. Poemas e Posímetros, Daniel Scott (alma lusitana e 12 meses, 12 livros de poesia);
  • Danificada, M. L. Vieira (alma lusitana - leitura extra);
  • Inventário de Sonhos, Chimamanda Ngozi Adichie (3 autoras para 2026);
  • O Sono dos Portugueses, Sofia Gomes (ler ffms);
  • Malorie, Josh Malerman.

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