
Março começou na pista de dança, levou-me para Monte Gordo e até às minhas origens; fez-se de palavras, de silêncios, de homenagens. E, com temas que ainda são tabu, terminou numa espécie de bolha a sarar feridas.
os álbuns de março
KISS ALL THE TIME. DISCO, OCCASIONALLY, HARRY STYLES
A associação talvez seja um pouco rebuscada, mas o mais recente álbum do Harry Styles transportou-me para os versos «eu não sabia que dançar era por dentro/Eu não sabia que dançar era até ao fim», da Filipa Leal: não porque faltem motivos para movermos o corpo em pistas de dança improvisadas (ou não), mas porque sinto que este gingar é mais um estado de espírito.
Kiss All The Time. Disco, Occasionally chega depois de um período de pausa, para repensar, para se reencontrar enquanto artista, para compreender o que o motiva, e é interessante identificar esse contraste e, também, a sua identidade a florescer noutras direções; é interessante verificar a vontade de não cair no conforto, de fazer pelos motivos certos, sem dar o percurso por garantido. E achei mesmo bonita a forma como construiu tudo isso neste álbum.
A energia de pista de dança é a inspiração, mas adoro que este trabalho seja disco sem ser totalmente disco, ou seja, que tenha melodias que nos transportam para esse género, expandindo-se, recuperando uma certa nostalgia. Convida-nos a dançar, no entanto, sem ser de um modo frenético, explosivo, como se a música abafasse tudo ao seu redor. Acho, pelo contrário, que nos convida mais para o conceito do que para a concretização, que nos leva para a ideia que uma ida para a discoteca pressupõe: o convívio, a preparação prévia, o sentido de comunidade.
Kiss All The Time. Disco, Occasionally também nos parece transportar para diferentes estados da mesma noite, numa escalada intimista, visceral. A música cresce e nós crescemos com ela. Acalma e nós acompanhamos esse desacelerar. E, depois, parece que tudo recomeça, como se tivéssemos recarregado a bateria. E voltamos a reencontrar a nossa energia no meio da multidão, neste jogo psicadélico de luzes e escuridão, sem nos preocuparmos se estamos entre amigos ou perfeitos desconhecidos.
Com várias linhas paralelas, sinto que Harry Styles está a mergulhar numa história de descoberta, sem receio de ir ao passado, mas sem ficar preso nas suas ramificações. Coming Up Roses levou-me às lágrimas, por isso, sei que este álbum nem sempre me deixou com vontade de dançar, mas acolheu-me, fez-me sentir ouvida, apagou as luzes para que estivesse à vontade. No fundo, fez-me sentir que também lhe pertenço e que posso chorar no club sempre que me apetecer, porque arranjaremos forma de exorcizar as nossas dores.
CUÍCA, MAR
A MAR foi entrando nas minhas playlists devagar, mas para ficar, porque adorei a escrita sem filtros das suas canções. E, este mês, chegou o tão desejado álbum.
Cuíca é «o nome dado às mulheres de Monte Gordo». Embora não seja «o nome oficial», é assim que se identificam e a escolha deste termo para o título do seu primeiro longa duração é uma pista para o quanto este será feito de raízes, de uma história que começou a ser escrita desde a infância e que acompanhou a menina que vemos na capa. Portanto, e recorrendo a uma das faixas do disco, temos um livro aberto para as vivências e emoções da artista.
Num registo autobiográfico, oscilando por géneros distintos, o jogo de palavras, a honestidade e os cenários tão seus impressionam-me sempre, porque acho que é preciso uma maturidade bem cimentada para transformar aquilo que é, pensa, vive e observa em arte, e um tipo de arte que se torna transversal. Este álbum, como a MAR partilhou em entrevista, «é uma viagem por tudo aquilo que [aprendeu] desde o princípio disto tudo até à última barra da última canção que [escreveu]», mas sei que falará perto com muitos de nós, por nos conseguirmos rever em certas passagens/músicas.
Cuíca é um tipo de poesia onde faço por regressar, porque também descubro novas camadas de mim.
CANTAR AS DORES BAIXINHO (VOL. 1), CAROLINA DESLANDES & RODRIGO CORREIA
As nossas vidas podem ser muito diferentes, mas todos nós carregamos dores por dentro e há alturas em que precisamos de as libertar.
Carolina Deslandes e Rodrigo Correia juntaram-se para Cantar as Dores Baixinho, num primeiro volume que chega sem filtros, com uma abordagem intimista e profundamente humana. Só «com uma voz e uma guitarra», gravado «live on take, sem edições ou correções», os dois artistas quiseram contar seis histórias que tanto podem ser as nossas, como de alguém próximo.
Confesso que demorei um pouco a encaixar em algumas das melodias, mas achei interessante e valioso que trouxessem para um lugar mais visível problemas que permanecem silenciosos, tantas vezes julgados pela sociedade, como «a solidão associada à adição», alertando-nos para a necessidade de estarmos mais atento ao outro.
VIDA DE CÃO, EDMUNDO INÁCIO
A prova cega do Edmundo Inácio no The Voice não me foi nada indiferente e, a partir daí, passei a estar atenta ao seu percurso (dentro e fora do programa), à voz que enche a sala, à capacidade impressionante de reinventar a música popular portuguesa. E, agora, tenho mais um álbum onde posso redescobrir todo o seu talento.
Vida de Cão interliga crítica social, ironia e um tom autobiográfico, com histórias que não pretendem ser um lamento, mas que «quis muito transformar em canções», até porque é inegável o quanto todos estes elementos se cruzam, se influenciam, se condicionam. Não existimos fora do mundo, somos sempre o produto do que nos inspira e do que nos acontece, do que acreditamos e do que deixamos cair. Por isso, compilou todos estes cenários dicotómicos nesta viagem, que também explora diferentes tipos de deslocação — geográfica, social e emocional.
Entramos no comboio «procedente de Portimão», com destino a Lisboa, a todos os espaços que possibilitem o contacto com novas e melhores oportunidades de vida, cantando-nos sobre precariedade, cansaço, migração, pressões sociais, sonhos suspensos, emoções omitidas, silêncios, trabalhos invisíveis e resistência. Assim, consciente do quanto tudo isto interfere consigo, com o seu quotidiano, traça um retrato da sociedade, da apatia, do conformismo, de todas as escolhas que não partem de nós.
Vida de Cão sustenta as suas raízes na música tradicional, mas fá-lo com um revestimento de modernidade. E, neste património, não descarta a tristeza, a vulnerabilidade e o que precisa de ser adiado, enquanto se continua a lutar para que o sonho não seja só uma fantasia.
CINCO DOIS, PH, LÓJICO & TAB
Cresci a ouvir que o mais bonito de Gaia é a vista para o Porto, mas isso é porque, para além de não conhecerem a cidade, não sabem de todo o talento que habita neste lado da margem.
O hip hop faz parte das minhas origens, por isso, não podia deixar de descobrir o álbum que junta Ph, Lójico e Tab: Cinco Dois. Com uma sonoridade que mistura o lado mais underground com a intenção de explorar melodias diferentes, são as letras incisivas que nos fazem parar e perceber que é tempo de esquecer o passado e começar a trilhar o futuro.
Neste trabalho colaborativo, é interessante perceber como as raízes florescem, como há espaço para o ego e para a vulnerabilidade, como somos feitos de tantas certezas e tantas dúvidas. É bom estar em casa, a vê-los alargar horizontes.
BRUTA, RITA ONOFRE
O tema Corpo ao Mar, que integra o Volume I de Avalanche, deu-me a conhecer a voz fabulosa da Rita Onofre, que passei a acompanhar de perto. E um dos aspetos mais entusiasmantes de ser admirador de um artista é poder assistir à sua metamorfose — que bonita tem sido a da Rita.
Bruta atira-nos para o limiar, para o limbo de tudo, onde as emoções ficam sempre à flor da pele. Com uma sonoridade mais eletrónica, faz coabitar vulnerabilidade, melancolia e espiritualidade e, como a própria artista afirma, «é um álbum para levar nos phones para enfrentar o mundo, como uma experiência íntima e profunda».
O propósito destas canções não é tanto o de aconchegar, mas mais o de desafiar, de nos abanar por dentro, levando-nos a experienciar diferentes sensações, a contactar com algo mais visceral. Também por esse motivo, Bruta é um manifesto, mostrando-nos o lado poderoso de todas as nossas emoções.
FLORBELA, VÁRIOS ARTISTAS
Florbela Espanca é um dos nomes maiores da poesia portuguesa e a sua obra foi revisitada num disco-tributo.
Com direção artística de João Só, Florbela compila «14 sonetos musicados e interpretados por algumas das vozes mais relevantes da música portuguesa atual». Para tornar a homenagem ainda mais especial, o álbum saiu na véspera do Dia Mundial da Poesia, sublinhando «o caráter literário e cultural deste projeto».
Tenho regressado a estas canções pontualmente, quase como se estivesse a ouvir um poema por dia, porque tem sido maravilhoso descobrir novas camadas destes versos através da visão e da sensibilidade artística dos convidados, tendo em conta que conseguimos compreender a forma como estes sonetos lhes chegaram, qual a interpretação que fizeram, estabelecendo uma ponte entre diferentes gerações.
POR DIZER, MATILDE LEITE
O timbre da Matilde Leite conquistou-me assim que a ouvi na canção que partilha com a Rita Onofre, Medo. Mais tarde, voltou a conquistar-me na Não Não, deixando-me muito curiosa com o seu álbum de estreia.
Por Dizer diz-nos tudo o que precisamos sobre as palavras «que serviram de mecanismo para ultrapassar tempos mais difíceis», que espelham aprendizagens, dúvidas, um turbilhão de emoções e estilhaços de um coração ferido. No fundo, é como se estes temas fossem a sua catarse, a sua forma de expulsar fantasmas do passado e renascer com novas respostas — e perguntas também.
Estava a escutar a cadência deste disco e, sem conseguir explicar bem porquê, senti-me num lugar mais distante, isolado, onde paira uma certa acalmia, ao ponto de sermos capazes de ouvir os nossos pensamentos. Parece que a artista se recolheu para escrever cartas que, agora, partilha com o mundo, de um modo generoso, para que a escutemos, para que possamos encontrar nestas canções um refúgio.
Interligando o Fado e o Pop, sempre com harmonia, adorei as várias camadas destes poemas. Nem sempre dizemos as coisas nas alturas certas, por vezes precisamos de nos afastar para compreender melhor e Por Dizer é esse elo entre o silêncio e a evolução que surge com a maturidade.
ESCREVI CANÇÕES E SÃO TODAS IGUAIS, LATTE
É curioso como nos cruzamos com certos nomes, mas depois desaparecem do nosso horizonte. Isso aconteceu-me com a Latte, que fiquei a conhecer graças ao tema Se Me Vens Salvar, com a Mónica Teotónio. Após um hiato considerável, só voltei a recordar-me do seu nome quando o tema 1,2,3, com o Zarko, viralizou, novamente, o ano passado. Agora, já não a perco de vista.
Escrevi canções e são todas iguais parece um murmúrio, uma lengalenga que repetimos para nos convencermos de algo ou, então, para nos irmos libertando. Naturalmente, o título não é uma representação fiel do que encontramos no alinhamento, mas achei interessante a designação, atendendo a que há temas que se repetem, porque não deixa de ter um toque sarcástico, que brinca com a ideia de músicas mais melancólicas soarem ao mesmo. Mas não soam, até porque há sempre uma forma diferente de abordarmos o mesmo tópico e cada um terá a sua voz nesse processo.
Uma das provas maiores de que as canções não são todas iguais prende-se com a sonoridade, porque cada uma delas tem uma melodia muito própria, fazendo sobressair a sua identidade. E é nessa diferença que nos vamos descobrindo, que compreendemos os silêncios, que nos despedimos, que abraçamos e lidamos com a dor.
Escrevi canções e são todas iguais abre-nos as portas de um mundo muito íntimo, quase confessional.
Este mês, ainda ouvi os álbuns By Your Eyes, do Dinis Mota, e A Bela Paranoia, dos Bela Noia, mas preciso de me dedicar mais um pouco a estas propostas para formular uma opinião mais coesa.
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