Entre Margens

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«Alô? Futuro Presidente ligou»


Os arquivos do blogue guardam uma série de publicações em que o sete era elemento central. Por ser um número que aprecio, partilhei, entre tantos outros temas, sete releituras que pretendia fazer, sete músicas inspiradas em livros, sete detalhes fotográficos, sete séries que conquistaram o meu coração, sete instrumentos musicais. E poderia continuar, até porque procurava construir uma semana temática.

Com alguma nostalgia alicerçada, resolvi recuperar parte deste conceito e associar um álbum a cada um dos sete dias da semana. Escusado será dizer (mas dizendo) que estes discos, lançados este ano, são os que mais tenho ouvido nos últimos tempos (optei por não incluir Afro Fado). Aliás, sinto-me a viver dentro dos seus temas. Mas também vos confesso que o meu pódio é ocupado pelo Dillaz, pelo Diogo Piçarra e pelo Ivandro.


 segunda-feira

O meu dia favorito na semana, por ser sinal de recomeço e de reencontro; talvez de mais uma oportunidade. Por esse motivo, e para começar da melhor forma possível, escolho SNTMNTL, do Diogo Piçarra.

O álbum mais recente de um dos artistas que mais admiro representa uma aventura pela música eletrónica, mas sem esquecer as origens e aquela que é a sua identidade. Como o próprio procurou transmitir através do título, este trabalho «não significa só sentimental» - daí a omissão das vogais - e, creio, é mais uma prova do quanto consegue ser camaleónico. Saberamar, Sorriso e Amor de Ferro são as minhas preferidas.



 terça-feira

Para continuar com a energia em alta, no segunda dia da semana, trago O Próprio, do Dillaz.

Tem sido fascinante acompanhar o seu percurso e compreender como usa as letras para explorar temas vitais para a sociedade - ou como expõe as nossas hipocrisias. As melodias ficam no ouvido, mas são as palavras que nos prendem: pela ausência de filtro, pelo tom mordaz e por sentir que se vai desafiando a cada nova canção. A linha narrativa torna o todo mais estimulante. Alô, Direção Paris e Colãs são as minhas favoritas.



 quarta-feira

O meio da semana (uma vez que o meu horário é de segunda a sexta) exige uma voz revolucionária, que nos mantenha focados e motivados. Portanto, trago-vos Vai-se Andando?, Do Edmundo Inácio.

O álbum de estreia inspira-se na música portuguesa, espanhola e do Médio Oriente, e demonstra o compromisso de «modernizar as suas raízes». Com letras que interligam temas fraturantes, com melodias que vão do Rock ao Fado, também há uma mensagem de ativismo. Destaco A Festa, Minha Mãe e Mulheres.



 quinta-feira

A minha energia, à quinta-feira, já começa a demonstrar uma certa acalmia, por isso, pensei num álbum que trouxesse tranquilidade, alguma vontade de dançar e fosse versátil. Assim, fui para Trovador, do Ivandro.

A voz do Ivandro enche-me as medidas e, até à data de lançamento do disco de estreia, não tinha ouvido qualquer tema que tivesse defraudado as minhas expectativas. Ao longo de 21 canções, parece que fazemos uma travessia pelas memórias do artista e pelas suas origens. Há um grande equilíbrio nesta viagem e, na lista de favoritas, destaco Chamadas, Chakras e Equilíbrio.



 sexta-feira

É às sextas-feiras que faço a minha pesquisa pelas novidades da semana. Portanto, fez-me todo o sentido associar um álbum que foi uma autêntica descoberta, o Cara de Espelho, dos Cara de Espelho.

Há uma crítica e uma provocação que não passam despercebidas. Em simultâneo, encontramos uma sonoridade singular, numa simbiose entre a música popular e a música tradicional portuguesa. Esta banda funde nomes que marcaram o nosso panorama e é mesmo curioso perceber como é que alinharam tão bem as suas identidades. Cara Que é Tua, Político Antropófago e Tratado de Paz estão na minha lista de favoritas.



 sábado

Gosto de sábados serenos, sem compromissos, a desfrutar só da minha casa. Mas, por outro lado, também é um dia que convida a sair. E o álbum Beco Com Saída, da Diana Lima, une muito bem esses dois mundos.

Na realidade, é um EP, «que marca o seu regresso aos trabalhos de longa duração» e que nos abre a porta para um mundo intimista, mas com um ritmo que nos embala para diferentes estados de espírito - e ocasiões. Não Somos Iguais, Rotina e Ponto Para Terminar ocupam o meu pódio de preferências.



 domingo

É o dia da semana que menos gosto, devo confessar. Por essa razão, preciso de um álbum que me permita apaziguar esta sensação e, quem sabe, curtir a minha neura. Para Dançar e Para Chorar, da Teresinha Landeiro, foi a escolha mais óbvia.

O Fado está muito vincado na sua identidade, mas também se permitiu explorar diferentes sonoridades e, ainda, as palavras de outros artistas, tornando-as um pedaço de si, como afirmou. Nesta dicotomia - entre o choro e a dança -, encontramos um trabalho mais maduro, que também a fez regressar às origens do folclore. Chegou a Hora, Maré de Sorte e Fiz Esta Canção Para Ti foram as que mais me conquistaram.

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Gatilhos: Morte


As leituras de março têm sido muito distintas, mas acho curioso que duas delas se interliguem num aspeto. Em Uma Vida Assim-Assim, da Cláudia Araújo Teixeira, fui a um Bairro Social do Porto. Neste livro da Djaimilia Pereira de Almeida, fui ao Bairro Residencial de Nova Oeiras, onde se encontra uma instituição particular.


composição sobre vizinhança

Ajudar a Cair é um livro de ensaios, da coleção Retratos da Fundação, sobre vizinhanças. Assim, durante o verão de 2016, a autora acompanhou os residentes do Centro Nuno Belmar da Costa, que pertence à Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa. E conversou com os residentes, as monitoras e antigos funcionários.

Houve várias questões a moldar a narrativa - «o que implica ser vizinho de alguém?», «conheceremos pelo nome as pessoas de quem tomamos conta?», «como nos modificam aqueles que não nos lembramos de termos deixado entrar na nossa vida?» - e acredito que o objetivo seja refletir sobre elas e não chegar a uma resposta fechada, até porque as visões são plurais e podem coexistir em harmonia. Mas, por outro lado, creio que a principal mensagem é a importância do cuidado e do papel do cuidador - mesmo que, no fim, os nomes sejam turvos. Em algum momento, houve uma mudança que trouxe mais conforto aos dois lados da história e é isso que prevalece.

«Eu também os vejo sempre sem palavras, não é preciso palavras, há qualquer coisa que as pessoas transmitem sem ser preciso palavras»

Numa entrevista concedida ao Comunidade, Cultura e Arte, há uns anos, Djaimilia Pereira de Almeida afirmou que se interessa muito pela doença e pela maneira como ela condiciona o destino e a ação humana, como modifica as relações entre as pessoas e, inclusive, como transforma os vínculos de intimidade e a nossa autoimagem. E acho que isso fica muito claro neste livro e na delicadeza com que retrata os testemunhos de todos os envolvidos. Trazendo para o centro da discussão a Paralisia Cerebral, alarga-nos horizontes e, sobretudo, incentiva-nos a observar mesmo o outro: com empatia, com respeito, como igual, dentro de todas as diferenças que existam.

Ajudar a Cair, pela natureza dos relatos, pode tornar-se um pouco confuso, por vezes desorganizado na cadência, mas não deixa de ser feito de histórias fascinantes.


🎧 Música para acompanhar: Tudo o Que Eu Te Dou, Pedro Abrunhosa

📖 Outros livros lidos: Luanda, Lisboa, Paraíso | Esse Cabelo | Maremoto | Ferry | Toda a Ferida é Uma Beleza


Disponibilidade: Wook (Livro | eBook) | Bertrand (Livro | eBook)

Nota: Esta publicação contém links de afiliada da Wook e da Bertrand

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«O caminho também é um lugar»


O Supergigante, que conhecemos como Edgar no livro de Ana Pessoa, estava sempre a correr, muitas vezes sem saber se corria atrás de algo em concreto. E há uma passagem na qual afirma que é como se ele «próprio tivesse chegado atrasado à [sua] história». De repente, parecia que a sua vida já ia a meio, mas ele tinha acabado de chegar ali: àquele momento, àquele sentimento. E a minha dúvida foi: quem o fez acreditar nisso?


 quando passamos a estar sempre atrasados?

O princípio de qualquer coisa afigura-se turvo e, por esse motivo, talvez seja tão palpável a sensação de estarmos numa luta contra o relógio. Piscamos os olhos e o tempo avançou, as pessoas à nossa volta mudaram e tudo parece ter saído do lugar. E nós fomos os últimos a chegar. Só ainda não descobri onde.

Eu sei que, lá no fundo, esta noção permanece vinculada às verdades com que crescemos e que teimam em ficar presas à nossa pele. Sei que é uma consequência de todas as vezes que não conseguimos silenciar, que se manifestam num aparente conselho ou cuidado, mas que evidenciam sempre mais o traço da condescendência e das inseguranças. Por isso, tendemos a sentir-nos em dívida, num plano de prejuízo, porque já definiram todas as etapas do nosso caminho e nós não as alcançamos. Mas será que queremos?

Há dias em que me sinto como o Supergigante. Estou sempre a correr para não chegar atrasada. Mas atrasada para quê? Quem é que definiu o meu tempo? Sempre que me perguntam se continuo solteira, se não acho que está na hora de tirar a carta, se não me apetece aprender a nadar, se não devia fazer isto ou aquilo, ecoa o grito de que estagnei. Depois, mesmo que as palavras não sejam ditas de um modo audível, começa a ser tarde para viver em casa dos pais, começa a ser tarde para ser autora publicada, começa a ser tarde para viajar de avião pela primeira vez, começa a ser tarde para ser mãe - mas ninguém ouve a minha vontade. E sinto-me a falhar, porque não sou a versão que acham que eu já deveria ser. E, de repente, é como se na minha cabeça habitasse um inverno longo e doloroso, e a travessia estivesse dependente de alguém exterior.

Vivemos cheios de pressa (e com uma gestão de expectativas nem sempre equilibrada) de um futuro que nunca será igual para todos, mas que insistimos em uniformizar. Enquanto seres humanos, temos de almejar os mesmos sonhos e conquistar os mesmos patamares - e tudo nas mesmas ocasiões. Só que não tem de ser assim e tenho aprendido a ser mais vocal nestas questões, uma vez que não quero sentir, em momento algum, que estou atrasada na minha história. Porque quero que me perguntem o que desejo e não que o assumam. E, sobretudo, que respeitem que o meu ponto de chegada poderá ser completamente diferente - e é válido.

Não sei quando é que passamos a assumir que estamos sempre atrasados, mas sei que me quero libertar desse peso, quero desfrutar das várias velocidades da minha passada. Quero ter tempo para respirar fundo, sem sentir que isso me faz ficar para trás. E, abrandando o passo, sigo em frente, sem ter de correr.

Eu comprei um bilhete de ida, mas a direção sou eu que a escolho. Esta viagem terá outras paragens. E a hora a que chego também continuará por definir. Mas acabarei por chegar ao destino, indo pelo meu próprio pé.

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Gatilhos: Violência Doméstica, Referência a Doença Oncológica


O ser humano é volúvel: nos comportamentos, nos sentimentos e, até, nos sonhos. Talvez por ser feito de dúvidas e ter tantas perguntas na ponta da língua (ou a alvoraçar o lado esquerdo do peito). E é por este terreno incerto que deambulamos no livro de Raquel Serejo Martins, autora do Alma Lusitana no ano transato.


no limite da lucidez

A Solidão dos Inconstantes é maioritariamente narrado por Rita e é através dela que ficamos a conhecer as pessoas que a rodeiam, tão diferentes entre si, as suas vidas, os seus passados e tudo aquilo que lhes aconteceu - ou tudo o que não chegou a descobrir.

O discurso é próximo, sem rodeios, apenas marcado pelo emaranhado de emoções e perguntas que vão surgindo: pela curiosidade, pela saudade e pela necessidade de unir as pontas soltas. Confesso, ainda assim, que nem sempre consegui estabelecer um vínculo com a narradora, isto porque tanto me parecia alinhada com a energia do livro, com as inconstâncias da vida, como a sentia distante, a falar dos seus como se estivesse num lugar superior, sendo quase condescendente com as suas atitudes. Portanto, esta voz oscilante fez com que, também eu, andasse um pouco à deriva.

Tenho, por outro lado, de lhe dar mérito por ser credível e, sobretudo, por se manter fiel aos seus princípios: sendo frontal sem ser rude, sendo vulnerável sem perder o norte; não procurando mudar a sua essência para encaixar na vontade/nas expectativas dos outros. Se calhar, por isso é que nunca deixou de ir, mesmo que sentisse falta.

«Sabes, há casas que nem todas as pessoas conseguem construir»

Há um foco muito grande no estado de espírito das várias personagens (que podem surgir só pelo encadear de memórias/momentos) e foi isso que mais me agradou neste romance. Isso e quando Rita opta por se colocar mais no centro da questão. No fundo, quando deixa de ser apenas espectadora dos seus e assume o protagonismo é quando me prende a todos os seus problemas, às suas hesitações, aos seus desejos e às suas angústias, porque é nesse ponto que a conhecemos verdadeiramente.

A Solidão dos Inconstantes é feito de medos e de desencontros, e traz retratos muito fidedignos de pessoas comuns, que escondem tantos mundos dentro. Apesar de não me ter arrebatado em pleno, abre vários pontos de reflexão e achei interessante que, depois de rasgos de solidão, termine quase com uma noção de esperança.


🎧 Música para acompanhar: Eu Te Amo, Chico Buarque

📖 Outro livro lido: Pretérito Perfeito

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«Coragem não é um acto pontual, é uma posição na vida»


A data não pode ser ignorada. Mais do que a lembrar, permanece imperativo lutar pela Mulher - não só pelo dia em si. Mas, confesso, sonho pelo momento em que assinalá-la seja apenas um marco histórico e não um ato continuo de resistência, de todas as vozes que se unem para que a igualdade não seja uma miragem.

Nenhum direito é garantido, muito menos para as mulheres, e essa imagem é reproduzida nas várias decisões das quais nos tentam excluir - ainda que sejamos as únicas a senti-las na pele -, em todas as ocasiões que nos tentam diminuir, descredibilizar, silenciar. E o Dia da Mulher é um lembrete não só de todas as que o impediram, mas também do longo caminho que ainda precisamos de percorrer, enquanto sociedade.

Celebrar os nomes femininos (públicos ou anónimos) que me inspiram é uma maneira de focar no lado bonito da data - nunca terá sido em vão. E sei que é na arte que encontro esse alento, uma vez que traz um rasgo de mudança e de esperança. Por esse motivo, de um modo consciente, vou-me rodeando de mais mulheres na música e na literatura, sobretudo. E é nesta última expressão artística que me pretendo concentrar.

Quando pensei nesta publicação, soube, de imediato, que queria evidenciá-la com uma lista de autoras que nunca li, mas que gostava de ler ainda este ano. Há vários nomes de escritoras a integrar os desafios de leitura a que me propus, no entanto, quis alargar a experiência, sem sentir que estava a fazer um pouco de batota. Além disso, seria uma forma de aumentar as possibilidades e de criar espaço para mais vozes.

Só uma destas mulheres está na minha tbr física, mas procurarei que façam parte da viagem literária de 2024. Em simultâneo, tentei que fosse uma lista diversificada e que me trouxesse a sensação de estar a acrescentar algo de positivo à minha vida. E acredito mesmo nisso, porque cada uma destas figuras está a conquistar um lugar que também lhes pertence e a mostrar que é possível. Quero fazer parte de um mundo em que mulheres celebrem mulheres e esta é a minha maneira de continuar a luta. Sororidade será sempre a palavra de ordem.


onze livros escritos pelas mulheres que quero ler em 2024


Maus Hábitos, Alana S. Portero
«Este romance leva-nos numa travessia pelo território mais íntimo da natureza humana — uma travessia da qual não saímos incólumes. Maus Hábitos é a história do encontro de uma pessoa consigo mesma, alguém que nasce no corpo errado, no lugar mais triste e sem futuro, num tempo desolado. Pela mão da protagonista, vamos até à sua infância em San Blas — um bairro operário suburbano e dizimado pela heroína nos anos oitenta —, passamos pela adolescência selvagem nas noites clandestinas de Madrid e chegamos ao raiar do milénio, quando a promessa de liberdade é soterrada por um episódio de insuportável violência. Contudo, das cicatrizes mais fundas há de emergir não a redenção, mas a esperança».

Rapariga, Mulher, Outra, Bernardino Evaristo
«As doze personagens centrais deste romance a várias vozes levam vidas muito diferentes: desde Amma, uma dramaturga cujo trabalho artístico frequentemente explora a sua identidade lésbica negra, à sua amiga de infância, Shirley, professora, exausta de décadas de trabalho nas escolas subfinanciadas de Londres; a Carole, uma das ex-alunas de Shirley, agora uma bem-sucedida gestora de fundos de investimento, ou a mãe desta, Bummi, uma empregada doméstica que se preocupa com o renegar das raízes africanas por parte da filha. Quase todas elas mulheres, negras e, de uma maneira ou de outra, resultado do legado do império colonial britânico».

As Bruxas de Manningtree, A. K. Blakemore
«Rebecca West, uma jovem sem pai nem marido, arrasta-se pelos dias, encontrando alívio na atração que sente pelo escrivão John Edes. Até que entra em cena um enigmático forasteiro, Matthew Hopkins, vestindo de negro e imbuído de devoções, mergulhando fanaticamente na tarefa de interrogar as mulheres desta comunidade diminuída. Rumores perigosos sobre cultos, pactos e desejos corporais começaram a pairar sobre mulheres como Rebecca — e o futuro é tão assustador quanto emocionante. Estas mulheres estão prestes a reivindicar a sua liberdade».

A Ilha das Árvores Desaparecidas, Elif Shafak
«Estamos na ilha de Chipre e corre o ano de 1974. Dois adolescentes, de dois lados opostos de uma terra dividida, encontram-se numa taverna. Aquele lugar, na cidade a que chamam casa, é o único em que Kostas, grego e cristão, e Defne, turca e muçulmana, se podem encontrar secretamente e esquecer, por breves instantes, os problemas do mundo lá fora».

Oriente Próximo, Alexandra Lucas Coelho
«Oriente Próximo, o primeiro livro que publiquei, é um volume de não-ficção sobre Israel/Palestina, situado entre 2005 e 2007. Muito mudou desde então, e dramaticamente a 7 de Outubro de 2023, com o ataque do Hamas no Sul de Israel. Mas o que vivemos agora já se anunciava nestas páginas. Elas passam a guardar a origem do que está a acontecer e o que desapareceu entretanto. O mesmo livro, revisto quanto a redacção e paginação, agora com mapa e índice onomástico».

Um Preto Muito Português, Telma Tvon
«Cabo-verdianos que vivem há muito em Portugal e neto de cabo-verdianos que nunca conheceram Portugal. Também é bisneto de holandeses que mal conheceram Portugal e de africanos que muito ouviram falar de Portugal. Vive em Lisboa, mas não é considerado alfacinha. Terminou a licenciatura na faculdade e vai trabalhar num call center, com outros negros e brancos, pobres e ricos. Budjurra faz parte de uma minoria que, lentamente, vai sendo cada vez menos minoria. É um preto português, muito português, que, ao longo do livro e das aventuras que relata, levanta questões relativamente a temas como racismo, discriminação, estereótipos, igualdade e humanidade, mas também música, rap, identidade - numa Lisboa morena e colorida que é necessário conhecer».

Toda a Minha Raiva, Sabaa Tahir
«Salahudin e Noor são mais do que melhores amigos: enquanto emigrantes paquistaneses que cresceram juntos numa pequena cidade no deserto da Califórnia, entendem-se como ninguém e são quase como família. Mas uma discussão ocorrida no verão quebra o vínculo que havia entre eles».

Gótico Mexicano, Silvia Moreno-Garcia
«Em resposta a uma carta dramática da sua prima com a estranha alegação de que o marido está a tentar envenená-la, Noemí abandona a sua vida mundana e viaja para a província, para a vila de El Triunfo. É aqui, no famoso Lugar Alto, que vive Catalina, que se tornou uma sombra de si mesma desde que se casou com Virgil Doyle. Diz ouvir vozes vindas das paredes e ver pessoas mortas».

Mulheres Invisíveis, Carolina Criado Perez
«Imagine um mundo onde os telemóveis são demasiado grandes para as suas mãos. Onde os médicos prescrevem medicamentos errados para o seu corpo. Onde, num acidente de automóvel, tem mais 47% de probabilidade de sofrer ferimentos graves. Onde, em cada semana, as suas incontáveis horas de trabalho não são reconhecidas nem valorizadas. Se isto lhe parece familiar, há grandes hipóteses de ser uma mulher».

Uma Mulher Não é Um Homem, Etaf Rum
«Este romance surpreendente leva-nos numa viagem às vidas das mulheres árabes que vivem nos Estados Unidos e ao impacto que a cultura patriarcal pode ter no seu silêncio, ainda nos dias de hoje. Em Brooklyn, chegou a altura de Deya, com dezoito anos, se encontrar com potenciais maridos. Embora casar não faça parte dos seus planos, os avós não lhe dão escolha. A única forma de garantir um futuro é por meio do casamento com o homem certo».

Ode Triumphal à Cona, Cláudia Lucas Chéu
«A atenção ao que a rodeia, a linguagem disruptiva – mas bem humorada, sempre que possível… Inqualificável, e ainda bem. Alguns – e algumas – engolirão a língua, morta ou em acelerada decomposição, tanto faz».

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«Não posso ficar nem mais um minuto com você»


ofuscam-me os sonhos
a voz e os desejos
e eu sei que já não sou
de ficar aqui
neste mundo à deriva
onde a conveniência é o ponto de impulso
para a convivência
onde o meu rosto enegrecido
de marcas de não amor
passa incólume
porque o som do embate
é sempre pouco audível

ofuscam-me os sonhos
os passos e as vontades
e se eu já não sou isso
não posso ficar

num quadro verde esperança
que se regenera
sou botão mirrado
a borrar a pintura
e o amanhã onde não sei se chego

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Gatilhos: Abusos, Referência a Violência e Suicídio; Linguagem Explícita


O meio onde nascemos, nas palavras de Cláudia Araújo Teixeira no seu livro de estreia, é «uma espécie de certificado de origem controlada». Por esse motivo, definir-nos-á para sempre e tornar-se-á inevitável questionar se a nossa vida não poderia ter sido diferente, caso tivéssemos crescido noutro lugar. Será que seremos sempre aquele sítio?


uma sobrelotada mitologia familiar

Uma Vida Assim-Assim cruza a década de 70, cujos traços de modernidade iluminam o país, com a realidade de Cristina Maria, que nasceu num bairro social do Porto. Nesta espécie de microcidade, construída com o propósito de albergar «os desalojados do progresso, compreendemos que há uma dinâmica social própria, autossuficiente, que desfruta de uma economia paralela. E, assim, o Bairro parecia ser o mundo inteiro.

O tom da história é muito português e muito nosso - sim, mesmo não sendo natural da cidade Invicta, hei-de incluir-me sempre no seu regaço. O meu horizonte não é o lote da frente, mas, sem que lhe visse a fachada, senti-me a entrar neste lugar com tanta vida dentro. O recurso ao calão, através de todos os nossos advérbios de intensidade, à música, ao S. João e aos serões a ver novelas brasileiras que tanto nos fizeram sonhar, ajudaram não só a criar este ambiente, mas também a sentirmo-nos parte dele.

«O mundo lá fora é uma abstração, uma espécie de ficção na qual os seus habitantes são meros figurantes. O mundo real é o Bairro. E no Bairro todos são protagonistas»

O bloco da família Fonseca era o onze e viver naquela casa assemelhava-se muito a um jogo de Tetris, tendo em conta a falta de espaço, as dificuldades e a desproporcionalidade. Foram tempos complexos, nem sempre cruéis, nem sempre auspiciosos, e a protagonista foi acalentando o desejo de voar mais alto, de transpor os limites que sentiu serem-lhe impostos. Mesmo que se descobrisse e reinventasse naquele Bairro - e escrevo-o com letra maiúscula porque acredito ter sido uma das personagens centrais deste enredo -, a intenção de Cristina Maria era clara: sair dali.

Acho que é fácil compreendermos a sua ansiedade de abrir as asas. Ainda que não se sentisse verdadeiramente sufocada, aquele lugar era o lembrete constante do quanto almejar uma vida remediada, para muitos, já era o pináculo do privilégio, da sorte, de um futuro melhor. E, por isso, também é fácil compreender que esta história é o espelho de um país desigual, que a vergonha caminha sempre ancorada aos nossos passos, porque o estigma é audível, que são mais os sonhos vedados do que as pontes para a ambição. Há uma da lei da sobrevivência que é um dialeto partilhado por todos.

Uma Vida Assim-Assim dá, igualmente, a entender que, por mais que se chegue a sair de um lugar, aquele lugar nunca sai de nós. O Bairro será sempre da Cristina Maria e das suas pessoas. E vice-versa. Não sabia o que esperar deste romance, mas comovi-me com os seus retratos, revoltei-me com os abusos e os comentários machistas, ri-me com as peculiaridades que contam uma história a tantas vozes. Não sei o que existe para lá dos muros deste Bairro, mas há qualquer coisa que, ali, será sempre familiar.


🎧 Música para acompanhar: Um Dia de Domingo, Tim Maia & Gal Costa


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«Um escritor não deve verdade a quem o lê. Deve-lhe trabalho, esforço, escrita e reescrita, talvez honestidade intelectual 
e humildade para não partilhar as páginas que escreveu quando elas não interessam a ninguém»


A noção do que é ser escritor consegue ser subjetiva e potenciar uma discussão ampla. Por definição, um escritor é «um autor de obras literárias ou científicas». Para mim, um escritor é alguém que escreve. E todos nós, de uma maneira mais ou menos regular, mais ou menos intencional, fomos ou somos escritores. A diferença é que nem todos queremos ser publicados.

Quando comecei o meu percurso na escrita, não me debruçava muito sobre esta questão, porque o que eu queria era escrever, era pegar nos meus cadernos e deixar que a imaginação florescesse, mesmo que, no fim, o texto não fizesse qualquer sentido ou eu sentisse que não era aquilo que procurava. No entanto, quanto mais interiorizava que queria ser escritora, mais percebia que aquilo que queria era ser uma escritora publicada, com obras que leitores pudessem escolher, ler e ter em casa. Nem sempre trabalhei com esse foco, aliás, durante muito tempo bastou-me esta ideia de ser lida por aquilo que partilhava nas minhas plataformas, mas chegou a uma altura em que me começou a saber a pouco, porque sabia que não queria ficar por aí.

Acredito que, em parte, me acomodei ao primeiro cenário por não ter uma identidade definida, por saber que queria escrever, mas não estar confortável com a voz que queria ter no meio; em parte, foi uma consequência de não ter uma premissa que me parecesse entusiasmante para lhe dar bagagem. A partir do momento em que desbloqueei e percebi que queria que o meu caminho passasse pela poesia (ainda que não descarte outros géneros), foi quando deixei de ter receio de assumir que queria ser escritora, mas uma escritora publicada.

«Se um escritor serve para alguma coisa, quando não está a escrever, é para isso: para nos conduzir rumo a novas questões, para nos revelar o espaço infinito de uma dúvida»

Continuo a escrever para mim. E digo-o porque me centro naquilo que me estimula e não naquilo que pode chamar à atenção. Na minha escrita há muito daquilo que sou, daquilo que me apoquenta, daquilo que acho relevante e isso nem sempre é transversal à sociedade. Ainda assim, gostava de ser lida, de chegar a uma livraria e ter um exemplar meu exposto, de receber mensagens a dizer que compraram o meu livro. E acho que estas duas realidades não se anulam. Quanto muito, complementam-se em fases distintas da caminhada.

É claro que vamos continuar a ter pessoas que só querem escrever. Vamos continuar a ter pessoas que escrevem, porque querem ser autoras. Eu continuo a estar entre estes pólos, porque nem sempre escrevo com a intenção de ter um manuscrito pronto, mas também é um sonho em construção.


 escrever para ser publicada

O ano passado, no dia mundial da Poesia, resolvi silenciar os meus medos e enviei o meu manuscrito para algumas editoras. Fi-lo para um grupo muito restrito e fiquei a aguardar. Como sou inexperiente nestas andanças, fiquei a duvidar da minha abordagem, duvidei da qualidade dos meus poemas, duvidei ainda mais de possíveis respostas. Recebi uma. Negativa, mas com uma atenção que não esquecerei. Porque eu acho que estou preparada para ouvir «nãos», o que não quer dizer que não custe, mas o vazio é o que mexe mais com as minhas inseguranças. Portanto, mesmo que a resposta não seja a que queremos ler/ouvir, prefiro que chegue. E eu giro-me emocionalmente a partir desse ponto.

Este processo é bastante solitário. Há fantasmas que nos inquietam e que alimentam as dúvidas que vamos repetindo em surdina. Uns tempos depois de ter enviado o manuscrito, convenci-me que o problema era meu. E, atenção, é claro que pode ser, é claro que a minha poesia pode não estar pronta o suficiente para merecer a publicação, mas há sempre uma rasgo de esperança. Não estava à espera de respostas entusiastas, como se tivessem recebido um manuscrito de um possível Nobel, mas há sempre a esperança de que exista alguém a querer dar-nos a mão e a estar disposto a arriscar no nosso trabalho - principalmente, no nosso sonho.

É ainda tão difícil que arrisquem em novas vozes, sobretudo portuguesas. Há tantos muros que ainda precisamos de escalar, que a desmotivação também vai conquistando palco. Por vezes, em demasia. E, quase em simultâneo, ficou a ecoar uma pergunta: de que vale continuar a escrever, se não me querem publicar?


 continuar a escrever, mesmo quando não nos querem publicar

Não concordo com a narrativa de combater fogo com fogo, mas, neste caso, depois de uma espiral de melancolia, depois de ter curtido a minha neura, voltei a escrever. Quer dizer, nunca parei, mas precisei de fazer o meu luto e de me dedicar a outras ideias que não sejam propriamente para publicação. Assim, fiz aquilo que acho que sei fazer melhor: usar a escrita a meu favor, para lamber as feridas e continuar. Não sei se algum dia o Entre Margens terá um formato físico, mas o próximo manuscrito já está em construção.

Acho que me perguntarei muitas vezes se valerá a pena escrever, mesmo quando não nos querem publicar - ainda que não nos digam isso diretamente, mas a ausência de uma resposta for suficiente para compreender a mensagem. No entanto, também tenho a certeza que a resposta continuará a ser a mesma: sempre!

As palavras são o meu dialeto favorito e brinco com elas desde que aprendi as letras, desde que me deixei conquistar pela possibilidade de contar histórias - em prosa ou em verso - através da minha imaginação. Por isso, sei que nunca estarei disposta a abdicar desta realidade. Durante muitos anos, eu não soube que queria ser publicada, mas sempre soube que queria escrever. Que queria ser escritora. E, perdoem-me a minha falta de modéstia, mas isso sei que já sou. Por muito que as minhas palavras fiquem apenas numa plataforma digital, continuam a cumprir o meu propósito maior: escrever.

Se também continuarei a sonhar com a possibilidade de ter um lançamento meu? Claro. Nunca o descartarei, porque também quero essa versão. Mas quando comecei a preencher folhas em branco, e a perceber que me transcendia, foi isso que sempre me guiou. E é esse princípio que continuarei a respeitar. Mesmo que os cadernos se multipliquem cá por casa e nenhum deles se materialize numa estante, sei que nada mais importa. Também sei que esta visão parece muito romantizada e, talvez, uma desistência, mas não é.

Não me conformei com a possibilidade de nunca vir a ser uma autora publicada, apenas compreendi que não é bem isso que me move. Quero, mas não será o fim do mundo se nunca vier a acontecer. Porque, quando mais nada fizer sentido, a escrita estará lá para mim. E, por isso, continuarei a escrever.

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Gatilhos: Autoflagelação, Distúrbios Alimentares e Homofobia


A literatura fantástica não tem tido espaço nas minhas leituras. E não é que isso aconteça por um motivo transcendente, é só porque tenho querido explorar outros géneros que me fascinam mais. No entanto, o livro da Diana Pinguicha deixou-me com vontade de quebrar esta tendência e sair da minha zona de conforto.


maldição vs bênção

A Maldição de Rosas é um retelling da lenda do milagre das rosas, protagonizado por Isabel de Aragão, que consiste na transformação de pães em flores. Certo dia, D. Dinis decide surpreender a rainha durante uma das suas caminhadas e pergunta-lhe o que esconde no regaço. Isabel responde-lhe «são rosas, meu senhor». Nesta narrativa, a premissa respeita o mesmo propósito, mas acrescenta-lhe uma abordagem audaz: afinal, «uma futura rainha não se deveria apaixonar por uma mulher».

Achei muito interessante esta decisão, sobretudo depois de ler a nota da autora. Ter histórias que apostem em vários tipos de representatividade é importante, até para evitar que tantas crianças, tantos adolescentes cresçam a acreditar que são estranhos, que há algo de errado consigo, que não há um lugar que lhes pertença. Descobrir quem somos já é um processo demasiado complexo, não é necessário perpetuar estereótipos que nos obriguem a esconder a nossa verdadeira identidade. E creio que a literatura pode ser uma via muito válida para quebrarmos esses muros. Confio que a história da Isabel consegue abrir essa porta e ajudar a que não se sintam oprimidos - ou, pelo menos, que comecem a encontrar mecanismos para se fazerem ouvir.

Outro aspeto que achei fascinante foi a reflexão entre maldição e bênção, e a forma como a nossa perspetiva nos pode posicionar mais de um lado do que de outro. Portanto, gostei de acompanhar o crescimento da protagonista neste contexto e ver como aprendeu a transformar uma condição aparentemente adversa, quase de desgraça, num benefício em prol da sociedade e dos mais desfavorecidos.

«E porque é que tinha tanto medo de descobrir as respostas a todas aquelas perguntas?»

No entanto, acabei por não me relacionar em pleno com a narrativa, porque senti o início demasiado lento. A segunda parte foi mais dinâmica e envolvente, mas a primeira ficou muito presa à mesma ideia, transmitindo a sensação de estarmos a andar em círculo. Por consequência, fez com que a concretização e a parte central desta história carecesse de mais detalhe. Aprecio muito quando o autor não nos conta tudo e nos vai mostrando conforme o encadeamento da ação, porém, aqui, precisava que me tivesse contado melhor algumas decisões, alguns acontecimentos.

A Maldição de Rosas não foi tudo o que pensei, mas foca aspetos como a culpa e o processo de aceitação. No mesmo enredo, aborda temas como a autoflagelação, a homofobia e os distúrbios alimentares, mas também como a solidariedade, a compaixão e a condição da mulher. Senti falta de um pouco mais de equilíbrio entre as duas partes, mas guardo aquilo que, para mim, foi o melhor: o desabrochar de Isabel.

Por vezes, só precisamos de um pouco de magia para nos redescobrirmos. E essa magia pode ser o olhar de quem nos aceita ou a audácia de não calarmos a nossa voz.


🎧 Música para acompanhar: The Curse, Agnes Obel


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andreia morais

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