entrelinhas julho



A leitura é um refúgio e sinto que se transforma numa espécie de bolha de oxigénio, durante o mês de julho, para não sucumbir ao cansaço e manter-me minimamente funcional. E é, também, neste período que olho menos para a tbr mensal, já que acabo por priorizar os livros para os desafios e o resto vai-se compondo, ainda que tenha sempre alguns títulos extra em mente.

Até ao momento, li sete livros (três romances, um de não ficção, uma novela gráfica e dois de poesia), mas ainda quero ir ao Linhas de Valor Acrescentado, da Inês Meneses. Descobri dois autores novos — Fernando Sobral e Chloé Cruchaudet —, fiz uma releitura (Cordão, da Ana Freitas Reis) e, sem ter sido particularmente arrebatada pelas obras que escolhi para julho, O Olhar Diagonal das Coisas, de Ana Luísa Amaral foi a minha favorita.


 entrelinhas de julho


Benjamim, Chico Buarque

A voz de Chico Buarque vai ecoando, cá em casa, de um modo pontual. Em 2020, abri a porta para que a sua prosa deixasse de me ser desconhecida e, seis anos depois, senti que estava na altura de regressar à sua escrita.

Benjamim «narra a história de um ex-modelo fotográfico que, com uma câmara invisível, vê o mundo desfilar diante dos seus olhos sob uma atmosfera opressiva». Obcecado pela morte de uma mulher, o protagonista deixa de conseguir distinguir o passado e o que vê à sua frente e isso encaminha-o «em direção ao destino trágico que a sua obsessão lhe reserva».

A proposta pareceu-me interessante e a escrita cinematográfica entrelaça-nos à divagação deste homem assombrado pelos seus fantasmas. No entanto, a concretização não me prendeu como estava à espera — faltou algo que me ligasse profundamente ao tumulto interior, à nostalgia e à ambiguidade da personagem. Ainda assim, achei curioso que, por entre as suas divagações, também nos deixasse à deriva, a tentar compreender o que fica no meio do caos, das pontas soltas, do que tentamos, a todo o custo, compreender para resgatarmos alguma lucidez.



Futebol, o Estádio Global, Fernando Sobral

A Seleção Portuguesa perdeu com a Espanha, nos oitavos de final, sendo eliminada do Mundial. Por esse motivo, começar a ler o ensaio que Fernando Sobral escreveu para a Fundação Francisco Manuel dos Santos logo no dia a seguir é capaz de não ter sido o ideal. Contudo, indo à boleia de um desporto que me fascina desde miúda, não resisti.

Futebol, o Estádio Global parte de uma paixão universal. Ainda que não existam estudos que corroborem este facto, «em 10 milhões de portugueses, não será arriscado afirmar que 10 milhões já viram um jogo». Inclusive, talvez seja possível afirmar que temos um pouco de treinador de bancada em nós, que sobressai em ocasiões concretas: há quem passe a época sem estar atento a resultados, no entanto, a energia modifica-se quando o assunto é a seleção nacional. Enquanto elemento que tem a capacidade de agregar a comunidade, acho maravilhoso ver como as pessoas se unem por uma equipa comum, pondo de parte qualquer barreira. Por isso é que o futebol é de todos. Ou será que não?

O livro, que se assume como «o retrato que faltava da grande paixão nacional», propõe-se a traçar a evolução deste desporto, desde a essência de espetáculo até à componente de negócio: o que começou como um jogo amigável, para divertir os trabalhadores das fábricas, escalou para algo sério, profissional e sujeito a pressões externas. Isso fez-me questionar se a profissionalização foi a responsável por essa mudança ou se, por outro lado, foi a necessidade de tornar o futebol numa fonte financeira rentável que alterou a maneira como o encaramos. Sem apresentar uma resposta inflexível, é inegável que a «transformação fora das quatro linhas» acaba por influenciar a sua estrutura interna.

Compreendo, portanto, quando o autor afirma que este desporto se transformou numa poderosa indústria, já que «tem adeptos, mas também accionistas», já que se joga num estádio, mas a televisão permite que possa ser visto em todo o mundo, em simultâneo. O futebol expandiu, modificou-se, abriu portas e isto não deixa de ser uma resposta a essas alterações, com tudo o que têm de positivo e negativo — mas este cenário não é exclusivo do mundo desportivo, acontece na música, na literatura, nos nossos hobbies.

Tal como na arte, existem momentos em que parece que o futebol pelo futebol já não é suficiente, que é sempre preciso um pouco mais para que subsista. Numa visão idílica, acho que qualquer adepto gostava de sentir que o futebol continua a ser uma forma de entreter quem o vê, sem escândalos, sem fronteiras, sem desigualdades. No fundo, que fosse simples e não um jogo de poder político, que desvirtua a sua verdadeira essência. Ainda assim, por mais que possa ser uma observação ingénua, não creio que se passou de um extremo ao outro, ainda acredito que a magia deste desporto está em campo, na equipa, nas jogadas imprevisíveis, na euforia de um golo que é marcado ao minuto 92.

Por oposição, não me revi no tom fatalista, por vezes condescendente e contraditório, do autor, tão centrado nos números (mais comerciais do que estatísticos). Uma vez que assume a nostalgia do «jogo bonito», de dribles e fintas, em vez de um «sistema táctico rígido e defensivo», esperava um discurso mais emotivo, ainda que não perdesse o lado racional, do jornalista que analisa os factos. Aliás, sinto que seria mais interessante se se tivesse desvinculado dos extremos, visto que os interesses económicos não mudam, por si só, aquilo que é o futebol, visto que apresentar um sistema tático sólido não tem de impedir que exista poesia nas jogadas. Hoje, focamo-nos em aspetos que não eram uma prioridade e, não nos iludamos, há situações que nos desagradam e revoltam, mas nem todas as mudanças implicaram uma perda de identidade: a essência ainda resiste.

Futebol, o Estádio Global foi-se perdendo no seu propósito a partir do momento em que Fernando Sobral afunilou o tema central. Embora crítico do espetáculo de massas, não alargou o debate e teria sido interessante trazer realidades distintas, porque os clubes não lidam todos com o mesmo tipo de adversidades. As vitórias são fundamentais, no entanto, reduzir o futebol a esse fim parece-me distanciá-lo daquilo que é suposto ser: «uma linguagem comum», o espetáculo que faz vibrar multidões. Quando recordamos um jogo, o resultado até pode surgir, mas não sei se essa será a primeira memória ou a que guardamos com fervor: os números acabarão por ficar turvos, com o tempo, mas o voo sobre os centrais, a defesa impossível, os cânticos partilhados com desconhecidos não e isso, sim, é a definição de estádio global, porque há emoções universais, para lá do emblema que apoiamos, que nos deixam apaixonados por aquilo que não se explica.



Cidade Infecta, Teresa Veiga

As personagens comuns, que se confundem com a trivialidade do quotidiano, cativam-me, porque transportam uma essência mais próxima da realidade. Não pretendo que a literatura seja apenas uma representação fiel do que presencio dentro e fora da minha bolha, mas, como sinto que escrever a normalidade não é assim tão simples e intuitivo, gosto de me perder em narrativas que a façam sobressair e que nos permitam reparar noutros ângulos. Era isso que estava à espera de encontrar neste livro de Teresa Veiga.

Cidade Infecta leva-nos para uma cidade do interior, na qual «a vida segue os trilhos da tradição» e cuja tranquilidade dos seus moradores «é violentamente interrompida pelo assassínio de uma mulher». Este cenário sombrio e suspeito povoa as ruas de Oliveira, onde Raquel e Anabela se conhecem num curso de informática. Aparentemente, nada têm em comum, mas a amizade é imediata, movida «por uma determinação férrea em conduzir a vida familiar». Cada vez mais unidas, é quando «estão prestes a desvendar uma à outra os seus segredos mais inconfessáveis» que acontece uma nova tragédia.

A premissa intriga, não só pelo mistério, mas também pelos elementos transversais à vida das protagonistas, o que me deixou a pensar no facto de nenhuma experiência ser individual: podem mudar o contexto e os contornos, no entanto, existem situações que se repetem dentro de várias casas, em simultâneo, sem que nos ocorra. Dito assim, sei que parece que estou apenas a constatar o óbvio, porque nós sabemos a multiplicidade dos casos, podemos não ter o número da porta, mas reconhecemos que não é isolado, só que não ser verbalizado faz com que permaneça invisível. Quando identificamos os mesmos comportamentos, os mesmos padrões, isso pode ajudar a despertar vínculos.

Esta aproximação pelo trauma é capaz de, por um lado, contribuir para ver o problema com clareza, mas, por outro, talvez contribua para que se torne algo maior e sufocante, pela impossibilidade de sair do abismo. E eu fui ficando presa neste limbo, a assistir à mesquinhez dos casamentos, por causa de descrições e não tanto pela narrativa em si, atendendo a que a senti demasiado à superfície, como se não nos pudéssemos demorar.

A leitura avança a bom ritmo, ainda assim, confesso, tive dificuldade em compreender para onde a autora nos queria levar. Creio que Raquel e Anabela espelham a angústia de viver relacionamentos construídos na base da conveniência, da violência, da ofensa, por esse motivo, achei que a amizade entre elas fosse um gatilho de mudança, mas até este ponto central se perdeu, ficando a sensação de que foi somente um pretexto, uma frincha de sol num dia cinzento, para nos iludir. Além disso, não consegui entender a pertinência do assassínio da mulher, porque não tem um impacto substancial na ação.

Parece, inclusive, que o livro é só um conjunto de acontecimentos suspensos, como se a qualquer momento a história fosse começar e adiassem o seu início. Tendo em conta as temáticas e toda a sua potencialidade, há um sabor agridoce a pairar, visto que teria sido mais interessante se tivesse mexido com as nossas emoções de um modo visceral, se tivesse aprofundado as situações e a carga sombria, para não ficarmos dormentes.

Cidade Infecta talvez pretenda demonstrar a sobrevivência, as vidas geridas através dos danos e tudo o que fica pendente perante dilemas diários, que nos obrigam a recuar, a ceder, a desistir, até que tudo se esqueça e fique em silêncio. A história é interessante, mas a concretização não resultou comigo, porque gostava de ter sentido inquietação.



Mau Género, Chloé Cruchaudet

A capa da novela gráfica de Chloé Cruchaudet chamou-me logo à atenção, mas acabei por adiar a leitura. Quando vi que estava disponível na BiblioLED, fiz a reserva e comecei a lê-la no mesmo dia.

Mau Género é inspirado na história verídica de «um desertor que se torna travesti nos loucos anos 1920». Paul e Louise, os protagonistas, conheceram-se, apaixonaram-se, casaram e, depois, tiveram de se separar por causa da Primeira Guerra Mundial. Perante um cenário de profundo terror, Paul «deseja escapar de lá a qualquer custo, acabando por desertar e encontrar a mulher em Paris». Apesar de estar a salvo, permanece condenado a viver «escondido num quarto de hotel».

A estratégia para sair da clandestinidade passa por se vestir de mulher e, quando a amnistia é concedida aos desertores e pode voltar à sua verdadeira identidade, os dramas entre o casal amplificam-se, destacando questões fulcrais sobre sexualidade e identidade de género, mas também sobre os traumas que interferem com todas as dinâmicas individuais e sociais.

A história em si é interessante e bastante angustiante, sobretudo, por sabermos que não é ficção, porque nos deixa a pensar em todas as adaptações que temos de fazer para sobreviver — e o quanto isso pode não ser suficiente, por um lado, devido às marcas profundas provocadas por experiências agressivas e, por outro, por causa de preconceitos demasiado dolorosos. Ainda assim, não me relacionei totalmente com a cadência do texto, porque sinto que houve partes um pouco confusas (ou onde precisava de ter um pouco mais de contexto).



As Vinhas de La Templanza, María Dueñas

Uma nova volta na roleta ditou que eu e a minha amiga Sofia regressássemos a María Dueñas, em julho. Tendo em conta que a autora é espanhola e foi Espanha a ganhar a Copa do Mundo, achei uma coincidência curiosa. Se esse facto e a obra se cruzam por alguma circunstância? Não, de todo, estou só a divagar.

Voltando ao que interessa, As Vinhas de La Templanza é sobre a história de Mauro Larrea, cuja fortuna conquistada graças a «anos de luta e perseverança» se desmorona de repente, obrigando-o a recomeçar, a procurar uma alternativa que o permita reerguer-se. Assim, da Cidade do México até Havana, das Antilhas a Jerez, vê-se num impasse que o cruzará com «minas de prata, intrigas de família, vinhas» e Soledad Montalvo.

Achei a narrativa interessante, até porque levanta questões morais pertinentes e leva-nos a refletir sobre os limites que estamos dispostos a transpor para alcançarmos determinado fim — o que é que legitima o nosso comportamento? — e de que forma usamos as pessoas para nosso proveito. Além disso, tendo em conta o jogo de aparências, também me deixou a pensar nas histórias que não conhecemos dos lugares que habitamos ou por onde passamos. Só não me relacionei totalmente com o livro porque não senti o ritmo entre as diferentes partes equilibrado e o final pareceu-me um pouco apressado, com certas pontas soltas a serem atadas de um modo previsível.

Continuo fascinada com a forma como Dueñas torna as suas personagens tão humanas.



tbr de agosto

Tenho alguns títulos que gostava de ler em agosto, no entanto, como ainda não estou certa da logística do meu mês e quero aproveitá-lo para ver séries e filmes, optei por compilar apenas os livros dos desafios.

  • Descolonizar o Sujeito Poético, Sara Duarte Brandão (alma lusitana);
  • O Dever de Deslumbrar, Filipa Martins (alma lusitana);
  • Alentejo Prometido, Henrique Raposo (ler ffms);
  • A Coisa à Volta do Pescoço, Chimamanda Ngozi Adichie (3 autoras para 2026);
  • Poemas Completos, Herberto Helder (12 meses, 12 livros de poesia).

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