o primo basílio, eça de queiroz


A porta do Ramalhete abriu-se, mas não me demorei na visita quando se fechou. Quer dizer, permaneci, descobri relações complexas, segredos e cicatrizes, só que o peso da obrigatoriedade e, sobretudo, a limitação temporal não permitiram que lesse Os Maias com a devida disposição. Anos mais tarde, fiz paragem n’ A Cidade e as Serras, que me mostrou a componente sagaz e irónica da escrita do autor, e, já com outra maturidade literária, voltei à propriedade e perdi-me de amores pela sua história, que oscila entre o esplender e a decadência. Portanto, andava há demasiado tempo a prometer voltar à obra do Eça e, por isso, decidi que seria um dos autores do meu desafio Alma Lusitana.


 o impacto da indiferença

O Primo Basílio faz-nos recuar à Lisboa de finais do século XIX, para conhecermos um modelo de casal burguês: Luísa e Jorge. A dinâmica da casa sofre um revés, quando o marido se vê forçado a partir para o Alentejo, «durante algumas semanas», deixando a Luísa entediada, aborrecida «por estar sozinha em casa», até porque não seria de bom tom receber a sua grande amiga, com um rótulo da sociedade pouco favorável. É com a chegada de Basílio, «que antes de emigrar para o Brasil a cortejara», que tudo muda.

O desfecho é claro desde o início. Aliás, partimos para este enredo a saber tudo aquilo que precisamos sobre a parte central do arco narrativo, mas desconhecemos a maneira como tudo se processará e isso, para mim, é um dos traços mais entusiasmantes desta história, porque parece que estamos a transpor um jogo de sombras, onde tudo nos é dito e, mesmo assim, permanecemos à deriva, expectantes, a entrelaçar pontas soltas. E se existe algo que aprendemos é que as subtilezas escondem camadas profundas.

Inicialmente, há aspetos que vamos decifrando pelo facto de reconhecermos em Eça um olhar incisivo acerca da sociedade, a funcionar como uma denúncia de atitudes questionáveis e das diferenças entre grupos sociais. É importante não esquecermos a época em que se contextualiza a narrativa, com a burguesia a ser a voz mais audível, porque creio que, sem justificar, permite que compreendamos melhor a mentalidade. Além disso, torna ainda mais impressionante a leitura que o autor faz, uma vez que permanece atual e que, através de metáforas provocadoras, desmancha a mediocridade e a pobreza que não se limita à esfera financeira, que engloba valores e emoções. E, pouco a pouco, percebemos que as entrelinhas contam outras ramificações do enredo.

«Estava só; pôs-se a olhar em roda, como idiota. O silêncio da sala parecia-lhe enorme»

A escrita pareceu-me fácil de acompanhar, não só pelo traço visual, mas também pelo tom sarcástico, de quem observa por dentro e leva as incoerências para um lugar mais luminoso. Contudo, fiquei sempre com a impressão de que precisava de ter outra base para compreender os significados de certos detalhes, visto que é uma história cheia de simbolismos. Por esse motivo, decidi fazer a oficina da Bruna Martiolli sobre O Primo Basílio e, assim, chegar às camadas que não decifraria sem ter esta orientação literária.

Não pretendo que todas as minhas leituras sejam feitas nestes moldes, mas senti que esta beneficiaria se o fizesse, porque seria capaz de perceber a amplitude do texto de Eça. As minhas interpretações não estiveram muito longe do que foi abordado, mas é inegável que passaria ao lado de várias referências. Aliás, não teria sensibilidade para reconhecer que certas descrições não são inocentes, que há ali um propósito maior e isso permitiu-me desfrutar melhor da intertextualidade da obra e levantar questões que não me ocorreriam de outra forma. No fundo, desenvolver um olhar mais crítico.

É curioso como este texto se molda em contrastes, como segue diferentes transições e como nos faz pensar naquilo que consideramos natural e naquilo que nos incomoda. À semelhança das obras que influenciam O Primo Basílio, o autor foca-se no adultério, na decadência do casamento e no desejo, abrindo espaço para debatermos a hipocrisia e a fixação pela beleza. Em simultâneo, confronta-nos com a invisibilidade e o jogo de manipulação que vemos a formar-se em várias frentes. Sem querer entrar em detalhes que comprometam a leitura, permitam-me apenas realçar que é o tom de indiferença e a banalidade do quotidiano que mais interferem com a nossa perceção de humanidade.

«(...) Tinham palpitado no mesmo amor, tinham cometido a mesma culpa. — Ele partia alegre, levando as recordações romanescas da aventura; ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!»

As personagens, tão comuns, complexas e credíveis, deixaram-me sempre no limbo, já que não me parece fácil empatizar com as suas intenções. Até quando as suas atitudes aparentam vir de um lugar benigno, ficamos de pé atrás, porque são convenientes — e coniventes — com o seu egoísmo. Não obstante, é essa essência ambígua que as torna inebriantes. Irritei-me com o calculismo de Basílio, com a futilidade de Luísa, com o cinismo de Juliana, com o conservadorismo de Jorge e com a necessidade que tinham de se intrometerem na vida uns dos outros, mas elas não são só estas características: escondem camadas de solidão, de revolta, de procura por algo que lhes dê propósito, de tentativas, ainda que questionáveis, para conseguirem melhores condições de vida. Acredito que se ficasse somente pela minha leitura perderia a noção do quanto estas personagens possuem uma dimensão tridimensional, assim pude alargar horizontes.

Outra situação que me deixou apreensiva foi o final: pelo desfecho em si, pelo sufoco, pela obsessão e, uma vez mais, pela indiferença, que vem retirar todas as dúvidas que pudessem existir em relação às personagens — aqui, é como se as máscaras caíssem. Além disso, torna-se evidente o quanto este livro é feito de inúmeros simbolismos, já que Eça não deixa nada ao acaso, antes pelo contrário, tudo encaixa na medida certa.

O Primo Basílio é uma construção narrativa ficcional, sem que perca um traço real. Ao oscilar entre o luxo e a intimidade, entre o paraíso e o terror psicológico, agrega-nos a «uma teia de (…) chantagem e tragédia» e a um ambiente pensado para sentirmos tudo.


 notas literárias
  • Desafio: Alma Lusitana
  • Lido entre: 15 e 19 de junho
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 392
  • Banda sonora: Valsa do Danúbio, Johann Strauss II, David Parry & London Philharmonic Orchestra | Chopin: The Nocturnes, Frédéric Chopin & Maria João Pires

0 Comments