cordão, ana freitas reis


A poesia entrelaça-nos de um modo mais ou menos umbilical, por isso, voltar ao livro de Ana Freitas Reis foi reconhecer que, nesse processo de proximidade, tudo pode ser um recomeço, uma vontade de ir e de explorar a imensidão do que nos é desconhecido.


 reiniciar a travessia

Cordão manifesta a encenação do ato de nascer, uma vez que é um evento inacabado e um (re)início constante da travessia. Assim, concede «espaço à fatalidade da condição de recém-nascida» e estende a fundamental paisagem «a partir da dolorosa viagem do corpo que a há-de desenhar». Nestas páginas, coabitam inquietações e silêncio, entre múltiplas respirações que «suscitam deformação [e o] desdobramento dos percursos».

A palavra vai-se renovando, neste fio que interliga encontros e pulsões, e encaixando diferentes sensações, como se, por nos movimentarmos ao mesmo tempo que a autora, pisássemos territórios amplos, ambíguos e imprevistos; como se, nesta simbiose, nos descobríssemos enquanto a pessoa «que acolhe o mundo» e a pessoa «que o habita». É por esse motivo que «cada verso vai tateando os obstáculos e as alegrias» do processo.

Voltar aqui renovou-me a certeza de que existe um olhar que nos transcende. Através de anseios, memórias e um interessante jogo de palavras, que planta imagens na nossa interpretação, evidencia a liberdade, o assombro de estar viva, o desejo, a melancolia e a necessidade de nos moldarmos àquilo que nos rodeia. Ademais, com um tom quase minimalista, que camufla emoções profundas e as faz ecoar em momentos específicos, expõe as «condicionantes da poesia no feminino» e todas as transformações da mulher.

«Ainda não tinha visto a Primavera cá de casa
No terraço ao lado há uma grande nespereira.
Lembro-me de comer nêsperas e gostar
do sabor meio doce, meio azedo,
e de a minha mãe dizer que as nêsperas
faziam nódoas
Há certas pessoas
que são como as nêsperas que comemos —
não sabemos porque falamos delas
se há toda uma vasta botânica»


Parafraseando uma etapa da sua vida, influenciada pelo nascimento da filha, leva-nos para um universo onde oscilamos entre o que é dito e o que continua oculto, se calhar, para nos fazer refletir sobre a quantidade de sombras presas aos nossos passos, sobre o que não somos capazes de controlar e sobre as sucessivas perdas que sofremos e que podem (ou não) renascer noutras concretizações, dependendo das nossas escolhas ou das circunstâncias. Relacionei-me muito mais com esta segunda leitura, uma vez que entendi que Ana Freitas Reis borda «um estado de alma a um estado de observação».

Cordão intercala poemas mais curtos e mais extensos, mostrando-nos que não existem medidas estanques quando pensamos sobre mudanças, afetos e vivências. Neste «livro-ponto-de-escuta» e caminho, creio que encontramos versos feitos de pessoas: as que o sujeito poético imaginou, as que persistem nas suas lembranças e as que homenageia.


 notas literárias
  • Lido a: 15 de julho
  • Formato de leitura: Físico (releitura)
  • Género: Poesia
  • Nº de páginas: 63
  • Banda sonora: Suzanne, Leonard Cohen | Parto Sem Dor, Capicua

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