Entre Margens

Fotografia da minha autoria



«Há vazios que só se preenchem com um pouco mais de si»


O ato de nos observarmos ao espelho nem sempre é pacífico, porque há complexos que assumem uma importância perigosa, alimentando uma autoestima mais frágil. E em nada melhora, quando os padrões da sociedade nos minimizam, perpetuando a sensação que só pode existir um tipo de corpo, de opção, de caminho. Até quando cairemos neste erro?

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Tema: Um livro do teu autor favorito


Coimbra, cantam, tem mais encanto na hora da despedida. Porém, eu aprecio mais a chegada, porque posso perder-me pelas suas ruas. Nesta cidade de estudantes, já vivi momentos maravilhosos, enquanto visitante, de capa traçada. Mas não foram os únicos fragmentos a deixar-me saudades. Por isso, tendo este palco emocional na bagagem, senti que o melhor tema para a acompanhar seria um que perpetuasse o vínculo. E, portanto, selecionei uma obra de Miguel Esteves Cardoso.

«Um nome é um pequeno texto»

Último Volume envolve 41 crónicas independentes, estabelecendo uma ponte entre questões triviais, política e emoções. Publicado um ano antes de eu nascer, tem muito daquilo que é o autor na sua essência, atendendo a que se foca nas pequenas coisas da vida para nos deslumbrar com o seu tom mordaz, provocador e humorístico - mesmo quando afirma já ter perdido a graça -, que é logo evidente no Prefácio. É por essa razão que é sempre tão enriquecedor descobri-lo.

«Os únicos sonhos de que vale a pena falar são os que não nos deixam dormir»

Reconheço que não se tornou um dos meus exemplares favoritos, pois houve vários textos que não me tocaram profundamente. No entanto, seria impensável não gostar, porque a sua escrita desafia-nos. Fascina-nos. Além disso, por mais que discorde de certos pontos de vista, agrada-me a cadência com que os desenvolve, proporcionando-nos novas reflexões. Num apontamento particular, Como Esquecer e Intimidades foram duas das crónicas que conquistaram o meu coração por inteiro. Sorte a minha por este não ser o Último Volume que tenho de Miguel Esteves Cardoso para ler. Porque evoluo com as suas palavras.

«O amor é o que fica quando o coração está cansado. Quando o pensamento
está exausto e os sentidos se deixam adormecer, o amor acorda para se apanhar»

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«A criatividade é contagiosa»


Os pensamentos periclitantes tecem mantos de ideias que parecem inesgotáveis. No entanto, enquanto estruturamos cada fragmento, há dúvidas que nos contagiam, numa síndrome de impostor paralisante, como se nenhum deles fosse digno de transitar do papel. E o cenário é mais desmotivante, quando nascem projetos onde apreciaríamos aventurar-nos. Neste instante, a questão que se impõem é: até que ponto devemos avançar, se parecem existir inúmeras iniciativas do mesmo género?


 A VONTADE 

Há um estado de alma que considero imprescindível antes de nos comprometermos com algum projeto: desenvolvê-lo por nós, porque nos entusiasma e faz sentido. É por isso que menciono - com regularidade - que continuo a escrever para mim, com a diferença que, à posteriori, o partilho nesta casa virtual. Porque devemos ser os nossos maiores apoiantes. E, além disso, devemos confiar na mensagem que procuramos transmitir - seja ela momentânea ou, então, prolongada no tempo.

Quando ponderei transformar o Alma Lusitana num desafio/clube de leitura [em vez de permanecer como celebração do Dia do Autor Português], oscilei até chegar ao veredicto final, atendendo a que vi nascer vários formatos semelhantes. Mas, depois, compreendi que estava a colocar a tónica no lado errado da questão. Porque é que tenho de me silenciar, se é algo que me acrescenta? Porque é que tenho de largar a mão de um conceito que me deu imenso prazer a organizar, só porque outras pessoas quiseram caminhar no mesmo sentido? Se eu sinto que tenho uma voz diferenciadora, invisto, porque há espaço para todos.


 O ESPAÇO QUE OCUPAMOS 

Acredito, genuinamente, que podemos conversar sobre os mesmos temas, sem que isso nos melindre enquanto criadores de conteúdo, uma vez que as abordagens serão distintas. A forma como interpreto determinado texto ou como exploro um assunto predominante depende da emoção que grita no meu peito. Portanto, o que chega a quem lê/vê/ouve tem a minha essência. E isso não pode ser reproduzido em mais nenhum lugar.

Deste modo, temos, antes, de nos preocupar em seguir a linha que nos mantém fiéis à nossa imagem - e sem nos colarmos aos demais. O resto terá de ser secundário, porque não pode ser a fonte do nosso salto ou da nossa desistência. Assim, ouçam-se. E respeitem a vossa vontade.


 TEMPO E CONSISTÊNCIA 

Numa época em que consumimos tanto conteúdo digital, é natural que se hesite e, sobretudo, que se reconsidere a pertinência do timing em que se lança esse projeto. Porque a oferta multiplica e parece que recebemos estímulos de várias partes. Por consequência, sente-se o medo inerente ao sentido de oportunidade, receando que o lançamento se perca no meio de muitos outros. Contudo, mais que o tempo, sinto que é a consistência que marca a diferença e a fidelização das pessoas.

O ato de perpetuar a ideia, de a ir desenvolvendo com prospeção de futuro, faz com que o investimento seja encarado com outra seriedade, porque a predisposição para construirmos degraus e alternativas é desafiante. E esta deve ser a nossa motivação: o frio na barriga por, em parte, abrirmos uma nova porta e sairmos desta bolha de conforto.

Em simultâneo, que mal tem se as pessoas não aderirem logo? O mais importante é que se divirtam e que entendam como é que o projeto vos permite evoluir. Claro que é maravilhoso quando os outros se interessam, alterando a energia para melhor. No entanto, sinto que limitar a decisão a este fator traz mais prejuízos do que benefícios.


 NA DÚVIDA, ARRISCAR SEM MEDOS 

Ou com eles. Não importa, desde que não desistam de uma ideia apenas porque há mais pessoas a pensar num conceito idêntico. Atenção, eu entendo e também já fiquei neste limbo. Mas será que querem mesmo seguir esse caminho? Até porque, por esta ordem de ideias, só poderia existir um modelo dentro de cada categoria e isso não acontece. Aliás, a magia reside nessa diversidade, ainda que partam do mesmo lugar.

Procuramos todos um conteúdo inovador, que desperte nos demais um interesse genuíno e sem que sintam que houve tempo desperdiçado. Mas concedam espaço para explorar aquilo que vos entusiasma. Façam ouvir a vossa voz interior. E, principalmente, não vivam com a sensação que poderiam ter criado algo especial para vocês, mas que ficou guardado na gaveta devido a condicionantes externas. Os nossos projetos são mesmo relevantes, desde que feitos com verdade. Não os desperdicemos.


Já abandonaram alguma iniciativa porque 
viram outras semelhantes a aparecerem?

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«... através das vidas de quem o fez grande»


Mulher. De peito aberto para o mundo, lutando pela liberdade que a faz renascer, qual botão de camélia em flor. Há dois anos, escrevia que nunca tinha ambicionado não ser mulher, embora o contexto social pareça mais promissor para o género masculino. E reforço essa certeza, sobretudo, quando me cruzo com testemunhos poderosos, de antepassados que não conheci, mas que me inspiram a nunca perder a minha voz.



«Ó miúda, ouvi dizer
Que encontraste o amor
Na aura de outro amor

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... Passear!

[Perder-me por ruelas e calçadas, como canta Rui Veloso. Sentir a energia distinta de cada lugar. Observar e eternizar, através de registos fotográficos, os detalhes que arrebatam o olhar. Embora seja muito apegada à minha casa, também gosto de ir, de mochila às costas, explorar os recantos maravilhosos do nosso país. E sinto mesmo falta desse ar puro; dessa liberdade de percorrer trilhos infinitos e sem qualquer restrição. Enquanto não é possível voltar a fazê-lo, passeio sem sair do lugar, à boleia de fragmentos, de músicas e de livros].

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«Cozinhar e como tecer um delicado manto»


O pequeno-almoço será sempre a minha refeição favorita, incluindo todo o processo de preparação. Porque sinto que é uma excelente forma de iniciarmos o dia a cuidar de nós. Mas também privilegio receitas simples. E, sobretudo, que sejam versáteis, podendo adaptá-las para lanches e snacks mais saudáveis, porque essa é a magia da cozinha.

A deambular pelo instagram, cruzei-me com uma opção da Anita Healthy, que me despertou interesse pelos ingredientes protagonistas: banana, aveia e chocolate. Assim, retirei uma forma do armário e fui preparar uns belos seis Muffins. No entanto, como ainda sobrou alguma massa, esta receita transformou-se num autêntico dois em um. Acompanham-me?


🍴 MUFFINS DE BANANA E AVEIA COM CHOCOLATE


Ingredientes
- 2 bananas maduras;
- 2 ovos;
- 125 ml de bebida vegetal sem açúcar;
- 120 g de farinha de aveia [ou aveia triturada];
- 1/2 colher de chá de fermento;
- 1/2 colher de chá de canela em pó;
- 3 colheres de sopa de óleo de coco biológico;
- 1/2 chávena de pepitas ou pedaços de chocolate.

Modo de Preparação
- Pré-aquecer o forno a 185ºC e untar uma forma de muffins;
- Triturar as bananas com os ovos e a bebida vegetal;
- À parte, misturar a farinha de aveia com o fermento e a canela;
- Adicionar a mistura da banana e mexer bem;
- Acrescentar o óleo de coco e misturar;
- Juntar as pepitas ou pedaços de chocolate e mexer levemente;
- Colocar o preparado nas formas e decorar com bananas e pepitas;
- Levar ao forno cerca de 25 minutos.

Notas da Anita
- Podem substituir a farinha de aveia por farinha de arroz ou espelta;
- Usar bananas maduras;
- Para triturar, podem recorrer à varinha mágica;
- Podem guardar os muffins no frigorífico durante três dias, aquecendo-os quando for para comer, porque vão ficar ótimos na mesma.


EXTRA: BOLO DE BANANA E AVEIA COM CHOCOLATE


A receita dos muffins, aparentemente, equivale a seis doses. Porém, como sobrou massa para mais duas fornadas, optei por confecionar outra alternativa: um bolo. Portanto, fiquei com um lanche e uma sobremesa.


Já experimentaram?

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«É um pequeno épico concentrado»


A humanidade evolui, mas o mundo parece ainda tão pouco acessível às mulheres, enquanto seres autónomos, empoderados e com uma voz que merece direitos e oportunidades equitativas. Por isso, não se torna mais fácil ler obras que espelham essa realidade e as diferenças gritantes entre géneros. Porém, livros como o da Martha Batalha são portas cruciais para evidenciar qual é - e onde reside - o problema.

«Sozinha na cama, corpo escondido sob o cobertor, Eurídice chorava baixinho»

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é inspirado nas mulheres com quem a autora conviveu, cujos destinos foram adiados, minimizados, mostrando que, por consequência, desde a amargura ao conformismo, o espectro de reações também diverge. Portanto, tendo a sociedade brasileira como fundo, esta narrativa retrata aquilo que era normativo: educar as mulheres para serem boas esposas, recatadas e sem quaisquer aspirações de futuro, passando despercebidas. Completamente transparentes. Sem poderem ser as protagonistas das suas histórias.

«- Não venha de novo com este assunto de corte e costura que não aguento mais esta ladainha»

Este manuscrito centra-se em temas como a violência, a marginalização, o machismo, o racismo e os amores proibidos, mas não deixa de ser interessante o contraste do tom utilizado, porque as partilhas são feitas com humor e ironia, sendo evidente a crítica social. Além disso, é notório o julgamento feito pelas próprias mulheres, enfraquecendo o poder da sororidade. Numa espécie de grito mudo, é impressionante como o parecer dos outros é tão condicionante. Mas não é menos perigoso quando há uma parte de nós disposta a sabotar-nos.

«Ver os pais tão vulneráveis fez Eurídice querer protegê-los»

Os apontamentos antagónicos são fascinantes. Porque, por um lado, encontramos vidas reprimidas, mas, por outro, acompanhamos uma protagonista que procura quebrar os padrões impostos e a sua luta interior - ainda que recue, inúmeras vezes, nessa missão. Assim, assistimos à invisibilidade, às metamorfoses e aos recomeços. E compreendemos que, embora conquiste o seu lugar, a mulher continua a batalhar para o manter - seja qual for o contexto em que se insira.

«Só se importava com os livros»

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão parte de questões quotidianas para nos fazer refletir sobre o impacto que cada uma delas tem nas nossas decisões. Em simultâneo, concede espaço para que os rostos anónimos, presentes nas entrelinhas, se elevem e assumam os traços que tantos procuram apagar, redescobrindo a sua força. E renascendo para o mundo.

«Ou talvez seja melhor dizer que era uma meia mentira»


Disponibilidade: Wook | Bertrand

Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥

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«O amor desenhado a lápis de cor»


É linha que se esbate
Em peito morno e ondulante
Como lápis de cor que se fragmenta
Em movimento lento
Qual bailarina numa caixa de música
De melodia muda

E num perdão que me escapa
Como fumo de cigarro pousado num parapeito
Reprimo a esperança
De ver o despertar da aurora

Sem milagres que se transformem em poemas
Faltam-me as horas certas para reconhecer a maré
Pintada em alto mar numa tela sem luz

E nesta cornucópia
De raspas de carvão alaranjado
Ficam as palavras desertas
Neste céu aberto de folhas vazias
Onde o amor é naufrago
E eu desaprendi de ser cais

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«Conhecer o outro lado do mundo»


O manto de histórias vai unindo retalhos, construindo sonhos em planos narrativos. Nesta estrada de múltiplas rotas, descobrimos que a literatura, com a sua voz própria, serve-nos com propósitos distintos, despertando emoções singulares em cada leitor. Portanto, é injusto compartimentar sensações em caixas padronizadas. E permaneço à margem, sempre que me cruzo com apreciações que soam a verdades absolutas.

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«Todo o mundo tem um mundo de histórias»


A folha pautada, paciente sobre a mesa, aguarda a simbiose entre pensamentos e as linhas que as compõem. Porque há uma energia distinta na arte de contar histórias, traçando estados de alma. Por isso, considero entusiasmante quando encontramos objetos que nos auxiliem durante esse processo, fomentando a criatividade que nos impulsiona.
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