Entre Margens

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«Amor eterno não quer dizer único amor»

Avisos de Conteúdo: Referência a Alzheimer e a Jogo


O início, por expor um prenúncio de morte, fez-me lembrar o livro Crónica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, mas os caminhos traçados por Mário Zambujal nada mais têm em comum que esse detalhe.


UM ROMÂNTICO INCURÁVEL

Fabíolo é um protagonista cheio de paixões - umas mais honestas do que outras -, que se deixa seduzir facilmente «pelos encantos femininos». Deste modo, acompanharemos os seus movimentos com segundas intenções, os seus deslizes, os seus impulsos e os estratagemas criativos para que caiam na sua conversa.

«Admiro a minha própria capacidade de manter silêncio acerca do essencial»

Neste jogo algo cómico, algo trágico, que se mantém dividido entre um romance com uma mulher morena e um romance com uma mulher loira, será a perspetiva de uma riqueza que deitará tudo a perder. É uma obra que se lê rápido, pelas peripécias narradas e pela escrita sarcástica, mas não deixa de nos mostrar que há sempre alguém disposto a dar-nos a mão e alguém sempre disposto a passar-nos a perna, quando algo nos corre bem.

«A palavra urgente tem o seu peso, desaconselha delongas e insinua responsabilidades»

Portanto, é nesta dança - descoordenada, se me permitem -, que o protagonista dá asas à ganância e que sente o sabor amargo das más decisões. Não é uma história que nos muda a vida (nem acho que seja esse o propósito), mas é sempre ótimo regressar aos livros deste autor, porque nos entretém com cenários cómicos.


🎧 Música para acompanhar: Bela, Os Alice

📖 Do mesmo autor, li e recomendo: À Noite Logo Se Vê, Rodopio e Crónica dos Bons Malandros


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«(...) este rosto virado para dentro/de alguma coisa escura que ainda não existe»


A casa é vista como um alicerce. Ao desenhá-la, há uma série de passos que necessitam de ser dados, para que se compreenda a construção e os fios invisíveis que a tornam tão nossa, a definição perfeita de lar. No fundo, porque há memórias que se fragmentam e se transformam e porque há horizontes que nos reinventam.

Consultar a programação da Feira do Livro do Porto é perceber que esta noção de casa se manifesta nos detalhes. E se isso já era notório em edições anteriores, nesta, esteve ainda mais presente. A céu aberto ou no conforto de um espaço interior, percorremos várias divisões, cada uma com a sua história, cada uma com a sua funcionalidade. O mais interessante é que esta experiência também contou com vozes e visões distintas.

Quem recebe a newsletter, já sabe quais foram as sessões que [ou]vi, divididas entre homenagens, conversas e concertos, e as minhas considerações. No entanto, também queria deixá-las assinaladas no Entre Margens.


CERIMÓNIA DE ATRIBUIÇÃO DA TÍLIA DE HOMENAGEM


Foi a primeira vez que consegui assistir ao momento de atribuição da tília ao autor homenageado e achei-o muito bonito. Neste caso, não só por partilharem memórias de Manuel António Pina, mas também por terem estado presentes as filhas do escritor e uma delas ter lido um poema do pai (escolhido pela associação à tília).


PINA GERMANO


A amizade é a mais alta forma de amor, segundo Manuel António Pina. E é com este tema de base que podemos descobrir a exposição Pina Germano, presente no Gabinete Gráfico, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett. A história que aqui se conta recupera memórias, epístolas e documentos de Germano Silva, permitindo-nos conhecer «a amizade que também era como uma casa onde se podia morar». Estes dois portuenses de coração tinham uma ligação extraordinária e ver isso representado neste roteiro é um privilégio.


TERRIVELMENTE TEIMO EM ADORAR A LIBERDADE LIVRE


O ciclo de conversas com a escritora e jornalista Inês Fonseca Santos foi iluminado por esta «afirmação-sangue» de Rimbaud. Ao seu lado, teve autores de diferentes gerações, com quem falou sobre as suas obras, referências literárias e o que é isto de adorar a liberdade livre, que não é uma redundância. Deste ciclo, tive a oportunidade de assistir à conversa com Afonso Cruz e à conversa com Rui Cardoso Martins.

Afonso Cruz, que é um dos meus escritores-casa, tem mesmo poesia nas palavras, até na maneira como se expressa. Ficaria horas a ouvi-lo, porque acho fascinante a construção dos seus pensamentos e para onde escalam as suas observações. Seria excessivo partilhar todas as anotações que tirei, mas deixem-me só partilhar as notas que achei mais interessantes, porque fizeram-me olhar de outra perspetiva.

A certo ponto da conversa, falou sobre a importância de termos limites para compreendermos a liberdade e uma das imagens que utilizou foi a da casa, que sendo um local de constrangimento, continua a ser um dos lugares onde nos sentimos melhor. Depois, achei muito curiosa a ideia de nós pensarmos por metáforas, porque nunca descrevemos a nossa vida do início ao fim, vamos saltando por memórias e vazios. Além disso, focou-se no valor dos pequenos gestos, nas coisas invisíveis que nos salvam a vida. Para finalizar, fiquei presa a uma frase que ele disse e que era mais ou menos assim: procuro escrever livros que não excluam as crianças. É importante que os livros tenham longevidade, que sejam abertos, para que nunca compreendamos todas as suas camadas aquando da primeira leitura. Nunca tinha pensado nisso, mas fez sentido, porque é muito mais estimulante quando, ao voltarmos a certas histórias, conseguimos descobrir detalhes novos.


Outro escritor que estava muito entusiasmada por ouvir era Rui Cardoso Martins. Ainda conheço pouco da sua obra, mas rendi-me a tudo o que li. Nos romances, senti que equilibra muito bem a tragédia com a comédia; nas crónicas, fiquei sem palavras ao ler casos passados em tribunal, porque há situações duras e insólitas.

Para além de conversarem sobre o seu percurso profissional tão diverso, falaram sobre medos, sobre a diferença de trabalhar sozinho e em equipa, sobre o acesso à informação e sobre morte. Tendo em conta que este último ponto é bastante recorrente nas suas histórias, a conversa concentrou-se no suicídio e pareceu-me bastante pertinente, porque falar sobre os assuntos deixa-nos mais conscientes. Talvez o autor não tenha essa responsabilidade social, essa obrigação, mas é mais interessante quando usa o seu lugar de fala para ajudar num serviço público que nos inclui a todos. A ficção pode entreter, mas também pode instruir.


DAR CORDA À PALAVRA

   

A programação da Feira do Livro do Porto também incluiu concertos e eu aproveitei essa oferta para ver dois artistas que gosto, mas que nunca tinha visto ao vivo: JP Simões e Samuel Úria.

O concerto de JP Simões ocorreu no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, o que potenciou um ambiente mais intimista, alinhado com o reportório que o artista foi versando. Com músicas em inglês e em português, partilhou pequenas memórias com graça e sarcasmo à mistura.

Samuel Úria atuou na Concha Acústica, em céu aberto, com casa bem cheia. Até S. Pedro decidiu contribuir para o momento, brindando-nos com um fim de tarde agradável. Se fosse possível, acho que deviam ter um concerto do Úria todos os dias, mesmo depois de a feira acabar, porque tem uma energia contagiante. Vou-me abster de mencionar a qualidade das canções, mas não posso deixar de destacar a narrativa que construiu naquele palco. O humor também lhe é algo natural, por isso, houve espaço para partilhas engraçadas.


A POESIA É FEITA CONTRA TODOS


«A poesia é feita contra todos, e por um só; de cada vez, um e só» é o título de um artigo de Herberto Helder e serviu de mote para o ciclo de conversas impulsionado pela atriz e dramaturga Teresa Coutinho. Para começar bem o mês de setembro, fui com a Sofia assistir à conversa que Teresa teve com Martim Sousa Tavares.

Naturalmente, falaram sobre o seu percurso enquanto maestro e compositor, sobre a sua formação que passou por Lisboa, Itália e Estados Unidos e sobre os seus projetos, incluindo a Orquestra Sem Fronteiras, com sede em Idanha-a-Nova, que procura promover a participação cultural no interior (descentralizando a oferta).

Aquilo que senti é que, para além de ser uma pessoa fascinante, não se leva nada a sério, mas tem um enorme respeito por aquilo em que se envolve - e por aqueles com quem trabalha. De tudo o que foi partilhado, apetece-me destacar a sua missão de fazer diferente, de tornar acessível algo que se apregoa ser de elite, como é o caso da música clássica, porque, se é para fazer, então vamos fazer com originalidade, com propósito, com voz própria. Num universo onde o que importa é acontecer (e não quem faz acontecer), ele não queria ser só mais um, por isso, contra todas as probabilidades, contra a ideia de estar a retroceder, regressou a Portugal para criar algo que tem impacto. Outro, no seu lugar, talvez aproveitasse a exposição que conquistava em Chicago para colocar o seu nome na história. Ele, com este gesto de coragem, de ousadia, gravou-o na história da maneira mais bonita que existe: a incendiar a chama e não a cuidar das cinzas.


RAP DÁ EXPLICAÇÕES DE MAP

Ricardo Araújo Pereira, em 2011, publicou uma crónica sobre as crónicas de Manuel António Pina, à qual atribuiu o título «Poeta dá explicações de quotidiano (por 0,90€ ao dia)». Volvidos doze anos, foi convidado a estar na Feira do Livro, para regressar à obra do poeta e para nos explicar Manuel António Pina ao detalhe.

Queria muito assistir a esta sessão, mas sabia que tal não seria possível, por causa do meu horário de trabalho. Num daqueles momentos em que parece que os astros se alinham, a organização optou por transmitir a sessão no canal portoponto e, assim, já pude ver esta homenagem e, sobretudo, compreender ainda melhor a forma como Pina observava o mundo. Com um olhar muito atento, era capaz de utilizar as associações mais improváveis: quem diria que Salvador Dali seria um meio tão lógico para explicar os gastos de instituições hospitalares. Este é apenas um exemplo breve de como brincava com as palavras e com os seus pontos de vista. Ricardo Araújo Pereira, sempre genial, mostrou isso na perfeição e, além do mais, também mostrou como poesia e humor caminham, tantas vezes, no mesmo compasso.

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«A descrença na religião e a necessidade de seguir alguém cegamente»

Avisos de Conteúdo: Violência Doméstica, Suicídio, Consumo de Drogas, Violação


A premissa, o facto de ser de uma jovem autora portuguesa e a forte recomendação de João Tordo deixaram-me intrigada com o livro de Maria Francisca Gama, mas confesso que não me marcou como esperava.


O CERTO, O ERRADO E A FÉ

A Profeta tem uma missão muito clara: eliminar todo o mal que existe no mundo. Para tal, depende daqueles que a procuram, de forma inocente, e que foram vítimas de alguém, atribuindo-lhe um poder que a eleva. Na trivialidade dos seus dias, Mariana é uma mulher solitária, desagradada com o seu emprego e que passa a vida a ler um livro misterioso. Por oposição, ganha propósito graças à legião «que jura segui-la para sempre».

«A vida não é feita para aqueles que, quando chega a sua hora, 
atrasam propositadamente o relógio com que adornam o pulso»

Achei mesmo interessante o debate que potencia, afinal, as nossas ações nunca são lineares, há várias áreas cinzentas a moldar aquilo que fazemos e o modo como reagimos. Portanto, num plano em que a vingança, camuflada num aparente sentido de justiça, é a palavra de ordem, penso que é uma obra que expõe dualidades e que nos obriga a questionar a nossa moralidade: até que ponto não aceitaríamos condições similares, se tivéssemos vivido (ou estivéssemos a viver) os mesmos problemas, a sentir as mesmas dores?

«Não me lembro do que senti, mas sei que, nessa noite, quando já nada dele lá permanecia, 
e a casa era finalmente minha, só minha, receei ter medo da solidão»

Por outro lado, precisava de compreender melhor as motivações da protagonista, de saber o que a trouxe a esta realidade, em que parte da sua encruzilhada assumiu esta vida para si. Não me custou nada acreditar em Mariana, pelo contrário, acho que é um retrato fiel de alguém egoísta e manipulador com quem nos poderíamos cruzar, mas já tive mais dificuldade em aceitar a facilidade com que bebiam as suas palavras. Em momentos de extremo sofrimento, procuramos por aquilo que nos dê mais paz, independentemente de ser questionável ou não, só que isso não deixa de ter consequências. E esse vazio distanciou-me da narrativa.

«Um bom livro dá-nos muito mais do que aquilo que demos por ele»

Creio que é um livro com potencial, quer pelas constantes reflexões que proporciona, quer pela diversidade de histórias e contextos. No entanto, precisava que algumas partes tivessem uma contextualização maior, coesa.


🎧 Música para acompanhar: Profeta da Desgraça, SAL


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«(...) convida à descoberta e à flânerie pela Avenida das Tílias»


Os Jardins do Palácio de Cristal floriram de palavras, de histórias e de sonhos, porque voltaram a acolher o meu evento favorito da cidade Invicta: a mágica Feira do Livro do Porto. Deste modo, alinhei a agenda com as datas em que ocorreu, uma vez que é um programa que não dispenso, e fui-me perder na proposta deste ano.


O PROJETO

O nome Semana do Livro talvez não seja familiar (para mim, pelo menos, não estava tão presente), mas era assim que era conhecido o Festival Literário do Porto, organizado anualmente, na Praça da Liberdade. Na presença de editores e livreiros, este evento foi conquistando visibilidade e apoio entre os portuenses.

A iniciativa passou por vários locais - Praça do Município, Praça de Mouzinho de Albuquerque, Mercado Ferreira Borges, Pavilhão Rosa Mota e na Avenida dos Aliados -, até que, em 2014, se mudou em definitivo para os Jardins do Palácio de Cristal - e, desde então, é lá que se realizam as novas edições, com uma programação que passou a incluir concertos, sessões de cinema, conversas e eventos para toda a família.

Até 2012, a Feira do Livro foi organizada pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), no entanto, um diferendo entre a Câmara Municipal do Porto e a APEL levou a que a Feira não se realizasse em 2013 e que, no ano seguinte, passasse a ser assumida pela «autarquia liderada por Rui Moreira». Esta mudança, naturalmente, teve consequências para o evento: O orçamento para a organização mudou e houve editoras que também deixaram de estar presentes. Aliás, passamos a ter representantes dos grandes grupos e não os grupos em si; temos livreiros, pequenas editoras e alfarrabistas. E tem uma identidade cultural evidente.


Sinto sempre necessidade de fazer esta nota introdutória, porque considero injustas as comparações com outras feiras organizadas pela APEL. As diferenças existem e acho mesmo interessante debate-las, só não me parece correto requerer as mesmas oportunidades, atendendo a que nos movemos com recursos distintos.

Assim, sem esquecer que é uma feira municipal, que procura estreitar «ainda mais a relação da cidade com o livro e com a leitura» e ter a porta aberta para todos, fascina-me que tenha sempre um autor homenageado.


A EDIÇÃO DE 2023

Com início a 25 de agosto e término a 10 de setembro, a personalidade homenageada foi Manuel António Pina, que, não sendo portuense de berço, «nasceu-se» no Porto, tal como referiu num texto de 2001. Portanto, a programação foi planeada em torno da sua figura, permitindo-nos conhecer o poeta e escritor, o repórter e editor, o publicista, o guionista de TV, o cinéfilo e, também, «o Pina das tertúlias, dos cafés e dos amigos».

Há «cidades que nos ficam justas, e há cidades que nos ficam grandes, e outras que nos ficam muito apertadas, como se fossem uma roupa que não nos pertencesse. O Porto está-me justo, está à minha medida». Com esta imagem no pensamento, a edição de 2023 teria de cumprir e espelhar o mesmo requisito; teria de ser algo que lhe servisse, que lhe fosse próximo e que, por consequência, nos incluísse a todos nós.


Dar Corda à Palavra foi, então, o mote que aliou a sensibilidade, o humor e a atenção do autor ao quotidiano, levando-nos pelos trilhos que foi traçando: dando palco à poesia, respeitando silêncios, observando para lá do óbvio, sabendo sempre que «Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde».


PEQUENAS CONSIDERAÇÕES

O meu vínculo à Feira do Livro é demasiado emocional para que não seja suspeita nos elogios que lhe destino, reconheço-o sem qualquer problema. Ainda assim, o único apontamento negativo que posso mencionar é mesmo a falta de variedade na praça de restauração, porque, tendo em conta o tipo de evento e o próprio espaço, beneficiariam de mais opções (e de opções onde seja mais equilibrada a relação qualidade-preço).

Este ano, fui quatro dias aos Jardins do Palácio de Cristal e, num deles, fui com a Sofia. Entre outros tópicos de conversa, expressamos o quanto ficamos impressionadas com a quantidade de pessoas que passeava pelo evento «a meio da tarde de um dia semana». Isto, para além de me deixar com o coração aconchegado, mostra bem o crescente interesse na feira e no programa que disponibiliza - pensado para várias faixas etárias.

Além disso, foi um gosto encontrar livrarias que já são paragem obrigatória e outras que eram uma novidade. Neste compromisso que também assumi com a palavra, foi maravilhoso celebrar um amor que nos é comum.


«São tantas ruas, becos e vielas
Caminhos, muitos deles, sem saída
Tantas casas, telhados e janelas
Abertas para o resto da nossa vida

Tantas horas, minutos e segundos
Tão lentos ou com pressa de fugir
Tantos sonhos distantes, tantos mundos
Tanta coisa para viver e sentir

Cheguei a este dia em que me entendo
E percebo que quase nada sei
Cá vou indo, pressentindo e vivendo
O dom de ser assim como sonhei

Não fui sempre como me sinto agora
E amanhã não serei como hoje sou
Mas antes que este dia vá embora
Vou juntá-lo ao tempo que já passou

A cada dia sinto a descoberta
De ser a soma do que já vivi
E de ver uma porta sempre aberta
Que se abriu no momento em que nasci»

Fotografia da minha autoria



«Como é tradição nas boas histórias de aventura, também esta começa numa noite de chuva»

Avisos de Conteúdo: Referência a Abandono, Morte, Violência


A Odisseia das Pequenas Coisas é composta por Onde Cantam os Grilos, O Que Dizer das Flores e, em março, viu a coleção aumentada para um terceiro volume. Uma vez que Maria Isaac escalou para o grupo de autoras cuja obra pretendo ler toda, fiz as malas e rumei para Mont-o-Ver, para descobrir as novas peripécias.


UM BANDO MUITO ESPECIAL

Quantos Ventos na Terra inicia a sua aventura, quando Cuca, «uma menina albina que acredita nos segredos de fantasmas de homens mortos», informa o bando dos canaviais sobre a existência de um tesouro. Nesta caça ao ouro, que incluirá também os adultos, há dinâmicas e segredos da terra a serem desvendados.

«Estamos todos a ocupar esta terra que não pertence a ninguém»

É sempre um privilégio regressar à vila e conhecer as suas pessoas, as suas quezílias e a quantidade de histórias que nos embalam como se fossem uma brisa harmoniosa, por vezes frenética, tantas vezes hesitante: no que é correto, no que deveria ser dito e permanece no silêncio, no que se fragmenta e, depois, se constrói.

«(...) e ser diferente era assustador para um homem que apenas desejava que nada mudasse»

Neste livro, conhecemos um bando que tem tanto de disfuncional, como de sentido de comunidade. É extraordinária a forma como a autora nos transporta para este lugar, para a sua chama sombria e nos envolve nos assuntos que estão pendentes há demasiado tempo. Aliás, um aspeto que acho maravilhoso nas suas narrativas é a evidência de traços tão portugueses, que facilmente identificamos e associamos a contextos familiares, muito nossos. Mesmo que estes protagonistas pertençam a um plano ficcional, existe muita verdade na maneira como vivem, como se posicionam e como procuram viver os seus dias. Por consequência, apesar de não ter uma imagem concreta do espaço, há uma magia que renasce ao pensar na Herdade do Lago.

«E então, Cuca percebeu que uma história de amor poderia ser 
um longo silêncio olhos nos olhos e uma lágrima de felicidade»

Não sei se Quantos Ventos na Terra é o capítulo final da Odisseia das Pequenas Coisas. Sei, sim, que ficará comigo. Faço só uma ressalva: os livros que a compõem são independentes: têm personagens transversais, mas com narrativas autónomas. Ainda assim, para acompanharem todas as referências, aconselho a lerem pela ordem em que saíram, porque sinto que faz diferença na forma como se relacionarão com as histórias.


🎧 Música para acompanhar: Infinito, Tomás Adrião & Elisa

📖 Da mesma autora, li e recomendo: Onde Cantam os Grilos e O Que Dizer das Flores


◾ DISPONIBILIDADE ◾

Wook: Livro | eBook
Bertrand: Livro | eBook

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«Espaço de lazer e recreio»


O título «Fontes Secretas chegam este domingo ao Parque das Águas» cativou a minha curiosidade, no final de julho, por isso, abri a notícia e anotei o nome - e a localização - para uma visita futura (e próxima).

A iniciativa, que é da responsabilidade da empresa municipal Águas e Energias do Porto em parceria com o M.OU.CO (espaço cultural e hoteleiro), pretende promover a descoberta do património histórico da cidade. Assim, «entre natureza, música e cultura», o evento estende-se até 17 de setembro, com entrada gratuita e com a programação a mudar todos os fins de semana. A oferta pareceu-me muito interessante, mas, numa primeira abordagem, só fui conhecer aquele que é considerado «um dos parques mais secretos» da Invicta.


O Parque das Águas localiza-se na «vertente norte da margem do Douro» e ocupa «uma parte significativa das atuais instalações operacionais da sede da Águas do Porto», na Rua Barão de Nova Sintra (perto da estação do Heroísmo). Este espaço congrega várias vertentes - histórica, cultural e de biodiversidade -, proporcionando uma experiência visual e sensorial ampla. Por tudo isto, representa uma qualidade elevada para a cidade.


Para além de um espólio que se divide entre fontes, chafarizes e arcas de água, este parque tem uma herança natural lindíssima, com «uma mancha arbórea» diversificada. Este pulmão verde, como é caracterizado, dispõe de alguns percursos que o permitem descobrir melhor e, portanto, revelou-se uma surpresa encantadora.


A Rua do Roseiral (caminho norte, onde se situam os jardins, a estufa, a «Casa de Alice» e os núcleos museológicos), a Rua das Fontes (caminho nascente-poente, onde se observam as fontes, as arcas e os chafarizes) e a Rua do Rio (caminho sul, com vistas privilegiadas sobre «o território e a paisagem»).


É neste elo de rotas que se constrói a identidade singular do local, que se visita com alguma rapidez. No entanto, o ideal será ir com tempo, para aproveitar para ler, para fotografar, para descontrair. Hei-de regressar.

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«O livro que levanta o véu»

Avisos de Conteúdo: Referência a Violência, Racismo, Sexismo


O Movimento Negro que combateu o racismo em Portugal, de 1911 a 1933, passou despercebido a grande parte da população portuguesa. Atendendo a que me incluo nesse grupo, quis saber mais sobre ele, assim que vi o anúncio do livro de Cristina Roldão, José Augusto Pereira e Pedro Varela, publicado pela Tinta da China.


A HISTÓRIA SILENCIADA

Tribuna Negra levanta o «véu sobre a história silenciada» de um coletivo que procurou «exigir direitos para as populações colonizadas», que criticou o colonialismo, que fez ver que a classe, o género e a raça são (e continuam a ser) uma fonte infundada de dualidade de critérios. Por isso, não deixa de ser impressionante como há problemas que atravessam o tempo e que não quebram, mesmo que sejam evidentes os malefícios.

«Até hoje, cada vez que um de nós mergulha neste passado, 
novos caminhos de entendimento se enunciam»

É um trabalho de pesquisa fabuloso, que destaca organizações, jornais, personalidades, a Lisboa Negra e olhares sobre a questão feminina que marcaram este movimento. Por outro lado, apesar do esforço investido, é notório que as perseguições políticas, a ascensão da ditadura e as próprias «incoerências internas» condicionaram a sua vitalidade - mesmo que os valores estivessem do lado certo, a pressão teve peso.

«As relações de poder que "silenciam o passado" da Lisboa Negra não precisam de um "maestro" para operar, pois elas atravessam diferentes momentos da produção de conhecimento (...)»

Hei-de reler esta obra, porque há partes que precisam de maturar em mim e quero fazer uma pesquisa extra, para compreender ainda melhor os factos. Além disso, o tema é fascinante e os autores envolvidos tornaram-no tão claro, que faz sentido continuar a descobri-lo. Sinto que aprendi imenso e que Tribuna Negra nos obriga a questionar o passado, para não nos esquecermos que a luta continua - com tanta ou mais urgência.


🎧 Música para acompanhar: Little Girl Blue, Nina Simone


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«A segunda casa de clientes e amigos»


Os teóricos da conspiração afirmam que Leiria não existe, o que eu não confirmo nem desminto, mas a verdade é que tem o segredo mais bem guardado da história. Se calhar, já não é tão secreto assim, porque o dinamismo tem atraído visitantes, no entanto, continua a ser um local imaculado e, claro, eu fui descobri-lo.


RENOVADA E COM AINDA MAIS AMOR

A Livraria Arquivo localiza-se na Avenida Combatentes da Grande Guerra. Enquanto livraria tradicional, «iniciou atividade em 1978» e é fruto do amor da família Vieira: primeiro, através do pai de José Ribeiro Vieira, depois, pela própria «visão e alma do empresário, que ali passava momentos infindáveis» - sozinho ou entre amigos. Por fim, o formato atual «saiu do coração e mente da livreira Alexandra Vieira», filha de José. Esta referência passou de geração em geração, sendo um marco ímpar na região e no meio das livrarias independentes.


Volvidos 45 anos, a Arquivo expandiu e renasceu com a sua abertura. Mantendo a essência de sempre, renovaram o seu espaço com o intuito de «reforçar a programação cultural» e ter maior oferta literária para clientes e amigos, como referem. Assim, é possível continuar a encontrar uma agenda recheada de concertos, tertúlias, oficinas, lançamentos de livro, entre outras componentes, mas com mais conforto e possibilidades.


A estrutura da livraria e a forma como as várias áreas se interligam e complementam são aspetos que tornam a visita mais intimista. De facto, parece mesmo que chegamos a casa, porque tem uma paz distinta, que só se encontra em lugares que sabem ver para além do negócio. Não tínhamos ilusões, a economia tem de circular e o investimento não pode trazer prejuízo, mas sentir que a preocupação não se limita aí, sentir que os leitores são parte integrante do processo, é maravilhoso. A filosofia da casa evidencia-o, por isso é que podemos desfrutar de uma experiência bastante agradável e completa, entre palavras, exposições e gastronomia.


A serenidade que a caracteriza, e que pude comprovar, só faz com que haja uma vontade maior de permanecer, de olhar para as estantes como se estivéssemos a entrar num universo alternativo, de sentar nas bancadas de madeira e deixar voar a imaginação - e o tempo. Para além deste ambiente literário, desfrutamos de menus saborosos (aconselho a Salada Arquivo) e da simpatia de uma equipa que leva poesia ao peito.


Gosto de trazer alguma obra das livrarias que visito, porque funciona como uma recordação do espaço: quando for ler aquele livro, lembrar-me-ei que veio comigo de outras paragens. Desse modo, levei uma lista comedida, até porque a Feira do Livro do Porto estava próxima, mas trouxe cinco exemplares: A Última Coisa Que Ele Queria (Joan Didion), Mundo Belo, Onde Estás (Sally Rooney), Pequena Coreografia do Adeus (Aline Bei), O Terceiro País (Karina Sainz Borgo) e Enciclopédia da Estória Universal: Recolha de Alexandria (Afonso Cruz).

Ficou prometido um regresso e mal vejo a hora para que este reencontro se concretize.

Fotografia da minha autoria



«A história de um músico em sofrimento»


O Ivo Canelas é um dos meus atores favoritos: fico sempre fascinada com a intensidade da performance, com a entrega e com a versatilidade sempre consistente. Portanto, procuro acompanhar os seus trabalhos. Em julho, o AXN Movies transmitiu um filme no qual é protagonista e é evidente que não o podia perder.


AMBIÇÕES, DESILUSÕES E MUITAS ALUCINAÇÕES

Refrigerantes e Canções de Amor é a história de Lucas, um músico em sofrimento, porque «passou ao lado de uma carreira promissora». Como se esse golpe não fosse suficiente, vê o seu melhor amigo a ascender no panorama musical e a namorada a trocá-lo por esse melhor amigo. Num contexto caótico, com fracassos que aparentam ser constantes, Lucas sente o seu mundo a desabar, mas tudo muda, quando, numa ida banal ao supermercado, encontra «uma misteriosa rapariga que vive dentro de um fato de dinossauro cor de rosa».

O argumento foi escrito por Nuno Markl e houve cenas a fazer muito mais sentido, depois de saber desse dado, porque os detalhes e as referências utilizados só podiam vir da sua imaginação. Ainda que seja um texto cómico, com cenas hilariantes e uma bela dose de insanidade, convida-nos a refletir sobre o impacto que tem, em nós, o fim de uma relação, sobre o impacto de ver a carreira a desmoronar; convida-nos a refletir sobre os efeitos do desnorte, da mágoa e de um coração ferido. Como é que é possível prosseguir, se se perde tudo?

Por outro lado, creio que também nos desperta para a importância de respeitarmos o nosso tempo e o tempo dos outros, nas várias áreas da nossa vida, porque isso é explorado na convivência entre as personagens. A personalidade infantil do protagonista contrasta com as nuances que a mulher misteriosa traz ao seu meio, por isso, Lucas começa a perceber que tem dois caminhos: ou se afunda na dor ou recupera a alegria de viver.

Só para aumentar a curiosidade e, em boa verdade, os momentos de loucura, cruzamo-nos com um Jorge Palma imaginário (brilhante, a fazer dele próprio) e com um assassino contratado. Enquanto estes submundos se desenrolam em simultâneo, o nosso «músico em sofrimento» continua a tentar descobrir quem se esconde no fato de dinossauro. E ocorre-me, agora que estou a escrever, que esta máscara é a analogia perfeita para a confiança que podemos ou não depositar nos outros; é a analogia perfeita para olharmos para além da imagem, porque Lucas não fazia ideia de quem era o dinossauro cor de rosa e isso nunca foi um problema (ou deixou de o ser), porque investiu tempo naquela relação, porque procurou conhecer a pessoa. O que me faz pensar em todos os vínculos incríveis que perdemos por nos concentrarmos em aspetos superficiais.

Talvez não seja uma obra prima da sétima arte, mas gostei bastante desta comédia romântica, porque nos explica a ciência que sustenta a carrinhologia, porque nos proporciona um belo momento de descontração e porque nos mostra que o amor pode mesmo nascer nos lugares mais improváveis, durante as situações mais mundanas. Há vida para lá do desgosto e o final é muito bonito. Se procuram um filme com muita graça e uma banda sonora original (e igualmente cómica), Refrigerantes e Canções de Amor é uma excelente escolha.


🎫 Curiosidade: na antestreia, Nuno Markl confessou que o filme é quase autobiográfico, porque escreveu-o quando se separou da primeira mulher. «Numa ida solitária ao supermercado, deu por si a pensar» em coisas que faziam em conjunto e, embalado pelas memórias, «chegou a casa e começou a escrever esta história».
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