![]() |
| Fotografia da minha autoria |
A violência doméstica «continua a ser o crime mais denunciado e o que mais mata em Portugal», portanto, é necessário um trabalho de denuncia recorrente, que permita ir revertendo essa realidade, por mais utópico que isso soe, infelizmente. Neste sentido, o papel das casas de abrigo tem sido preponderante enquanto rede de apoio e a nova aposta da RTP transporta-nos para esse cenário, dando voz a quem nem sempre a tem.
existir uma hipótese
Casa-Abrigo é inspirada em histórias reais de mulheres vítimas de violência doméstica: Vera, Madalena, Conceição e Gabriela têm percursos distintos, mas une-as o passado doloroso. A viveram juntas na mesma casa, auxiliam-se na tentativa de redescobrirem o lugar que ocupam, ao mesmo tempo que procuram «conquistar a independência e a segurança» necessárias para recomeçarem as suas vidas noutro sítio. Cada episódio é dedicada a uma das mulheres e a Joana, a psicóloga que as acompanha e gere a casa de abrigo. Contudo, é claro que em todos eles existirá uma partilha cruzada de vivências.
Longe de ser o ambiente ideal, uma vez que as protagonistas veem a sua privacidade condicionada, bem como a sua liberdade, torna-se o recurso que as permite sobreviver, que as permite ir recuperando autonomia sem sentirem que têm de olhar por cima do ombro. Ainda assim, não deixa de ser revoltante, porque esta solução parece perpetuar a noção de que a mulher — ou a pessoa vítima de violência doméstica — é que tem de se esconder, quando as consequências deveriam ser todas aplicadas ao agressor. Mais uma vez, o sistema parece proteger o criminoso, em vez de salvaguardar a vítima. A culpa tem de mudar de lado, sabemos isso, só que essa mudança ainda está longe.
Por outro lado, enquanto há estruturas que continuam a falhar, é bom sentir que existe uma hipótese, que há quem procure fazer uma diferença positiva na vida de quem já está fragilizado o suficiente para combater. Nesta casa de abrigo, encontrarão a força necessária para não baixarem os braços. E serão capazes de a encontrar porque existe quem não se cale, mesmo que as mulheres tenham sido «educadas para saber calar».
Estas mulheres não esquecem a situação dramática que viveram, muito menos tudo aquilo que foram ouvindo e interiorizando como se fosse verdade, mas entenderão que não são apenas este retrato, que carregam muito mais por dentro. E parte da beleza desta série prende-se com a amizade que Vera, Madalena, Conceição e Gabriela foram construindo, com a empatia que desenvolveram, com a sororidade que as fortaleceu. Na ausência de filtros, por vezes, houve um pouco de amor bruto nas palavras, mas estiveram ali umas para as outras — até quando o silêncio parecia imperar entre elas.
- Episódio 1: tudo tem um sítio e o que mais me impactou foi a certeza de que é preciso dar tempo e espaço para nos adaptarmos a uma nova realidade. Não é fácil deixarmos para trás o que conhecemos, mesmo quando sabemos que não nos faz bem, portanto, há um trabalho sem pressas para restituir a confiança no outro;
- Episódio 2: as primeiras impressões não passam disso mesmo e conseguem, muitas vezes, induzir-nos em erro. É preciso humildade e inteligência emocional para reconhecermos que erramos e para sermos capazes de ir abrindo a porta. Neste episódio, também se aborda o quanto os filhos sofrem neste cenário e que nem sempre lhes é dada a devida atenção — às vezes funcionam como uma arma de arremesso, mesmo quando se acredita que se estão a proteger os seus interesses e/ou as suas necessidades básicas;
- Episódio 3: nem sempre é fácil separar a vida profissional da vida pessoal e isso traz consequências a longo prazo. Por outro lado, este episódio deve ter sido um dos mais duros de assistir, para mim, pela manipulação que se faz com os filhos, pela sensação de abandono e pela falta de resposta que os protocolos parecem implicar. É impressionante como os sinais estão sempre lá, mas acabamos por não os ver, porque a carência é mais audível;
- Episódio 4: o meu episódio favorito por ser a história da Conceição. Esta mulher é o rosto da frustração perante um sistema que continua a negligenciar a vítima e a proteger o agressor, mas também é o rosto maior da luta. Tinha tudo para ser uma pessoa amargurada e, ainda assim, escolheu sempre cuidar e incentivar os outros a não ficarem calados. No final, teve um dos discursos mais transformadores a que assisti, porque nos abala por dentro. Acredito que seriamos melhores pessoas se tivéssemos uma Conceição por perto;
- Episódio 5: com um foco na dependência relacional, faz-nos refletir sobre as ideias que projetamos nos outros, principalmente em relação àquilo que deveria ser uma família. Ademais, confronta-nos com a violência no namoro, com o impacto da ofensa, reforçando que o agressor é, em muitos casos, alguém próximo;
- Episódio 6: o episódio em que mais chorei, porque acusei a injustiça de um dos desfecho da história, porque fiquei revoltada com a impunidade. Não obstante, acho que passa uma mensagem importante, uma vez que também nos mostra que, apesar do medo que não as abandona, estas mulheres conseguiram reconhecer a importância da sua autonomia e de reconquistarem a confiança e a auto-estima. Juntas, a honrar a amizade que as une, encontrarão uma forma de sobreviver.
Casa-Abrigo não retira a esperança, porém, também não romantiza o processo. Aliás, deixa claro que é possível superar, mas que esse desfecho nem sempre é transversal a todas as histórias, como assistimos no último episódio. Como diria a Conceição, o que interessa é o que deixamos às outras, por isso, que continuemos juntos nesta luta.







0 Comments