catarina e a beleza de matar fascistas, tiago rodrigues

Fotografia da minha autoria


O título é provocador e ambíguo, e ficou a ecoar no meu pensamento. Numa altura em que a democracia está a ser posta em causa, senti que tinha de incluir o livro do Tiago Rodrigues na minha lista para a Feira do Livro do Porto e que outubro seria a melhor altura para o descobrir, até porque voltamos a exercer o nosso direito/dever de voto.


 quando as nossas tradições entram em conflito com quem somos

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas leva-nos até ao Sul de Portugal, onde uma família se reúne numa casa no campo para cumprir a sua tradição anual: «uma das jovens da família vai matar o seu primeiro fascista, raptado de propósito para o efeito», só que Catarina não parece capaz de concretizar essa missão, apesar de todo o entusiasmo.

É desconcertante imaginar o cenário e a logística de um grupo cuja motivação maior é planear o homicídio de uma pessoa — sendo o conceito de pessoa irrelevante para o caso, já que a conseguiam dissociar dessa humanidade e encará-la somente pelos seus atos. E esse, para mim, é o primeiro foco do conflito, uma vez que nos confronta logo com os nossos valores e com aquilo que estaríamos dispostos a fazer para lutar pelos princípios basilares de qualquer indivíduo. Portanto, escancarando a porta para um tempo que dói, que viola a liberdade, percebemos que ficam várias perguntas no ar.

O clima de tensão é, portanto, evidente e o que mais me fascinou neste texto, que deu origem a uma peça muito aclamada pela crítica e pelo público, foi a quantidade de discussões que espoletou, não só em relação ao sistema político e social, mas também em relação às dúvidas que nos assaltam em momentos preponderantes, às escolhas e à própria dinâmica familiar. Será que a violência tem justificação? Será possível que os termos justiça e vingança sejam sinónimos? Até onde podemos ir pela igualdade?

«Palavras e gestos. Há coisas pelas quais vale a pena morrer»

Os diálogos desarmam-nos e abalam as nossas convicções, sobretudo, porque também nos deixam a pensar na urgência de não sermos espectadores passivos: «somos nós», por isso, precisamos de agir coletivamente, não assobiar para o lado que nos convém. Ademais, achei curioso irmos percebendo as diferenças desta família. Como referiu a atriz Sara Barros Leitão, é «o ritual anual de assassínio que as permite [ultrapassá-las] e unir as suas fraturas». E creio que isso é muito notório nos diálogos entre mãe e filha.

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas termina com um Posfácio de Gonçalo Frota, que me parece uma maneira fantástica de acedermos ao processo criativo, ao simbolismo de certos detalhes, à sonoplastia e, no fundo, às histórias por trás das histórias. Mas antes de lá chegar, confesso, vacilei com o discurso que encerra o texto — e a peça —, talvez por ser tão próximo da realidade que pretendem perpetuar, talvez por ser um espelho daquilo que vemos a ser construído em discursos inflamados, que, no futuro, poderão «ser artigos da Constituição». E dá medo sentir que nasceram de uma opinião e que a democracia não está a salvo porque não tivemos coragem de lhes impor limites.


 notas literárias
  • Gatilhos: Violência
  • Lido entre: 8 e 9 de outubro
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Teatro
  • Pontos fortes: A ambiguidade, a pergunta inicial, o simbolismo dos detalhes e a provocação
  • Personagem favorita: Sara
  • Banda sonora: Miss Pavlichenko, Woody Guthrie | Cantar Alentejano, José Afonso | Strange Fruit, Billie Holiday | Abandono, Amália Rodrigues | Fischia Il Vento, Coro della Bassa Romagna

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