um lobo no quarto, valentina silva ferreira

Fotografia da minha autoria


A musicalidade da escrita da Valentina Silva Ferreira cativou-me quando li Vertigens. O poder da história, juntamente com a construção da narrativa e das personagens, deixou-me com vontade de continuar a descobrir a sua voz literária tão singular.


 um silêncio que se vai quebrando

Um Lobo no Quarto enlaça-nos a uma teia entre um passado violento e um presente marcado por esses traumas e pela dualidade que as feridas que nos dilaceram deixam. Leo, a protagonista, quis morrer e preparou tudo para o seu suicídio. Saber isso tira-nos o tapete, aflige-nos, não só pela brutalidade da imagem, mas também por não ser claro o que a levou até essa decisão. Os motivos, esses, vamos descobrindo sem pressa, enquanto reconstruímos as ruínas que a dor inflige e oscilamos entre emoção e razão.

Por circunstâncias que não pretendo revelar, para não comprometer a experiência de leitura, Leo tem de regressar a casa, o que a confronta com memórias extremamente agoniantes e cruéis; memórias de algo que ninguém deveria viver. O mais curioso é que este regresso tem um impacto duplo: por um lado, num estado febril, visceral, vemos um crescente desejo de vingança a pairar e aceitamos todos os seus contornos e, por outro, vemos a protagonista «numa viagem de autodescoberta e de resgate do amor próprio». Voltar aos sítios que nos destruíram pode trazer uma certa liberdade.

A maneira como a Valentina construiu a narrativa consegue ser magnética e confusa, isto porque brinca com a linguagem e sabe como agarrar o leitor nos pontos de tensão, mas a constante alternância temporal pode dificultar o processo e, até, distanciar-nos de certas passagens. No entanto, fiquei fascinada com a capacidade de levantar tantas questões preponderantes para o ser humano — enquanto indivíduo e parte de um todo.

«Às vezes, perdemo-nos na companhia dos outros, não é? — Mais grave, perdemo-nos e a companhia dos outros passa a ser incómoda»

Houve momentos em que precisei de parar para respirar, porque há comportamentos repugnantes, que nos fazem duvidar de quem está perto e das suas intenções. E este viver em permanente dúvida, quase como se tivéssemos de olhar por cima do ombro, não é saudável, aliás, chega a sufocar. Mas, depois, parece que há sempre algo que nos resgata e que nos permite recuperar e sarar as feridas. Sem, no entanto, qualquer tipo de romantização, até porque a autora deixa claro o quanto este processo é intenso.

Um Lobo no Quarto mexe com as nossas emoções, ao mesmo tempo que nos impele a encontrarmos o nosso lugar no mundo quando ainda somos estilhaços. Durante a leitura, fui pensando sobre dinâmicas familiares e sobre a dualidade que sentimos em relação à nossa fonte de dor. E é engraçado como tendemos a esquecer-nos das coisas bonitas daqueles que amamos, mas continuamos a lembrar-nos de quem nos fez mal.


 notas literárias
  • Gatilhos: Luto, morte, assédio, linguagem explícita
  • Lido entre: 23 e 25 de setembro
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Pontos fortes: O tom visceral da narrativa e permitir que acompanhemos os pensamentos das personagens ao detalhe
  • Personagens favoritas: O avô e Vitória
  • Banda sonora: Between The Bars, Elliott Smith | Encontros e Despedidas, Milton Nascimento & Hubert Laws | Azul da Cor do Mar, Tim Maia | My Future, Billie Eilish

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