Entre Margens

Fotografias da minha autoria



«Mas ela era uma daquelas pessoas que brilham no escuro»


As primeiras referências literárias femininas que tive foram Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, graças à coleção Uma Aventura. Há muitos títulos que me faltam, mas as narrativas abriram portas para um mundo de possibilidades. É certo que a minha relação com a leitura demorou a florescer, mas tenho procurado torná-la consciente das minhas fragilidades: não no sentido de correr atrás do prejuízo, mas de diminuir distâncias.

Ler mulheres tornou-se, neste comprimento de onda, um processo de escolha intencional, propositado. Quando era questionada sobre os meus autores favoritos, a resposta surgia sempre no masculino e, embora não me aflija, porque MEC e Afonso Cruz são extraordinários, fiquei a pensar nos motivos para não ter nomes femininos debaixo da língua, com exceção de Sophia, e compreendi que andava a ler poucas mulheres.

Na música, por exemplo, nunca verifiquei esta discrepância, mas na literatura sim, na literatura esse fosso era maior. Enquanto mulher que escreve, quero rodear-me de autoras que me inspirem, que se tornem numa referência consistente, que me mostrem o mundo de perspetivas que sinto na pele - ou que possam ser próximas. Por isso, fui à procura dessa realidade, até que se tornou natural olhar para as estantes e ver uma representação mais equilibrada. Não quero deixar de ler homens, quero cruzar-me com mais vozes femininas.

Enquanto mulher que lê, também quero quebrar o estigma e contribuir para um elo de sororidade. Não acredito que o género seja sinónimo de qualidade ou de ausência dela, mas torna-se cansativo ter de combater a imagem de uma escrita leve, com temas superficiais, quando a história é assinada por uma mulher. Se isso poderá acontecer? Claro. Mas também há homens a seguir o mesmo registo e não lhes é imposto esse rótulo. E ainda bem, podíamos era evitar a dualidade de critérios. Portanto, quando decido ler uma escritora, sei que continua a ser um ato de afirmação, sei que também é um convite para verem como há tantas mulheres incríveis na literatura. Imaginem a quantidade de vozes que perdemos por alimentarmos estereótipos.

Hoje, quando me questionam sobre os meus autores de referência, tanto o MEC, como o Afonso Cruz são mencionados, mas não vêm sós: a título de exemplo, Dulce Maria Cardoso, Filipa Leal, Susana Amaro Velho, Rita da Nova, Djaimilia Pereira de Almeida surgem lado a lado, com a mesma facilidade e importância.

Foi através deste compromisso de aumentar a lista de escritoras que leio que me cruzei com Ana Pessoa. Quando vi a alusão a Mar Negro, estava longe de imaginar o impacto das suas palavras e, ainda assim, escalou rapidamente para as surpresas do meu ano. De um ponto de vista racional, sei que não sou o público-alvo das suas obras, mas acredito que a qualidade de um livro também se mede pela capacidade de nos agregar, de nos fazer sentir acolhidos, como se lhe pertencêssemos. E eu senti que pertencia às suas histórias.

No decorrer deste ano letivo, percebi que havia um excerto de Mary John num manual de 9º ano de Português e rejubilei de alegria. Acho que o grupo a quem dou explicações não percebeu o entusiasmo, mas isso não me demoveu. Já tive a idade deles e, na altura, ainda não tinha descoberto a magia da leitura, no entanto, se tivesse analisado textos com esta proximidade, que retratam dilemas sociais/emocionais iguais aos meus, teria sido mais prazeroso. Não lhes quero impor um caminho, mas, às vezes, gostava de lhes conseguir explicar a sorte que têm por poderem crescer com estas referências. Quem sabe, um dia não teremos essa conversa.

O objetivo desta publicação era focar-me nos livro que li da autora, mas precisei de uma contextualização emocional sobre ler mulheres, porque acredito que ela traz esperança, porque acredito que é mais uma voz a quebrar barreiras e a mostrar que merecemos estar neste lugar - e, sim, escrevo no plural porque ainda não desisti de lá chegar. Nomes como o da Ana Pessoa motivam-me a continuar, a fazer das palavras um lar.

Até ao momento, li quatro livros da sua autoria e é sobre eles que escrevo de seguida.


MAR NEGRO


Gatilhos: Morte, Relações Tóxicas, Cenas Explícitas

Mar Negro é o 100º livro editado pela Planeta Tangerina e volta a reunir Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho, numa novela gráfica que aborda o tema da identidade. Transportando-nos até ao Conchas, o bar da praia onde trabalham os protagonistas (e que é o cenário da cena final de Desvio, a obra anterior desta dupla), ficamos a conhecer JP, Inês e tudo aquilo que os diferencia, até que um acontecimento dramático acaba por os unir.
[para não me repetir, podem ler a opinião completa nesta publicação]


MARY JOHN


Gatilhos: Linguagem Explícita

A adolescência pode ser um lugar turvo, que nos deixa à deriva, sobretudo, quando procuramos descobrir quem somos e nos sentimos a gerir um turbilhão de sentimentos. Conforme vamos crescendo, aprendemos a relativizar algumas situações, mas, nesta faixa etária, há muitas emoções à flor da pele, tudo é mais intenso e isso também se percebe no livro de Ana Pessoa - cuja obra quero ler toda.

Mary John é uma longa carta dirigida a Júlio Pirata, na qual Maria João, a protagonista, faz um balanço de tudo o que viveram juntos. O relato é melancólico, é engraçado, é comovente, por esse motivo, transforma-se numa viagem de reencontro, de despedida, de mudança e, inclusive, de catarse. Acho que a Andreia adolescente teria beneficiado de um livro assim, porque é um retrato verosímil do desnorte, da dificuldade que é construirmos a nossa identidade, do impacto que certas relações/pessoas têm na nossa vida e do quanto parecem pairar em todos os nossos passos.

Numa travessia entre o passado e o presente, é evidente que são mais as ocasiões em que nos debatemos entre aquilo que desejávamos que acontecesse e a necessidade de esquecer alguém. É um processo complexo, com várias recaídas e sombras, portanto, sentimos que «o mundo é muito grande e muito pequeno. A vida é muito longa e muito curta». Neste limbo, talvez nem tudo seja para perceber, mas arranjaremos forma de unir as pontas soltas.

Mesmo que já não nos encontremos na faixa etária da personagem principal, é fácil recuarmos no tempo e sentirmo-nos representados, porque, de uma maneira ou de outra, todos nós já lidamos com o desgosto, com a saudade, com os estilhaços de um coração ferido. Maria João dá-lhes voz e leva-nos nas suas palavras.


AQUI É UM BOM LUGAR


A escrita de diários também acompanhou a minha adolescência, porque sempre adorei escrever e, sobretudo, porque sentia que o caderno era um espaço seguro, onde podia depositar pensamentos e emoções que não me apetecia partilhar com mais ninguém. Neste formato, não havia filtros e nem tudo precisava de ser entendido, isso ficava para mais tarde.

Neste livro, temos acesso ao diário de Teresa Tristeza, com observações sobre vários temas, com diferentes formas de escrita, de desenho, de narração, num processo evolutivo, que demonstra bem como a nossa personalidade se molda consoante ficamos mais conscientes de quem somos e do que nos rodeia - ou como há retrocessos, quando enfrentamos pequenas crises de identidade.

Li Aqui é Um Bom Lugar num sopro, contudo, acho que há muitos pontos com os quais nos conseguimos relacionar. Já não tenho dezassete anos, mas tentei pensar na pessoa que era com essa idade e era provável que manifestasse alguns dos dilemas aqui representados - essa transversalidade não só é comovente, como também demonstra que andamos todos a derrubar os mesmos muros. Com atenção ao detalhe, ao mundo que a rodeia, à capacidade de se espantar, é um retrato muito humano, cheio de camadas, referências literárias e familiares. No meio de tantas dúvidas e descobertas, é mesmo um bom lugar.


O CADERNO VERMELHO DA RAPARIGA KARATECA


Gatilhos: A Adolescência

A escrita, para alguns, é um aborrecimento. Aliás, os escritores, no mínimo, devem ser «as pessoas mais secantes do mundo». Mas, depois, há quem encontre no meio do aborrecimento um certo gosto pela arte de escrever. E foi esta espécie de epifania, ainda que subtil, que se manifestou na protagonista deste livro.

A N é karateca, está na transição dos 14 para os 15 anos e tem muita graça. Eu não sou karateca e arrisco-me a dizer que, com a idade dela, não encadeava os meus pensamentos com tanta destreza - ou com tantas ramificações. A imaginação sempre teve espaço para se desenvolver, mas, se calhar, não me permiti validar pensamentos que, à partida, não faziam assim tanto sentido. A N fê-lo e ainda bem: porque pode ajudar a que tantos jovens se sintam representados e, melhor, compreendidos. Por outro lado, há algo que partilhamos: o fascínio por cadernos, pela página em branco, pelos mundos novos e pela ideia «de qualquer coisa por ser».

Estou cada vez mais rendida à autora, porque consegue criar cenários transversais, mesmo que a nossa faixa etária já não seja a mesma das personagens. Além disso, nestas páginas, temos um universo inteiro para descobrir. Temos muitas histórias, imaginação e uma viagem de autodescoberta. Temos a banalidade dos dias e sentimentos que arrebatam. Temos uma certa dose de rebeldia, de insegurança, de «páginas movediças» e alguns sonhos. Para além de tudo isto, encantou-me a lealdade de N, que resgatou aquele que se tornou o seu objeto favorito. Este livro tem um tom autobiográfico, por isso, a leitura acabou por ser ainda mais credível.

A vida pode ser feita de manifestações caóticas, de vivências que nos deixam o coração acelerado, mas também tem muitos apontamentos bonitos nas coisas mais simples. Teria gostado, na minha adolescência, de ter tido um caderno vermelho como este, que não é um diário, mas que podia ser tudo aquilo que eu quisesse.

Fotografia da minha autoria



«Ler é uma paixão que me acompanha»


É sempre um pouco injusto escrever sobre determinados subgéneros literários, como é o caso dos contos, das crónicas e, até, do texto teatral. Penso já ter partilhado este pensamento antes, porque se revestem de um toque mais pessoal, principalmente as crónicas, ou restrito, dificultando a construção do nosso parecer.

Enquanto leitora, não me interessa analisar a narrativa de um ponto de vista técnico, porque não tenho conhecimento académico para tal, mas importa-me refletir sobre os temas presentes, sobre as emoções que a narrativa desperta, sobre os vínculos que se criam (ou não). E gosto muito de escrever sobre isso. Quando o faço sobre livros de contos ou de crónicas - teatro não é usual -, sinto sempre que estou a um passo de revelar em demasia, portanto, policio-me nesse sentido, para não estragar a experiência de leitura a alguém. Por consequência, tendo a desenvolver menos a minha opinião, preferindo compilá-las numa publicação única.

Como sinto que parece caber o mundo inteiro nestes livros, fez-me todo o sentido agrupá-los, mesmo tendo um pouco mais a dizer sobre cada um deles. Além disso, curiosamente, há pontos que acabam por se cruzar.


CONTOS DE CÃES E MAUS LOBOS, VALTER HUGO MÃE


Gatilhos: Morte, Luto

Os detalhes guardam mundos infinitos, tecidos a sonhos, a imaginação e a corações fragmentados, porque tudo isso faz parte. No seu jeito particular de contar histórias, Valter Hugo Mãe desarma-nos pela sua prosa poética e por enaltecer cada um desses detalhes - dos mais transformadores aos mais banais.

Nestes contos, acompanhados por ilustrações de diferentes artistas, são várias as vidas que nos abraçam e que nos levam a refletir sobre uma série de questões. De olhar atento, o autor parece contar a nossa história e ler-nos a alma, mesmo quando se distancia do nosso quotidiano. Mia Couto, no prefácio, referiu que há algo na escrita de VHM que «nos desconcerta e fragiliza» e é bem verdade, até porque nos convida a revisitar o passado, a escutar silêncios, a ultrapassar fronteiras, para questionarmos as «nossas certas mais fundas».

É sempre maravilhoso regressar às suas palavras.


AUTOBIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA, DULCE MARIA CARDOSO


Gatilhos: Referência a Morte, Aborto e Pandemia

Este livro compila as crónicas que saíram na Visão, cuja intimidade e transparência são transversais a cada uma delas - e, em boa verdade, a cada um de nós, visto que reflete sobre assuntos que nos são próximos.

Assim, nestas crónicas, faz-nos transitar entre vários cenários e sensações, como se estivéssemos sentados ao seu lado, numa conversa que se desenrola entre amigos. Comovi-me, particularmente, com os textos que escreveu sobre a mãe, uma vez que incorporam diferentes declarações. De uma maneira ou de outra, há um traço de saudade que se repete e é impossível não nos revermos. Depois, surge tudo com equilíbrio, nem demasiado cru, nem demasiado lamechas: há emoções nas doses certas, tornando a partilha mais honesta e sem filtros. Conhecer as suas histórias, o seu percurso, as suas perdas e os seus medos reforça um vínculo de empatia. É sempre transformador lê-la, porque Dulce Maria Cardoso é uma contadora de histórias nata.


QUE POUCA VERGONHA, GUILHERME FONSECA


Gatilhos: Pessoa que se acha com imensa graça, mas que deveria ter vergonha na cara

Este livro deu-me muitas coisas: Em primeiro lugar, deu-me a ofensa, porque ainda escrevo à mão e senti-me atacada; em segundo lugar, deu-me o conforto da representatividade, porque pessoas que não param de dar toques no nosso braço durante as conversas também me irritam profundamente; em terceiro, deu-me um dos textos mais incríveis de sempre: Eu que não sei ser tio. Eu nunca o serei, visto que sou filha única. O mais próximo que tenho deste cenário é o facto de ser madrinha. Quando recebi o convite, acho que pensei o mesmo: eu não sei ser madrinha. Ao fim de 16 anos, talvez continue sem saber. Mas uma coisa é certa: continuo aqui, a dar o meu melhor, para que o meu afilhado saiba que poderá contar comigo para tudo.

Que Pouca Vergonha centra-se, então, nas pequenas e insignificantes questões que movem a sociedade. É por essa razão que divaga sobre pessoas que dobram sacos em triângulos, pessoas que estão viciadas em true crime, pessoas que tomam banho de imersão, entre tantas outras. No fundo, visa-nos a todos e a ele na mesma medida, porque também se foca na «sua própria estupidez». Já tinha adorado Deve Ser, Deve, mas parece-me que conseguiu brilhar ainda mais nesta obra. O Guilherme tem imensa graça e acho que isso está à vista de todos, mas deixem-me só evidenciar outro aspeto: a capacidade que tem para equilibrar o humor e a comoção. Não força a piada, nem procura emocionar-nos, mas isso acaba por ser natural naquilo que escreve. Além disso, as observações que desenvolve são exímias e um exercício criativo muito interessante.

Eu sei, é uma pouca vergonha estar a elogiá-lo desta maneira, ainda assim, não podia fugir desta sina.


ESCRÍTICA POP, MIGUEL ESTEVES CARDOSO


Gatilhos: O risco de criticar artistas que adoramos

Escrítica Pop compila duas obras numa só: Escrítica Pop, que dá nome ao livro, e O Ovo e o Novo, «um texto pouco conhecido», mas que é «um dos melhores guias musicais», talvez por não ter a pretensão de analisar esta arte de um ponto de vista técnico; talvez por ter sido escrito pelo MEC, que tem visões fascinantes sobre assuntos plurais, mesmo quando estamos em desacordo - aprecio essa dinâmica: alguém que, através da escrita, me transporta para as suas observações sobre o mundo e me mostra possibilidades distintas.

Nas páginas deste livro, avancei pela discografia do Rock (entre 1970 e 1980), vi a sua fusão com outros géneros, percebi «as limitações não reconhecidas e as criatividades interrompidas»; assisti ao declínio de bandas de renome, a exemplos de vaidade, à luta entre a qualidade e a quantidade e à incapacidade manifesta de lutar contra o conforto, que levou ao desaparecimento de tantas bandas, porque se limitaram a repetir fórmulas. Por outro lado, temos acesso a crónicas dedicadas à carreira de músicos/grupos específicos. E deixem-me só referir que a segunda sobre Amália Rodrigues é um pedaço de amor. Porque Miguel Esteves Cardoso tem um sentido de humor acutilante, irónico, mas também consegue puxar ao sentimento.

O autor teve a oportunidade de rever o que escreveu há quarenta anos e acho interessante que também seja percetível a admiração por haver músicas dos anos 70 e 80 que continua a ouvir, porque sinto que esta noção é transversal e agregadora: todos nós temos exemplos que permanecem inabaláveis nas nossas playlists. E partilhar isto não deixa de ser um ato generoso, um ato de confiança para com o outro. É um livro para voltar.


OS VIVOS, O MORTO E O PEIXE FRITO, ONDJAKI


Assim que vi a adaptação cinematográfica desta obra, para o projeto Contado Por Mulheres, transmitido pela RTP, fiquei cheia de vontade de ler o texto e não desiludiu. É uma narrativa teatral com muito humor, que tanto dá voz aos «fatores da convivialidade africana em território europeu», como nos permite refletir sobre arrogância, o quanto o futebol move multidões, costumes, memórias, burocracia e saudades.

É um exercício criativo de ficção, mas que cativa pelos elos que se criam entre desconhecidos. Acho que existe uma pureza nesta imagem que, apesar de todas peripécias altamente surreais, nos comove.


AQUI DENTRO FAZ MUITO BARULHO, BRUNO NOGUEIRA


Gatilhos: Referência a Abusos Sexuais

As palavras pesam, mas também têm o dom de nos deixarem mais leves. São impulso e são conforto. São uma forma de tornar os nossos pensamentos mais justos, mais lúcidos, mas também nos comovem. E é esta viagem dicotómica, tão bem entrelaçada, que encontramos nas crónicas do Bruno Nogueira.

Fui sem bagagem, porque não as tinha lido na Sábado, e acho que foi melhor assim, visto que consegui desfrutar da novidade, do espanto que é lermos alguém que admiramos e que, em 2/3 páginas, nos desperta tantas emoções e pontos de reflexão. Preparar este livro fê-lo perceber que as coisas dentro da sua cabeça fazem muito barulho; a mim, ajudou-me a compreender que também partilho desse barulho e que, acima de tudo, nem tudo é ruído: é só uma maneira de nos aproximarmos daquilo que está perto e nos inquieta.

Acho mesmo fascinante a forma como observa o mundo e como não nos apresenta essa visão polida, apenas com cuidado nas palavras. Ri-me muito e revoltei-me na mesma medida. Também me comovi, porque há um traço vulnerável e nostálgico que é transversal, ainda que as nossas vivências sejam distintas. Que bom que é ter Aqui Dentro Faz Muito Barulho na estante e saber que o poderei revisitar as vezes que quiser.

Fotografia da minha autoria



«Uma escritora parada na vida»

Gatilhos: Fim de Relacionamento, Morte, Luto


Os motivos que nos levam a ler certos livros podem ser muito diversos. O da Lily King, por exemplo, entrou no meu radar por causa da tradução, que foi feita pela Lénia Rufino. De outra forma, talvez não me suscitasse interesse ou demorasse a chegar à sua história. Assim, entrou na lista de prioridades e ainda bem que o li.


ESCREVER PARA QUE TUDO FIQUE MELHOR

Escritores & Amores é sobre Casey Peabody, uma mulher de 31 anos, empregada de mesa num restaurante, mas cuja missão é ser escritora. Há seis anos que está a trabalhar no seu romance, mas parece não conseguir desbloquear. Como se essa situação não fosse complexa por si só, viu-se obrigada a gerir outras circunstâncias: a morte da mãe, o inconstante processo de luto, os comportamentos impróprios do pai e um vertiginoso triângulo amoroso. Embora a façam sentir que tem pouco a dizer, acredito que a protagonista tem uma visão importante para partilhar - ainda que viesse só a escrever para que as coisas não piorassem.

«- É como se houvesse uma barreira entre mim e o mundo»

O início, admito, foi complicado de transpor, porque havia muita informação para assimilar. Não necessariamente ao nível de acontecimentos, mas mais numa perspetiva emocional. Casey sente-se perdida, angustiada, com vários problemas para solucionar e nós sentimos tudo isso. Aliás, houve momentos em que também eu fiquei atormentada, quase em apneia, como se estivesse naquele lugar. Portanto, ultrapassado o primeiro capítulo, aproximei-me muito mais da narrativa. Não foi amor à primeira vista, mas, tal como noutras situações, só precisei de não desistir, para descobrir as camadas maravilhosas que não estão à superfície.

«Não nos apercebemos do esforço que fizemos para encobrir as coisas até tentarmos desenterrá-las»

Um dos pontos fortes desta obra, para mim, é o quanto se torna relacionável. Eu não passei pelos mesmos dramas familiares da protagonista, não sei o que é estar há tanto tempo a escrever um romance, muito menos conheço o sufoco de ter tantas dívidas acumuladas, por causa de empréstimos académicos, mas consigo rever-me nas inseguranças, na rejeição, no percurso de escrita dúbio, na sensação de vermos o tempo a passar e de estagnarmos; consigo rever-me na paixão pelas palavras, nas hesitações e naquela linha ténue que separa a nossa independência da perceção de estarmos a ficar para trás. Será que o sonho compensa?


ESTABILIDADE VS DAR ESPAÇO AOS SENTIMENTOS

Reconheço, também, que a parte dos relacionamentos amorosos não foi a minha favorita, talvez por ter sentido falta de uma contextualização maior; talvez por esperar que algumas cenas apresentassem dilemas mais profundos. Não obstante, gostei das dicotomias: de um lado, Casey tinha um homem que lhe traria estabilidade, conforto e, quem sabe, uma noção de família; do outro, tinha um homem que, mesmo não lhe prometendo isso, lhe traria emoção e aquele frio na barriga que nos faz sentir vivos, validados. Sendo homens com idades distintas, é interessante perceber o que procuram e o que têm para lhe oferecer, tendo a conta a experiência de cada um. Para uma mulher de 31 anos, que continua a sofrer com o estigma e uma pressão social tão expressiva, nem sempre é fácil decidir qual o caminho a seguir: jogamos pelo seguro ou arriscamos?

«Talvez não seja demasiado cedo. Se calhar o meu lugar é aqui»

Escritores & Amores perde um pouco de força pelos cortes abruptos em temas centrais, mas brilha pela construção das personagens, pela credibilidade e por ter uma escrita que nos agrega, que dá voz a dúvidas que nos tocam a todos - mesmo a quem não pretende publicar um livro. Esta história pode não ter revolucionado a minha vida, mas sei que não a esquecerei. Sobretudo, sei que, lá no fundo, dei a mão a Casey, porque também continuo à procura do meu lugar no mundo. E, se escrever, tudo parecerá melhor.


🎧 Música para acompanhar: The River, David Byrne


DISPONIBILIDADE: Wook | Bertrand

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«Aprendi a gostar de poesia lendo o seu silêncio»


Escrever é a minha forma favorita de comunicar. Comecei pela poesia, mas depois distanciei-me do género, porque acreditava que era demasiado erudito para mim - penso já ter partilhado este pensamento convosco. Há um tom que parece torná-la inacessível e fui-me convencendo que nunca faria parte desse grupo. Pouco a pouco, reencontrei-me e comecei a perceber que, se calhar, também a posso embalar nas minhas palavras.

Há já algum tempo que estava com vontade de arriscar, de sair da minha zona de conforto e de apostar num formato que não é tão intuitivo para mim. Assim, todas as sextas-feiras, quero sentar-me e gravar episódios curtinhos a ler alguns poemas que já escrevi e que partilhei por aqui, no Entre Margens. Mas também quero ter o impulso de aproveitar estes momentos para tornar a escrita poética mais regular, partilhando versos novos.

Por outro lado, para tornar a aventura ainda mais desafiante, convido-vos a participarem neste exercício criativo. Como? Enviando-me palavras para asgavetasdaminhacasaencantada@hotmail.com e eu construirei poemas que as incluirão. Se preferirem, também podem enviar uma mensagem para o meu Instagram.

Deixo-vos com esta pequena nota introdutória, com os aspetos-chave desta nova aventura, para não me tornar repetitiva. Isto porque, no meu perfil do substack, encontrarão uma secção dedicada ao podcast e já podem ouvir o primeiro episódio, no qual faço uma explicação mais detalhada do processo e da sua concretização.

Se acompanharem, estejam à vontade para me enviarem reparos. Este mundo ainda é uma novidade para mim, por isso, todas as dicas são ótimas para melhorar. Estou receosa, confesso, mas muito entusiasmada.


Sejam bem-vindos ao entre o verso e o silêncio.

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«As vidas de um grupo de pessoas que vive debaixo do mau tempo»

Gatilhos: Morte, Suicídio


O primeiro livro que li do Afonso Cruz foi A Boneca de Kokoschka. Embora não referencie este título quando me perguntam qual a melhor obra para o descobrir, sinto que foi um ótimo ponto de partida, porque houve algo no seu estilo que me desarmou. A partir desse momento, assumi o compromisso de ler tudo da sua autoria.


ABAIXO DA LINHA MÍNIMA DA DIGNIDADE

O Cultivo de Flores de Plástico é um livro de 2013, em edição limitada e numerada, cujas receitas revertiam para a associação CASA. Descobri a sua existência demasiado tarde, portanto, andava há anos para o encontrar. Quando já começava a perder a esperança, encontrei-o na Trade Stories e, agora que o li, valeu completamente a espera. Felizmente, foi reeditado pela Companhia das Letras e poderá chegar a mais leitores.

«Há muitas portas no mundo, mas prefiro olhar-lhes para dentro das janelas»

O texto é belíssimo, com diálogos simples, mas sem serem simplistas, abrindo portas (ou janelas) para inúmeras camadas. Através destas conversas, percebemos que há pessoas que se tornam invisíveis, como se existissem cidadãos de primeira ou de segunda classe. Além disso, percebemos o quanto é ténue a linha que separa uma vida confortável de uma vida de miséria, a facilidade com que a nossa realidade muda, deixando-nos sem chão. No fundo, este livro mostra-nos que basta um passo em falso para transpormos essa fronteira.

«(...) somos sozinhos como os desertos, mas então. Cheios de céu aberto,
pessoas cheias de ar livre. É assim. Há muitas portas no mundo»

Tecendo uma crítica ao consumismo, ao individualismo, à desigualdade, ao lado artificial da nossa existência e, inclusive, aos estereótipos sociais, acompanhamos quatro personagens tão distintas entre si, mas que partilham o facto de serem sem-abrigo. E é interessante ver como cada uma delas luta pela sua sobrevivência.

«É uma linha muito fina, não é?»

O Cultivo de Flores de Plástico é um exercício de empatia, para aprendermos a olhar o outro sem indiferença.


🎧 Música para acompanhar: Lili e os Caracóis, M-Pex

📖 Do mesmo autor, li e recomendo: Todos os livros que li até agora, mas com particular destaque para Flores, Para Onde Vão os Guarda-Chuvas e Os Livros que Devoraram o Meu Pai


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- texto originalmente escrito para o nº17 da newsletter e que me fez sentido trazer para o Entre Margens -


A Desvaneio (sobre a qual já vos falei nesta publicação) foi lançada, oficialmente, em 2020.

Esta aplicação literária permite, de uma forma resumida, organizar as leituras por marcadores, estabelecer metas diárias, acompanhar a nossa evolução e, até, vender/comprar/trocar livros. Além disso, podemos citar, classificar e escrever opiniões sobre as obras lidas. Mas há mais mundo para explorar. O design é um misto de Goodreads e um perfil de Instagram. É uma aplicação portuguesa. E é uma plataforma que alimenta o nosso lado livrólico, condensando num só lugar aquilo que nos move e todas as histórias que queremos preservar.

A minha jornada nestas andanças começou no Goodreads, mas rendi-me rapidamente à Desvaneio. Hoje, alio-me a ambas, porque sinto que são uma excelente ferramenta para acompanhar o meu percurso literário. E é por as utilizar com regularidade que me ocorreu o Era uma vez deste mês: porque estamos a entrar no período dos balanços e da análise de metas literárias, para ser mais específica. Nesta altura, parece que o mundo se divide em dois pólos: de um lado, os que não atingiram os números idealizados; do outro, os que os ultrapassaram. De repente, anulam-se os meios termos. E, seja qual for o pólo em que nos coloquemos, haverá julgamentos, internos e externos, todos eles alimentados pelo incontrolável culto dos números.

Focamo-nos muito nas metas, como se fossem uma medida exclusiva de sucesso, mas esquecemo-nos da quantidade de fatores paralelos que as condicionam. Numa sociedade cada vez mais digital, compreendo que seja fácil cairmos na armadilha, porque olhamos para o total e não vemos o plano de fundo, não vemos o que foi sendo construído para chegar àquele patamar; olhamos para o final e ignoramos os passos dados até esse fim. Acima de tudo, olhamos para aquele número (seja ele qual for) e desejamos ter um igual, sem nos ocorrer que a nossa realidade é diferente. Isto pode aplicar-se a tudo, mas pretendo manter-me no ambiente literário.

Há uns dias, no discord do Livra-te, alguém partilhou o seu desafio de leitura, o que desencadeou alguma conversa, porque a meta tinha ultrapassado os 200 livros. Para ser mais precisa, ia nos 227. 227 livros em 11 meses corresponde a uma média de 20 exemplares por mês (se as contas estiverem mal, retenham que sou de Humanidades), o que é surpreendente e impressionante: imaginem apanhar boleia de 227 histórias! Perante as reações, que acredito que tenham sido de curiosidade genuína naquele contexto, fiquei a pensar que nós somos mesmo de extremos: ou apontamos o dedo por alguém ler pouco ou apontamos o dedo por ler muito.

Mas o que é isto de ler muito ou pouco? Há uma quantidade instituída? Quem é que a definiu? Porque é que se eu ler cinco livros num ano é pouco, mas se alguém ler 100 já é muito? Sim, eu sei que 100 é maior do que cinco (nunca fui um génio a matemática, mas ainda sei o básico), no entanto, assumir isto implica anular todas as outras incógnitas da equação. Por mais alinhada que eu esteja com a leitura, não sou só os livros que tenho por ler: tenho um emprego, tenho família e amigos com quem conviver, tenho outros interesses para explorar, tenho picos de cansaço que anulam a minha concentração, episódios de séries para ver e uma série de outros parâmetros que me orientam, portanto, o meu tempo é gerido consoante cada um deles. E esta é uma realidade transversal, porque todos nós temos rotinas que nos deixam com mais ou menos predisposição.

O ritmo de leitura, andar ou não de transportes públicos, aproveitar horas de almoço, fazer parte de clubes de leitura, manter leituras conjuntas, por exemplo, podem ser fatores que influenciam a quantidade de livros lidos num ano. Mas acho importante termos presente que cada um lê o que pode/quer/consegue, sem que isso deva ser motivo de crítica. Porque chega a um ponto em que o escrutínio é tanto, que parece que temos de pedir desculpa por estarmos a ler dez livros ou lermos cinquenta e acho que esse nunca deverá ser o propósito.

Independentemente do que acontecer até ao final de 2023, este será o ano em que terei mais leituras, de acordo com os registos que faço desde 2015. E isso foi possível por três motivos: 1) concentrei-me mesmo na lista de livros por ler; 2) procurei diminuir a distância entre o momento em que comprei os livros e os li; 3) passei a aproveitar as minhas pausas de almoço para ler, em vez de estar nas redes sociais (ou não ocupar o tempo todo assim). Esta combinação traduziu-se num aumento numérico considerável, mas também podia não ter acontecido. Foi uma escolha que me fez sentido, mas podia não ter surgido e estava tudo bem na mesma.

Estas metas, bem como a utilização de aplicações literárias, devem ser um estímulo positivo e não uma fonte de pressão, porque, no fundo, só representam estatísticas, não são uma régua que mede o leitor que podemos ser. Muito menos ditam qualidade. Depois, reparem, é tudo uma questão de perspetiva: se uma pessoa ler um livro por mês e, no ano seguinte, triplicar essa quantidade, vamos considerar que leu muito, quando comparamos os seus números; se uma pessoa ler dez livros por mês e, no ano seguinte, ler oito, não deixa de ler muito, mas vai parecer que não, porque diminuiu a quantidade. Alguma delas tem de se sentir culpada? Não. Alguma delas tem de se sentir superior? Também não. Isto não é uma competição. Ou não deveria ser.

O culto do número talvez continue presente, mas podemos contornar a questão. É excelente estabelecermos objetivos, porque nos ajudam a assumir um compromisso - e querer ler mais, atenção, é bastante válido. Precisamos é de garantir que criamos metas adequadas à nossa realidade, metas que não nos deixem ansiosos. E, de preferência, temos de encontrar estratégias para não nos compararmos (sempre) aos outros.

Daqui a uns anos, não nos vamos lembrar se lemos cinco livros em 2023 ou se lemos 200. Daqui a uns anos, vamo-nos lembrar da história que nos comoveu, da escrita que nos deixou tentados a explorar mais obras de determinado autor, até da personagem irritante que nos fez revirar os olhos. Portanto, acima de tudo, que seja muito maior a vontade de conversar sobre os livros que se colaram à nossa pele e menos sobre números.

Fotografia da minha autoria



«Chegou o momento de deixar para trás o tédio»

Gatilhos: Referência a Pensamentos Suicidas


O segundo em que me cruzei com o nome Cláudia Andrade não está presente na minha memória, mas sei que foi uma sequência de partilhas sobre este livro que me fez incluí-la na lista de autores a ler no Alma Lusitana.


UM ROSTO QUE MUDA TUDO Caronte, na mitologia grega, é o barqueiro que carrega os mortos, que carrega as almas desprovidas de qualquer sonho e sentido. Nesta história, o Caronte espera por Artur, um homem reformado, completamente desapaixonado, que decide «colocar um ponto final na sua vida». No entanto, existe um rosto numa fotografia antiga que altera tudo, levando o protagonista a adiar o seu plano suicida por um pouco mais de tempo.

«Perguntava a si mesmo se também ela albergava esse secreto desejo de plenitude»

Confesso que me senti bastante dividida durante a leitura: por um lado, gostei da escrita metafórica, labiríntica, que transita entre «o sombrio e o cómico», mas, por outro, não me relacionei tanto com o enredo. Achei interessante a quase-obsessão de Artur e consigo entendê-la, afinal, todos nós precisamos de um propósito, de algo que «entretenha a existência». Ainda assim, faltou-me qualquer coisa, talvez um pouco mais de simplicidade, talvez um pouco mais de proximidade. A partir de certo ponto, ficou tudo demasiado ambíguo.

«Bem feitas as contas, talvez a única coisa realmente nossa sejam as mágoas»

O tema da morte e do suicídio, mais concretamente, são o eixo que permite à autora pôr em causa o sentido objetivo da vida, como partilhou numa entrevista. E isso torna-se evidente em Caronte à Espera, onde também explora a fragilidade do corpo, a velhice, a solidão, os desentendimentos amorosos, o medo, os danos causados pelo tempo e o peso do passado. Através desta personagem tão particular e das suas interações, embarcamos numa viagem interior, de conhecimento pessoal, que nos deixa a pensar se há algum fundo de verdade ou se parte das suas vivências são um produto onírico, para se libertar dos seus fantasmas.


🎧 Música para acompanhar: À Espera do Fim, Jorge Palma


◾ DISPONIBILIDADE ◾

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Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥

Fotografia da minha autoria



«If you read, you will bloom»


O Natal aproxima-se e a minha lista de desejos mantém um item transversal, independente do ano em que estivermos e da idade que eu tenha: os livros. E isso, tenho noção, surpreende um total de zero pessoas.

Adoro receber - e oferecer - histórias. Não só porque ler me enche as medidas e faz parte da minha rotina diária, mas também porque é uma maneira de sair da minha zona de conforto e, quem sabe, de descobrir novos escritores e registos. Portanto, se me quiserem surpreender, não precisam de pensar muito.

Desta vez, decidi só incluir títulos de autores estrangeiros, porque compro mais escritores portugueses. Assim, consigo garantir uma maior diversidade na TBR e equilibrar as vozes literárias que vou descobrindo.


LISTA DE DESEJOS LIVRÓLICOS

📖 A Rapariga nas Garras da Água, Karin Smirnoff
«Neste thriller de tirar o fôlego, o Norte gelado da Suécia será o palco onde Lisbeth, Mikael e a indomável Svala irão enfrentar uma rede de corrupção ligada à exploração de energias renováveis e combater a violência contra as mulheres, num ambiente político em que a extrema-direita está numa ascensão imparável».

📖 Homem-Objeto e Outras Coisas Sobre Ser Mulher, Tati Bernardi
«Dos intestinos ao tesão, das grávidas «abençoadas » às nudes neuróticas, do machismo aos machos, da plenitude inalcançável da granola caseira à alegria de dizer «eu não quero!», mais a terapia, sempre a terapia e nunca #gratidão, Tati Bernardi escalpeliza a experiência de ser mulher (ou de simplesmente existir quotidianamente) no mundo contemporâneo. No seu segundo livro de crónicas, que na edição portuguesa inclui alguns textos mais recentes, assistimos novamente à inteligência frenética e ao humor de fazer rir alto que a tornaram uma cronista tão amada no Brasil e mais além».

📖 Da Próxima Vez, o Fogo, James Baldwin
«Este livro galvanizou toda uma nação quando foi publicado pela primeira vez, em 1963. Foi um dos primeiros a dar voz à luta do Movimento dos Direitos Civis. Composto por dois textos intensamente pessoais — «A minha masmorra estremeceu», uma carta ao seu sobrinho, escrita no centenário da abolição da escravatura nos Estados Unidos, e «Aos pés da cruz», ensaio sobre a relação entre raça e religião —, Da Próxima Vez, o Fogo revela-nos a vida singular de James Baldwin, politicamente comprometida e interiormente conturbada».

📖 A Casa Holandesa, Ann Patchett
«Em 1946, após a Segunda Guerra Mundial, Cyril Conroy, um homem pobre, enriquece repentinamente com um investimento fortuito. A primeira compra que faz é uma opulenta propriedade nos subúrbios de Filadélfia, antes pertencente a uma família neerlandesa, entretanto arruinada. Conroy muda-se, com a mulher, Elna, e a filha, a confiante e protetora Maeve, para a nova casa, na qual já nascerá Danny, o narrador desta história».

📖 Criaturas Extremamente Inteligentes, Shelby Van Pelt
«Depois da morte do marido, Tova Sullivan começa a trabalhar à noite nas limpezas do Aquário de Sowell Bay. Manter-se ocupada já é há muito tempo o seu segredo para lidar com a dor, desde que o seu filho de 18 anos, Erik, desapareceu misteriosamente a bordo de um barco há mais de trinta anos».

📖 Véspera, Carla Madeira
«Vedina, uma mulher traumatizada por um casamento destroçado, decide, num momento de descontrolo, abandonar o filho, largá-lo. Assim que o faz, contudo, arrepende-se de pronto, regressando ao local onde deixara o pequeno. Mas já nada encontra no local, nem a criança nem quaisquer vestígios da sua presença».

📖 As Primas, Aurora Venturini
«Na cidade argentina de La Plata, nos anos de 1940, conhecemos Yuna e Petra, duas primas que pertencem à mesma família disfuncional, precária e destinada à desgraça. Pela voz de Yuna, vemos um universo tortuoso de mulheres abandonadas, a braços com a pobreza, a deficiência, o delírio e a pressão social».


Que livros incluiriam na vossa lista»

Fotografia da minha autoria



«Se alguma coisa une os vários livros e momentos até aqui é o modo como, 
por distantes que sejam ou pareçam, estou em cada história e em cada personagem»


A literatura e o ato de ler revestem-se de inúmeros pontos fascinantes. Um deles, na minha perspetiva, é quando nos cruzamos com autores que nos fazem querer ficar e explorar toda a sua obra publicada. Ao longo do meu percurso enquanto leitora, fui amealhando alguns nomes que respondem a esse estímulo literário.

Já não me recordo do momento exato em que quis descobrir Djaimilia Pereira de Almeida, mas sei que, ao terminar Luanda, Lisboa, Paraíso, percebi que não poderia ter sido a única experiência. Muito pelo contrário, precisava de a ler noutras histórias e noutras personagens, e compreender a extensão do seu talento.

Como sinto que continua a ser uma escritora pouco mencionada e a merecer um destaque maior, decidi transformar essa vontade num compromisso mais sério. Assim, em 2024, quero ler os títulos que me faltam.


VAMOS LER DJAIMILIA JUNTOS?

Djaimilia Pereira de Almeida, até à data, tem 13 livros publicados.

📖 Esse Cabelo (2015 e 2020);
📖 Ajudar a Cair (2017);
📖 Luanda, Lisboa, Paraíso (2018);
📖 Pintado Com o Pé (2019);
📖 A Visão das Plantas (2019);
📖 As Telefones (2020);
📖 Regras de Isolamento (2020);
📖 Maremoto (2021);
📖 Os Gestos (2021);
📖 Três Histórias de Esquecimento (2021);
📖 Ferry (2022);
📖 Toda a Ferida é Uma Beleza (2023);
📖 O Que é Ser Uma Escritora Negra Hoje, de Acordo Comigo (2023).

Desta lista, já li três: Luanda, Lisboa, Paraíso, Esse Cabelo e Maremoto. E aproveito para fazer uma ressalva: o livro Três Histórias de Esquecimento inclui as novelas A Visão das Plantas e Maremoto e, ainda, uma novela inédita, Bruma. Portanto, talvez seja mais económico optar por esta compilação - como já tenho Maremoto, o mais provável é continuar a investir nas edições autónomas e comprar este apenas pela novela inédita.

Não tenho uma ordem de leitura definida, nem uma meta para concluir o desafio. A minha ideia é ler um exemplar por mês e sortear sempre o título, no mês anterior, mas tudo dependerá do aclamado chamamento. Seja como for, o objetivo será priorizar a autora nas minhas leituras, tornando-a numa escolha mais regular.

Se vos fizer sentido, são muito bem-vindos a esta iniciativa. Para isso, podem invadir as minhas mensagens no Instagram, para conversarmos sobre as leituras, podem identificar-me nas vossas partilhas e, inclusive, usar a hashtag #lerdjaimilia. Na conta do Entre Margens encontrarão um destaque com todas estas informações.


Vamos ler Djaimilia juntos?

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