Entre Margens

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«Para falar de tudo o que não faz sentido»


A vida é feita de muitas coisas sem sentido, a começar pelo facto de o Hard Club ser um espaço com uma curadoria musical qualificada, mas eu passar lá a vida a ver comédia. Já assisti a concertos (Diogo Piçarra e Mishlawi), mas os eventos humorísticos/de entretenimento estão em clara vantagem. Para não quebrar a tradição, regressei ao antigo Mercado Ferreira Borges para ver o espetáculo do Guilherme Fonseca.


NÃO FAZ SENTIDO

O humorista andava a prometer um novo solo e cumpriu. A digressão de Não Faz Sentido começou em Lisboa, mas também passou/passará pelo Porto, por Albufeira, Coimbra, Almada, Leiria, Évora e Braga.

A primeira parte ficou à responsabilidade do Vitor Sá, que, acredito, embalou bem o público para a hora seguinte. Só o acompanho em Cubinho, podcast que partilha com António Azevedo Coutinho e Ricardo Maria, mas gostei de o ver neste registo ao vivo. Permitam-se só confidenciar um pormenor: como diria a Sofia, podíamos ter feito um jogo de bebida com a quantidade de vezes que disse foder ou variantes desta palavra.

Findo este momento, fomos ao ponto alto da noite: Guilherme Fonseca subiu a palco para apresentar Não Faz Sentido, partilhando uma série de peripécias/histórias que fazem justiça ao nome selecionado.

Acho que o Guilherme tem um sentido de tempo e de ritmo fabuloso, por isso é que transita entre temas com tanta naturalidade e sem que o público se sinta à deriva. Por isso é que tão depressa fala sobre a Rita, como partilha observações sobre a sua experiência no curso de Língua Gestual Portuguesa. E, curiosamente, a atuação no Porto coincidiu com o Dia Nacional da Língua Gestual Portuguesa (15 de novembro).

Naturalmente, não vou partilhar conteúdo específico, mas não posso deixar de referir o quanto adorei o texto, o seu encadeamento e o beat com que termina o espetáculo. Fez todo o sentido sair de casa a uma quarta-feira à noite, com risco de chuva, para ver o Guilherme a solo, algo que já queria há muito tempo. Se puderem, aproveitem as datas que ainda têm bilhetes, porque é humor do bom e não se vão arrepender.

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«Campanha solidária de Natal»


A essência do Natal, creio, manifesta-se de várias maneiras e uma delas é a capacidade de mudar a vida de alguém, mesmo que seja através de algo, aparentemente, simples. Nesse sentido, a FNAC associou-se ao Banco de Bens Doados, uma iniciativa Entreajuda, para a maior recolha de livros em segunda mão.


CULTIVA A DIFERENÇA

Esta campanha solidária decorrerá até dia 20 de dezembro, em todas as lojas FNAC (exceto a dos aeroportos). O objetivo passa, então, por recolher os livros que já lemos e aos quais queremos dar uma nova casa. Posteriormente, serão enviados para as mais de 5000 associações nacionais pertencentes ao projeto.

Cultivar a diferença é, também, permitir que a literatura chegue a mais pessoas, que as acalente e as revista de magia. Assim, quando me cruzei com o anúncio desta iniciativa, fui ao armário dos exemplares que tenho a vender e selecionei alguns deles. Como ia à apresentação do livro do Hugo Gonçalves, aproveitei para os deixar na FNAC do Alameda Shop & Spot. O processo é célere, até porque só temos de os pôr no ponto de recolha destacado, mas bastante gratificante. Aquelas histórias já cumpriram o seu propósito na minha vida e, agora, ficam livres para embalar o percurso de outro leitor. Há mesmo «presentes que duram para sempre».


Esta campanha tem, ainda, a particularidade de se dividir por duas etapas, garantindo que todas as doações são aproveitadas: 1) depois de uma triagem inicial, os livros serão distribuídos pelas instituições, tendo em conta as necessidades das mesmas; 2) os livros que não estiverem em condições serão doados para reciclagem, respondendo à campanha Papel por Alimentos. Para mais informações, consultem esta publicação.

Vamos mudar o Natal para sempre?

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«(...) continua a publicar as suas memórias»

Gatilhos: Perda, Luto


A primeira pausa no meu book buying ban aconteceu em abril, mês do meu aniversário e do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor. Para comemorar, visitei quatro livrarias portuenses e um dos livros que trouxe, da Flâneur, foi da Patti Smith, porque ela podia escrever a lista do supermercado que eu ia a correr comprar.


ROCK, LITERATURA E UM ANO DIFÍCIL

O Ano do Macaco é um livro de memórias que nos transporta para 2016, um período difícil e doloroso, que a fez repensar muitas coisas na sua vida, e que nos traz referências de Lisboa e de Fernando Pessoa.

«Era também um silêncio, mas diferente»

A obra começa com a chegada ao Dream Hotel, entre celebrações de ano novo. 2016 também representa o ano do seu septuagésimo aniversário e uma oscilação entre rock e literatura. É a partir destas circunstâncias que recupera uma série de pensamentos, sentimentos e momentos, gerindo perdas de pessoas importantes. Como pano de fundo, confronta-nos com um mundo político em alvoroço, que se agita «numa eleição tóxica».

«Voltando à mesma dúvida da infância, pergunto-me se as andorinhas dela vão voltar este ano»

Este híbrido entre realidade e ficção, é uma viagem física e emocional preciosa: por um lado, sentimos um traço nostálgico, enlutado, de quem enfrenta a despedida e, por outro, uma narrativa que concede espaço para enaltecer as grandes amizades e que nos contagia pela forma como a artista encara a vida.

«Ele preenche os silêncios com a palavra escrita, na busca de uma perfeição de que apenas ele é portador»

Confesso que tive um pouco mais de dificuldade em relacionar-me com este livro, se calhar por explorar diferentes registos e por não serem tão claras as fronteiras que os delimitam. No entanto, esta talvez seja a melhor definição de termos a vida em movimento, porque é ténue a linha que separa o que acontece do que tem potencial para se tornar algo mais - ou um autêntico pesadelo. No Epílogo, há uma ponte para o Ano do Rato (2020) e para a estranha realidade que nos assombrou.

«(...) que o problema dos sonhos é que nós acabamos sempre por acordar»

O Ano do Macaco é feito de encontros e de ausências, de pouca estrada e estados emocionais oscilantes; é o retrato de alguém que já viveu tanto e que escreve de uma maneira vulnerável, sem filtrar a confusão e a tragédia. Também tem arte. E há sempre uma réstia de esperança.


🎧 Música para acompanhar: If 6 Was 9, Jimi Hendrix

📖 Da mesma autora, li e recomendo: Apenas Miúdos e M Train


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«Cozinhar é como tecer um delicado manto»


A última receita que trouxe para o Entre Margens remonta ao início de junho, deste ano. Não deixei de me aventurar nesta área, mas tenho repetido algumas opções que se tornaram numa extensão de conforto.

A banana sempre foi uma das minhas frutas favoritas, por isso, não me importo nada de a incluir em várias receitas, sendo a mais recorrente a de panquecas de aveia e banana, mas estava na altura de elevar a experiência. Juntando a isso a minha vontade de tentar fazer Banana Bread, foi a desculpa perfeita.

A receita que tenho reproduzido é da Lindsay Keosayian e tenho-a feito no seu formato original: em bolo. No entanto, da última vez, transformei-a em queques. Seja qual for a apresentação escolhida, é uma delícia.



INGREDIENTES

▫ 3 bananas;
▫ 2 ovos;
▫ 2 chávenas de flocos de aveia;
▫ 1 colher de sopa de bicarbonato de sódio;
▫ 1 pitada de sal;
▫ 1/4 de chávena de xarope de ácer ou mel;
▫ 1/2 chávena de pepitas de chocolate.


MODOS DE PREPARAÇÃO

▫ Combinar todos os ingredientes, menos as pepitas de chocolate, num processador (ou, simplesmente, mexer tudo à mão, porque também resulta);
▫ Adicionar as pepitas de chocolate e envolver o preparado;
▫ Transferir a massa para uma forma e acrescentar pepitas no topo;
▫ Levar ao forno a 180ºC, durante 30 minutos.

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«Quantos silêncios e quantos sonhos cabem no peito de um homem?»

Gatilhos: Morte, Luto, Suicídio


O silêncio é uma linguagem com imensas camadas. Naquilo que não é dito, podem ser criadas feridas, ausências, dores e distância; pode florescer desentendimento e interpretações ambíguas. No livro de Rui Conceição Silva, estas noções são todas exploradas, porque todos nós temos muitos silêncios a embalar-nos.


SOLIDÃO EM TODOS OS LUGARES

Deste Silêncio em Mim conta-nos a história de Rodrigo, que nasceu para ser pastor, e da sua família. Viveu toda a sua infância numa cabana isolada na montanha, transitando entre a dor, a saudade e a melancolia, até que um acontecimento atroz o impele a partir, «a correr o mundo», ainda que isso venha a implicar perdas.

«Assim era ele, um sonhador pacificado, que ansiava sempre pelas madrugadas,
mesmo que elas fossem feitas de gelo ou de poemas imprecisos»

O ritmo desta narrativa é mais lento, como se nos convidasse a parar, a desfrutar da pacatez da aldeia e da beleza mundana dos dias. Embora seja grande o contraste, porque nos parece que há falta de ambição, é importante compreender o contexto e acho que a forma como a narrativa está estruturada nos leva a isso, porque nada é apressado, porque, de repente, é como se estivéssemos na Sobreira dos Montes, a vivenciar as dificuldades daquelas pessoas e a necessidade constante de fazer pela vida; onde os sonhos são silenciados, porque é preciso pôr comida na mesa.

«E quisemos tanto o seu abraço. Um abraço sentido e redentor»

É perante um destino «que parecia certo», e sempre incentivado pelo avô, que o protagonista começa a desejar mais. Deste modo, sai da montanha e muda-se para a cidade, mas é interessante perceber que continua a sentir-se pastor, mesmo numa realidade tão distinta. Esta noção fez-me pensar na quantidade de vezes que nos sentimos deslocados, na quantidade de vezes que sentimos não pertencer a um lugar, porque isso molda-nos e, inclusive, é capaz de condicionar o nosso futuro.

«O tempo repousa onde menos esperamos»

Acompanhando este pano de fundo, temos um livro cheio de metáforas, com alguns lugares comuns, e uma escrita belíssima, que transparece bem a ruralidade do nosso país. Quando Rodrigo procura libertar-se do silêncio da serra, compreende que essa perceção não é exclusiva daquele lugar, por isso, esta obra é sobre escolhas, sobre as consequências dessas escolhas e sobre a maneira como aprendemos a geri-las. Por outro lado, é uma história sobre família, sobre afeto e sobre amizades; é sobre a solidão que se manifesta quando há tantas pessoas à nossa volta - acho que essa é a mais dilacerante. Por fim, mas não menos importante, é um livro sobre sonhos.

«Ciente desse amor, fui-me mentalizando de que a última canção nunca pode ser de saudade»

Deste Silêncio em Mim é feito de lendas, de crenças e de amor. Com um retrato intimista, relembra-nos da importância do perdão, das origens e do que é essencial. No fundo, convida-nos a revisitar a criança que fomos e a encontrar a nossa paz. Rodrigo viveu sempre a tentar reencontrar-se, por esse motivo, acho que permanece uma pergunta: mesmo que cesse o som, a comunicação, estaremos em silêncio total?

🎧 Música para acompanhar: Pedra Filosofal, Manuel Freire
Disponibilidade: Wook | Bertrand

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- título sugerido pela Matilde Ferreira -


As casas desta cidade são disformes, sem estética alinhada, sem identidade visual para quem a visita. E, ainda assim, talvez sejam todos os seus desníveis que as tornem tão inconfundíveis e procuradas, ao longo do ano.

Diz-se, por aí, numa dessas lendas improvisadas de tempos antigos, que estas casas foram edificadas sobre histórias. Debaixo da terra, como árvore sustentada pela sua raiz, encontram-se páginas de um livro que nunca chegou a ser terminado. Para que isso acontecesse, distribuíram-se as folhas por cada um dos terrenos, assim nunca se juntariam, nunca seriam capazes de contar os segredos que a cidade esconde.

Diz-se, também, que todas as noites, a horas que ninguém deve estar desperto, se ouve uma voz roufenha, a declamar palavras impercetíveis. Talvez seja o poeta que desta terra se perdeu. Talvez sejam só as mentes mais férteis a procurar dar corpo ao chorrilho de contos que se bordam a ponto cruz, como as cruzes dos que permanecem aqui esquecidos, a alimentar estas quimeras que quebram a monotonia.

O certo é que, lenda ou mito, há sempre uma aurora que nos traz no seu regaço, para junto da biblioteca, um amontoado de folhas rasgadas, vazias, sem qualquer sinal de vida, de uso, de imaginação reproduzida em palavras. O certo é que, lenda ou mito, há quem continue a tentar desvendar o mistério que paira pela cidade.

Por aí, correm longos os dias em que do silêncio dos vivos se fez a paz de quem já partiu.

Pronunciando a última palavra, Margarida fechou o livro perante uma plateia de jovens curiosos.

— Professora, o que fazem a essas folhas rasgadas? Será que, se as juntarmos, não conseguiremos ler algo?
— Não me parece, Clara, são como pequenos flocos de neve.
— Mas já as viu bem?
— Sim, coube-me a mim a tarefa de recolher as últimas.
— Então não há mesmo hipótese... — disse-o cabisbaixa.
— Não chegaria a tanto.
— Como assim? — e uma centelha de esperança voltou a cobrir o olhar da rapariga.
— Não desanimes, podes sempre criar tu uma reviravolta para a nossa lenda.

De olhar esbugalhado, como se aquelas palavras fossem a pista que precisava, Clara sorriu e saiu apressada da sala. Margarida, por seu lado, acabou de arrumar as coisas e só depois foi embora. Ao fechar a porta, perdeu-se num pensamento: seja lenda ou mito, talvez se tenham feito escritores por menos.

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«Parece que o planeta não é mais do que isso, agora»

Gatilhos: Linguagem Explícita e com Ironia


A pandemia não é um cenário longínquo, portanto, compreendo que ler sobre o assunto não seja uma vontade partilhada por todos. Ainda assim, se for através das palavras de Ricardo Araújo Pereira, abre-se uma exceção.


UMA HISTÓRIA DE PANDEMIA

Ideias Concretas Sobre Vagas conta «uma história da pandemia» e inclui uma seleção de textos «publicados na revista Visão e na Folha de S. Paulo, entre março de 2020 e outubro de 2021». Se o objetivo era esquecer este período conturbado, o humorista faz questão de nos trocar as voltas e de nos recordar das suas particulares, chatices e momentos de tensão e de uma certa incongruência. A parte maravilhosa disto tudo é que o faz, claro, com imensa graça, por isso, passamos um momento agradável.

«O melhor das pessoas é difícil de suportar, porque se trata de uma recordação dolorosa de que há gente
com uma abnegação e altruísmo dos quais eu não sou capaz»

Este último adjetivo talvez não fosse o primeiro que me ocorresse ao falar da pandemia, contudo, é nestes detalhes que se vê a genialidade do RAP. Se há o risco de estas crónicas ficarem datadas? Sim, há. Mas, por outro lado, acabaremos sempre por nos rever, por relembrar comportamentos transversais à sociedade e por revisitar a ideia de que ficaria tudo bem, quando, na realidade, não ficou. Além disso, acho que pode ser interessante, quando a distância temporal for maior, voltar a esta obra.

«Nunca falhamos a falhar. Podia ser o nosso lema»

Em Ideias Concretas Sobre Vagas fica, também, evidente o sentido apurado de Ricardo Araújo Pereira para destacar a chalupice pegada que habita no ser humano.


🎧 Música para acompanhar: Horas Vagas, Anaquim

📖 Do mesmo autor, li e recomendo: A Doença, o Sofrimento e a Morte entram num Bar, Estar Vivo Aleija e Idiotas Úteis e Inúteis


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«A trágica realidades dos refugiados»

Gatilhos: Morte, Violência, Violação, Sexismo, Xenofobia, Linguagem/Cenas Explícitas


As conversas sobre livros são sempre esclarecedoras e um portal para novas experiências. E se Manuel Jorge Marmelo não surgisse numa partilha com o meu vizinho, certamente que não chegaria ao seu livro.


FICÇÃO ALHEIA À REALIDADE. OU TALVEZ NÃO

Tropel é uma ficção alheia à realidade, mas inspirada em factos reais. Nela, acompanhamos o adolescente Atanas Viktor, que descende de uma longa linhagem de caçadores impiedosos. Remontando a um lugar primitivo da essência humana, percebemos que esta história, outrora tão distante, está «cada vez mais próxima da soleira da nossa porta» - podendo apresentar-se de distintas manifestações.

«Cabe-nos garantir a paz das nossas casas, das nossas famílias, do nosso país»

A narrativa assume um tom quase visceral, atendendo à natureza dos acontecimentos descritos. Na sua generalidade, é a violência que marca o ritmo da história e chega a tornar-se desconfortável o ódio, o comportamento face às mulheres (infelizmente, ainda atual) e a total ausência de respeito e de empatia pelo outro. Além disso, vemos o protagonista a debater-se sobre uma série de questões, porque cresceu num ambiente medonho, hostil e com demasiados silêncios.

«Não consigo dizer se o que senti foi orgulho ou arrependimento»

Confesso que a não existência de capítulos dificultou um pouco a leitura, uma vez que é uma viagem densa e dolorosa e parece que não temos qualquer margem para respirar e assimilar cada fragmento. Por outro lado, é inegável que procuramos compreender até onde este longo pensamento nos levará e de que modo é que as nossas origens são ou não isentas de contestação, porque descobrimos um adolescente a transitar da aceitação para a dúvida, colocando em causa os princípios que lhe foram incutidos desde o berço.

«Alguma decência mínima temos de manter. Alguma humanidade]

Tropel é uma metáfora e leva-nos ao abismo da alma humana.


🎧 Música para acompanhar: Ferrugem, Samuel Uria


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«Um olhar íntimo sobre uma comunidade rural»


O projeto Histórias da Montanha é baseado nas obras Contos da Montanha e Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga. Transmitido pela RTP, e ainda disponível na RTP Play, é composto por cinco histórias, cinco «retratos de vidas humildes, em Portugal, nos anos 40», mostrando, também, o olhar de uma comunidade rural, no qual o sofrimento, a violência e o isolamento são conceitos comuns - e transversais no tempo.


A MARIA LIONÇA
A Maria Lionça foi a primeira história a ser exibida e, como o nome deixa antever, permite-nos acompanhar Maria Lionça, que, em criança, era a alegria da aldeia e cujo riso era imagem de marca. À medida que vai crescendo, a sua gargalhada torna-se menos expressiva, porque as privações a que fica sujeita fazem-na esmorecer. Mas não totalmente, pois é exemplo de resiliência e de um enorme espírito de sacrifício.

Achei muito interessante que o argumento se faça mais de uma componente visual do que através de diálogos: é dito o essencial, tudo o resto percebemos pelos gestos, pelo desenrolar das cenas, até pelos silêncios. Os últimos minutos do filme são impressionantes, porque expressam algo contranatura. É muito emotivo.


O LEPROSO
O segundo filme centra-se em Julião, brutalmente segregado pela comunidade, quando surgem os primeiros sintomas de lepra. Temendo o contágio, a população afasta-se, mas o jovem tem ainda mais vontade de viver. Além disso, começa a apoderar-se dele uma sede de vingança, o que deixa todos em pânico.

É um retrato interessante da condição humana, dos medos que paralisam, dos preconceitos, do efeito da discriminação e da linha ténue entre a dignidade e o egoísmo; entre a empatia e a proteção individual. Estes aspetos levantam questões, a começar por estas: o que faríamos no lugar destas pessoas? Conseguiríamos ser mais altruístas? A juntar a isso, não nos podemos esquecer da época em que se desenrola a ação, atendendo a que a informação e os recursos eram mais limitados.

É desolador perceber que Julião perdeu o nome, para passar a ser o leproso, como se a doença fosse o seu único traço de identidade. Imagino a revolta, por esse motivo, sinto que é um filme cheio de camadas.


O ALMA GRANDE
O terceiro filme do projeto Histórias da Montanha centra-se na história do Tio Alma Grande, cuja função é garantir uma morte discreta aos moribundos. E fá-lo com um único propósito: impedir que, em confissão, revelem os seus segredos e exponham o judaísmo professado clandestinamente dentro de famílias de cristãos-novos. Isaac é um desses moribundos, às portas da morte, mas há uma reviravolta que altera todo o tom da narrativa e, claro, do quotidiano do Alma Grande e da família de Isaac.

Não imagino o fardo que é tirar a vida a alguém, mesmo que este «tirar a vida» seja um mecanismo para a salvar da doença, do sofrimento, do perigo que poderá resultar da confissão. Esta dualidade pesa. No entanto, não me consegui envolver com este argumento e acho que parte da culpa se deve à sua duração: tem pouco mais de meia hora e, portanto, parece-me que houve aspetos que se ressentiram disso.

É percetível o desejo de vingança, o isolamento e o lado sombrio, mas faltou-me um pouco mais de contexto.


A PAGA
O quarto filme do projeto Histórias da Montanha centra-se em Arlindo, um galã que utiliza os seus dotes musicais para enganar as raparigas e usá-las a seu bel-prazer. Este comportamento nunca lhe trouxe dissabores, até ao dia em que tentou a sorte com Matilde: ao recusar-se a casar com ela, coloca a sua vida em risco, porque tanto o pai, como os irmãos da jovem não descansarão até que ele pague a sua desonestidade.

O argumento tem pouco mais de meia hora, mas, neste, acho que fluiu tudo melhor, com cenas menos precipitadas e sem ruído. Percebe-se a mensagem e não enredam na concretização. Além disso, é mais uma demonstração clara dos valores que regem a comunidade, é mais uma prova que o problema não é a humilhação da mulher, mas o orgulho ferido dos homens da família - mudou tão pouco no tempo.


MARIANA
Mariana é uma mulher independente, com uma vida pacata, que «obedece a dois instintos: maternal e sexual».

Mariana parece ir numa longa caminhada, talvez à procura de uma situação mais estável, e envolve-se sexualmente com um homem em todos os locais por onde passa. Assim, multiplicam-se os filhos, bem como a serenidade da protagonista, que se apresenta sempre leve, de sorriso largo e a transbordar de amor.

Foi o meu argumento favorito, porque destaca algo essencial: a liberdade de ser. Sendo Mariana mulher, numa época e contexto de mentalidades fechadas, é audaz este quebrar de estereótipos. Afinal, «a terra humilde era ela. Eles atuavam apenas como o vento, que traz a semente e passa». Mariana passou e deixou marca.

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«Fiz de perder o meu ofício»

Gatilhos: Linguagem/Cenas Explícitas
O risco de não conseguirmos parar de ler


O olhar de quem observa o mundo pelos detalhes apresenta uma candura diferente, uma vez que é capaz de revestir as trivialidades com outra luz. Não ignora os dias sombrios, por vezes repletos de tanta escuridão, mas vê para além do óbvio, mostrando-nos perspetivas que nunca equacionamos que existissem. É como se estivesse num permanente estado de deslumbre e surpresa. E eu senti tudo isso no livro de Gisela Casimiro.


A RIQUEZA DE HISTÓRIAS MUNDANAS

Estendais compila crónicas sobre dores, sonhos, pessoas, relações falhadas, homenagens e uma série de pequenas coisas que se elevam pela forma como a autora brinca com as palavras. Aliás, vai bordando aquilo que ouve, que vê e que pensa com bastante naturalidade, como se fossem retalhos da mesma peça.

«O coração desarruma tudo na ânsia de se fazer maior»

Esta obra foi uma das escolhas do Clube do Livra-te, para novembro, portanto, seguindo a dinâmica habitual, definiram-se metas de leitura para discutirmos no Discord. Fui ler o Prefácio e a Introdução por curiosidade e, quando dei por isso, já tinha lido os textos da meta 1, porque fui completamente arrebatada pela escrita, pela cadência, pela maneira como deambula pelos temas. Às vezes, parece que diz mais coisas nas entrelinhas, mas vai-se tornando evidente a maneira como olha para o que a rodeia - e também para si, para os seus.

«Gostaria que fossem precisas cada vez menos autorizações para existir»

Os pormenores em que se foca são preciosos. Há uma identidade visual inegável e um dialeto que transborda poesia. Não tenho o hábito de sublinhar nos livros, mas anotei várias passagens que me apeteciam tatuar - ou preservar numa moldura -, porque são lindíssimas. E, depois, é muito fácil revermo-nos em certos comportamentos e/ou sentimentos. Por exemplo, quando escreve sobre Mariah Carey, senti que podia ser eu a escrever sobre Os Quatro e Meia. É este nível de identificação que nos entrelaça às crónicas aqui compiladas.

«Somos todos tudo, nenhum lugar é garantido e todos podem ser invertidos»

Lia Pereira escreveu que, «em todas as histórias, a Gisela está em si, buscando o outro». E eu achei esta imagem comovente, porque contrasta bem a intimidade e a pluralidade de cada texto; e, atendendo a que são todos «possibilidade, portal e passagem», fazemos sucessivas viagens, ultrapassamos fronteiras e revisitamos memórias. Acho que nos reencontramos nas suas palavras, ao mesmo tempo que validamos emoções. E do mesmo modo que nos sentimos a entrar em casa, também percebemos que podemos abrir as asas e voar.

«As pessoas continuam a ser a derradeira fronteira umas das outras»

As histórias vão-se estendendo como a roupa que prendemos no estendal, em dias solarengos. Enquanto esperamos que ela seque, existem novos detalhes à espreita, só temos de permanecer atentos. Com a desculpa «é só mais uma crónica», este livro foi lido num piscar de olhos, porque não o queria largar. Há muito amor, mas também há penumbra. Há nostalgia, vulnerabilidade e humor. E há verdade e o compromisso de ver o lado bonito dos dias. Escusado será dizer que, agora, quero ler tudo o que a Gisela Casimiro escrever.


🎧 Música para acompanhar: Emotions, Mariah Carey


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