Entre Margens



Fevereiro parece ter-se estendido para lá do seu tempo, o que até se revelou uma boa sensação, porque tive margem para diminuir a TBR e ainda acrescentar leituras extra. Além disso, sinto que houve espaço para pequenas desilusões, leituras um pouco mornas e um livro de poesia que escalou para o grupo de favoritos. 

Entre pensar sobre sono, criatividade, sonhos e liberdade, trago-vos as notas literárias do mês.


 a tbr de fevereiro
  • Exposição. Poemas e Posímetros, Daniel Scott (alma lusitana e 12 meses, 12 livros de poesia);
  • Danificada, M. L. Vieira (alma lusitana - leitura extra);
  • Inventário de Sonhos, Chimamanda Ngozi Adichie (3 autoras para 2026);
  • O Sono dos Portugueses, Sofia Gomes (ler ffms);
  • Malorie, Josh Malerman.

 o que li em fevereiro

Para além da tbr definida, li:
  • Quem Matou o Meu Pai, Édouard Louis;
  • A Grande Magia, Elizabeth Gilbert;
  • Oração Para Desaparecer, Socorro Acioli;
  • A Axila de Egon Schiele, André Tecedeiro.


 algumas curiosidades

Em fevereiro, li
  • 9 livros: poesia (2), distopia (1), não ficção (3), novela gráfica (1) e romance (2);
  • 5 autoras e 4 autores: portugueses (4), americanos (2), franceses (1), brasileiros (1), nigerianos (1);
  • 6 autores pela primeira vez: Duarte Scott, Édouard Louis, M. L. Vieira, Socorro Acioli, Sofia Gomes e André Tecedeiro.

Favoritos do mês
  • Quem Matou o Meu Pai, Édouard Louis;
  • A Axila de Egon Schiele, André Tecedeiro.


 vamos a contas?

Fevereiro vinha com livros no horizonte, porque tinha dois para comprar. No final, acabei a comprar quatro, para aproveitar um vale e uma promoção da Fnac.

  • Comprei 4 livros (Sira, Poesia, A Bastarda de Istambul e O Homem Sem Mim) e gastei 52,49€;
  • Ativei a subscrição do Kobo Plus, que me custou 7,99€. Li 4 eBooks, poupando 46,93€;
  • Comecei fevereiro com 62€ na Apparte. No total, amealhei 18€, transitando para março com 80€.


 banda sonora

Exposição. Poemas e Prosímetros, Duarte Scott
  • Lua, Lhast;
  • Avesso, peixe : avião.

Malorie, Josh Malerman
  • Legion, The High Strung;
  • Point Of View, The High Strung.

Quem Matou o Meu Pai, Édouard Louis
  • My Heart Will Go On, Céline Dion.

Danificada, M. L. Vieira
  • Força, Da Weasel;
  • Control, Halsey.

A Grande Magia, Elizabeth Gilbert
  • Hold On, Tom Waits;
  • Perfect Day, Rufus Wainwright.

Oração Para Desaparecer, Socorro Acioli
  • Oração Para Desaparecer (playlist Socorro Acioli);
  • Gares, Milton Nascimento (álbum).

Inventário de Sonhos, Chimamanda Ngozi Adichie
  • Jealous, Labrinth;
  • Homegrown, Haux.

O Sono dos Portugueses, Sofia Gomes
  • Sono Profundo (playlist).

A Axila de Egon Schiele, André Tecedeiro
  • Nada Dura Para Sempre, Dealema;
  • Praia de Tinto, Mallina,
  • Origami, VSP AST;
  • Pode Alguém Ser Quem Não É?, Sérgio Godinho.


 a tbr de março
  • Um Cão no Meio do Caminho, Isabela Figueiredo (alma lusitana);
  • A Bastarda de Istambul, Elif Shafak (3 autoras para 2026);
  • Alegria Para o Fim do Mundo, Andreia C. Faria (12 meses, 12 livros de poesia);
  • A Desobediente, Patrícia Reis;
  • Em Nome da Filha, Carla Maia de Almeida (ler ffms);
  • Guia Prático Antimachismo, Ruth Manus;
  • Autobiografia Não Autorizada 2, Dulce Maria Cardoso.



As leituras de fevereiro não foram particularmente arrebatadoras, por esse motivo, trago-vos seis das nove que fiz ao longo do mês — as restantes terão opinião individual (uma delas saiu na passada segunda-feira, aqui).


entrelinhas de fevereiro


Exposição. Poemas e Prosímetros, Duarte Scott

Senti a escrita próxima e visual, o que me agradou, pois acho maravilhoso quando os poemas têm esta capacidade de se moldarem aos nossos olhos, como se, por um lado, lhes pertencêssemos e, por outro, fossem um filme a explorar uma realidade alinhada com a nossa ou completamente distante. Em simultâneo, gostei bastante do contraste entre o que é escondido e o que é exposto e que usasse a escrita para trespassar, «para provocar algo no Outro». Simplesmente, não senti que os poemas me arrebatassem de um modo equilibrado (mas fiquei com vontade de ir ao livro mais recente do autor).

Exposição. Poemas e Prosímetros dança com a escuta atenta e a palavra, fala-nos de luto e de sedução, unindo-os num plano que nem sempre nos parece possível, e mostra-nos que nem tudo contém ensinamentos, mas que acabamos a aprender algo com todos os conteúdos que cruzamos. Sem filtros, centrando-se nos desejos, no sexo e na ausência, também retrata um «processo íntimo de construção de identidade». Avesso foi o poema que ficou com o meu coração, seguido de Abertura, Flor da Pele e Ouvido de Fora, o Sino.

↠ Opinião completa: Portugalid[Arte] #132



Malorie, Josh Malerman

O mundo parecia atravessar uma realidade alternativa, em 2020, e eu resolvi ler Às Cegas, de Josh Malerman. No ano seguinte, foi editada a sequela dessa história, mas só este ano é que senti o impulso de a descobrir, talvez por recear que levantasse mais perguntas do que respostas.

O contexto permanece feito de inúmeros perigos, até porque, «doze anos depois de Malorie ter fugido com os filhos pelo rio, a venda continua a ser a única coisa que a protege», já que falta explicações e soluções. Perante um permanente estado de sobrevivência, e um desejo profundo de «recuperar um pouco da vida antiga», há uma notícia inesperada que vem trazer um pouco de esperança — ou colocá-los ainda mais em perigo?

Apesar de ter apontamentos interessantes, sobretudo no que diz respeito à gestão de sentimentos, de emoções entre mãe e filhos, sinto que este livro poderia ter sido um capítulo extra no anterior. Não estraga a história inicial, só não acho que acrescente muito, estendendo-se em descrições desnecessárias (para mim). Acho que vale pelo final da segunda parte e pela parte final.



A Grande Magia, Elizabeth Gilbert

O reencontro com Elizabeth Gilbert não estava planeado, mas, após uma conversa sobre como O Ato Criativo não me deixou a pensar em criatividade, a Sofia trouxe-me o seu exemplar d' A Grande Magia.

Gostei muito da abordagem da autora por dois motivos: primeiro, porque reuniu várias experiências pessoais para ilustrar os seus pontos de vista, o que me agrada sempre neste género de livros (já que o processo criativo é tão diferente de pessoa para pessoa); segundo, porque ajudou a desvincular a criatividade de um processo sofrido (nem toda a arte tem de nascer de um espaço sombrio, da escuridão).

Anotei alguns tópicos, porque gostava de refletir a partir deles, e achei maravilhoso que nos levasse a pensar não só em criatividade, mas também no espaço que criamos para a vivermos em pleno, sobretudo se não nos levarmos tão a sério e assumirmos o compromisso de arriscar (com todas as quedas e recomeços que isso possa significar). Sinto é que, a certo ponto, ficou presa à mesma reflexão — mas estou a ponderar adquirir um exemplar, porque, embora não me tenha mudado a vida, não deixa de ser um livro que inspira.



Oração Para Desaparecer, Socorro Acioli

O encontro com este livro surgiu de uma necessidade. Dito assim, percebo agora, soa a algo extremo, mas foi somente uma necessidade prática, já que não queria ir carregada com o livro de Chimamanda Ngozi Adichie para a Super Bock Arena, enquanto esperava por Conversas de Miguel. Assim, requisitei este livro de Socorro Acioli que tanta curiosidade despertou.

Oração Para Desaparecer tem uma premissa fascinante, visto que uma «mulher é puxada da terra, viva, num jardim da localidade de Almofala, na fronteira entre Portugal e Espanha». Sem sabermos quem é esta mulher, rapidamente compreendemos que a sua chegada é aguardada há algum tempo, o que adensa o mistério.

Com um toque de realismo mágico, a tentar recuperar a sua identidade e a sua memória, gostei da forma como certos elementos se foram interligando, da forma como a autora cruzou tradições, crenças e raízes. No entanto, comecei a sentir que a narrativa passou a ser demasiado descritiva, sem espaço para imaginarmos o que podia ter acontecido. E confesso que, para além disso, não adorei o desfecho.

Há aspetos desta história que ficarão comigo, porque a escrita é muito bonita e Socorro Acioli trouxe reflexões pertinentes, mas não senti que as diferentes partes estivessem equilibradas.



Inventário de Sonhos, Chimamanda Ngozi Adichie

O sorteio para o desafio 3 autoras para 2026, que tenho com a Sofia, ditou que fôssemos ao mais recente livro de Chimamanda Ngozie Adichie, em fevereiro.

Inventário de Sonhos cruza a história de quatro mulheres — Chiamaka, Zikora, Kadiatou e Omelogo — «através dos seus amores, medos e ambições». Quando as nossas ambições aparentam não estarem próximas de se concretizarem, talvez exista a necessidade de rever objetivos e prioridades e nós vamos assistindo a essa metamorfose nas protagonistas, ainda que, admita já, nem sempre sejam claros os seus propósitos.

Sem querer entrar em detalhes, para não comprometer a experiência de leitura, o livro não funcionou comigo. No fundo, gostei sem gostar muito, porque senti que a concretização não acompanhou a premissa e, inclusive, ajudou a perpetuar certos estereótipos. Compreendo que exista uma base cultural (transversal) a sustentar algumas decisões, mas senti falta de mais coerência, de mais profundidade; senti que não me acrescentou.

O livro vale muito pela escrita da autora, sempre irrepreensível, e pela parte dedicada a Kadiatou. A história em si não me prendeu, nem me permitiu relacionar com as restantes personagens, que achei com demasiado complexo de superioridade.



O Sono dos Portugueses, Sofia Gomes

Fiquei satisfeita por perceber que não estava assim tão por fora do tema e de todas as suas especificidades, e que talvez fosse uma questão de aplicar os conhecimentos que já tinha adquirido. Ainda assim, não deixei de ser surpreendida com a quantidade de pontos que parecem independentes, mas que estão intimamente relacionados com a qualidade do nosso sono e com o facto de o priorizarmos — ou não — na nossa vida.

O Sono dos Portugueses potencia inúmeras reflexões e incentiva-nos a explorar outras referências, visto que, tal como reconheceram, ficaram pela superfície deste tema tão vasto. Apesar disso, fartei-me de sublinhar o livro: por um lado, porque achei os dados interessantes e, por outro, porque creio que me relembrarão do meu propósito inicial. Além disso, achei útil que incluíssem ideias chave no final de cada um dos capítulos.

↠ Opinião completa: Portugalid[Arte] #134

Fotografias da minha autoria



A magia, nem sempre possível, de calibrar expectativas em relação a um livro ou a um autor é que podemos terminar espantados com o que lemos. E foi precisamente isso que me aconteceu com Édouard Louis.


 fragmentos cheios de impacto

Quem Matou o Meu Pai narra o retorno do autor «à sua cidade natal, um local feio e cinzento numa das regiões mais pobres de França». Este regresso implica um reencontro com a casa (e figura) paterna, palco de «uma infância assombrada pela violência, a homofobia e a vergonha», mas onde parece existir espaço para uma «tentativa de reconciliação».

Há memórias demasiado duras e o tom de Louis fez-me recordar o Leme, de Madalena Sá Fernandes, porque é impressionante como a mesma pessoa pode despertar sentimentos tão antagónicos dentro de nós, como tem a capacidade de nos magoar, de nos destruir e, ao mesmo tempo, ser conforto (ainda que por segundos), ser alguém cuja presença queremos prolongar. Mas depois, como se se retirasse uma camada protetora, percebemos o quanto o narrador precisou de se anular, de quase deixar de existir para caber. Por isso é que também entendemos o motivo de desejar tanto a ausência do progenitor.

O declínio físico do pai é o ponto de partida para, transitando entre passado e presente, compor fragmentos da relação entre ambos, de uma forma muito honesta e intimista, impactando-me pelos contrastes, pelos momentos de ternura que não deveriam ser substituídos por violência e rejeição, pelas expectativas desajustadas que não respeitam a individualidade do autor, deixando feridas expostas.

«Observei-te, e no teu rosto consegui ler os anos que passei longe de ti»

A postura deste pai deixou-me a pensar na facilidade com que se perpetuam estereótipos e como os contextos em que nos inserimos condicionam os nossos valores, a pessoa em quem nos tornamos. Não creio que tudo possa ser uma escolha, caso contrário, seriam menos os casos de tirania e opressão. Se bastasse querer, os traumas do passado e a educação negativa, proporcionados por um ambiente tóxico, não seriam uma hipótese replicada. Longe de querer justificar o comportamento do pai do autor, a verdade é que crescer dentro de determinados moldes pode levar-nos a acreditar que qualquer relação deve florescer daquela forma, daí ser tão importante haver exemplos positivos, exemplos que reforcem a urgência de quebrar este ciclo de violência.

É triste e duro perceber tudo o que poderiam ter sido, mas achei comovente que Édouard Louis tentasse justificar a génese deste abismo. Apesar de toda a mágoa que lhe provocou, a sua lucidez traçou um retrato quanto à influência do poder político nesta relação. Se dúvidas existissem em relação a tudo ser política, este texto desconstrói-as, porque cada uma das componentes contribuiu para a degradação do pai e, por consequência, da ligação entre os dois. Portanto, na metáfora do título, entendemos que «a casta privilegiada» condenou sempre à morte os mais desfavorecidos, contaminando tudo ao seu redor.

Quem Matou o Meu Pai lê-se num sopro, mas deixa marcas. Abraçando uma espécie de contradição emocional, gostei muito que o autor nos fizesse balançar entre um atribuir de culpas e uma tentativa de compreensão, que talvez permita fechar a porta.


 notas literárias
  • Lido a: 5 de fevereiro
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Não ficção
  • Banda sonora: My Heart Will Go On, Céline Dion

Fotografia da minha autoria


Os miúdos Pedro Teixeira da Mota e Carlos Coutinho Vilhena regressaram com uma versão mais adulta de Conversas de Miguel, centradas em assuntos aleatórios, bastante sarcasmo e uma dose equilibrada de polémica (ou talvez não). Partindo do não slogan «dois moços, uma amizade», à semelhança do que tinha acontecido em 2020, primeiro, abraçaram-nos com novos vídeos e, depois, escalaram para os espetáculos ao vivo.

Um dos aspetos que mais me fascina no conceito é sentir que a partilha flui por serem amigos e haver sempre margem para a espontaneidade — e para a insanidade também —, mas que isso não representa falta de planeamento. Aliás, ser dividido por rubricas, que os levam a estruturar dinâmicas e argumentos, parece-me um ótimo indicativo do quanto não quiseram relaxar e assumir que as suas trocas de ideias chegariam para ter graça. Além disso, sinto que esta postura ajudou a que diferenciassem o seu conteúdo.

Estava, portanto, curiosa para perceber como é que o formato poderia crescer ao vivo. Na primeira vez que o trouxeram ao Porto não consegui estar presente, mas desta vez deu para alinhar agendas e desfrutar do que tinham preparado, dos novos ângulos que trariam para a sala e da eventualidade de se fazerem acompanhar por convidados. Fui na primeira data e cheguei a uma conclusão, um pouco enviesada porque não deixa de ser consequência de algo que não controlo: fico mais impactada por ser a estreia, não só pelo facto de ser uma novidade para o público, mas também por ser uma novidade para eles, já que estão a descobrir como é que o texto chega a quem está do outro lado. Creio que, ainda que de um modo indireto, há uma dose de vulnerabilidade a pairar e é mesmo interessante perceber como é que a confiança de ambos se vai fortalecendo.

O Pedro e o Carlos estão habituados a pisar o palco e a apresentarem os seus solos de comédia, só que existem diferenças quando o conceito se transforma numa dinâmica em dupla: é preciso dividir o tempo, os holofotes, a interação, até, as emoções. E acho que é, precisamente, aqui que a amizade os agarra, porque há uma provocação mútua, uma vontade de puxar pelo outro e, acredito, de o tentar surpreender. Por mais que as intervenções sejam polidas a cada novo espetáculo, o fator surpresa, sinto, prevalece.

O facto de também ficarmos sempre na dúvida em relação ao que faz parte do guião e ao que sai dessa linha é outro fator que torna o momento único, sobretudo, tendo em conta que são fluentes na arte do sarcasmo. Ademais, fico sempre surpreendida com a capacidade de não perderem o norte, encarando com naturalidade os percalços, e essa é mais uma das razões para gostar tanto de ir às primeiras datas. Naturalmente, já que são dois artistas de quem gosto muito, torço para que nada falhe e tenham a noite que merecem, mas é normal existirem detalhes a precisarem de ser limados, que só ficam claros com a presença de uma plateia, e vê-los a lidar com leveza é um excelente sinal.

Não duvido que o último espetáculo seja a sua melhor versão, mas, mais do que focar os seus segmentos, permitam-me antes referir que a estreia de Conversas de Miguel foi a prova de que a amizade é um gatilho poderoso, porque só ela permite honestidade e momentos de desconforto, porque só ela permite entender os silêncios, os olhares e as pontes. E acredito que o projeto resulta tão bem em qualquer formato que o queiram manter por causa disso, por serem dois amigos a dedicarem-se ao que fazem melhor.

O espetáculo esteve bastante alinhado com aquilo que já conhecemos, mas é notória a atenção à narrativa, o critério e a coerência. Sem prometerem nada, entregaram tudo e foi impossível não me rir do início ao fim. Não obstante, posso ter ficado emocionada com o final de Conversas de Miguel, uma vez que eles sabem tirar-nos o tapete e deixar-nos boquiabertos. Voltem sempre que puderem, porque não dispenso estas conversas.

Fotografia da minha autoria


A melancolia do outono prefiro vê-la de perto, como se fosse a extensão de um verso, a quietude de uma palavra suspensa num pensamento a ser processado ou que deixamos partir. E Júlio Machado Vaz, com a sua sapiência que não larga a mão da sensibilidade com que encara o Outro e a Vida, levou-me para esse quadro intimo no seu novo livro.


 a viver todas as estações interiores

Outonecer, escrito como quem nos conta um segredo valioso, como quem nos embala na melodia de um verbo que só ele poderia bordar, é feito de partilha e de introspeção. O médico psiquiatra trouxe para a mesa algo «que se aproxima, passo a passo» e para o qual «não há fuga possível»: o envelhecimento e os medos que traz no regaço. Só que esta reflexão confessional, por vezes sombria, também arranja espaço para prosperar e ser um «hino a todas as estações do ano», porque, mesmo sabendo que não é eterno, a vida continua a sorrir-lhe e há qualquer coisa de inebriante no amanhã que se escreve.

O que mais me fascina em Júlio Machado Vaz, para além do conhecimento e de toda a generosidade, para além da abertura para debater vários assuntos e quebrar muros, é a sua capacidade de seguir associações livres e dar espaço a pensamentos que «nunca se [lhe] ofereceram alinhados». Já tinha adorado essa abordagem no livro que li antes, À Escuta dos Amantes, porque acompanha o tom que reconhecemos em projetos como O Amor É (com Inês Meneses) ou Old Friends (com Manuel Sobrinho Simões), mas, acima de tudo, porque, tal como um ouvinte lhe disse, «enquanto o doutor hesita, eu penso».

«O mirandês pode ser difícil, mas o tripeiro, por uma estranha alquimia, não descobrindo o ouro conseguiu transformar em interjeições palavras ofensivas da honra de quem as ouve e da boa educação de quem as profere. Também por isso o Porto é uma «naçom», carago!»

Nesta obra, transita entre o passado, o presente e o futuro, recupera as memórias «dos que já não estão», aclama o amor pelos filhos, pelos netos e pelos animais, sem deixar de parte as amizades, a música, as viagens e todos os vínculos que as estreitam, até os menos óbvios. Em simultâneo, partindo de cenários pessoais, leva-nos a refletir sobre sexualidade, atualidade política, inseguranças e, inclusive, inteligência artificial, sem guiões, sem filtros, como se estivéssemos só a participar numa conversa entre amigos.

Outonecer mostra-nos que «o outono chega depressa», que existem medos e angústias transversais e que a passagem do tempo nos «convida a olhar para dentro», mas Júlio Machado Vaz borda palavras como quem transforma a vida num permanente poema, como quem olha para o Porto e sabe que, nos seus incontáveis tons de cinzento, existe sempre beleza. Sem ocultar receios, mas escudando-se nas diversas formas de amor — e das recordações que nos acalentam —, sinto que encontrei um novo verbo favorito, porque, se for para outonecer desta maneira, haverá sempre um horizonte para onde olhar. Eugénio de Andrade afirmaria que é urgente o amor. Júlio Machado Vaz, creio, concordaria, completando que é urgente vivermos todas as nossas estações interiores.


 notas literárias
  • Lido entre: 25 e 27 de janeiro
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Não ficção
  • Banda sonora: Eu Vim de Longe, Eu Vou Pra Longe, José Mário Branco | Walk On The Wild Side, Lou Reed | Penny Lane, The Beatles

Fotografia da minha autoria


A educação é um dos pilares da humanidade e, por esse motivo, beneficiamos quando as componentes cívica e letiva se fundem. Infelizmente, temos assistido a um declínio da «qualidade da escola, do ensino e da formação profissional», tão vitais, nos últimos anos, o que comprova as várias ramificações da crise que continuamos a viver. É neste «contexto que nasce a série O Grito», uma obra de ficção inspirada na realidade do país.


 considerações iniciais

A narrativa é construída a dois tempos: no presente, enquanto acompanhamos Sofia a investigar as causas do suicídio da irmã, Vitória, e no passado, recorrendo a flashbacks que nos permitem ter acesso à vida de Vitória, uma professora bastante dedicada à sua profissão, tantas vezes a interferir com a esfera familiar, desequilibrando interações e o modo como os laços se iam estreitando — ou ficando lassos. Através do sofrimento do filho, do marido e da irmã, descobriremos «o peso emocional que teve de pagar».

Sinto que é sempre complicado compreendermos a origem, que gatilho espoletou esta decisão tão definitiva, e que talvez seja mais simples encontrar culpados, para sermos capazes de racionalizar, de compartimentar, de unir as pontas que permanecem soltas. Só não sei se isso apazigua a culpa de sentirmos que não estivemos atentos aos sinais ou se apenas a intensifica, porque ficamos preso à noção de que falhamos às pessoas que amamos. Mas, logo de seguida, ficam a ecoar outras questões: ainda que víssemos os sinais, até onde é que poderíamos ir para impedir este desfecho? Conseguiríamos?

A saúde mental é um dos assuntos com maior foco, não obstante, partindo do contexto escolar, é uma série que nos permitirá pensar mais fundo sobre dinâmica entre pares, bullying, pertença, aparências, a necessidade de estabelecer limites, as dificuldades de um setor a estenderem-se para outras áreas e, claro, o valor da educação em Portugal.

Uma das personagens, numa determinada situação, acaba a dizer que «o pior é quando as pessoas olham para nós e não nos veem» e, tendo em conta tudo o que aconteceu no primeiro episódio e para onde poderá escalar, sinto que O Grito será muito sobre isto.


 considerações finais

As fragilidades humanas podem ser profundas e, nesta série, são retratadas ao detalhe. Apesar de parecer que se divide por temas várias vezes abordados (o que não invalida a pertinência dos mesmos), é a forma como a narrativa se constrói que nos envolve no desenrolar dos acontecimentos e nos leva a questionar a integridade das personagens.

O suicídio de Vitória é o pretexto para vermos tudo aquilo que tem sido ignorado, é o gatilho para questionarmos, para lutarmos, para estarmos atentos aos sinais, por mais subtis que eles sejam. Nem todos os finais serão como o da professora, felizmente, no entanto, a sensação de uma dor tão profunda que não pode ser calada de outra forma é uma realidade bastante mais frequente do que seria desejado. E, depois, escala na sua complexidade porque nos mostra a quantidade de pormenores obscenos que esconde.

Intercalando o passado e o presente, o que nos permite traçar o retrato de cada um dos intervenientes e conhecer as suas bagagens sociais e emocionais, confesso que houve algo a fazer-me desconfiar de uma das personagens, embora a sua construção nos desperte pareceres ambíguos: por um lado, podia ser só uma impressão errada, uma má interpretação dos factos, mas, por outro, havia qualquer coisa na sua postura que era inconsistente, havia um certo desfasamento a traí-la. E este pensamento ficou a ecoar até à revelação final, sem que, contudo, prejudicasse a experiência. Aliás, creio que a forma como foram introduzindo pequenos indícios desde o início ajudou a que a dúvida aumentasse, confrontando-nos com a nossa capacidade de interpretar pessoas.

Se o contexto deste suicídio já era, por si só, uma fonte de inquietação e de revolta, dei por mim muitas vezes a replicá-las em relação ao contexto educativo, pois a figura da diretora espelha tudo aquilo que abomino e que considero errado na profissão: agir de acordo com aparências, manipular, inverter prioridades, focar-se mais nos rankings do que nas necessidades da comunidade estudantil. Como é que o futuro da educação fica assegurado se tentam que sejam estes os seus pilares? Como é que alunos, professores e funcionários podem manter a esperança se são estes os valores que veem replicados? Embora pareçam tópicos isolados, estes desafios profissionais interferem no contexto familiar e, de repente, tudo se transforma em esforço acrescido, desgaste e angústia.

As narrativas paralelas levam-nos sempre de volta ao ponto de partida: à tentativa de perceber o que levou Vitória a terminar com a sua vida. Esta procura por respostas vai levar-nos até lugares sombrios, porque não fazemos ideia do que se passa na vida das pessoas que nos rodeiam, porque aquilo que nos mostram é apenas a superfície de um mundo desconhecido. Entre negligência, desvalorização e indisciplina, a série mostra-nos como existem tantas frentes ativas quando um problema nos bate à porta, porque os problemas dos outros não desaparecem, porque uma situação tão extrema como a morte de alguém próximo não anula a precariedade, o bullying, a carência de afeto, o alcoolismo, o consumo e a venda de droga. O tempo não para quando se tenta unir as pontas soltas, muito menos diminui o sofrimento daqueles que só querem esquecer.

Achei mesmo interessantes as ramificações desta série, atendendo que nos permitem refletir sobre vulnerabilidade, perda e presença, e sobre como é possível reconstruir vínculos afetivos no meio de dias tão ambíguos e dolorosos. Além disso, terminei cada um dos episódios a pensar em situações concretas (tentarei não revelar demasiado):

  • episódio um: até onde podemos ir para ajudar alguém? Qual é o limite?;
  • episódio dois: há sempre alguém a impor um caminho, a coagir, a manipular, a fazer prevalecer um jogo de interesses desonesto;
  • episódio três: a falta de comunicação pode ser extremamente violenta e ampliar remorsos e um sentimento de culpa. Por outro lado, é inqualificável a dor de não se ser capaz de perceber o que estava a acontecer, procurando prevenir;
  • episódio quatro: há quem aparente ter tudo o que precisa, mas a sua vida está tão vazia do que é o mais importante, como o amor e a atenção dos que ama, que tudo serve se sentir menos só. No fundo, é como se já não existisse algo a perder;
  • episódio cinco: como é que não se perde o encanto pela profissão se o futuro é tão incerto, se a desonestidade parece não ter limites? Como é que se segue em frente quando há tantas perguntas sem resposta e todas as pistas parecem levar a lugar nenhum? O luto parece sempre mais difícil de processar nestes termos;
  • episódio seis: a dormência, a revolta, a alienação turvam o discernimento e é importante sabermos acolher a dor do outro, mas também fico a pensar que não é justo aguentar ataques de fúria ou tratamentos de silêncio. Quando alguém está em sofrimento, tudo à sua volta parece menor, menos importante e tudo é válido para preencher o vazio que ficou, mesmo que isso leve a decisões pouco seguras;
  • episódio sete: há silêncios que escondem feridas profundas, traumas dos quais não se recupera. Como é que alguém consegue destruir a vida de outra pessoa e seguir os seus dias sem qualquer tipo de remorso, fingindo que nada aconteceu?
  • episódio oito: nunca é fácil descobrir algo que pode aumentar ainda mais a dor de um coração ferido, sempre a um passo do abismo. A dúvida instala-se, porque decidir entre contar a verdade e esconder pode ter repercussões irreversíveis, consumindo-nos por dentro. Acho que há um caminho que nos parece óbvio, quando vemos as coisas de fora, mas nunca haverá uma decisão certa, sobretudo se a motivação for proteger quem amamos.

O Grito surpreendeu-me, mas sinto que o final foi um pouco abrupto. Há pontas soltas que mereciam um desfecho, para compreendermos o verdadeiro impacto da situação, e preferia que alguns acontecimentos não escalassem tão rápido, ficando a impressão de que houve pressa para os concluir — creio que, à semelhança do que fizeram com outros indícios, teria sido mais valioso se os fossem encaminhando mais cedo naquela direção. Apesar disso, o argumento não perde totalmente a força da sua mensagem e deixou-me a pensar que as nossas pessoas compreenderão sempre os nossos silêncios.

Fotografia da minha autoria


A possibilidade de ficarmos a conhecer melhor áreas que adoramos é sempre valiosa e entusiasmante, isto porque, de repente, é como se abríssemos todas as janelas da casa e víssemos as coisas com outra luz. E, por isso, mergulhei no desconhecido e fui tentar saber mais acerca dos meandros do panorama musical, que João Gobern trouxe para o ensaio da Fundação Francisco Marques dos Santos, sendo a minha escolha de janeiro.


 a indústria musical em portugal

Tira o Disco e Toca ao Vivo, tal como um álbum que escutamos devagar, leva-nos numa análise pela musica industrial, em Portugal, e mostra-nos vários lados da equação. Se, antes, se «faziam concertos para vender discos», agora, o cenário parece ter invertido, uma vez que se «editam discos para conseguir concertos». Este arco evolutivo é já um indicativo interessante de como «a música mudou, até na forma como a consumimos».

O que é menos visível para quem é somente ouvinte, como é o meu caso, assume, aqui, um lugar de destaque. E o que achei curioso — talvez, pouco esperançoso, admito — é ver como algumas componentes continuam tão atuais. Seria expectável que, ao longo destes anos, as condições se tornassem mais seguras para os músicos, que existisse um respeito maior pela sua arte, no entanto, há linhas narrativas inalteráveis. O mercado está em expansão e, mesmo assim, é impressionante como os problemas/as carências parecem orbitar sempre nos mesmos planos, até porque aquilo que a evolução trouxe de bom continua a não ser utilizado, em primeira instância, para benefício dos artistas.

Quando João Gobern menciona como prática a ida a discotecas para comprar discos e ficar a par das novidades, num exercício de comparação com os tempos atuais, essa imagem transportou-me, de imediato, para as ocasiões em que entrava na Fnac e ia às secções com auscultadores para ouvirmos o que tinha saído e/ou para explorarmos o catálogo à disposição. Há uma parte de mim que tem saudades dessa magia; já a outra, acha espetacular que, ao ser mais fácil de aceder a trabalhos discográficos (nacionais e internacionais), o processo seja mais célere. Como alguém que continua a adquirir cd’s e vinis, queria ter ficado mais um pouco nesta memória preciosa que o autor partilhou.

Numa oscilação entre prós e contras, Gobern fez uma análise extremamente completa, focando-se em temas como o Napster, a transição do físico para o digital, os concursos de talentos, os streamings e os preços dos bilhetes para os concertos (e o descontrolo das revendas), entre outros, mostrando a pluralidade da indústria. No entanto, houve duas ideias que ficaram a ressoar cá dentro, porque penso nelas com regularidade.

«A progressiva perda de identidade cultural não parece incomodar os grandes decisores»

Num determinado ponto do ensaio, que me cativou logo pelos títulos dos capítulos, o autor focou-se na atenção que dispensamos às letras das músicas, porque existe quem acredite e defenda que a qualidade tem decrescido, argumentando-o com o recurso a um léxico que «elimina em vez de acrescentar». É certo que temos uma língua com um vocabulário rico e que usamos bem menos termos do que aqueles que existem, porém, sinto que este discurso só perpetua, ainda que de forma camuflada, um certo elitismo e a tentativa de transportar a música para um espaço onde ela não pertence, que é ser inacessível. Além disso, como Gobern referiu, e bem, essa visão é enviesada, porque, se fosse assim, «não teríamos excelentes desempenhos poéticos» em áreas como o rap.

Outro dos temas onde permaneci, por ser uma questão com a qual me debato sempre, foi nas quotas de música portuguesa a passar nas rádios nacionais. Primeiro, porque a necessidade de regular uma quota parece-me, já de si, um problema e não a solução e, segundo, porque faz-me genuína confusão vedar-se tanto o acesso aos nossos artistas — ou apenas se alargar o horizonte a meia dúzia de nomes. Acho importante que as playlists das rádios nos mostrem artistas internacionais (muitos deles, se calhar, não conheceríamos de outra maneira), porque esta abordagem cria pontes, porque é uma maneira de termos uma visão mais ampla das sonoridades, mas quantos muros estas quotas erguem a artistas nacionais? Quantos artistas nacionais passam despercebidos porque não existe uma curadoria equilibrada? Naturalmente, escutar mais ou menos música portuguesa não está unicamente dependente do que nos chega das rádios, até porque temos alternativas, mas é menos uma plataforma a estabelecer esse contacto.

Tira o Disco e Toca ao Vivo trouxe-me várias reflexões e sei que é daqueles livros onde quererei regressar: por um lado, porque gostava de perceber que existiram aspetos que ficaram datados e, por outro, porque João Gobern conseguiu elencar um retrato muito transversal deste universo, que terá sempre peso — e pertinência — pela sua história.


 notas literárias
  • Desafio: Ler ffms
  • Lido entre: 19 e 21 de janeiro
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Não ficção
  • Banda sonora: Impressões Digitais, GNR | Rio-me de Janeiro, They're Heading West & JP Simões | Há-de Passar, Deolinda

Fotografia da minha autoria

A emotividade agregada a um concerto pode reunir diversos motivos e, seguindo essa lógica, ter várias formas de se manifestar. Durante um longo período da minha vida, não cultivei o hábito de marcar presença nestes espetáculos ao vivo, apesar de ter na música uma aliada fiel, mas quando passei a fazer disso uma prioridade, dentro das minhas possibilidades, procurei sempre guardar recordações do momento. Como? Recorrendo a fotografias e a vídeos, guardados num álbum de memórias intemporal.

Há umas semanas, o Alexandre Guimarães utilizou as suas histórias de Instagram para nos convidar a ler um artigo que escreveu para a VAMMU Magazine, com o intuito de refletirmos acerca da necessidade de utilizarmos telemóveis em concertos. Do lugar de alguém que já o usou bastante e tentar usar só em pontos específicos do espetáculo, aceitei o repto indireto e mergulhei num ensaio de sensibilização — sem moralismos.


 o limite entre eternizar e condicionar

Começando por responder à questão que serve de mote para o debate — Precisamos assim tanto de telemóveis em concertos? —, sinto que depende. Por um lado, creio que não, não é algo imprescindível, porque o propósito será sempre minimizar aquilo que «desvirtua a experiência», elevando-a, mas, por outro, não sou capaz de fechar a resposta num não redondo e inflexível, atendendo a que compreendo quem o faça. E há tantos motivos associados: o querer eternizar, ser um lembrete de que se realizou um sonho, o lado saudosista que nos fará querer reviver aquele momento mais tarde.

Naturalmente, há, aqui, outro ponto que não pode ser retirado da equação, porque a minha experiência não é mais valiosa do que a de quem me rodeia, ainda para mais se estivermos a falar de concertos pagos. O bom senso tem de imperar em qualquer das circunstâncias, no entanto, seria ingénuo achar que este aspeto não pesa muito mais num espetáculo em que qualquer elemento do público adquiriu um bilhete para lá estar, sobretudo, porque o preço não inclui visibilidade reduzida por braços alheios. Portanto, seja qual for o impulso que nos leva a usar um aparelho tecnológico, nunca poderá ser maior do que o respeito por quem quer viver aquela experiência como nós.

A premissa não passa por «algemar a liberdade individual», nem por encaminhar a conduta para o «extremismo d[a] proibição», mas, antes, trazer para a mesa o impacto da passividade. Talvez o exemplo utilizado pelo Alexandre choque, se o retirarmos do contexto, porém, revela a força necessária para nos prender a atenção e para nos levar a questionar aquilo que implica. No fundo, ao sinalizar que não é novidade que a mão humana trave «a força das máquinas», impulsiona-nos a olhar para lá de uma camada superficial. Reparem, se assumir que é normal alguém passar uma hora, duas, o tempo que for de telemóvel em riste, condicionando quem está atrás, isso legitima que todas as pessoas da sala façam o mesmo. E, de repente, deixa de existir um palco, um artista e um concerto a acontecer, porque não somos mais do que uma continuação de ecrãs.

Confesso, no entanto, que consigo identificar um toque poético neste gesto coletivo: da mesma forma que me comove ouvir tantas vozes a cantar a mesma canção, também acho que há uma certa beleza em tantos braços que se elevam para eternizar um tema nas suas galerias, visto que demonstra que a mensagem chegou de um modo plural — ainda que, depois, cumpra propósitos distintos para cada um. Agora, claro, isto não pode ser um convite. Esta romantização que preferi traçar, reconheço, não pode servir como argumento para sermos permissivos em relação a um comportamento que acaba sempre por inibir e condicionar quem se encontra próximo. Aliás, a pessoa atrás de mim pode ter preferido não filmar e isso não indica que a música a emocione menos. Por isso, volto ao ponto central de tudo isto: não nos esquecermos de ter bom senso.


 arco evolutivo

O Alexandre refere, e bem, que «é importante não menosprezarmos aquele que é um ato de cultura a acontecer». Uma vez que sempre fui mais atenta à nossa — com maior incidência na música e na literatura —, escudei-me muitas vezes neste argumento, na vontade de partilhar aqueles que me inspiram, de partilhar aquele momento que, por ser ao vivo, se revestiu de uma aura única, impossível de reproduzir, estreitando laços com o artista. No blogue, isso já acontecia, contudo, tomou outras proporções com a newsletter. Embora não anexe os vídeos, gosto sempre de intercalar as palavras com registos fotográficos. Se tenho, forçosamente, de o fazer? Não tenho, apenas sinto que ajudam a ilustrar melhor a ocasião, mas procuro não perder a decência pelo caminho.

Eu sei que o ensaio não é para apontar dedos, não é uma crítica gratuita e transversal. Eu sei que o problema não está em quem doseia e é consciente no modo como vive o concerto, permitindo que os demais o vivam também, mas refletir acerca deste arco evolutivo ajuda-me a entender melhor as razões que me levam a determinadas ações.

Quando, há mais de dez anos, fui à Gafanha da Nazaré ver Os Aurora, sei que gravei todas as músicas (e ainda as tenho disponíveis no Youtube), com uma qualidade de imagem e de som péssimas, mas fi-lo, primeiro, porque estava na primeira fila e não corria o risco de incomodar terceiros e, segundo, por estar a guardar memórias. Anos mais tarde, quando vi Kaiser Chiefs, na Queima das Fitas do Porto, não fiz qualquer registo e isso entristece-me, apesar de as recordações permanecerem. A diferença, se calhar, prende-se com a maneira como posso minimizar as saudades: Os Aurora já não existem enquanto banda, mas sei que terei sempre aqueles vídeos a transportarem-me para épocas muito felizes; quanto aos Kaiser Chiefs, como não sei se os voltarei a ver ao vivo mais alguma vez, faz-me falta essa memória quase palpável onde regressar, para diminuir a distância. A minha envolvência com a música de um grupo e/ou artista não depende destes mecanismos, apenas gosto desta ideia de poder recordar, de ir aos álbuns no telemóvel e no disco externo e perder-me numa viagem sempre emocional.

Creio que, em parte, a vontade de gravar/fotografar estes momentos se vincula muito, por um lado, ao não querer perder fragmentos do que vivi e, por outro, ao facto de não dar por garantida a presença em concertos. E isto, com mais ou menos consciência, foi validando as minhas ações. Como é que passei a sentir que isto se podia transformar num problema? Quando parei para pensar do prisma de quem está em cima do palco, a dar corpo e alma ao espetáculo, e ressoou que não queria passar a vê-lo de um ecrã.

Nunca concordei com aquela máxima de que as melhores coisas não são registadas, já que, como refleti nesta publicação, não acho que registar os momentos nos impeça de os vivermos na sua plenitude, porque é a nossa presença que dita isso. Não obstante, é necessário equilíbrio, como em tudo, e em concertos, sem ter passado a abraçar uma visão antagónica, aceitei que podia explorar alternativas que condicionassem o menos possível quem me rodeia. Continuo a elevar os braços para apanhar menos cabeças, só que já não o faço durante uma música inteira (ou faço-o apenas naquelas que me leem por dentro) e retiro o brilho do ecrã. Se é o suficiente? Reconheço que talvez não seja, mas é um barómetro que me aproxima mais do bom senso do qual não quero abdicar.

A experiência de ouvir músicas que nos curam as feridas é sempre transformadora, no entanto, isso só é possível se estivermos investidos no concerto. Pessoalmente, adoro ir observando a sala e ver que somos tão diferentes na forma como o vivemos, mas que continuamos unidos por um fio invisível que só a arte sabe bordar. E, sim, não ver os telemóveis é agradável, porque parece que deixa de haver um filtro, mas qual será a solução para este flagelo? Proibir não acho que seja viável, continuar a depender do bom senso da humanidade soa-me a um trunfo imprevisível, mas, ainda assim, menos invasivo. Por outro lado, o Alexandre propôs uma abordagem que é capaz de garantir um pouco mais de qualidade: os artistas, sem que seja obrigatório, assegurarem «uma equipa focada em criar conteúdo digital». Desta maneira, «quem quiser rever o que ali aconteceu, terá essa hipótese». Sinto que é um bom compromisso, mas não há almoços grátis e este investimento pode acabar por implicar outro tipo de custos e de entraves.

Colocando de lado o vínculo afetivo, existe outro aspeto sobre o qual fico a pensar: o fator surpresa. Quando vamos a uma peça de teatro ou vamos ver um solo de stand up, por exemplo, há um cuidado maior com aquilo que partilhamos, para não estragarmos o texto, nem as dinâmicas, para não comprometermos a experiência aos que forem ver. Então, porque é que num concerto essas balizas parecem não existir? Porque motivo é mais aceitável documentá-lo com vídeos e fotografias que podem revelar parte daquilo que o artista queria que fosse surpresa? E, atenção, zero moralismos nestas perguntas, porque não me excluo do problema, trouxe-as para que sejam mais um foco de debate e para que me sirvam como mais um impulso para ser consciente no modo como vivo a arte ao vivo. No testemunho que concedeu ao locutor, Bárbara Tinoco destacou este cenário e creio que é difícil lermos as suas palavras sem pensarmos no quanto deve ser frustrante construir um espetáculo de raiz, compor cada detalhe e sentir que apenas o primeiro público será surpreendido. Se, por um lado, a partilha nas redes pode atrair ouvintes, por outro, pode levar a que parte do encanto se perca. Será que compensa?


 filmamos, fotografamos, partilhamos... mas revemos?

Recuperando uma ideia anterior, embora continue a defender que registar momentos não nos impede de os vivermos, concordo com o Alexandre quando declara que «há uma espuma de distração que arrasta a total entrega», atendendo a que «tudo continua a acontecer, mas não é igual». Nem poderia ser, já que há uns breves segundos em que o nosso foco se altera, quebrando a envolvência, o olhar cúmplice, a comoção. E dou por mim a pensar em todas as músicas que gravei, no compasso em que não estive tão presente para as eternizar; e dou por mim a pensar num cenário hipotético, onde teria a possibilidade de escutar a Foguetes ao vivo, por tudo o que significa e partilhei aqui, e sei que não, não quereria perder um segundo que fosse ou, melhor, não quereria que a minha atenção ficasse dividida entre pegar no telemóvel e a magia da canção. Agora, também acredito que possamos recuperar caso não desvirtuemos o propósito final.

Não sei até que ponto estamos a tentar ser videógrafos amadores, mas quero ir aqui: «percebermos que não vamos voltar a ver assim tantas vezes aquelas gravações», isto porque eu vejo. Não sei que valor representa este «tantas vezes», porém, regresso com regularidade aos vídeos que gravei, sobretudo se estiver há muito tempo ser ver aquele artista. O que filmei, sem qualquer espaço para dúvida, não ficou extraordinário, mas basta-me o primeiro acorde para ser transportada, para reviver (com outro impacto) o que senti, para estar grata pelo privilégio de ter assistido àquele momento, ainda para mais se o julgava impossível, como no caso dos Silence 4 ou dos Dealema. Regresso a vídeos que me enviaram, porque não pude estar presente, como o caso do concerto do Lhast no Meo Marés Vivas, porque esse cuidado atenua um pouco a ausência. Rever nunca será igual, é certo, mas apazigua qualquer coisa cá dentro que não sei definir.

Acredito que «haverá sempre mais brio ao optar por ser um espectador ativo», por isso é que fui diminuindo o tempo que passo de braços esticados, por isso é que já fiz as pazes com esta vontade de registar ao máximo com receio que se perca, porque existe magia no silêncio, nas luzes apagadas que nos envolvem numa intimidade particular.

Sei que não deixarei de gravar, da mesma maneira que sei que viverei cada concerto com a liberdade e energia que me exige, porque, sem demonizar práticas, sem elevar muros, não deixo de estar presente, nem de sentir que «estou [ali] com o artista e que, naquele momento, «não há nada mais importante» do que sentir na pele cada pedaço de história que nos está a contar — através das canções e da narrativa do espetáculo.

Debater este paradoxo parece-me sempre valioso. E se algum artista quiser alinhar «[n]uma sala sem telemóveis», como propôs o Alexandre, repitam-no no Porto, uma vez que tenho a certeza de que será uma oportunidade com memórias insubstituíveis.

Fotografia da minha autoria



O meu apreço pelas letras manifestou-se cedo e foi logo acompanhado por uma perdição por cadernos, blocos e tudo o que estivesse relacionado com escrita. Tenho presente memórias da minha secretária em frente à janela com várias folhas espalhadas e o gosto tremendo de me sentar nas cadeiras da minha sala da primária. Por oposição, não tenho qualquer lembrança relativa aos tormentos escondidos pelas margens vermelhas dos cadernos. Honestamente, acho que nunca tiveram esse efeito em mim, mas acho curioso que duas experiências possam levar-nos para lugares tão distantes.

Não estava nos meus planos regressar tão rápido a Elena Ferrante, tendo em conta que o ano passado li cinco livros da autora, mas foi a primeira proposta do Marginália, clube de leitura da Raquel Dias da Silva, e senti que fazia todo o sentido abraçar um livro com conceitos que me dizem tanto.


 nota introdutória

As Margens e a Escrita compila três palestras da autora, a convite de Constantino Marmo, «por ocasião das Umberto Eco Lectures», com o propósito de se debruçar no seu papel enquanto escritora, partindo de experiências individuais e visões mais amplas acerca desta arte. Além disso, inclui um ensaio focado em Dante, que encerrou o Congresso Dante e Alti Classici.

Parti à descoberta de mente aberta e fiquei logo surpreendida com o tom intimista dos textos, porque gosto muito mais quando o escritor partilha os seus pensamentos, as suas estratégias, os conhecimentos que vai adquirindo pela rotina ou no momento em que a decide transpor. 

Reunir um conjunto de dicas pode ser interessante (e muito válido), mas, para mim, tem mais impacto quando não enveredam por esse caminho e nos permitem aceder a um espaço privado, sempre único, até porque as vivências são diferentes para cada escritor. E, assim, fui avançando com ainda mais entusiasmo.


 a pena e a pluma

Elena Ferrante começa por refletir sobre a sua relação com a escrita, convidando-nos a fazer o mesmo. Neste ponto, achei delicioso como um aspeto simples teve a capacidade de despertar tantos debates internos. Como comecei por referir, não tenho qualquer memória de as «linhas verticais, uma à esquerda, outra à direita» dos cadernos terem sido um problema, mas isso mostra-nos como a mesma circunstância tem impactos distintos e acredito que é nesta partilha plural que compreendemos a extensão dos assuntos — e, também por isso, chegamos a lugares diferentes.

Pessoalmente, sempre achei graça a desenhar as letras e a mantê-las entre as margens, mas as linhas, para Ferrante, foram castradoras, atendendo a que havia uma consequência caso as ultrapassasse. Este retrato deixou-me a pensar no quanto é importante haver limites, mas que a forma como os procuramos impor nem sempre é a mais correta, adequada, até mesmo benéfica. Talvez seja uma visão dramática, mas este ponto de partida podia ter sido um motivo para que a autora se afastasse da escrita e, hoje, não termos este livro para debater (e, provavelmente, podia ter criado barreiras noutras áreas da sua vida). Quantas pessoas desistiram de algo pelo poder dos castigos, dos reforços negativos?

Nesta palestra escrita, também achei interessante a sua visão sobre a questão do pensamento, não só por ser uma prova da nossa identidade e individualidade, mas também por despertar um contraste entre disciplina e liberdade, entre domínio e quebra de normas.

Organizar o pensamento, torná-lo concretizável através das palavras, nem sempre é uma tarefa simples, no entanto, é no (des)equilíbrio do eu que vamos encontrando a nossa voz literária.


 água marinha

As margens podem ser uma forma de nos guiarmos, de nos orientarmos, mas transpô-las pode ser igualmente valioso, porque temos acesso a outros horizontes.

Nesta palestra, achei curioso como narrar a realidade consegue ser algo complexo, visto que somos um produto de vários estímulos. Portanto, quando tentamos descrever aquilo que vemos, por mais isentos que procuremos ser, isso será sempre condicionado por fatores distintos, desde crenças a estados emocionais. Fazer este exercício pode revestir-se de uma pontada de frustração, mas sinto que tem uma certa poesia, porque comprova que todos nós temos o poder de deixar uma pegada no mundo.

Transpondo este cenário para a escrita, Ferrante foi-se debatendo acerca da multiplicidade da escrita e da necessidade de nos inscrevermos no mundo para podermos escrever sobre ele. E esta imagem é mesmo fascinante, porque acho que também nos impulsiona a sermos inteiros naquilo que fazemos.


 histórias, eu

As palavras nunca são bem nossas, mas são as trocas com o mundo que ativam a imaginação, a subjetividade do olhar; são essas trocas que nos desbloqueiam, que nos constroem «enquanto sujeito e enquanto [autores]».

Partindo, talvez, de um «sentimento de inadequação», há, neste texto, uma perceção mais nítida daquilo que a influencia, do património literário que marcou a sua voz — porque o eu que escreve não se dissocia do eu que leu — e a constatação de que esse património ser maioritariamente masculino a encaminhou por uma rota diferente. Assim, percebe-se que a escrita, para além de tudo o resto, se transformou num ato de resistência, numa forma de metamorfosear a herança.

Outro ponto que retive foi que «escrever é tomar assento entre tudo aquilo que já foi escrito», por concordar, mas sobretudo por sentir que foi nesta palestra que nos abriu a porta para o seu momento de viragem, para a importância do «eu feminino que muda a História». Acompanhar esta transição foi inspirador.


 a costela de dante

Uma vez que nunca li Dante, foi a parte com que me relacionei menos. Sei que me falharam referências, ainda que consiga entender a pertinência da reflexão, porque Elena Ferrante é clara no discurso, é lógica nos seus raciocínios, mas acredito que terá outro impacto para quem estiver familiarizado com a sua obra.

Não obstante, retiro deste texto, por um lado, o quanto o amor em toda a sua pluralidade pode ter uma força visceral na escrita e, por outro, o impacto de uma figura feminina ocupar um espaço que lhe era vedado, incluindo na literatura. Além disso, achei mesmo curioso que, de um modo subtil, a autora nos vá confrontando com as quebras do cânone (ou como há aspetos que parecem resistir à passagem do tempo) e nos alerte para esse libertar da costela que vem de um legado tão enraizado, sobretudo para as mulheres.


As Margens e a Escrita será um livro para regressar, para absorver as camadas onde não fui capaz de chegar neste primeiro contacto, até porque fiquei mesmo rendida à(s) narrativa(s). O conceito de margem fascina-me, ou não tivesse um projeto com essa palavra no título, principalmente pela multiplicidade de contextos/significados e por oscilar num contexto que nos orienta num determinado curso, que nos dá amparo, mas que também nos pode restringir, caso nunca avancemos. E Ferrante impulsiona-nos a avançar.


 notas literárias
  • Desafio: Marginália
  • Lido entre: 15 e 16 de janeiro
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Ensaio
  • Banda sonora: sLo-Fi, Slow J (álbum) 

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