Entre Margens

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«Cozinhar é como tecer um delicado manto»


A mensagem implícita na expressão «comer sem culpa» deixa-me sempre reticente, porque pressupõe a ideia de que, em algum momento, perante as nossas opções alimentares, a deveríamos sentir. Pode parecer apenas uma questão de terminologia, mas prefiro que se apele a uma alimentação equilibrada, sem acrescentarmos estes conceitos depreciativos, atendendo a que as palavras pesam e que podem despoletar outros problemas.

Acredito, portanto, na possibilidade de irmos gerindo as nossas escolhas com consciência; na possibilidade de, numa refeição, priorizarmos somente alimentos saudáveis e, noutra, optarmos por outros mais calóricos. É uma questão de harmonia, percebendo o que nos deixa confortáveis e sem necessidade de nos cobrarmos.

Entre conversas e partilhas, cheguei à página Com e Sem Culpa, por causa de uma receita de bombons de chocolate que era muito rápida de fazer. Vocês sabem que a minha relação com a cozinha não é próxima, mas que adoro sugestões descomplicadas. Assim sendo, tive de a experimentar. E já percebi que será para repetir.


🍴 BOMBONS DE CHOCOLATE


Ingredientes
- 1 banana madura;
- 100 gr de chocolate preto.

Modo de Preparação
- Triturar a banana;
- Derreter o chocolate no microondas;
- Adicionar à banana e triturar novamente;
- Verter em formas de silicone;
- Levar ao frigorífico durante 4h/6h;
- Desenformar e saborear.

Notas
- Caso não tenham trituradora, podem usar a varinha mágica;
- Se nunca tiverem derretido chocolate no microondas, aconselho duas opções: ou irem colocando em períodos de tempo curtos, para garantir que não queima, ou optarem por derretê-lo em banho maria;
- Esta quantidade rende para seis formas [duas colheres em cada];
- Não tinha formas de silicone, portanto, improvisei com folhas de papel vegetal; 
- Uma ideia interessante pode ser verter o preparado em copos de shot, criando a ilusão do bombom.

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«Uma demonstração fantástica de criatividade»

Avisos de Conteúdo: Suicídio, Morte, Sexo, Linguagem Explícita


O ser humano procura sempre ultrapassar os seus limites, superando-se no engenho ou na arte mais pura do desenrasque. Como portuguesa minimamente consciente do seu fado, mas correndo o risco de cair no estereótipo, parece que temos um dom no que ao último aspeto diz respeito. Num mundo onde a necessidade de se reinventar e desembaraçar é uma constante, o romance de Valter Hugo Mãe é prova dessas fragilidades.


UMA NARRATIVA COMICÓ-TRÁGICA

O Apocalipse dos Trabalhadores narra a história de duas empregadas de limpeza, carpideiras profissionais nas horas de maior aperto - e afeição por desconhecidos. Tendo em conta o desencanto das suas vidas e a tragédia que paira perto de ambas, talvez fosse inevitável a desmotivação e a parca vontade para procurar apontamentos aconchegantes. Porém, contrariando o expectável, fazem por descobrir caminhos de felicidade.

«fala comigo. diz-me coisas diferentes. fala-me de coisas 
que me pareçam ontem. ontem é que estávamos bem»

A experiência de leitura foi menos cómica do que esperei, isto porque, de acordo com a crítica, é a obra mais divertida do autor. Sim, achei graça a algumas intervenções das protagonistas e à própria ligação entre ambas, mas, de um modo geral, senti a história melancólica, dura, com um profundo pesar por tudo aquilo que podia ter sido e não foi. Retratando o lado precário de certas profissões e trabalhadores, Valter Hugo Mãe leva-nos por rotas imprevisíveis e mais emotivas do que racionais, com o intuito de encontrar um propósito afortunado.

«por amor, estavam todos dispostos a tudo»

Fico sempre encantada com a escrita do autor, tão própria e tão poética, e com as premissas que tece em cada narrativa. No entanto, estava à espera de outra abordagem e, por consequência, de ser arrebatada por estas vidas suspensas. Ainda assim, é inegável a sua pertinência, até por explorar temas como as diferenças de classes e de género, as saudades e a fé; e por conceder espaço a personagens peculiares, genuínas. A prudência e o bom senso não são o mote que as rege, contudo, são todas feitas de generosidade. E de amor. 


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«It's the most wonderful time of the year»


A magia do Natal manifesta-se em vários fragmentos. E um dos mais evidentes envolve sonoridades distintas, que se preparam com elegância para a ocasião. Se, ao longo do ano, a música acompanha a minha rotina, sendo-lhe essencial, na quadra natalícia torna-se ainda mais imprescindível, pois aconchega o ambiente.

Seja de manhã bem cedo, antes de deitar, a decorar a casa, na cozinha ou a embrulhar presentes, as melodias selecionadas unem-se num elo comum. Por isso, e porque uma das facetas mais bonitas e especiais desta época é a partilha, deixo-vos com quatro álbuns que têm marcado presença no meu gira-discos imaginário.

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«Ler dá sonhos»


O ato de pegar num livro e desligar do mundo traz-me conforto, porque me permite abrandar, sem me preocupar com rotinas e horários. E isso é, no mínimo, bastante saudável para o meu equilíbrio emocional.

Há, no entanto, um aspeto que aprecio e que, neste cenário, pode ser um contrasenso: narrativas céleres, que me envolvem ao ponto de as ler quase num suspiro - porque sinto que o autor a interligou na perfeição. Talvez por esse motivo vá priorizando géneros como as crónicas e os contos, por serem uma junção desses fatores.

As opções supracitadas potenciam-me dois cenários: intercalar leituras mais densas ou, então, ter uma alternativa para quando quero ler, mas a predisposição temporal e mental não me permite um período de leitura demorado. Por norma, tento mesmo fazer render estes livros, para absorver os vários contextos que agregam, mas nem sempre sou capaz, porque a escrita é tão encantadora - e os temas tão pertinentes -, que prossigo como se de uma história de ficção se tratasse. E, ao longo de 2022, tive alguns casos desta natureza.

Portanto, para pessoas com pressa [porque são textos curtos] ou que não têm pressa alguma [porque podem levar meses até serem terminados], partilho seis exemplares maravilhosos que me fizeram companhia.


CASOS DO BECO DAS SARDINHEIRAS, MÁRIO DE CARVALHO


A minha estreia na obra de Mário de Carvalho não podia ter sido mais gratificante, porque este livro é uma preciosidade. Para além da escrita maravilhosa do autor, os onze contos têm uma ironia e um humor que aprecio; e fascinou-me embarcar neste bairro com tantas histórias insólitas e hilariantes. Há expressões muito próprias [que acredito que sejam ainda mais queridas a quem for de Lisboa ou tenha adotado a cidade como sua], o que torna a leitura intimista, e personagens que, facilmente, poderíamos encontrar perto de nós, visto que têm características muito portuguesas. Fiquei com vontade de visitar este Beco das Sardinheiras.


COM O HUMOR NÃO SE BRINCA, NELSON NUNES


TW: Linguagem Explícita, Referência a Depressão

O plano dos bastidores, aquele acesso privilegiado ao processo antes de vermos o produto final, fascina-me, porque acredito que nos permite tem uma visão mais ampla do propósito e da essência do mesmo. Portanto, ter esta oportunidade no que diz respeito ao humor é a cereja no topo do bolo. Nelson Nunes fez um trabalho excelente ao reunir humoristas conhecidos da nossa praça, fazendo-o de uma forma descomplicada, mas sem deixar de tocar em feridas e nos preconceitos pelos quais foram [e vão] passando. Embora partam todos dos mesmos temas centrais, é interessante perceber como é que observam e vivem o humor; é interessante perceber de onde partiram, quais os sucessos e os fracassos e quais as curvas que já ultrapassaram. Além disso, achei pertinente a abordagem em relação à ausência de mulheres na comédia - ou, melhor, à sua parca aparição -, atendendo a que, direta ou indiretamente, comprova a desigualdade que ainda se faz sentir. Deambulando pelos processos criativos e pelos [não] limites do humor, estas páginas levam-nos numa conversa a várias vozes, proporcionando-nos momentos inesquecíveis - e memórias absolutamente hilariantes.


LEVANTE-SE O RÉU, RUI CARDOSO MARTINS


TW: Homicídio, Incesto, Pedofilia, Violência doméstica, Maus Tratos, Linguagem Explícita

A narrativa secundária de Causa Própria [série transmitida pela RTP] tem como ponto de partida as crónicas de Rui Cardoso Martins, que, durante 17 anos, assistiu «a mais de 700 caos de justiça em sessões públicas de tribunal». Naturalmente intrigada, priorizei esta leitura e fui conquistada pela forma como o autor nos narra as histórias, envolvendo-nos num ambiente trágico, cómico, bizarro e revoltante. Porque há textos que nos deixam perplexos com o seu desenvolvimento e consequente desfecho. Aliás, há situações tão surreais, que quase duvidamos da sua veracidade. Mas aconteceram. E são um retrato fiel da vida dos tribunais portugueses. Por outro lado, angustia conhecer os contornos de certas situações, até porque continua a existir uma proximidade chocante com o presente. Equilibrando um traço ora inocente, ora caricato, estes registos fazem-nos refletir sobre o rumo da nossa jornada, sobre as nossas escolhas e sobre quem somos em sociedade - com ironia.


LEVANTE-SE O RÉU OUTRA VEZ, RUI CARDOSO MARTINS


TW: Referência a Sexo, Homicídio, Incesto, Pedofilia, Violência Doméstica, Racismo; Linguagem Explícita

A maneira como o autor narra as histórias já me tinha conquistado no volume anterior, Levante-se o Réu, porque tem um tom irónico que nos retira da perplexidade provocada pela maioria dos acontecimentos descritos. À semelhança do que encontramos no livro supracitado, regressamos aos tribunais portugueses para acompanharmos mais cem casos reais, com pessoas e crimes verídicos, apenas protegidos na sua identidade, para não provocar dissabores delicados. Envolvendo-nos num ambiente surreal, ora trágico, ora cómico, voltei a refletir sobre as nossas atitudes; sobre o quanto as circunstâncias e a urgência de sobreviver nos toldam o discernimento, e como tudo o que se torna num vício nos deixa frágeis e à mercê de uma força maior do que nós. E sobre o quanto nem sempre temos o devido acompanhamento por parte das entidades competentes.


JALAN JALAN, AFONSO CRUZ


TW: Morte, Linguagem Explícita

É inacreditável como Afonso Cruz consegue criar tantas imagens e realidades nas suas narrativas, de um modo tão coerente e harmonioso; e como consegue, neste caso específico, levar-nos por uma viagem à volta do mundo e ao traço mais intimista de quem somos. Porque estes textos, que nos permitem deambular sem sair do lugar, mostram-nos os diferentes tipos de viagem, ao mesmo tempo que nos permitem aprender tanta coisa acerca de culturas e personalidades distintas. Com muito humor à mistura, Jalan Jalan é uma obra de arte, à qual regressarei mais vezes - quando precisar de ir. Não me importaria de viver dentro destes enredos.


AQUÁRIO, CAPICUA


TW: Referência a Morte, Violação

O mergulho neste Aquário revelou-se mágico e uma experiência enriquecedora, porque a Capicua tem poesia na alma e consegue, com muita pertinência e empatia, envolver-nos nos assuntos mais diversos. E mesmo quando estes não nos servem, por não os vivenciarmos [como a maternidade, no meu caso], há um laço que nos une, que nos deixa predispostos a escutar/a ler, já que se torna quase palpável o seu entusiasmo ou o seu inconformismo; o seu fascínio pelas pequenas coisas ou a fúria perante cenários que diminuem o outro. Dividido em crónicas, pequenos textos, poemas e letras de canções, é um livro ao qual farei por regressar: porque me revi em pensamentos e sentimentos e porque, aqui, tive a doce sensação de estar em casa.


«Maria Graça era toda bondade
Nela vivia a mais pura verdade
Feita de sonhos e ingenuidade
Menina e moça de boa vontade
Mal sabia a sua sina
Era tão boa menina
Feliz no dia em que casou
Pois nunca imaginou
Que ali morria a vida que sonhou
De Maria Graça, mulher sofrida
A cara batida e a marca escondida
Corpo encolhido no grito do medo
Pobre coitada sofria calada
Avisou, tentou fugir
Quem havia de acudir
Num país de homens há que consentir
Pobre Maria Graça, vista um dia na praça
Tentou esconder, ninguém queria ver
Ela era a própria desgraça
Morreu espancada ao chegar a casa»

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«(...) uma versão alternativa do nosso passado, com ecos no presente»

Avisos de Conteúdo: Morte, Referência a Suicídio, Violência


O percurso da nossa História não é isento de especulações. E os resquícios do Estado Novo ainda povoam na memória dos portugueses. Imaginem, agora, que, desde o regime ditatorial à [não] participação de Portugal na II Guerra Mundial, sem esquecer os milagres de Fátima, tudo mudava. Seria a realidade alternativa melhor ou pior? Talvez não cheguemos a uma resposta única, mas esse exercício é possível no livro de Hugo Gonçalves.


AFASTAR SALAZAR, ABANDONAR A NEUTRALIDADE

Deus, Pátria, Família, cujo título nos remete logo para os princípios conservadores que nortearam Salazar, envolve várias frentes: políticas, sociais e religiosas, mostrando um contexto ligeiramente diferente do que é conhecido. E é nesta desconstrução, com um toque distópico, que o autor nos faz questionar o que é historicamente verídico ou meramente ficcional. Nesse sentido, acompanharemos a sua liberdade criativa.

«(...) para perceber que o desterro da sua viuvez não tem volta, 
que para certas estirpes de solidão não se conhece a cura»

Um aspeto que achei fascinante prende-se com o facto de existirem muitos acontecimentos verosímeis. Mesmo que deambulemos por cenários improváveis, percebemos que todos eles poderiam ter marcado o nosso passado, enquanto nação. Portanto, interligando um mistério policial com uma saga familiar, num jogo de simbolismos e analogias subtis, somos desarmados pela escrita e pela construção minuciosa do enredo.

«Num país em que as principais causas de homicídio são o adultério, os ciúmes e a honra, 
as mãos dos homens estão entre as armas mais populares para matar mulheres»

Uma morte suspeita, uma neutralidade desfeita e um forte sentido de justiça [que procurará afastar António de Oliveira Salazar do poder] são apenas três dos ingredientes que tornam este livro tão viciante, tão magnético.


UMA PREMISSA IRREAL

A premissa irreal abre, ainda, portas para uma crítica sagaz à religião, principalmente, católica. Porque imperam valores duvidosos, vidas feitas de pressões e de fachada. E tudo isto é transversal aos pilares que sustentam a narrativa. Por isso é que detetamos o tom irónico, de intriga e de conspiração, que pretende desentorpecer o leitor e levá-lo a questionar vários momentos e comportamentos. Assim, destacando a portugalidade do século XX, «os tempos são estranhos», mas navegamos nos ecos que vieram agitar Portugal.

«Concentra-se naquilo que podes controlar. O trabalho e a retidão de caráter. 
A resistência e a dignidade. Mas nunca te esqueças que aqueles que não têm 
escrúpulos vão aproveitar-se dos teus escrúpulos para te passar a perna»

Deus, Pátria, Família retira-nos de um lugar de conforto e confronta-nos com inúmeros estilos e sensações. Por esse motivo, somos envolvidos numa viagem transcendente - e, no mínimo, original. Feito de silêncios, de camadas e de múltiplas teorias, também nos mostra a importância de nos sabermos colocar no lugar do outro.


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«Que fique para trás o que não faz falta»


Já não falha
Não treme
Não dói

Já não me lembro
E nem é amor

E isso
Em repetição
É só a certeza
Da ausência

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«Presenteie quem ama»


Os desejos vão-se materializando nas peças mais distintas, dependendo das nossas preferência/necessidades. Já passei por várias fases, portanto, as listas foram sofrendo metamorfoses, mas também já aceitei que nem tudo tem de ter um propósito funcional: há lembranças que ambicionamos pelo entretenimento, pelo conforto ou por representarem uma memória inesquecível - e qualquer razão é válida.

O cuidado de quem nos oferece algo continua a ser o mais importante. E não preciso de presentes megalómanos para perceber que se preocupam comigo ou, então, que me estimam. Ainda assim, reconheço, há artigos que não me importaria de receber. Numa seleção aleatória, foco algumas das minhas paixões.


Agora É Que São Elas! - Agenda 2023, Clara Não



Sweatshirt "O Que Me Faz Querer Voltar" - Encore Tour, D'ZRT



Midnights, CD Taylor Swift


Vela Bergamotto, Natura



Kit "Leiam, Suas Porcas", Joana Costureira x Livra-te



Gift Box F.R.I.E.N.D.S, Purple Pineapple Design



Gira-discos Portátil, Create

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«A arte de contar histórias»


Os livros não se medem aos palmos. O ditado tem outro sujeito, mas adaptei-o, porque acredito que é possível tecer uma narrativa com poucas palavras: as necessárias para emocionar. Além disso, por mais que o meu coração pertença às letras e aprecie perder-me nestas viagens escritas, prefiro quando não se enredam em descrições que apenas provocam ruído, pois sinto que, assim, se foca a mensagem em todo o seu esplendor.

Na minha caminhada literária de 2022, cruzei-me com livros relativamente pequenos, mas cujo impacto é de extrema importância pelos temas que abordam, já que são vitais para o ser humano e para o seu crescimento. Deste modo, para não correr o risco de revelar em demasia, estragando a experiência de leitura de terceiros, optei por compilá-los no mesmo segmento, transmitindo o que me fizeram sentir, mas sem desvendar tudo.

São, ao todo, seis magníficas obras, que aconselho pela pertinência, pela magia e por nos enriquecerem.


AVENTUREIRA MARIELLE E O DIA DA FOTOGRAFIA, NUNA


Uma história encantadora, que se lê num sopro, mas que transmite uma mensagem importantíssima sobre aceitação, inclusão e amor próprio. Há características que contam parte da nossa história, mesmo que não nos definam por inteiro, por isso, é essencial sentirmo-nos representados. Porque é uma forma de quebrarmos barreiras e preconceitos; e porque é, também, uma maneira de as pessoas sentirem que as suas ideias, valores e inseguranças são válidos e partilhados por tantos outros. Pode ser um recurso de trabalho valioso.


PARDALITA, JOANA ESTRELA


TW: Referência a divórcio e suicídio

Arrisquei nesta banda desenhada às cegas, sem saber o que esperar, e fui surpreendida por uma história cómica, comovente e com um tom leve, que nos centra em questões importantes. Com imagens de uma beleza extraordinária [quer ao nível da ilustração, quer ao nível dos cenários para os quais nos transportam], acompanhamos uma viagem de autodescoberta, com todas as dúvidas, inseguranças e borboletas na barriga que a caracterizam. Fiquei com vontade de ler mais, porque a autora tem uma escrita bonita, fluída e direta.


A RAINHA DO NORTE, JOANA ESTRELA


TW: Depressão

Joana Estrela, partindo da lenda das Amendoeiras em Flor, escreveu uma história sublime sobre a depressão. A narrativa é célere, com algumas repetições que nos transmitem esperança, e com ilustrações lindíssimas. E, mais importante, alerta-nos para a necessidade de escutarmos o outro, de reconhecermos que precisamos de ajuda e de sermos acompanhados pelos profissionais mais indicados. Rendi-me por completo a esta obra.


A MINHA MÃE É A MINHA FILHA, VALTER HUGO MÃE


A crónica é antiga, mas só agora, que se transformou em livro, é que a descobri. E fiquei enternecida com o amor que carrega nas suas palavras. Valter Hugo Mãe é um dos meus escritores-casa, porque tem uma capacidade fascinante para criar cenários ora envolventes, ora surreais; e porque há sempre poesia naquilo que escreve. Esta obra não é exceção. Aliás, é na simplicidade do conto que encontramos o que há de mais belo na relação com o outro. Esta narrativa é uma clara homenagem à mãe, mas também é uma maneira de valorizar - e dar destaque a - todos aqueles que assumem o compromisso de cuidador. O caminho nem sempre é fácil, mas há memórias que compensam tudo o resto, uma vez que espelham os sentimentos mais puros.


A CONTRADIÇÃO HUMANA, AFONSO CRUZ


O olhar atento do narrador, uma criança bastante curiosa, mostra-nos as contradições que nos habitam. E, com humor, ironia e astúcia, faz-nos refletir sobre as dicotomias da nossa existência. Recorrendo a alguns jogos de palavras, a ilustrações encantadoras e a diferentes tamanhos e estilos de texto, envolve-nos nestes contrastes, que parecem tão óbvios, mas que, no entanto, se revelam sempre uma surpresa. Além disso, é uma obra excelente para aguçar o pensamento, para despertar a vontade de olharmos para dentro e para nos deixar mais interessados em relação ao que nos rodeia e aos comportamentos que tendemos a alimentar de uma forma quase mecânica. É um livro encantador, ideal para miúdos e graúdos, bem ao estilo de Afonso Cruz.


PARA QUE FIQUE BEM ESCURECIDO, SANDRA BALDÉ


TW: Racismo, Bullying; Referência a Abusos Sexuais

Um livro extremamente necessário, que é tanto uma denúncia, como uma carta de amor: próprio e a todas as mulheres negras. Através da protagonista Kadi, Sandra Baldé explora questões como a tentativa de aprovação, a vulnerabilidade, a segregação, o feminismo branco, a representatividade, o ativismo e a identidade que vai sofrendo metamorfoses ao longo do tempo e das circunstâncias - mas há muito mais dentro das suas palavras; dentro das entrelinhas de uma realidade que continua condicionada pela sociedade. É um relato bastante honesto, que nos transporta para problemas raciais e feridas sociais e que impulsiona a empatia. Esta obra nasceu de um sonho. E, por ser um manifesto tão pertinente, permitirá que outras mulheres ergam a sua voz.

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«Vivi mais nos livros do que em qualquer outro lugar»


A minha definição de mimar inclui sempre livros, sejam eles emprestados ou oferecidos, porque acredito que é um gesto que denota lembrança, atenção e cuidado em relação aos outros e às suas preferências. Portanto, em épocas-chave ou em momentos espontâneos, priorizo-os como forma de demonstrar o meu apreço.

Pelo mesmo princípio - e porque adoro a possibilidade de me perder em infinitas histórias e registos narrativos -, fico bastante sensibilizada quando, ao desembrulhar o presente, encontro um novo exemplar. Assim sendo, se me quiserem surpreender ou estiverem à procura de inspiração para surpreender alguém, trago uma versão atualizada da minha lista de desejosos livrólicos, com cinco autores portugueses e cinco autores estrangeiros.


CINCO LIVROS DE AUTORES PORTUGUESES

 Mãe, Doce Mar, João Pinto Coelho 
«Depois de passar a infância num orfanato, Noah conhece finalmente Patience, a mãe, aos doze anos. Mas, apesar de ela fazer tudo para o compensar, nunca se refere ao motivo do abandono; e, por isso, seja na casa de praia de Cape Cod, onde passam temporadas, seja no teatro do Connecticut onde acabam a trabalhar juntos, há um caminho de brasas que teima em separá-los mas que nenhum ousa atravessar».

 Do Outro Lado, Mafalda Santos 
«E se não existisse apenas uma realidade? Uma história de amor, um vírus mortal, uma mentira avassaladora. Gabriel e Sara conheceram-se e imediatamente apaixonaram-se. Viveram uma semana de amor até que Sara desapareceu. E com ela a rua dela, o prédio onde vivia, tudo. Gabriel procura-a, desesperado».

 Caminho Rumo ao Eclipse, Tiago Bettencourt 
«Dentro deste livro há portas para fora dele, e nessas portas há filmes com canções, também elas portas para onde o leitor, ou espectador e ouvinte, esteja disposto a ir».

 O Lixo na Minha Cabeça, Hugo Van Der Ding 
«De Juliana Saavedra, a psicanalista que deixa os pacientes na merda, a Celeste da Encarnação, velha mas moderna, passando pel’ As Aventuras da Dra. Messalina, Duas Amigas, Dois Astronautas, Dates From Hell e muito, muito mais, sem esquecer - curiosamente - Esteves & Marina e as suas mocas de erva: eis uma seleção altamente criteriosa dos melhores e piores bonecos de um homem que não sabe desenhar, mas por acaso até se safa a mandar umas bocas».

 A Menina Invisível, Rita Cruz 
«É numa casa aristocrática que Alice acorda um dia, sem memória da violência que a trouxe até ali e sem saber que foi salva pelo menino Pedrinho, o filho do conde. Alice tem um segredo que Pedrinho descobre na noite em que quase a perde: ela pode ser invisível».


CINCO LIVROS DE AUTORES ESTRANGEIROS

 Maus, Art Spiegelman 
«Maus ("rato", em alemão) é a história de Vladek Spiegelman, judeu polaco sobrevivente de Auschwitz, narrada por si próprio ao filho, o cartoonista Art Spiegelman. O livro é considerado um clássico contemporâneo da BD. Foi publicado em duas partes: a primeira em 1986 e a segunda em 1991. No ano seguinte, o livro ganhou o prestigioso Prémio Pulitzer de literatura».

 O Dicionário das Palavras Perdidas, Pip Williams 
«Em 1901, descobriu-se que faltava a palavra “escrava” no Dicionário de Inglês Oxford. Esta é a história da menina que a roubou. Esme nasceu num mundo de palavras. Órfã de mãe e irreprimivelmente curiosa, passa a infância no Scriptorium, um barracão de jardim em Oxford onde o pai e um grupo de lexicógrafos dedicados selecionam palavras para o primeiro Dicionário de Inglês. Esme acompanha tudo a partir do seu lugar, debaixo da mesa, sem ser vista nem ouvida. Um dia, um pedaço de papel contendo a palavra “escrava” cai ao chão. Esme apanha-o e esconde-o na velha caixa de madeira da sua amiga, Lizzie, uma jovem criada de servir na casa grande. Esme começa a reunir outras palavras do Scriptorium, palavras descartadas ou negligenciadas pelos homens do dicionário. Palavras que a ajudam a entender o mundo».

 Nadar no Escuro, Tomazs Jedrowski 
«Da embriaguez do primeiro amor à melancolia silenciosa do crescimento e da separação, este livro é uma combinação potente de romance, intriga e história. Lírico e sensual, envolvente e intenso, Nadar no Escuro explora a liberdade e o amor em todas as suas encarnações».

 Na Terra Somos Brevemente Magníficos, Ocean Vuong 
«Na Terra Somos Brevemente Magníficos é a carta de um filho à mãe que não sabe ler. Escrita quando o narrador não tem ainda trinta anos, a carta evoca o passado de uma família e narra uma história que tem como epicentro o Vietname, desvendando aspetos da sua vida que a mãe nunca conheceu e levando a uma inquietante revelação final».

 A Camareira, Nita Pose 
«Molly, a camareira, está completamente sozinha no mundo. Sim, está habituada a ser invisível, e é isso mesmo que também é no Regency Grand Hotel, onde, todos os dias, dobra roupa, faz as camas dos quartos de lavado, põe miniaturas de champô e pequeninos sabonetes nas casas de banho, limpa o pó e os segredos que os hóspedes deixam para trás quando fazem check-out. Ela é apenas uma camareira - porque haveria alguém de reparar nela?».

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