Entre Margens

Fotografia da minha autoria



«Trago sempre no peito o que contigo aprendi»


A música é uma das constantes da minha vida. Cá em casa, há sempre playlists e álbuns para acompanhar vários momentos da rotina e não perco a oportunidade de me cruzar com novas sonoridades, por isso é que, todas as sextas, vejo os lançamentos no Spotify, porque é uma forma de manter perto vários artistas.

No fim, compreendo que crio uma autêntica manta de retalhos, com vozes e géneros distintos, mas é este registo que funciona comigo, já que consigo ir alternando consoante a predisposição. Acho mesmo enternecedor como um tema nos emociona, como um disco muda o nosso estado de espírito. É através da música que também encontro guarida para as minhas emoções. Portanto, estreito sempre laços com esta arte.

Em traços gerais, o meu 2023 soou assim:

🎧 Géneros mais ouvidos: Pop Português, Indie Português, Hip-Hop Tuga, Pop e Rock Português;
🎧 Ouvi 1735 músicas, mas a mais ouvida foi A Festa, do Edmundo Inácio, com um total de 121 streams;
🎧 Top 5 das músicas mais ouvidas: A Festa (Edmundo Inácio), Lugar Certo (Iolanda), Carro (Bárbara Bandeira & Dillaz), 1 Casa 2 Portões (Filipe Karlsson) e Do Avesso (Inês Marques Lucas);
🎧 Minutos de audição: 42 050;
🎧 Artista mais ouvido: Richie Campbell (1191 minutos de audição);
🎧 Outros artistas no pódio: Bárbara Tinoco, Iolanda, Carolina Deslandes e Eu.Clides.

Fiquei surpreendida com alguns dados, outros foram óbvios. Por isso é que gosto de ver o Spotify Wrapped. Para complementar a aventura, decidi destacar músicas soltas e os álbuns que marcaram o meu ano.


 as músicas

🎧 Pé Descalço, Domingues;
🎧 A Festa, Edmundo Inácio;
🎧 Nasci Maria, Cláudia Pascoal;
🎧 Do Avesso, Inês Marques Lucas;
🎧 Tudo Bem, Lázaro;
🎧 Chakras, Ivandro & Julinho KSD;
🎧 Underwater, Frankieontheguitar, Van Zee & Diogo Piçarra;
🎧 A Melhor Versão de Mim, Firgun & João Couto;
🎧 Colãs, Dillaz;
🎧 Descompromisso, Tomás Adrião;
🎧 Carro, Bárbara Bandeira & Dillaz;
🎧 Tête-À-Tête, Mónica Teotónio;
🎧 1 Casa 2 Portões, Filipe Karlsson;
🎧 Amigos Com Benefícios, Rita Rocha;
🎧 Teu, Diogo Piçarra;
🎧 Pontas Soltas, oputovitor;
🎧 Maçã, Rita Costa Medeiros.


 os álbuns

🎧 Caos, Carolina Deslandes
A mistura de sonoridades e abordagens permite-nos conhecer um lado mais intimista e desfragmentado da Carolina, porque também é importante conversar sobre mágoas, fragilidades e feridas amorosas. Neste caos que, por vezes, é a vida, a cantautora entregou um disco «raivoso», vulnerável, honesto e poderoso.

🎧 Heartbreak & Other Stories, Richie Campbell
A fusão entre R&B, Dancehall e Afrobeats, na qual Richie Campbell brilha, abre-nos a porta para cantarmos sobre amor, desgostos e valorização pessoal. Não obstante, também reserva espaço para uma crítica social atenta. A sua identidade musical é inconfundível, mas sente-se o crescimento do último álbum para este.

🎧 Cura, Iolanda
O nome do álbum é bastante elucidativo da viagem sonora que nos espera, porque os temas que o integram «fazem parte de um processo de cura», fazem parte desta jornada frágil e melancólica que podem ser as relações amorosas. Portanto, o disco é a sua catarse, a despedida e a emancipação. Mesmo que demore.

🎧 Declive, Eu.Clides
Uma jornada de altos e baixos, cheia de movimentos oscilantes e de descoberta. Com uma sonoridade mais introspetiva, espelha desafios pessoais, fazendo deles a sua rampa para lidar com situações de maior ansiedade. Nestas canções tão distintas e complementares, conhecemos um pouco mais da sua história.

🎧 Bichinho, Bárbara Tinoco
Bichinho foca-se em várias etapas das relações humanas, independentemente da sua natureza, por esse motivo, tem tanto de catártico, como de esperançoso. Consegue ser ternurento, amoroso, mas também visceral. E demonstra bem que nunca seremos um só traço: existem inúmeras versões que nos habitam (aqui).

🎧 Estava no Abismo Mas Dei Um Passo em Frente, Pedro Mafama
Este álbum é um desafiar de limites, de transpor fronteiras. É uma ponte que nos traz mais vivacidade e cor à banalidade dos dias. Há muita alegria e identidade portuguesa nestas músicas, o que também nos leva numa viagem intemporal. Feito, também, de contrastes, não nos faltam razões para refletir e, sobretudo, para dançar.

🎧 De Sombra a Sombra, Milhanas
O título é explicativo por si só, uma vez que, neste álbum, Milhanas explora todas as suas sombras, todos os seus lamentos. O suposto não é ser uma ode à tristeza, mas, antes, um autorretrato, por isso é que se torna tão relacionável. Feito de verdade, nesta voz cheia que arrepia, é para ser descoberto de peito aberto.

🎧 Os Quatro e Meia ao Vivo no Estádio Cidade de Coimbra, Os Quatro e Meia
Não posso deixar de reforçar que me sinto sempre plena a ouvir Os Quatro e Meia. Já que não pude estar presente neste concerto, ter acesso ao álbum que dele surgiu é maravilhoso para atenuar distâncias.

🎧 Afro Fado, Slow J
O álbum do ano, sem qualquer hesitação, para mim. Numa ode à sua - nossa - geração, explora novos recantos musicais, influências do passado que nos pesam e/ou que nos impulsionam e ajudam a contar a nossa história. Tem sido companheiro diário, porque, fazendo sobressair as suas raízes, abraça-nos a todos.

🎧 do.mar, Van Zee
Uma transição entre a casa e o mundo, entre aquilo que nos deixa confortáveis e nos inspira a arriscar. São 21 temas para descobrirmos, 21 temas que procuram traçar identidade e inovação, num equilíbrio perfeito.


Que músicas/álbuns marcaram o vosso ano?

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«Nada acontece de forma aleatória»


As retrospetivas do meu ano precisaram de sofrer alguns ajustes, porque eu mudei, alinhei-me com outras preferências e quero que essas pequenas metamorfoses se reflitam naquilo que partilho no Entre Margens.

É bom olhar para trás, num equilíbrio melancólico e saudosista, e perceber que nos encontramos em detalhes. Por esse motivo, senti que tinha toda a lógica largar a mão do «12 meses, 12...» para acolher os favoritos do ano. Porque, no fundo, sempre foi disso que se tratou: escolher apontamentos que levaremos para a vida.

Durante este processo de seleção, percebi que algumas coisas não encaixavam num grupo específico, portanto, abracei essa diversidade e reuni fragmentos aleatórios (uma estreia) que trouxeram magia a 2023.


 almanaque sincero
A newsletter semanal do Guilherme Fonseca, do Pedro Durão e do Duarte Correia da Silva. Todas as terças-feiras, recebemos um e-mail com três textos, de 250 palavras cada, com temas bastante diversos. O tom descontraído e humorístico - ou não fosse essa a área deles - dá logo uma energia diferente ao dia.

 passata
Este restaurante italiano fica na Maia e foi uma descoberta incrível, graças a dois amigos. O ambiente da sala e o atendimento conquistaram-me, mas não me posso esquecer da comida maravilhosa: comi a Pizza Mar e Monti, picante como eu adoro, e finalizei com uma Panna Cotta com Calda de Frutos Vermelhos.

 pessoas partidas partem pessoas & desengatados
Não é segredo que gosto imenso da escrita da Sofia e que me perco nas suas reflexões, sobretudo, quando se foca no lado humano das relações (seja qual for a sua natureza). Esta publicação escalou muito rápido para a lista de favoritos. Além disso, no seu podcast Crise de Identidade, criou um segmento chamado Desengatados, que se foca no surpreendente mundo das dating apps. Foi dos projetos que mais gostei de acompanhar.

 tripé hama
A fotografia tem um espaço muito importante na minha vida, por isso, há investimentos que pretendo fazer. Comprar um tripé era um deles. Não precisava de algo profissional, mas queria uma opção viável e este da Hama pareceu-me o mais adequado às minhas necessidades. Veio mesmo revolucionar os momentos em que fotografo para o blogue, porque me dá mais liberdade e consigo explorar outras perspetivas.


 tote bag alma lusitana
O desejo de ter uma tote bag alusiva ao Alma Lusitana foi aumentando e a Joana Costureira deu-lhe forma. O cuidado durante todo o processo fascinou-me e, assim que recebi o saco, apeteceu-me logo usá-lo. Anda comigo para todo o lado, até porque une mundos que me dizem muito e é bastante resistente.


 receipt bookmark
Já tinha ouvido falar dos marcadores da Daniela e decidi arriscar. Preenchi o Form 3, criando um marcador de raiz com elementos que são a minha cara. Adorei o resultado e tem acompanhado várias das minhas leituras.


 merch
Cheguei à conclusão que tenho investido mais em merch de artistas/pessoas que admiro, porque também é uma forma de apoiar o seu trabalho. Neste grupo, destaco a t-shirt, o saco de pano e a hoodie dos D'ZRT, a t-shirt do Tomás Adrião (aquela laranjinha era irresistível) e o saco de pano e o crachá do Livra-te.

      

 clube mulheres escritoras
Mulheres escritoras juntaram-se para dar visibilidade à arte no feminino. Esta iniciativa incrível chega-nos através de duas newsletter mensais (uma mais informativa e outra mais literária) e de uma porta aberta para escutarmos as suas vozes e as vermos a conquistar o lugar que merecem (acompanhem aqui).

 a breve história de um corpo que não sabe sê-lo
A Daniela surpreende-me sempre com a sua criatividade, porque pensa fora da caixa, porque tem uma visão poética de detalhes mais mundanos e porque consegue articular isso muito bem, num equilíbrio harmonioso. A Breve História de Um Corpo que Não Sabe Sê-lo, um livro-palimpsesto, é prova disso.

 rabanada especial miss pavlova
A Miss Pavlova tem um lugar especial no meu coração, mesmo que não a visite tantas vezes. Numa das últimas idas à loja da Ribeira, provei a rabanada especial - rabanada com brioche hokkaido, leite creme & telha de amêndoa - e sei que encontrei um favorito de vida. Que delícia! Por mim, podem mantê-la na carta habitual.


 kind kitchen
É um restaurante vegetariano/vegan na Rua de Ceuta, no Porto. Achei o espaço encantador, muito harmonioso, que evidencia o lema da casa: «Be kind to every kind». Adorei tudo! Tenho mesmo de regressar.

      

 cd os quatro e meia
O concerto d' Os Quatro e Meia no Estádio Cidade de Coimbra foi gravado e saiu em CD duplo. Sendo esta banda uma das minhas favoritas, faço questão de comprar todos os álbuns, porque ficam memórias únicas. Este veio acompanhado de uma caderneta de cromos, o que tornou o objeto ainda mais especial.

   

 calendário 2024 & ilustrações do fred gomes
Foi através de uma publicação sugerida no Instagram que fiquei a conhecer o Calendário que o Fred Gomes criou: 12 coisas a não esquecer em 2024. Como não resisti ao artigo, aproveitei para também encomendar a ilustração Uma casa não é feita de paredes. Rendi-me assim que a encomenda chegou. Para ajudar no encanto, acrescentou mais duas ilustrações, o que me parece de uma tremenda generosidade.

   


Que fragmentos aleatórios destacariam?



«Uma casa não é feita de paredes»


Os almoços de domingo tornaram-se mais silenciosos, mais distantes, revestidos numa ausência que ainda pesa. Na televisão, ecoa um qualquer filme romântico da Fox Life e eu parei para ver, quando o protagonista afirmou que se podia colar o que foi quebrado. Será que podemos? Ficará tudo igual? É que o meu peito desfeito ainda procura formas de ser reconstruído.

Houve tanta coisa a mudar, rotinas que perderam sentido e até o silêncio deixou de ser confortável. Agora, agradeço a algazarra que me impede de afundar em pensamentos sombrios, mas nem sempre consigo estar presente no momento; muitas vezes, sinto-me só a existir fora do corpo, como se estivesse a assistir à realidade de longe. E agradeço o cuidado de não me resgatarem, de me deixarem só respirar à tona, respeitando um tempo que não sei quanto durará.

Durante a quadra natalícia, é tudo mais duro, mais angustiante. O lugar vazio é um lembrete constante de um futuro por acontecer. A casa já não é decorada a dia 8, é quando calhar, quando os dias são mais leves ou quando, sem justificações ou pedidos de permissão, chega alguém e resolve o assunto. Libertarem-me destas formalidades é refrescante e, acima de tudo, uma bênção, porque tu adoravas o Natal e eu não preciso de fingir forças que não tenho. Abrir a casa, assumindo que a vida prossegue, é o máximo que consigo dar.

As conversas sucedem-se, há diálogos que se atropelam e eu deixo-os por uns instantes. Preciso de sair, de estar longe desta felicidade onde sinto que não encaixo - ainda não. O céu está estrelado e os meus passos levam-me até ao único local possível. De olhar envergonhado, arranco margaridas de um jardim anexo e coloco-as sobre a tua campa. Nunca imaginei que este lugar de árvores frondosas se transformasse quase numa casa a céu aberto, para a qual regresso sempre que as saudades apertam. Feliz Natal, meu amor.


Feliz Natal a todos 🎄


- o Natal é mágico, mas nem sempre é uma quadra fácil, sobretudo, quando nos faltam pessoas à mesa ou a família não é um lugar seguro. Se precisarem de conversar, estou à distância de uma mensagem -

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Uma viagem literária para descobrirmos autores portugueses

- a publicação contém links de afiliada -


A viagem do Alma Lusitana, em 2024, está quase a começar e os autores que a iniciam já foram incluídos na tbr de janeiro. Tal como mencionei nesta apresentação, tenho uma lista de nomes para descobrir e uma lista de nomes que já li e recomendo. Assim, vou conhecer Anabela Mota Ribeiro e recomendar Ricardo Araújo Pereira.


ANABELA MOTA RIBEIRO

Nasceu em Trás-Os-Montes, em 1971, e tirou o mestrado em Filosofia, na Universidade Nova de Lisboa. Jornalista freelancer, autora, apresentadora, programadora cultural e membro do Conselho Geral da Universidade de Coimbra são áreas do seu entusiasmante currículo. A título de curiosidade, entre outros projetos, assinou a curadoria da Feira do Livro do Porto em 2017, 2018 e 2020, com José Eduardo Agualusa.

      

📖 O Sonho de Um Curioso;
📖 Mário Soares - O Que Falta Dizer;
📖 Paula Rego Por Paula Rego (wook | bertrand);


      

📖 A Flor Amarela (wook | bertrand);
📖 Por Saramago (wook | bertrand);
📖 Os Filhos da Madrugada 1 (wook | bertrand);


   

📖 Os Filhos da Madrugada 2 (wook | bertrand);
📖 O Quarto do Bebé (wook | bertrand).


RICARDO ARAÚJO PEREIRA

Nasceu em 1974 e é licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica. O seu percurso começou no jornalismo, mas também passou - e passa - pelo guionismo. É um dos fundadores dos icónicos Gato Fedorento, escreve para a Visão e para a Folha de S. Paulo e podemos vê-lo, aos domingos, na SIC, com o programa Isto é Gozar Com Quem Trabalha. Finalizo com a indicação de já ter uma vasta obra publicada.

LI E RECOMENDO

   

📖 A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar (wook | bertrand);
📖 Estar Vivo Aleija;


   

📖 Idiotas Úteis e Inúteis (wook | bertrand);
📖 Ideias Concretas Sobre Vagas (wook | bertrand).

Outras obras do autor: 
O Futebol é Isto Mesmo | Gato Fedorento: O Blog | Boca do Inferno | Novas Crónicas do Inferno | A Chama Imensa | Mixórdia de Temáticas | Novíssimas Crónicas do Inferno | Mixórdia de Temáticas - Série Miranda | Reaccionário Com Dois Cês | Mixórdia de Temáticas - Série Lobato | Coisa Que Não Edifica Nem Destrói.


O Alma Lusitana tem grupo no Goodreads

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O meu ano em livros


O momento em que me sento para rever o meu ano literário é um dos meus favoritos, porque ler é uma atividade que me acalenta e, além disso, é uma maneira de me cruzar com alguns pontos que já não estão presentes. À semelhança de anos anteriores, voltei a alinhar-me com o Reading Challenge do Goodreads.

A minha meta estava nos 55 livros, porque era a quantidade que tinha por ler. Este ano, recuperei o book buying ban, para fomentar uma consciência maior na hora de comprar novos exemplares e para priorizar as obras que estavam na estante à espera de uma oportunidade. Para isso, também usufrui de clubes/desafios de leitura: o Alma Lusitana foi a minha prioridade, mas também me comprometi com o Clube Leituras Descomplicadas. Em simultâneo, participei em alguns meses do Clube do Livra-te e no desafio Ler a Diferença.

Olhando para trás, acredito que criar listas mensais também ajudou bastante no processo. Embora respeite a minha predisposição, porque continuo a ser uma mood reader, foi uma ótima estratégia para parar de adiar o encontro com histórias que comprei para serem descobertas. Por outro lado, percebi que aproveitar a minha hora de almoço para ler contribuiu para elevar o número de leituras. Honestamente, não é a quantidade que me interessa, porém, gosto desta noção de ter lido mais, de ter conhecido mais narrativas e vozes.

Foi uma jornada que me encheu as medidas. E diverti-me a registar particularidades que a tornaram mais enriquecedora, intimista. A cada novo ano vou-me descobrindo enquanto leitora e 2023 abriu portas incríveis!


READING CHALLENGE: CURIOSIDADES

📖 Livros lidos: 132, até ao momento, num total de 33 525 páginas;

📖 O livro mais pequeno: Os Pássaros, Afonso Cruz (32 páginas); 
📖 O livro mais longo: Obra Poética, Sophia de Mello Breyner (992 páginas);

📖 O livro mais popular: Orgulho & Preconceito, Jane Austen;
📖 O livro menos popular: Leva-me ao Teu Líder, Afonso Cruz;

📖 Mês que li menos: Março (7 livros);
📖 Mês que li mais: Agosto (16 livros);

📖 Dos 55 livros iniciais, li 54 e dei DNF a um deles (Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa);

📖 Fiz 8 releituras: Orgulho e Preconceito (Jane Austen), O Lugar das Árvores Tristes (Lénia Rufino), Bairro das Cruzes (Susana Amaro Velho), O Cultivo de Flores de Plástico (Afonso Cruz), Heartstopper 1, Heartstopper 2, Heartstopper 3 e Heartstopper 4 (Alice Oseman);

📖 Li 56 autores pela primeira vez;

📖 Autores que li mais: Afonso Cruz (8 livros), Alice Oseman (8 livros, quarto deles releituras), Maria Judite de Carvalho (4 livros) e Ana Pessoa (4 livros);

📖 [Sub]Géneros Literários: Romance (57 livros), Poesia (11 livros), Não Ficção (18 livros), Novela Gráfica (12 livros), Infantojuvenil (4 livros), Crónicas (12 livros), Contos (11 livros), Distopia (3 livros), Comédia Romântica (1 livro), Desenvolvimento Pessoal (1 livro), Ensaio (1 livro), Teatro (1 livro);

📖 Autores: Portugueses (65), Americanes (14), Moçambicanos (1), Suecos (1), Brasileiros (5), Ingleses (3), Britânico-Ganenses (1), Australianos (1), Nova-Iorquinos (1), Coreanos (2), Irlandeses (1), Bielorussos (1), Nigerianos (1), Venezuelanos (1), Iranianos (1), Franceses (2), Indiano-Ganadenses (1), Angolanos (1).


O MEU ANO EM LIVROS

   

   

   

   

   


Dezembro: Caronte à Espera (Cláudia Andrade), Os Vivos, o Morto e o Peixe Frito (Ondjaki), Aqui Dentro Faz Muito Barulho (Bruno Nogueira), Escritores & Amores (Lily King), Baiôa Sem Data Para Morrer (Rui Couceiro), Heartstopper 5 e Este Inverno (Alice Oseman), Obras Completas Volume III (Maria Judite de Carvalho).

Ainda quero terminar Obras Completas Volume VI, de Maria Judite de Carvalho, e gostava que a minha última leitura de 2023 fosse Revolução, do Hugo Gonçalves. Como foi o vosso ano literário?

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«(...) a ficção é uma necessidade»


O impacto de um livro não se mede pelo número de páginas que tem e é por isso que existem obras relativamente pequenas que continuam a ecoar na minha memória. Conseguir construir uma narrativa com poucas palavras é uma arte que me fascina, até porque preserva o ritmo certo e a capacidade de emocionar.

Em setembro, cruzei-me com um exemplar que encaixa neste grupo de livros pequenos com mensagens gigantes. Na reta final de 2023, descobri mais três. Assim, para não revelar demasiado, decidi agrupá-los.


SAL, JOÃO ANDRADE


A fotografia desta novela gráfica apareceu-me numa publicação no Instagram e despertou-me curiosidade. A capa é apelativa, enigmática pela expressão do rosto, mas foi o tema que me impulsionou a lê-la.

Sal é uma jovem de 14 anos, que vive na Ilha da Madeira com os pais. O ambiente familiar negligente implicou a intervenção da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens. De modo a conseguirem analisar o caso, o tribunal decidiu retirá-la para uma casa de acolhimento temporário. Confesso que houve algumas partes que achei um pouco confusas e a necessitarem de uma contextualização mais clara, no entanto, a forma como aborda uma realidade, por vezes, desconhecida, a forma como dá voz aos desafios que muitos «dos jovens enquadrados nessa realidade enfrentam» é uma chamada de atenção vital.

Num contexto negligente, onde impera a revolta, as oscilações de humor, o medo, a vergonha, até a culpa, esta obra deixa-nos a pensar sobre aquilo que se passa a dois palmos de nós e nós não vemos, sobre os traumas que encontram ainda mais conforto na dor, sobre as vidas que ficam desfeitas. Há muitas áreas cinzentas nestas personagens e achei isso interessante, porque quebra certos estereótipos.

Este é o primeiro volume e creio que existirão mais segredos. Fiquei com vontade de ler mais - não só para saber o desfecho, mas também pela possibilidade de ver desfeitas as dúvidas que ficaram por esclarecer.


LEVA-ME AO TEU LÍDER, AFONSO CRUZ


A Missão Democracia, coleção de livros ilustrados para crianças lançada pelo Parlamento, surge a propósito dos 50 anos do 25 de abril de 1974 e pretende abordar vários temas. Afonso Cruz é o autor do terceiro.

Leva-me ao Teu Líder parte de uma premissa simples, mas intrigante : o encontro entre um menino e um extraterrestre. A partir desse momento, encetam um diálogo sobre a «forma como cada um deles vive» e sobre os seus líderes. Atendendo a que o visitante não percebe o conceito de viver em sociedade, ainda para mais, «numa sociedade em que as decisões não são tomadas por uma única pessoa», o menino mostra-lhe essa realidade, em todos os compartimentos que «definem a sua essência».

Assim, conversam sobre eleições, sobre multidões que se manifestam na rua, sobre representação e sobre a importância de fazer perguntas, porque são elas que promovem a democracia. Aproveitando questões como «o que querem comer?», explora-se o seu significado, ao mesmo tempo que se destaca a universalidade dos direitos humanos, da própria dignidade humana e do quanto é fundamental «manter viva a plasticidade da democracia, para diminuir injustiças e assimetrias».

Neste livro, temos duas histórias a serem contadas em simultâneo: uma através das palavras, outra através das ilustrações. É na sua simbiose que os conceitos se tornam reais e que nos fazem sentir como parte de um todo. Nenhum deles «é uma invenção moderna», mas qualquer um deles pode ser comprometido.


O PRINCIPEZINHO E A MULHER MAIS FEIA DO MUNDO, AFONSO CRUZ


O Principezinho foi um dos primeiros livros que li e continua a ser um favorito de vida: pela delicadeza e pela intemporalidade. No entanto, há sempre um contraponto e é isso que Afonso Cruz traz para este ensaio.

O Principezinho e a Mulher Mais Feia do Mundo parte de um problema ético: «Quando o principezinho diz que são os laços criados com o Outro que importam e que é por eles que lutamos, nos trocamos, damos a vida, o que acontece a todos os seres que sofrem mas com os quais não criamos laços?». Nunca tinha analisado as coisas desta perspetiva, mas é uma questão pertinente. É aceitável o seu sofrimento? Não merecem a nossa empatia? Serão os seus problemas menores? Acho natural que nos magoe mais a dor dos nossos, por isso é que os vínculos que estabelecemos com eles têm esta magnitude, que tanto nos envolve em felicidade, como nos parece sufocar - ou deixar num estado de impotência, quando queremos ajudar e parece que não há algo que possamos fazer -, mas não deveríamos tentar ser mais isentos, enquanto sociedade?

O texto foi escrito em torno de uma ideia de justiça, a convite das Comédias do Minho, mas torna-se evidente que, embora o amor, a empatia ou qualquer outra emoção ajudem a corrigir o mundo, nunca poderão ser justas, porque haverá sempre «uma rosa mais importante», porque esta visão será sempre condicionada pelos nossos sentimentos. E, na maior parte dos casos, nem existe uma tentativa de diminuir os outros, é apenas uma maneira de cuidarmos daqueles que, ao descermos a montanha, percebemos que são a nossa raiz.

Em simultâneo, Afonso Cruz trouxe para a discussão a mulher mais feia do mundo, uma vez que «a beleza é uma conversa» e que complementa a ideia dos laços explorada por Saint-Exupéry. Há uma certa complexidade neste tema, porque a beleza depende de vários fatores, a começar pela ligação que estabelecemos com as pessoas. Cada um de nós tem um conceito de beleza ou fealdade interiorizado, mas a fronteira que os separa nunca é clara. Aquela pessoa pode, visualmente, ter um rosto que considero bonito, mas se tiver comportamentos inadequados passarei a olhá-la de outra forma. No fundo, é como se se transfigurasse, como se nunca a tivesse achado bonita. Este ensaio está muito interessante e mostra-nos que, nestas questões, não é a racionalidade que tem a palavra final: são os laços que criamos e que nos cativam.


ESTE INVERNO, ALICE OSEMAN


Gatilhos: Distúrbios Alimentares

Uma narrativa que nos permite refletir sobre a pressão que «a época mais mágica do ano» pode exercer, as dinâmicas familiares e o quanto um distúrbio alimentar não afeta só a pessoa, mas todos à sua volta.

Gostei que este livro apresentasse três perspetivas diferentes, mas acho que também beneficiaria se tivesse a voz dos pais - principalmente, a da mãe -, porque talvez nos ajudasse a compreender melhor as suas angústias e comportamentos; talvez nos ajudasse a perceber determinadas reações.

Os momentos em família nem sempre são um ponto de conforto e os motivos podem ser os mais diversos: podem existir incompatibilidades, pode existir falta de interesse, pode existir desconhecimento. Seja como for, nenhuma relação deve ser unilateral, deve existir comunicação, honestidade, cedência e respeito mútuos. Por mais complicado que seja, por mais que queiramos que os outros nos compreendam, não é justo pedir-lhes isso se não lhes mostrarmos como. Acredito que esta história contribui para encontrarmos esse equilíbrio.

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«Dilemas debatidos sem filtros»


A Nêspera começou por ser um podcast/uma websérie, que deu lugar a um espetáculo ao vivo e, mais tarde, a um musical, depois de Bruno Nogueira, Filipe Melo e Nuno Markl terem acabado e jurado nunca mais voltar. Mentiram descaradamente, porque «não tinham nada melhor para fazer». No entanto, na altura, compensou.

A premissa deste projeto é simples, afinal, só pretendem debater dilemas. O problema é que não têm filtros e os dilemas são moralmente questionáveis. Inclusive, Nuno Markl afirmou que este assunto «quase lhes destruiu as vidas e as carreiras», portanto, seria impensável, em 2023, resgatarem Uma Nêspera no Cu.

Errado! O trio responsável por este projeto de culto - e que é o maior pesadelo deles - reuniu-se e regressou com mais questões perturbadoras e muita insanidade, quando já ninguém acreditava ser possível. No Como é Que o Bicho Mexe, por vezes, houve pequenas recordações desses tempos. No próprio podcast do Bruno Nogueira, quando o Nuno e o Filipe são convidados, recuperam essa energia caótica, ainda assim, não achei que fosse viável voltar a tê-los no registo inicial da Nêspera. Fico feliz por reconhecer que estava enganada.


O que mais me fascina nesta ideia, ao fim deste tempo todo, é a ausência de filtros. É perceber que estão ali três amigos a conversar, sem estarem preocupados com o que os outros poderão dizer/achar, sem se policiarem nos diálogos, com receio de melindrar alguém. Tudo ofende toda a gente, mais cedo ou mais tarde, como o Bruno escreveu numa das suas crónicas, portanto, se estivermos sempre a medir as palavras, vamos deixar de comunicar uns com os outros. Pior, começaremos a parecer robots, porque sentiremos necessidade de polir o nosso discurso ao máximo. Ali, a ofensa não é gratuita, mas penso no início do espetáculo e sei que haveria quem se fosse sentir atacado. Revisito algumas passagens da noite de sábado e sei que cairiam mal para alguns. Se calhar, o mais fácil seria não regressar com este formato, embora o público da Nêspera saiba ao que vai. Mas, como também nunca seguiram o politicamente correto, é claro que teriam de ousar.

Agora que os vi em palco, reforço um pensamento: parecem miúdos a fazerem macacadas e a divertirem-se com isso; parecem miúdos inconsequentes, naquela fase da vida em que as nossas ações parecem ter pouco peso. Eles reproduzem conversas que poderiam ter em privado, conversas que qualquer um de nós poderia ter em família ou entre amigos, com a diferença que estão a atuar para uma sala lotada, num espetáculo que está a ser gravado. Mesmo que o guião seja construído para entreter, porque há dinâmicas pensadas, ritmos que não se podem perder e participações especiais, quando estão os três é tudo orgânico. Há liberdade e inocência, porque estão só a ser eles, sem se levarem demasiado a sério. Este formato talvez não funcionasse com outras pessoas, com eles resulta na perfeição: é que as personalidades deles complementam-se.

Não vou particularizar momentos por duas razões: 1) seria impensável escolher no meio de tantas pérolas; 2) eles ainda atuam dia 20, na Super Bock Arena, e, como não sei se repetirão alguma dinâmica/participação, prefiro não correr o risco de estragar a surpresa. Eu sabia ao que ia, não sabia o que ia encontrar e creio que essa é a magia do espetáculo. Ainda assim, tenho de partilhar uma nota: é preciso ter uma enorme consideração pelos três e por este projeto, porque não era qualquer artista que aceitava fazer parte do mesmo sabendo que estaria em palco segundos. Acho que isso diz muito sobre a credibilidade deste trio singular.

Uma Nêspera no Cu foi igual a si próprio: brilhante, com azares, muita javardice, angústias, música, telefonemas comprometedores e quase três horas a rir. Repetiria a experiência sem qualquer hesitação.

Fotografia da minha autoria



«Uma história de amizade e reencontro com a vida»

Gatilhos: Morte, Saúde Mental, Referência a Violência Doméstica


O título enigmático e a ação passada numa aldeia do Alentejo deixaram-me com vontade de descobrir a obra de estreia do Rui Couceiro. Além disso, na Feira do Livro do Porto, em 2022, tive a oportunidade de ouvir a conversa que o autor teve com Inês Fonseca Santos e achei interessante as temáticas que procurou incluir na narrativa. Um ano e uns meses depois, li-a, finalmente, e não foi tudo o que imaginei que pudesse ser.


ONDE SÓ GRASSA A MORTE

Baiôa Sem Data Para Morrer acompanha um jovem professor que, sem vínculo a uma escola, viciado no telemóvel e a enfrentar uma crise existencial, aceita mudar-se para Gorda-e-Feia, aldeia dos seus avós, e, deste modo, reencontrar-se com o seu destino. O objetivo é ficar uns meses, na casa destes familiares, que Joaquim Baiôa reabilitou, libertando-a da camada de abandono que, em boa verdade, parece povoar toda a aldeia. E, aqui, percebe-se que a desertificação tem peso na história, é uma preocupação que se enlaça aos pensamentos do narrador e das demais personagens. Portanto, junta-se «ao velho faz-tudo», para tentar recuperar um pouco da sua vivacidade. Gorda-e-Feia aparenta ter ficado esquecida aos olhos do mundo, mas a sua pacatez contrasta com uma realidade peculiar: é que a «morte insiste em sair à rua».

«Que distância existiria entre essas duas margens em que nos posicionávamos?»

Fiquei entusiasmada com a premissa, mas distanciei-me da concretização, porque dispersa por acontecimentos que não me parecem centrais para a história. Por norma, até aprecio narrativas lentas, que se focam na banalidade do quotidiano. Nem sempre leio para encontrar essa representação, mas gosto quando a ficção nos apresenta contextos credíveis. Neste livro não senti isso. Ou, melhor, até via várias destas situações a acontecerem, mas não precisava de descrições tão exaustivas para compreender a mensagem.

«Sentia-me a um pequeno passo de compreender o que sentem as pessoas que querem que a vida os deixe em paz»

O contraste entre o urbano e o rural, a questão do envelhecimento e, até, a modernidade que demora a chegar àquele lugar são aspetos que podem proporcionar uma reflexão pertinente, mas ficam ofuscados pelas sucessivas repetições e pelas rotas paralelas que o protagonista procura traçar. Além disso, reconheço que não adorei a sua voz, não adorei a forma como foi interpelando o leitor. Recordo-me de ouvir o autor referir que não tinha qualquer intenção de atribuir um tom moralista, mas fiquei com a impressão contrária. Há passagens em que o narrador parece mesmo colocar-se num patamar superior, como se soubesse algo que nós não sabemos e essa vantagem lhe trouxesse qualquer tipo de ascensão. Acho que lhe faltou mais humildade.

«São vívidas as recordações - como poderiam não ser?»

É um livro demasiado extenso, com incoerências e que se torna maçador na sua minúcia. Queria muito ter gostado, mas a promessa inerente à premissa é explorada de uma forma superficial. Acho que a escrita tem potencial e gosto da ideia de comunidade que Baiôa alimenta, unindo forças por um compromisso comum, mas estava à espera de ser arrebatada. Só para fechar com uma nota positiva: a justificação do título é fantástica.


🎧 Música para acompanhar: Tens Os Olhos de Deus, Ana Moura


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