Entre Margens



As leituras de junho permitiram-me cruzar narrativas como já não fazia há algum tempo, porque houve três que senti complementares, a abordar distintas camadas de um tema comum. Encontrar estas pontes entre livros deixa-me sempre entusiasmada, até porque possibilitam o contacto com perspetivas amplas, que talvez não tivesse sensibilidade para distinguir se isso não se verificasse. Os grandes responsáveis foram Tudo na Natureza Apenas Continua (Yiyun Li), Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno (Susana Piedade) e As Pequenas Chances (Natalia Timerman).

A título de curiosidade, li oito livros (um de poesia, dois de não ficção, quatro romances e um de auto ficção), comprei dois (As Pequenas Chances e o guião do espetáculo O Céu da Língua) e descobri quatro autores novos — Yiyun Li, Ricardo Peixoto, Natalia Timerman e Alex Couto. Os favoritos do mês foram Tudo na Natureza Apenas Continua, Também Há Rios no Céu e Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno.


 entrelinhas de junho


Avós e Netos, Ricardo Peixoto

Os versos «as estrelas são avós/vogando em trenós de prata/lá em cima a velar por nós» povoaram o meu pensamento, assim que defini o livro da Fundação Francisco Manuel dos Santos para ler este mês. Uma vez que junho é, para mim, símbolo de família, quis descobrir mais sobre um vínculo tão especial e optei pelo retrato do Ricardo Peixoto.

Avós e Netos é construído a partir «das contradições de muitos estudos existentes sobre [esta] relação (…) para questionar as condições» em que têm sido realizados, bem como «os factores e variáveis privilegiados». Por esse motivo, encontramos o ensaio dividido em três capítulos: o primeiro, focado nas hipóteses que a literatura reconhece como as que mais influenciam esta relação; o segundo, dedicado à análise da perceção que avós e netos têm do seu vínculo familiar e afetivo; o terceiro, pensado para entender a razão pela qual «tantos estudos apresentam resultados tão diversos», quase sem consenso.

É interessante verificar que «os avós e os netos desenvolvem uma relação diferente de todas as outras existentes numa família», talvez por cruzarem uma noção de passado e de presente, talvez por entrelaçarem «juventude e experiência (…) realidade e fantasia», talvez por continuar a existir uma figura de referência que incute responsabilidades e rotinas, mas de um modo mais despreocupado, equilibrando regras e brincadeira. Foi neste último ponto que dei por mim a pensar no quanto isso pode ser uma benção ou um problema, caso não exista uma comunicação franca, sobretudo, entre pais e avós, porque é fácil quebrar o fio educativo que os progenitores tentam construir. O ditado «os pais educam e os avós deseducam» tem o seu tom cómico, mas se não for levado à letra, porque as crianças precisam de estrutura e de uma dinâmica complementar.

Não conheci os meus avôs (o paterno faleceu, salvo erro, quando eu tinha dez meses e o materno faleceu no dia em que fiz quatro anos), mas tive uma relação próxima com as minhas avós (mais com a materna, porque vivíamos com ela), por isso, é curioso ler este livro agora, enquanto adulta que já perdeu todas estas pessoas, e tentar enquadrar as nossas vivências em alguns dos dados apresentados. Além disso, é interessante ver a quantidade de variantes que, sem que nos apercebamos, influenciam estes elos e as repercussões que podem ter. Portanto, é natural que os estudos divirjam, porque nós próprios divergimos: as minhas avós tinham visões semelhantes sobre vários assuntos, mas a mesma situação desencadearia sempre reações diferentes — ainda que, visto de fora, até parecessem iguais. Herdei características distintas de cada uma delas e dei-lhes versões diferentes de mim, porque uma estava comigo todos os dias e a outra via-me quando a íamos visitar. E por mais que isso fosse frequente, «a proximidade física» implicava uma quebra (pouco visível) no que entregávamos a este estreitar de laços.

Os avós têm múltiplos papéis no decorrer do nosso crescimento, porque são mentores, cuidadores, parceiros de brincadeira, porto de abrigo e, até, almas gémeas e esta visão é fascinante pelo que deixa implícito: ao assumirem estas funções, despertam em nós um conjunto de valências afetivas e relacionais que tornaremos transversais noutras relações, independentemente da sua natureza. Esta «transmi[ssão] de ensinamentos», que pode ser mais ou menos consciente, talvez seja uma das heranças mais bonitas.

Avós e Netos é acerca de tudo aquilo que pode aproximar e afastar esta relação, durante várias fases de desenvolvimento, alertando-nos para o quanto esse vínculo é moldado pelas construções sociais, por mudanças pessoais e por dinâmicas particulares, uma vez que também nunca dissociamos o lado emocional do lado racional. Apesar de ter gostado deste retrato, senti que algumas ideias se tornaram um pouco repetitivas — ou que a justificação para determinado aspeto orbitava sempre nos mesmos padrões. Ademais, acho que a obra beneficiaria se trouxesse testemunhos na primeira pessoa.



As Pequenas Chances, Natalia Timerman

O luto será sempre um terreno pantanoso. Talvez nenhuma experiência seja totalmente individual, porque há pontos comuns, há dores que se tornam transversais, há sinais que reconhecemos dentro desse quarto escuro que nos dilacera, mas a verdade é que ninguém vive o luto da mesma forma, porque precisamos de mecanismos diferentes para não descermos ao abismo ou para assumirmos que ficaremos por lá indefinidamente. E ler o livro da Natalia Timerman corroborou esta perceção. 

As Pequenas Chances é um romance de auto ficção «sobre o luto de uma filha após a morte do pai». À espera do seu voo, a narradora «cruza-se no aeroporto com o médico de cuidados paliativos que acompanhou o seu pai nos últimos tempos de vida». É este encontro inesperado que recupera memórias, «o assombro do tempo, a saudade» e todas as inquietações que a revestiram durante esse período de declínio, de tristeza, de oscilação.

Fartei-me de sublinhar passagens, sobretudo, das duas primeiras partes, porque me revi naqueles pensamentos, na sensação de vazio, na injustiça que nos ferve por dentro, mas também na tentativa constante de não ferir a figura paterna (neste caso) com um tom de mágoa, como se tudo o que se viveu antes não tivesse acontecido e não tivesse sido feliz. Sinto que este limbo será sempre estranho e difícil de gerir, mas, tendo em conta que é «uma história sobre vida, sobre estarmos aqui, mais sobre o que fica do que sobre o que passa», encontramos um discurso muito terno e lúcido, que nos mostra que o legado permanece.

As Pequenas Chances é um retrato bastante emocional e próximo, entre um processo longo de cuidados paliativos e os lugares que contam a história das nossas pessoas (incluindo a nossa). Confesso que dispensava a terceira parte, não porque não seja valiosa, mas por sentir que ficou um pouco desconexa das anteriores, ainda assim, não me esquecerei deste livro.



Sinais de Fumo, Alex Couto

Os últimos dias de junho estavam a pedir uma leitura menos densa, até porque vinha de algumas dentro do mesmo tema — luto — e precisava de uma narrativa diferente. Por esse motivo, arrisquei no livro do Alex Couto, que já queria ter lido o ano passado.

Sinais de Fumo leva-nos para «um dos bairros mais problemáticos de Setúbal», o Bairro do Viso, durante o tempo da Troika, quando este «se vê sem fornecimento de cannabis e derivados». O que aparentava ser uma situação complexa, revelou-se, pelo contrário, uma oportunidade de negócio, porque um grupo de amigos decidiu criar uma startup, a Green, com o intuito de ser ele a fornecer a erva na iminência de não chegar. Esta visão empreendedora, ainda assim, teve de enfrentar várias complicações e dilemas morais.

O enredo acompanha os protagonistas, mas fascina-me que um lugar seja capaz de ser tão central nas ações, como se fosse uma personagem e a sua identidade fosse uma voz de comando. Aliás, acredito que uma das reflexões mais pertinentes da obra é sobre o impacto que o sítio onde nascemos tem no nosso futuro, na pessoa que nos tornamos. As nossas decisões também se moldam nessas circunstâncias, mesmo que não seja de um modo consciente, uma vez que fazemos parte daquele contexto. Isso não significa que não seja possível alcançar novos horizontes, porém, há marcas que permanecem.

Admito que estava um pouco reticente com a abordagem, porque sinto que é fácil cair em descrições estereotipadas, redutoras, mas a construção inicial da narrativa e, até, a linguagem utilizada desfizeram esse receio: sem a revestir de lugares comuns, o autor tornou a história próxima, facilmente reconhecida, mas sem dar a entender que só há aquele caminho, aquele fim. É certo que algumas vivências se repetem, pelo contexto ou apesar dele, mas não é algo que se verifique como linear, muito menos inflexível.

Outro aspeto valioso é o tom crítico que o texto assume. Através destes protagonistas, a debaterem-se com questões de identidade, relacionamentos disfuncionais, dúvidas e períodos de solidão, mostra-nos que existem movimentações duvidosas, de profundo aproveitamento político, porque nem sempre há sentido de honra e o grupo acabará por perceber isso no meio de todo o fumo que lhes tolda o discernimento — mas que, de certa maneira, os deixa alerta para certos detalhes e jogadas turvas. Portanto, este livro é feito de simbolismos, sobretudo, quando nos parece que há partilhas inocentes.

Sinais de Fumo, apesar do seu caráter próximo e de trazer temas tão importantes para a discussão, não me prendeu totalmente, talvez por ter sentido que se alongou em partes menos relevantes e pela reta final da narrativa um pouco confusa. Não obstante, vale por todas as reflexões e por nos fazer pensar na necessidade de termos um propósito. Via este enredo a sair do papel para o ecrã, porque a escrita do autor é muito visual. 



 tbr de julho
  • Cidade Infecta, Teresa Veiga (alma lusitana);
  • As Vinhas de La Templanza, María Dueñas (3 autoras para 2026);
  • O Olhar Diagonal das Coisas, Ana Luísa Amaral (12 meses, 12 livros de poesia);
  • Benjamim, Chico Buarque;
  • Futebol, o Estádio Global, Fernando Sobral (ler ffms).



Junho teve foguetes na rua e o manjerico na mesa.

Creio que nunca tinha parado para pensar no quanto podia ter meses favoritos, mas, sem haver necessidade de o verbalizar, junho sempre esteve num lugar de destaque, porque simboliza família, casa cheia e a contagem decrescente para a noite mais bonita do ano. Também se passou a revestir de saudade e de lugares vazios, mas há algo neste mês que consegue recuperar um conforto emocional que torna todas as memórias num espaço seguro e isso permite-me (ou tem-me permitido) não andar à deriva, ficar na margem certa e apaziguada.

Este mês, porque há ciclos que terminam, também se revestiu de despedida. O coração fica um pouco mais apertado, mas é tempo de ver voar aqueles que vimos crescer. Se custa? Claro, mas não deixa de ser especial.

Junho foi uma montanha russa de emoções, mas não o trocava por nada.


as coisas maravilhosas de junho


 os fragmentos aleatórios

A publicação sobre os meus favoritos do momento já inclui este fragmento, mas não podia deixar de o trazer para esta retrospetiva, até porque a t-shirt da Foguetes é mesmo a minha cara, quer pela cor que escolhi, quer pelo simbolismo associado: por um lado, homenageia uma das minhas pessoas-casa, que já faleceu, e, por outro, destaca uma das músicas que mais me marcou o ano passado.


Outros fragmentos aleatórios: bálsamo de limpeza mylabel, um ano de Violetta, Volcanix e Iced Frappé.


 as músicas e os álbuns

Junho foi menos versátil neste departamento, o que, por um lado, me deu menos mundo musical, mas, por outro, fez com que estreitasse o vínculo com trabalhos de meses anteriores. Agora, há duas coisas inegáveis: estou cada vez mais fã da voz do Santos, Só e a temperatura subiu por causa do Van Zee.

As músicas que marcaram o mês: Noite Inteira, Iolanda | Fé, Yang | Balsa, Santos, Só | Quem Me Vê, Os Quatro e Meia & Luís Trigacheiro.


Os EP's que marcaram o mês: Tá Calor e a Culpa é Tua, Van Zee | It All Leads Back South, Carla Prata.


 as publicações

babell: um breve guia
Escrita com dois LL, fazendo lembrar «o mito bíblico da Torre de Babel, para afirmar a diversidade cultural e linguística como riqueza maior da humanidade» e inspirando-se «no conceito de biblioteca infinita, criado por Jorge Luis Borges», assim é BABELL (publicação completa aqui).

No meu substack poético — No Silêncio —, partilhei um poema inspirado na música Fora d'Horas, do xtinto. Se vos interessar, podem ler tempo certo.


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, destaco uma série, dois podcasts e um behind the scenes.

Novas Narrativas de Caça
Novas Narrativas de Caça pretende ser um espaço de conversa, que rejeita os habituais lugares comuns associados à comunidade afrodescendente em Portugal e evidencia o racismo estrutural existente em situações mundanas. Nas palavras de Luís Almeida, o autor da ideia da série, cada episódio é um lugar de fala, por isso, encontramos temas como identidade, pertença e opressão, a partir da escrita de diferentes argumentistas. Ademais — ou por causa disso —, contactamos com «histórias que partem de dentro», edificando pontes para realidades da nossa sociedade que necessitamos de reavaliar (opinião completa aqui).

Diário de Marias
O nome Maria está no meio deles, por isso, Inês Meneses e Rui Maria Pêgo uniram-se neste Diário de Marias para conversarem «sobre os seus dias», tão cheios de cultura, de desabafos, de pensamentos e, até, «de pequenos delitos entre amigos». Estou bastante entusiasmada com este projeto.

É Para o Lado Que Eu Durmo Pior
A lista de podcasts em atraso continua caótica e, por isso, nada como acrescentar mais um à minha biblioteca — em algum momento equilibrará —, já que Guilherme Duarte decidiu avançar com uma ideia a solo.

Violetta Behind The Scenes
Um ano depois, em jeito de celebração, temos acesso ao behind the scenes do Violetta, documentado e editado pelo Fabrice. Enquanto assistia, dei por mim a pensar que é sempre especial vermos o entusiasmo que os artistas que acompanhamos têm pelos seus projetos, mas que tudo se amplia quando, à sua volta, há um grupo de pessoas a partilhar esse mesmo entusiasmo, porque creio que dá outro alento, outro impulso. E, além disso, posso ou não ter ficado emocionada com uma parte acústica deste vídeo.


 os livros

Junho pareceu-me quase monotemático nas histórias que selecionei para ler, o que não é verdade, mas, como dois dos livros que mais me marcaram este mês continuam tão presentes na minha memória, é essa a energia que sobressai.

Pela primeira vez, decidi fazer um curso sobre um dos livros que li, porque senti que precisava desse complemento para chegar a todas as camadas da história. Por isso, comprei o da Bruna Martiolli sobre O Primo Basílio e adorei a experiência — tanto que já estou a pensar fazer outros. 

Os favoritos do mês: Tudo na Natureza Apenas Continua, Yiyun Li | Também Há Rios no Céu, Elif Shafak | Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno, Susana Piedade.

Outros livros lidos: Antologia Poética, Natália Correia | O Primo Basílio, Eça de Queiroz | Avós e Netos, Ricardo Peixoto | As Pequenas Chances, Natalia Timerman | Sinais de Fumo, Alex Couto.


 os momentos

Ouvir a listening party de Tá Calor e a Culpa é Tua. Jogar ténis de mesa em versão mini. Concluir a ideia que comecei no início do ano. Lenços, lenços e mais lenços. Muitas bebidas de café. Receber a t-shirt no dia 18. Concertos. S. João. Casa cheia. Poesia na rua. Mais motivos para celebrar o Violetta.








Slow J no Maia Fest Outdoor
Sem esquecer a banda, que é absolutamente extraordinária, voltei a ficar sem palavras para a capacidade que o Slow J tem de nos fazer sentir cada verso, cada travessia, como se nos saíssem de dentro, como se aquela história fosse também a nossa — e, em parte, é. Além disso, acho mesmo comovente a forma como se entrega inteiro em palco, como é tão feito de verdade e como não deixa de ficar maravilhado com o que está a acontecer à sua volta. Ele continua a lutar pelo seu sonho e a honrar, todos os dias, a sua escolha, sem a dar por garantida. Preciso que nos cruzemos mais vezes, porque é um privilégio ouvi-lo.

Solstício: S. Pedro & Os Quatro e Meia
O S. Pedro é, para mim, um dos nossos melhores letristas, não só pela sensibilidade, mas também pela atenção ao detalhe e pela capacidade de bordar temas próximos a sonoridades um pouco mais leves, dançáveis, ainda que também os possa revestir de uma certa tristeza em todos as componentes, se for isso que pede. Portanto, vê-lo ao vivo encheu-me todas as medidas, porque pude ver todo o seu talento à minha frente.

Os Quatro e Meia, sem querer exagerar, talvez sejam a banda que mais vezes vi ao vivo e não há um concerto que me tenha desiludido. Para além do talento inesgotável, são a alma da festa e deixam-me sempre impressionada com as camadas que acrescentam às canções: podemos ouvi-las inúmeras vezes e sabê-las de cor, no entanto, a próxima vez terá um toque diferente, permitindo-nos traçar — até debater — outras interpretações.

BABELL: GNR, Pedro Abrunhosa & Rui Veloso
O espetáculo foi feito de uma enorme partilha e generosidade, algo visível nos temas que tocaram em duplas — Efetivamente por GNR e Pedro Abrunhosa, Eu Não Sei Quem Te Perdeu por Pedro Abrunhosa e Rui Reininho —, mais ainda quando se reuniram os três em palco para interpretarem o emblemático Chico Fininho. Valeu muito por isto!

Ninguém me pergunta, mas se algum dia tiverem necessidade de questionar as razões que me levam a ser tão apaixonada por música portuguesa, acho que lhes falarei desta noite e do quanto me permitiram viajar no tempo e redescobrir um período da minha vida em que, sem ter maturidade suficiente para o entender, foram meus confidentes.

A Poesia Está na Rua e Poesia ao Poder
A propósito do BABELL, alinhei-me para fazer parte de um percurso poético, no qual «doze diseurs e dezenas de voluntários, especialmente preparados em seis workshops gratuitos de leitura poética», se reuniram «para uma intervenção». Assim, partimos da Praça da Batalha, fomos à Rua de Santa Catarina, ao Mercado do Bolhão, à Praça Dom João, à Avenida dos Aliados e desaguamos nos Paços do Conselho. Nesta versão única de A Poesia Está na Rua, ecoamos palavras de ordem por entre os versos de seis poetas.

Já nos Paços do Concelho, poetas portuenses elevaram «A Poesia ao Poder, subindo à varanda da Câmara Municipal do Porto para ler os seus poemas sobre a cidade». Participar nestas iniciativas reforçou a certeza de querer que a poesia me defina.


Julho, sê gentil ✨



Junho teve poucos discos em rotação, não só porque saíram menos propostas que me interessaram guardar, mas também porque fiquei presa a um EP específico. Além disso, sinto que este mês serviu para consolidar o vínculo que criei com álbuns de meses anteriores.


os álbuns de junho


TÁ CALOR E A CULPA É TUA, VAN ZEE

A temperatura subiu e o responsável é o Van Zee. Depois de um Alta Costura bordado ao mais alto nível, com Frankieontheguitar, a curiosidade aumentou para perceber qual seria o próximo passo. E o Zee, sem prometer nada, entregou tudo.

Tá Calor e a Culpa é Tua, composto por sete temas, destaca-se por explorar uma sonoridade diferente, que mistura ritmos mais dançáveis e sedutores. Não deixa de ter um tom intimista, sobretudo, na Não Confundas e na A 10 da Tua Porta, mas até nessas há uma melodia distinta, que ainda não tinha escutado nos antecessores. Parece, inclusive, que brinca com um jogo de luz e de sombras, com o desapego e a vontade de estar perto e que, neste balanço, descobre até onde se quer entregar. Acredito que isso comprova a sua versatilidade enquanto artista e que está cada vez mais seguro da sua identidade musical.

Ter ouvido a listening party permitiu-me criar um primeiro vínculo com as canções e deixá-las amadurecer na expectativa de as poder escutar em repetição, escalando para vários estados de espírito, talvez porque tive mais tempo para pensar nas primeiras impressões, naquilo que os temas me fizeram sentir só com uma audição. Tenho regressado ao EP todos os dias e a verdade é que continuo fascinada com o seu alinhamento — acho que a sequência ficou perfeita. Ainda assim, confesso que me surpreendeu que a Enfeitiçado tivesse ficado de fora, porque encaixava na narrativa geral, mas não creio que a qualidade do projeto fique comprometido com essa decisão.

Tá Calor e a Culpa é Tua conquistou-me ao primeiro acorde, por todo o conceito, e sei que fará parte dos meus favoritos. Que energia incrível!



ECLIPSE, MUN

O Mun não era um artista que ouvisse com regularidade, mas prendeu-me nas músicas que lançou este ano. Com um álbum de estreia no horizonte, estava curiosa para o descobrir num longa duração.

Eclipse é a metáfora perfeita «para uma relação em que uma pessoa acaba por anular a outra, apagando a sua luz», porque o alinhamento vai oscilando entre aquilo que se entrega e aquilo que sentimos ser diminuído. Com um tom vulnerável, intimista, embarcamos numa viagem emocional, que não tem de se limitar a uma relação romântica, até porque há muitos pontos transversais a relações de diferentes naturezas.

Não tem sido uma escolha constante na minha playlist, mas tenho gostado de me ir reencontrando com estes temas e de descobrir as suas nuances.



IT ALL LEADS BACK SOUTH, CARLA PRATA

A Carla Prata é daquelas artistas que vou mantendo por perto. Pode haver fases em que não a ouço tanto, mas sei que acabo sempre por voltar à sua música: porque adoro a voz e a identidade artística que cimentou ao longo dos anos.

It All Leads Back South é um EP composto por seis faixas e vários universos, que alternam entre o desejo e o desgosto, entre o ser e o ter, entre a desilusão e a resistência. Com uma narrativa cinematográfica, este trabalho também cruza diferentes raízes — Reino Unido, Angola e Portugal —, uma vez que encontrou em cada um deles um lar. Por esse motivo, encontramos uma reflexão «sobre memória, identidade e o que significa pertencer a mais do que um lugar ao mesmo tempo».

A deambular por uma sonoridade mais introspetiva e sedutora, é fascinante como vai da luz à sombra de uma forma tão natural. Este é o primeiro capítulo de uma história que nos mostra que, «independentemente de onde a vida nos levar», encontraremos sempre uma maneira de voltar «onde tudo começou».



Este mês, também ouvi:

  • Porto Baby, do Tiago Mob. Ainda não sei o que achar do projeto no seu todo, mas gostei do tema com o Vasco, Destaque;
  • Jon, do Isak, do Zigarro e do Armando Teles. Talvez não regresse com a maior frequência, mas acho graça ao jogo de palavras, sem filtros, e ao facto de terem construído uma identidade musical tão própria;
  • Um Dia Vais Perceber, do T-Rex. Não me arrebatou à primeira audição, mas sinto que é daqueles álbuns que precisam de tempo para amadurecerem.



A arte de apreciar e abraçar os pequenos prazeres da vida é algo que me atrai: não pela ideia de abrandar e viver quase em slow living, mas pelo impacto de estarmos realmente presentes naquilo que vivemos e/ou que observamos, mesmo que nos pareça trivial.

Talvez seja por esse motivo que me tem apetecido romantizar um pouco a vida, sem perder o limbo de segurança que me mantém lúcida. Assim, como me entusiasmo sempre a preparar os favoritos do ano, decidi recuperar um conteúdo intermédio, para fazer uma espécie de ponto da situação do que me tem enchido as medidas.

Admito, há uma certa dose de obsessão associada a alguns tópicos, sobretudo nos musicais, mas não tinha como ser de outra forma — a culpa não é minha, juro. Portanto, sirvam-se de uma chávena de chá, deixem-se estar confortáveis e sejam bem-vindos aos meus favoritos do momento.


 uma música

Na realidade, começo já a fazer uma pequena batota, porque não trago uma música, trago a playlist que criei com as músicas que mais têm tocado cá por casa, com particular destaque para as três primeiras: Bon Vivan (Lhast), Não Disseste Nada (Icaro) e Camel Blues (Mallina).



 um EP e um álbum

Fevereiro foi um sonho no que diz respeito a lançamentos de artistas/bandas que admiro, porque os Dealema lançaram 96 ao Infinito, o Dengaz lançou O Que Não Se Vê é Eterno e o xtinto lançou Em sonhos, é sabido, não se morre. Ainda assim, tenho estado a viver mais tempo em Elephant In The Room, do Richie Campbell, e em Tá Calor e a Culpa é Tua, do Van Zee. A temperatura subiu sem pedir licença!




 um sabor

Os dias ficam mais quentes e os meus dotes de barista sobressaem. Estou a exagerar, claro, mas gosto mesmo de preparar as minhas bebidas frias e, assim, ir experimentando diferentes tipos de café e de opções com leite. Como equipa que ganha não se mexe (ainda que não concorde totalmente com isto), voltei a comprar o Iced Frappé, da Dolce Gusto, que tem um travo a caramelo e cereais. Acho mesmo refrescante e saboroso.


No fim de semana, provei o gelado Volcanix, da Olá, com cinco camadas. Adorei o contraste de sabores e, contrariamente ao meu receio, não o achei enjoativo. Quero voltar a experimentar.


 um produto

Estou rendida ao Bálsamo de Limpeza de Cera de Girassol, da MyLabel, porque com pouco produto consigo retirar toda a maquilhagem que uso diariamente e não tem um cheiro que me incomode. Por norma, não sou sensível a esta questão, mas, como uso todos os dias, se for um produto com aroma acaba por me incomodar a longo prazo. Para já, só tenho maravilhas a destacar deste bálsamo, incluindo o preço.


Por falar em maquilhagem, todas as referências são poucas aos Locked Kiss, da MAC, porque têm uma durabilidade ótima e são bastante confortáveis nos lábios. Tenho três tons e quero muito experimentar o Vibrant Purple.


 um livro

É capaz de ser o ano em que estou mais oscilante e exigente nas leituras que faço, mas há um livro ao qual tenho regressado para ler poemas soltos: A Axila de Egon Schiele, de André Tecedeiro, porque fiquei presa à sua escrita, à proximidade, à vulnerabilidade. Para evitar repetir-me, partilho a opinião completa sobre a obra.



 um podcast

Só comecei a acompanhar Desnorte depois de ver Arraial, mas tenho gostado muito de ouvir o Vítor Sá neste formato descontraído, sempre com tantas peripécias acumuladas.



 um lugar

Fui ao Casa das Tortas apenas duas vezes, mas já escalou para um dos meus restaurantes favoritos do Porto, porque o ambiente da sala é bastante acolhedor, os funcionários são simpáticos e atenciosos e a francesinha é muito boa (o molho tem um travo diferente, mas acho que contrasta e combina bem com os restantes ingredientes). Tenho de voltar para experimentar outras opções do menu.



 uma atividade

Escrever poemas inspirados em canções que tenho adorado ouvir. Recuei muitas vezes antes de avançar com a ideia, mas depois decidi deixar de ser parva e de colocar entraves em algo que não tem de ser uma questão. E a verdade é que me tenho divertido no processo.


 uma peça

A ideia andava a amadurecer cá dentro e decidi enviar mensagem para a página da Noama, para encomendar uma t-shirt personalizada. A Foguetes, do Lhast, tem um significado muito especial para mim e quis eternizá-la nesta peça, juntamente com três manjericos alusivos ao meu tio e à tradição que tinha connosco. Acho que ficou completamente a minha cara.



A perda leva-nos para terrenos pantanosos, imprevisíveis, porque, por mais que lidemos com ela de perto, nunca se transforma em algo ínfimo. Uma vez que nenhuma despedida é igual, o impacto que tem sobre nós também diverge e desperta posturas igualmente distintas, obrigando-nos a ajustar, a adaptar, a ressignificar o processo. Já levo algumas perdas na bagagem, mas nenhuma se compara à de Yiyun Li.


 situações-limite, abismo e aceitação radical

Tudo na Natureza Apenas Continua inquieta, de imediato, no título, porque nos confronta com a certeza de que a vida segue o seu curso apesar da nossa dor, dos fragmentos em que nos dividimos. Neste livro, «sem sentimentalismos ou redenção», a autora testemunha a morte dos dois filhos, no espaço de sete anos: ambos «escolheram o suicídio, a meio caminho entre a escola e a casa de família».

O exercício de encarar a situação com uma certa racionalidade é complexo, sobretudo, quando percebemos que a tragédia se repete. Os meus lutos sempre foram muito mais emocionais. Durante esse processo longo e moroso, desço ao abismo e há um vazio que se apodera, contaminando tudo por dentro, portanto, admito, estava com algum receio de não conseguir compreender a aceitação radical de Yiyun Li, mas liguei-me a estas memórias e talvez não seja capaz de o traduzir por palavras.

O livro não é sobre o luto, no entanto, impressionou-me a forma como me deixou a pensar nele e na urgência de o ultrapassarmos, como se existisse sempre um limite. Ao parar para pensar na sua perspetiva sobre o assunto, acho que apaziguei algumas questões que me afligiam mais do que tinha consciência. Houve um período em que temi que manter-me nesta realidade fosse um espaço de conforto. Aliás, agarrei-me à convicção de que ficar ali era a minha maneira de não esquecer, até me questionar se prolongava o luto por medo de não saber quem sou sem as pessoas que perdi. Depois eduquei a tristeza, lancei foguetes para continuar a contar a «história até me faltar a voz», encontrei pontos de fuga e, com esta obra, percebi que também «não quero uma meta final para o meu sofrimento».

«A Necessidade obriga-me a prestar atenção a todos estes pormenores depois do que aconteceu: tudo é relevante, tudo tem peso, tudo conduz a um momento no passado, que se torna recordação, a qual, por sua vez, se transforma numa narrativa»

É egoísta da minha parte colocar-me neste relato, quando nem sequer sou mãe. Ainda assim, não pretendo apropriar-me dele, apenas destacar que me revi na citação supracitada, porque, de repente, tudo adquire novos ângulos e significados. Além disso, outro aspeto que me impressionou foi o alerta para a insensibilidade camuflada em todas as tentativas de ajuda. A intenção vem de um fundo de generosidade e empatia, na maior parte dos casos, mas precisamos de aprender a escutar as verdadeiras necessidades do outro. Uma das maiores aprendizagens deste livro, para mim, foi entender que querermos cuidar de feridas que vemos de fora pode ser sufocante: precisamos de dar espaço para que sintam.

O pragmatismo da autora, evidente na escrita direta e honesta, permitiu-lhe construir o seu habitat e aceitar que nunca sairá do fundo do abismo, porque é impossível ser igual ao que era, mas concentrar-se no agora talvez seja a sua cura. Sem qualquer tentativa de romantizar a depressão e o suicídio, também não pretende trazer conforto e emotividade a este testemunho. Não obstante, creio que há um lado emocional a pairar nas suas palavras, se calhar, por se sentir todo o amor e respeito que tem pelos filhos.

Tudo na Natureza Apenas Continua não pretende encontrar respostas, nem justificar escolhas. Leiam-no com cuidado, se estiverem num lugar bom, porque tem «uma gramática só sua», oscilando entre rasgos de intimidade e um tom mais austero. Este livro consegue ser brutal e desconfortável, mas achei particularmente bonita e comovente a maneira como utilizou a escrita para prolongar a memória dos filhos e marcá-los no mundo.


 notas literárias
  • Lido entre: 4 e 5 de maio
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Não Ficção
  • Nº de páginas: 176
  • Banda sonora: How To Live, Del Water Gap | 12 to 12, Sombr



O Porto tem uma identidade literária, enquanto «berço e casa de muitos dos maiores escritores portugueses», ramificando-se entre o poético e o romanesco. Sustentando-se nesta virtude, não só procura reafirmá-la, como também abrir as portas para que se transforme, se reinvente e se viva essa essência em comunidade, em histórias plurais.

É nesta margem que vemos a florir, como se de uma camélia se tratasse, uma Cidade-Livro que «mapeia livrarias, alfarrabistas e espaços culturais» e que exibe a «cidade, a cultura e a identidade portuense a partir da literatura». E como a Invicta sabe receber, idealizou-se uma iniciativa pensada para acolher moradores, visitantes e apaixonados pela sua mística, unidos pelo fascínio às palavras e aos recantos onde nos levam, com a particularidade de cada ponto de ação não distar mais de 15 minutos a pé dos outros.

Escrita com dois LL, fazendo lembrar «o mito bíblico da Torre de Babel, para afirmar a diversidade cultural e linguística como riqueza maior da humanidade» e inspirando-se «no conceito de biblioteca infinita, criado por Jorge Luis Borges», assim é BABELL.


 conceito, durabilidade e acesso

BABELL é um evento literário e cultural, estruturado para acontecer, sobretudo, em «espaço público, em praças e ruas da cidade». Idealizado e produzido pela Fundação Livraria Lello, em coprodução com a Câmara Municipal do Porto, este festival «visa valorizar o território a partir do investimento na cultura», usando o livro como motor.

O «corpo central da programação é internacional, mas a alma é de cá», isto porque as sessões trazem figuras artísticas reconhecidas «a nível mundial», ao mesmo tempo que inclui «sessões e iniciativas protagonizadas por escritores e outros artistas portuenses e portugueses», entre conversas, exposições, performances, concertos e colóquios.

A acontecer de 24 a 29 de junho, a organização de BABELL «não cobra pela entrada em nenhuma das sessões», mas o acesso às mesmas é feito mediante a aquisição de um livro, independentemente do preço. Tem, isso sim, de ser comprado numa das livrarias aderentes da cidade, para nos ser fornecida uma senha alfanumérica «que possibilita a reserva para uma sessão». Importa referir que devemos «comprar tantos livros quantas as sessões a que quiser[mos] assistir». Além disso, para além do bilhete, devemos levar sempre um livro connosco, para «encher a cidade de livros» e contagiá-la pela leitura.


 sessões a que gostava de assistir

A Sofia perguntou-me se estava a pensar escrever sobre este evento e, inicialmente, só tinha idealizado incluí-lo na parte da bilheteira — e fazer uma breve contextualização, quando escrevesse sobre um dos concertos. A conversa escalou e acabei por desafiá-la para uma perspetiva partilhada, no número 151 da Portugalid[Arte]. Assim, cada uma de nós escolheu três sessões às quais gostaria de assistir, sem repetições, para tornar a experiência ainda mais diversificada.

Como reduzir a lista apenas a três eventos foi complexo, decidi trazer uma versão mais extensa para o blogue.

dia 24 de junho

  • Conferência de abertura de Alberto Manguel, intitulada Leitura e Resistência, sobre a história do livro e da palavra escrita, às 21h30, no Teatro Rivoli. Livro-Bilhete obrigatório.

dia 25 de junho

  • Visita ao Jardim do Pensamento, às 10h, no Mosteiro de Leça do Balio. Livro-Bilhete obrigatório;
  • Inauguração da exposição Poesia Imersiva: Cego Som, de João Habitualmente, às 16h, no Mosteiro de São Bento da Vitória. Entrada livre;
  • Concerto GNR, Pedro Abrunhosa e Artista Surpresa, às 21h30, na Avenida dos Aliados. Livro-Bilhete obrigatório.

dia 26 de junho

  • Conversas com Escritores: Bruno Vieira Amaral e Djaimilia Pereira de Almeida, com moderação de Tito Couto, às 12h, no Largo de Santo Ildefonso (Batalha). Livro-Bilhete obrigatório;
  • Conversas com Escritores: Conceição Evaristo e Milton Hatoum, com moderação de Minês Castanheira, às 16h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório;
  • Conversas com Escritores: Ana Paula e Dulce Maria Cardoso, com moderação de Luís Caetano, às 18h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório.

dia 27 de junho

  • A História do Porto em 90 Minutos - O Olhar de Nuno Resende, às 9h30, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Livro-Bilhete obrigatório;
  • A Poesia Está na Rua - Intervenções Poéticas Simultâneas Rumo aos Paços do Concelho, com curadoria de Rui Spranger, a começar às 10h30, num percurso poético pelo centro da cidade;
  • A Poesia ao Poder - Poetas portuenses leem a partir da varanda dos Paços do Concelho, com curadoria de Rui Spranger, às 12h, na Câmara Municipal do Porto. Entrada livre;
  • Sessão literária com Margaret Atwood e moderação de Tânia Ganho, às 16h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório;
  • Sessão literária com Olga Tokarczuk e moderação de Marta Bernardes, às 18h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório.

dia 28 de junho

  • A História da Música do Porto em 90 Minutos - O Olhar de Sofia Lourenço, às 9h30, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Livro-Bilhete obrigatório;
  • A Literatura do Porto em 90 Minutos - O Olhar de Isabel Pires de Lima, às 11h30, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Livro-Bilhete obrigatório;
  • Sessão literária com Salman Rushdie e moderação de Alberto Manguel, às 21h30, no Coliseu do Porto. Livro-Bilhete obrigatório.

dia 29 de junho

  • Conversa com Escritores: Gonçalo M. Tavares e Lídia Jorge, com moderação de Francisco Sena Santos, às 17h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório;
  • Lançamento do novo romance de Valter Hugo Mãe, com o autor e Héctor Abad Faciolince, às 19h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório.


As histórias nunca têm apenas uma versão, no entanto, se só escutarmos um dos lados da narrativa, naturalmente, será esse a prevalecer. Assim, «até que os leões contem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça» e é este provérbio africano que dá mote e acompanha a nova aposta audiovisual da RTP.

Novas Narrativas de Caça pretende ser um espaço de conversa, que rejeita os habituais lugares comuns associados à comunidade afrodescendente em Portugal e evidencia o racismo estrutural existente em situações mundanas. Nas palavras de Luís Almeida, o autor da ideia da série, cada episódio é um lugar de fala, por isso, encontramos temas como identidade, pertença e opressão, a partir da escrita de diferentes argumentistas. Ademais — ou por causa disso —, contactamos com «histórias que partem de dentro», edificando pontes para realidades da nossa sociedade que necessitamos de reavaliar.

A falácia de existir apenas «uma experiência negra» é desconstruída desde o começo, até porque, ao longo de sete episódios independentes, percebemos como é que várias situações afetam as personagens, como é que cada uma delas as encara e gere. Podem existir elementos transversais, ainda assim, acabam por nos mostrar distintos pontos de vista, distintas camadas da luta «para fazer parte de uma sociedade que as ignora».

É, portanto, na diversidade que as narrativas florescem e nos implicam, confrontando-nos com comportamentos inadequados, que se escudam na ausência de maldade, mas que não deixam de ser parte do problema: a intenção pode não ser diminuir, subjugar, só que o resultado contribui precisamente para cimentar a sensação de isolamento, de exclusão. No final, talvez não sejamos capazes de calçar estes sapatos, mas creio que ficamos um pouco mais conscientes de como podemos agir para ir quebrando o ciclo.

Outro aspeto valioso desta série, para mim, é a representatividade, sobretudo, porque nos mostra que, se lutarmos pela igualdade de oportunidades, tornamos o mundo num lugar mais justo; porque, se formos mais empáticos na forma como tratamos o outro e não fecharmos portas por causa da sua cor de pele (ou de outro fator diferenciador), há patamares que se tornam acessíveis e não só uma miragem para muitos que querem lá chegar. Neste manifesto cultural, o tom é claro: tirar o filtro da invisibilidade, destacar os preconceitos tão enraizados e combater a segregação de dentro para fora dos ecrãs.

Com humor e crueza, levantando questões sociopolíticas, emocionais e de ética, Novas Narrativas de Caça é plural até nos géneros que explora, proporcionando uma boa dose de entretenimento, mas sem perder a sua componente reflexiva e de «literacia cívica».

 episódio um: moamba
Leandro conhece os pais da namorada branca pela primeira vez, o que protagoniza um momento confrangedor, «fruto de comentários e mal entendidos». Apesar de ter raízes africanas, o protagonista é português e este cenário remete-nos, de imediato, para algo recorrente: a nacionalidade ser questionada devido à cor de pele. Em simultâneo, paira uma discussão pertinente sobre herança cultural, gastronomia, tradições e escravidão, sem que exista violência no diálogo ou no tratamento. Aliás, acho que a maior valência do episódio reside na não violência, no facto de a simpatia das personagens camuflar o quanto certas observações não deixam de ser manifestações racistas. A maneira como o humor é utilizado nestas cenas evidencia, por um lado, a cegueira do que tentamos justificar como curiosidade e, por outro, a necessidade de diminuir o desconforto, de o desvalorizar, porque, deste modo, talvez cause menos cicatrizes e danos emocionais.

 episódio dois: recursos humanos
A irmã de Taís, Maya, desapareceu misteriosamente, há cinco anos. As perguntas sem resposta não atenuam a angústia e, a tentar descobrir alguma pista que explique o que aconteceu, Taís acaba por conseguir emprego no mesmo local onde Maya trabalhou. A energia daquele lugar não lhe inspira confiança, não só pelas interações forçadas, mas também por uma questão que fica a ecoar: a rotatividade dos funcionários negros, sem que exista justificação. Este segundo episódio, confesso, foi o que mais me perturbou, porque é impressionante a discriminação laboral, o peso do silêncio, o que se cala por medo. Além disso, choca pela consciência de que «a carne mais barata do mercado é a carne negra», como eternizou Elza Soares, não restando qualquer dúvida sobre o quão pouco mudaram certas práticas com o tempo. Ainda assim, também é o meu favorito.

 episódio três: once you go black
As palavras pesam e, neste caso, uma expressão aclamada como elogio, que mais não é do que a propagação de um estereótipo, foi o ponto final de uma relação interracial. A história de Salomé serve de mote para debatermos se é possível «desejarmos e sermos desejados despojados de construção social», convidando-nos a mergulhar mais fundo, porque isso traz, também, um olhar crítico sobre fetichização e intimidade. Ao ter um encontro inesperado com alguém do passado, a protagonista embarca numa conversa «intelectual sobre existencialismo, amor e raça», o que nos ajuda a ter noção de todas as vezes em que parece ter de se justificar, quase pedir licença para existir. Há, aqui, um retrato de vulnerabilidade muito bem construído e que nos tira o tapete no final.

 episódio quatro: limbo
Nuno é filho de cabo-verdianos, mas teve um educação portuguesa. A atravessar as oscilações da adolescência, há uma fragilidade identitária que parece ocupar os seus pensamentos, sentindo-se um pouco perdido. É quando marca presença numa festa que, pela primeira vez, a sua cor de pele lhe pesa tanto. Achei mesmo interessante a interação entre Nuno e Artur, pela honestidade, pela credibilidade e por representar uma rede de apoio nem sempre visível. E, depois, impressionou-me a fragilidade da alegria, a facilidade com que os acontecimentos escalam e a violência assume todo o protagonismo. Com uma crítica evidente ao abuso de poder e às narrativas que não controlamos, porque alguém o decidiu, é impossível não questionar a quantidade de casos semelhantes ao que é retratado e o sentimento de impotência que nos reveste.

 episódio cinco: sobrevivente
Portugal mergulha numa guerra civil e a «elite conhecida como Os Vanguardas cria a Nova Capital, um território seguro longe do conflito». Os olhares focam-se em Shakali, uma ex-militar da Nova Capital, que foi violada por um Vanguarda e engravida. Perante este cenário de horror, torna-se imperativo lutar pela sua sobrevivência e essa luta é, sem margem para dúvida, um profundo «ato de resistência». O que mais me fascinou neste episódio foi o vínculo que um inimigo comum pode desencadear, pesando em diferentes momentos, e o facto de termos uma mulher a mudar o curso da revolução — o brilho que isso provocou em quem o menciona é a prova que a representatividade influencia a maneira como nos vemos e como acreditamos nas nossas capacidades.

 episódio seis: undeu
Isaac é acusado de roubar o supermercado onde trabalha, por isso, sem algo a perder, agride o patrão. Entretanto, a namorada conta-lhe que está grávida e este escalar de acontecimentos precipita o desespero, a sensação de ficar sem rumo e de assistir, na fila da frente, à morte de um sonho. As nossas escolhas têm consequências e, mais do que isso, vêm sempre de um lugar, mesmo que não o identifiquemos logo. Ao longo do episódio, vai ficando claro que os fantasmas do passado se transformaram em revolta e que são um gatilho silencioso para várias atitudes. Naturalmente, isso não pode ser justificação para tudo, mas ajuda a contextualizar, a perceber que existem situações pendentes. Neste episódio, as personagens tentam construir um futuro diferente, mas torna-se angustiante constatar que as barreiras sociais podem ser um muro gigante.

 episódio sete: codé
Cíntia decide voltar sozinha para a Guiné-Bissau, ainda que o seu desejo fosse levar o pai consigo. No entanto, ele é peremptório a recusar, o que a entristece, talvez por não compreender a resistência de Augusto. Enquanto ela sente necessidade de conhecer as suas raízes, o pai parece não querer voltar a um lugar que já não é aquele que, um dia, teve de deixar para trás. É neste limbo entre o passado e o presente, entre a herança e a memória, que a protagonista deambula e se descobre. A comoção por encontrar a sua família e um pedaço da sua história torna-se um impulso para estar mais em paz com o seu lugar no mundo, como se estivesse a encaixar as peças de um puzzle. Por um lado, gostava que Augusto tivesse ido com a filha e redescobrisse a sua terra natal, porque sinto que isso o ajudaria a sarar algumas feridas, mas, por outro lado, acho que ela precisava de ir sozinha e trilhar esse caminho sem interferências. A par de Recursos Humanos, este episódio tornou-se um dos favoritos, porque é humano e comovente.
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