Entre Margens

Fotografia da minha autoria


As imagens promocionais, pelo seu caráter cómico, transportaram-me para o universo da série Último a Sair - um autêntico marco televisivo, que nos deixou pérolas como «o mundo não é isto, o mundo é bué cenas». Ainda assim, as diferenças são óbvias e creio que se entende, desde o começo, que a nova produção da autoria de Bruno Nogueira, escrita em parceria com Carlos Coutinho Vilhena, Frederico Pombares e Luís Araújo, permanecendo no espectro do humor, nos permitirá refletir sobre censura e liberdade.


 impressões depois do primeiro episódio

Ruído apresenta-nos um mundo distópico, no qual foi criada uma lei que proíbe o riso, no qual «foi retirada a liberdade para expressar qualquer tipo de alegria em público». Assim, neste crescente ambiente de medo e de desconfiança, um grupo de atores e de argumentistas decidiu «criar um movimento de resistência clandestina, para que as pessoas possam rir em segredo». O resto, como o nome revela, será somente ruído.

A comédia tem o poder de transformar a realidade em que vivemos, portanto, sermos privados da sua essência é, no fundo, vermo-nos a ficar privados de certos direitos, por mais básicos que nos pareçam ser. Se nos impedem de rir, se restringem aquilo a que podemos achar graça, se nos limitam ao ponto de sentirmos necessidade de olhar por cima do ombro, não passaremos de máquinas programadas para agirem consoante um padrão, para agirem de acordo com aquilo que é considerado politicamente correto.

É um argumento ficcional, no entanto, passei a maior parte do episódio a pensar como seria habitar uma sociedade com estas características. Eu que tenho riso fácil, que sou capaz de me rir das coisas mais parvas, que uso o humor como mecanismo de defesa e dialeto para relativizar determinadas situações, percebi que teria muitas dificuldades para sobreviver sem pagar multas sucessivas. Por outro lado, se as consequências se revelassem piores com o tempo, creio que o medo acabaria por me paralisar e, aí, já não existiram motivos de preocupação, mas também deixaria de ser a pessoa que sou.

O primeiro episódio inicia-se com um interrogatório e, naturalmente, o objetivo de cada um dos intervenientes é não confessar o que fizeram, mesmo quando forem confrontados com imagens/informações que os comprometam. Essa desconstrução, no meu ponto de vista, está exímia, até porque nos mostra diferentes formas de reagir perante o mesmo problema. Além do mais, ao termos esse momento intercalado com sketches, conseguimos compreender a dimensão do movimento e o quanto as pessoas precisam de rir, sem estarem preocupadas com as repercussões dessa escolha livre.

Com um elenco fabuloso, acho impressionante como algumas cenas nem parecem ser filmadas, ou seja, como fica a sensação de estarmos a ver imagens reais e não atores a interpretar um papel para o qual ensaiaram a fundo. Sinto que esta dinâmica é mesmo sagaz, envolvendo-nos ainda mais com o contexto e com aquele grupo revolucionário.

Ruído coloca-nos no lado da clandestinidade, ao mesmo tempo que nos faz pensar na quantidade de condicionantes que parecem pairar no humor. E não me refiro à velha questão de quais são os seus limites, refiro-me, sim, ao facto de ser «cada vez mais visto como algo a combater», como indicou Bruno Nogueira, sobretudo se tocar em temas sensíveis. Embora não pretenda fazer da série um manifesto político, faz-nos pensar nessa vertente e, acima de tudo, refletir sobre aquilo «que poderia ser feito se, um dia, o riso fosse mesmo proibido», priorizando sempre o lado do entretenimento.


 considerações finais

O riso pode tocar em aspetos que nos fragilizam, porque ficamos vulneráveis perante os outros, porque isso significa que encontraram em nós - nas nossas crenças e/ou nos nossos comportamentos - detalhes com a capacidade de serem risíveis. Por isso é que o humor parece sempre sujeito a uma vistoria minuciosa, para que nunca ultrapasse os limites que julgamos intocáveis, mas se nós não nos pudermos rir e, desta maneira, desconstruir assimetrias, distâncias ridículas e preconceitos, o que é que nos resta?

A série Ruído transborda de subtilezas, mesmo quando parece que as rábulas não são mais do que representações parvas, com o propósito de entreter. Potenciar esse lado de lazer é ótimo e acredito mesmo que nos faz falta, porque talvez nem tudo tenha de ser educativo e profundo, mas acho genial quando, através da comédia, da piada mais ou menos fácil, existem cenários que ficam a ecoar e que nos obrigam a pensar neles.

Para além do argumento, adorei ver alguns atores em registos diferentes, como o caso do Gonçalo Waddington e do Albano Jerónimo, porque foi uma maneira de reforçar a versatilidade do seu talento - pessoalmente, acho que o Gonçalo Waddington tem um ritmo de comédia excelente. Ademais, sinto que a série foi crescendo de episódio para episódio e que terminou de uma forma brilhante, atando todas as pontas anteriores.

Não quero pormenorizar excessivamente para não condicionar a experiência de quem ainda não viu Ruído, mas permitam-me só listar o que me ficou de cada um dos restantes episódios:

  • episódio dois: a falta de representatividade, a falácia das aparências, o fascínio pela tragédia e a necessidade que algumas pessoas têm de querer agradar todos;
  • episódio três: os picos de energia de quem trabalha numa rádio e os filhos que são usados para ganhar dinheiro;
  • episódio quatro: os clichés que repetimos em momentos dolorosos (e que me deixou a pensar se são uma formalidade ou um mecanismo de defesa), a verdade e o rigor que se opõem ao que vende, ao clickbait;
  • episódio cinco: será que há somente um grupo de resistência ou haverá mais pessoas a tentarem ir contra a corrente?
  • episódio seis: a nossa obsessão pelos números e pelo abismo, a ausência de filtros sociais;
  • episódio sete: como é que o nada nos assusta tanto? Como é que o riso nos preocupa? Além disso, persiste a noção de que a liberdade dá trabalho, mas que, por mais que tentem, não é possível eliminar uma ideia;
  • episódio oito: os limites do humor, os ses que condicionam, o machismo e a coragem necessária para ir e para ficar.

Fotografia da minha autoria


A admiração pelo Hugo Gonçalves é cada vez mais notória, porque acho fascinante a forma como constrói as narrativas, os diálogos e o crescimento das personagens. Além disso, acredito mesmo que a sua escrita brilha ainda mais no plano da não ficção - sem demérito para os romances. Por isso, fui descobrir uma cidade através do seu olhar.


 entre a realidade e a ficção

Sintra é o quinto volume da Coleção Portugal, na qual vários escritores portugueses e um fotógrafo de património, Libório Manuel Silva, se unem para mergulhar na nossa geografia, mantendo «o mesmo horizonte para a ficção e a realidade». Neste livro, o autor parte numa aventura simples, mas a transbordar de significado, com o filho e esse é, para mim, o melhor género de literatura de viagens, porque os intervenientes não se excluem do processo. É maravilhoso conhecermos pontos turísticos, sabermos histórias antigas e criarmos um roteiro gastronómico, mas considero bastante especial quando uma paragem desperta memórias. Eu nunca as sentirei com propriedade, mas é como se tivesse acesso a trilhos escondidos, que não aparecem num guia comum.

No conforto da minha casa, dei por mim a concordar com a ideia de sairmos à procura de algo e de regressarmos com aquilo que encontramos. Quando iniciei a leitura, ia à procura de um estreitar de laços - só não sabia a natureza - e voltei à realidade a sentir que o Hugo Gonçalves é exímio na arte de comover, de entrelaçar elos que parecem autónomos, de fazer dos lugares uma ponte para a nossa história. Não conheço Sintra tão a fundo, mas senti-me transportada para algumas trajetórias e, sobretudo, senti-me a abrir um álbum de família, consciente de que certos momentos não se repetem.

«Querias explicar ao teu filho o inabarcável universo de todas essas vidas e contrariar os guias turísticos que prometem Sintra como um lugar onde o tempo parou»

Feliz ou infelizmente, não posso levantar assim tanto o véu acerca desta obra, porque corro o risco de revelar em demasia. Ainda assim, não podia deixar de destacar as reflexões sobre família e parentalidade, sobre podermos ser diferentes pessoas ao longo da nossa vida, nos mais diversos contextos, e sobre aquilo que os nossos já não chegarão a saber. Há vazios impossíveis de preencher, mas nunca os esquecemos.

Sintra é delicado, generoso e estabelece uma travessia entre o passado e o presente. Partindo de um local físico que qualquer um pode visitar, explorar, chegamos a um espaço íntimo que confere maior simbolismo à paisagem que nos envolve. E acho curioso que, mesmo sem existir essa intenção, dialogue tão bem com Filho do Pai.


 notas literárias
  • Lido a: 17 de junho
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Literatura de viagem
  • Pontos fortes: Os cenários descritos (os físicos e os emocionais), as memórias e o facto de haver uma certa transversalidade
  • Banda sonora:  Linha de Sintra, Bárbara Tinoco | Conto de Fadas de Sintra a Lisboa, Os Pontos Negros | Sintra Zoo, Bispo | My Father’s House, Bruce Springsteen

Disponibilidade: Wook | Bertrand
Nota: Esta publicação contém links de afiliada da Wook e da Bertrand

Fotografia da minha autoria



os pensamentos intrusivos respiram
da ingenuidade, da fragilidade, de um ego ferido
e sempre que a distância grita
só há uma sensação que ecoa
a de só ser útil, nunca pertença
a de ser apenas para preencher vazios, nunca para ser
primeira escolha
e os estilhaços ficam cada vez mais pequenos
e mais pequenos ainda
mas do rosto sairá sempre um sorriso
um peito aberto de amor
até que do fingimento haja uma certeza
que apazigue o espírito
ou que rompa de vez com esta falsa permanência

Fotografia da minha autoria


O término de Constelação deixou-me com a certeza de que não demoraria a regressar à poesia de Sónia Balacó: não só porque já tinha o seu segundo livro à espera na estante, mas também porque fiquei presa à simplicidade, ao despojo, à proximidade dos versos.


 entre a juventude e a idade adulta

Rosa compila textos escritos entre os 18 e os 30 anos, numa espécie de «despedida da juventude e [de] grito de liberdade». Contrariamente à obra que antecede esta, há mais entradas em prosa e achei curioso que a autora tenha explicado, em entrevista, que o livro se chama Rosa «porque era para ser prosa e o P caiu». Creio que esta imagem é um reflexo da atenção atribuída aos detalhes - e à poesia presente nos acasos da vida.

Outro aspeto que me deslumbrou - e que vi ser corroborado na mesma entrevista - foi o facto de encontrarmos expressões rasuradas, quase como se estivesse a censurá-las. A particularidade dessa decisão é que nunca o chega a fazer em pleno, visto que somos capazes de ler o que estava escrito. A poeta deu-lhes forma, através das palavras, numa altura em que descobria o mundo, não aos 40, quando as editou, por isso, há coisas nas quais já não se revê. Não obstante, esses universos coexistem e torna-se fascinante ver como os aceita e como permite que exista um diálogo entre o passado e o presente.

«Não sei de onde é que vêm estas coisas. Saem-me coisas da ponta dos dedos, coisas que eu nunca pensei, coisas que eu desconhecia sentir»

Rosa é uma metamorfose que nos mostra a importância de nos libertarmos, de sermos quem somos, de termos pensamentos crítico, ao mesmo tempo que eleva a palavra, a necessidade de não nos encolhermos e a memória. Ao escrever sobre coisas que nem sabia que sentia, reforça a confiança nas suas diferentes versões, uma consequência do seu crescimento emocional. Rosa é terno, é sensível, é muito humano e, por essa razão, existem versos em que nos estamos a observar ao espelho, completamente vulneráveis.


 notas literárias
  • Lido a: 16 de junho
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Poesia
  • Poemas favoritos: Alquimia, A caminho de mim como poeta, Ao serviço, A minha coisa favorita
  • Pontos fortes: A pluralidade e a proximidade dos poemas, o crescimento
  • Banda sonora: Rosas, Kappa Jota & MUN | As Minhas Coisas Favoritas, Rita Redshoes | Na Minha Cabeça, Rita Rocha | O Teu Lugar, Márcia | de novo, Lour

Fotografia da minha autoria



Escrever em cafés sempre foi uma das minhas atividades mais satisfatórias, porque gosto de resolver o caos interior com o barulho do mundo. Acho, até, que há uma certa poesia nesta trivialidade, na possibilidade de avançar umas linhas numa folha em branco, enquanto a mesa se reveste de chávenas vazias, há pedidos a serem gritados para trás do balcão e há uma aura frenética que nos abraça a todos.

Se calhar, perco mais tempo a observar o ambiente do que a escrever, mas depois ganho histórias. Se não forem completas, pelo menos, recolho detalhes, expressões para personagens, estados de espíritos e contextos. Talvez até consiga rabiscar alguns versos. Nestes momentos, sinto-me sempre uma pequena ladra, uma vez que nada aquilo é meu, mas tento que tenham a vida mais digna possível, dentro das minhas palavras. Afinal, escrever também é isto: colecionar. E eu tenho colecionado muitas vivências aqui - num lugar ficcionado da minha memória.

Num cenário ideal, sentar-me-ia no lugar de sempre, privilégio de quem chega cedo e não inventa no pedido: chá de jasmim e panquecas da cada, uma especialidade com calda de frutos vermelhos e um aroma que deveria ser vendido em pequenos frascos. Comeria devagar, enquanto, na rua, apareceriam os primeiros rostos e o movimento ficaria apetecível para uma mente inquieta. Assim que abrisse o caderno, tudo o resto acabaria por desaparecer.

Sinto mesmo falta de ter um lugar fixo para escrever fora de casa, um espaço regular onde já nem precisaria de dizer o que queria, porque a pergunta seria apenas uma: «é o habitual?». Queria ter esta rotina há anos para, no fim, saber que há caras que já são familiares, que as conversas já não são de circunstância. Como o meio é pequeno, ajudaria a estabelecer proximidade, ficando todos conscientes quando se passam fronteiras.

Num mundo idílico, aquele seria o meu espaço, um lar alugado sem renda. Aliás, seria para ali que fugiria sempre que os pensamentos se tornassem audíveis, a precisarem de ser transcritos no papel. Penso tanto nisto, que até já idealizei o dia em que chegaria atrasada e a minha mesa estivesse ocupada, sentindo uma pequena afronta, como se me tirassem um pedaço de quem sou.

Gosto muito de escrever em cafés e, como prova disso, este texto foi escrito num. Só preciso de tornar este compromisso constante.


▪ setembro, 2024

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O nome de Clarice Lispector, quando firmei a minha relação com a leitura, passou a povoar o meu imaginário, mas fui rejeitando a ideia de a ler porque, enquanto um dos nomes maiores da literatura brasileira, sentia que não teria competências suficientes para entender a mensagem. No entanto, a curiosidade foi aumentando e as novas edições da Companhia das Letras foram o gatilho que precisava para pôr de lado os meus receios.


 um livro onde parece caber o mundo inteiro

Água Viva não tem um enredo propriamente dito. Através de uma voz feminina, de quem nunca sabemos o nome, transitamos entre a inquietação e a letargia, entre a natureza e a humanidade, entre um espírito livre e uma alma amargurada. Esta personagem-narradora escreve uma carta a alguém e, para além de se colocar inteira nesse processo, desprende-se de qualquer máscara.

Sem estar certar de estar a conseguir acompanhar a dimensão das suas reflexões, senti-me logo presa às suas palavras, ao tom do seu discurso, como se estivesse num interminável fluxo de consciência. Em simultâneo, achei fascinante a sua capacidade para explorar temas distintos, encadeando-os como se fossem um só - ou várias ramificações do mesmo.

«Ouve-me, ouve meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa»

Em Água Viva, senti que esta mulher estava sempre no limiar da vertigem, por isso, sofri pelo momento em que se pudesse fragmentar. É tudo tão intenso, visceral, que quase podia explodir. Ao reivindicar o seu tempo e o seu espaço, ao escrever sobre arte e processos criativos, transgride inúmeras fórmulas, transmitindo a sensação de que neste livro cabe o mundo inteiro.


 notas literárias
  • Gatilhos: Referência a morte
  • Lido a: 15 de junho
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Romance
  • Pontos fortes: A pluralidade das reflexões
  • Banda sonora: Água-Viva, Anavitória | Recomeçar, Tim Bernardes | Boa Noite Amor, Elis Regina | Viagem ao Fundo de Mim, Rita Lee | Eu Vou Me Salvar, Rita Lee

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é escuro o que me pesa no peito
um longo inverno que se abateu
como se fosse feita de nevoeiro

e se o nevoeiro se cerra
já não me resta uma passagem
a céu aberto
só meia dúzia de objetos
inanimados, pousados na estante
sem histórias para contar

Fotografia da minha autoria



A ideia de me juntar à tradição de ler Emily Henry na primavera, altura em que tem publicado, acelerou o reencontro com as suas histórias. Aliás, à custa disso, desafiei-me a ler uma por mês, até chegar à mais recente. E, como decidi fazê-lo pela ordem em que saíram, recuei a 2022 e fui descobrir o seu primeiro romance.


 as histórias que esperam ser contadas

Romance de Verão é um clássico «enemies to lovers»: January é romancista e otimista, enquanto Augustus fez todo o seu trajeto na ficção literária e sem finais felizes. Os seus percursos já se tinham cruzado na faculdade, alicerçado numa certa rivalidade, e reencontram-se quando a protagonista se muda para a casa do pai que acabou de perder. Uma vez que estão a passar por um bloqueio criativo, fazem uma aposta: «trocar de género literário e ver quem é publicado primeiro».

Estava a precisar desta leveza da Emily Henry, mas confesso que tive sensações antagónicas com o enredo: por um lado, achei tudo muito rápido, desnivelado, com pouco espaço para explorar os traumas que habitam as personagens e, por outro, fiquei fascinada com tudo o que dizia respeito ao luto, à amizade, ao processo literário. A parte do romance foi, portanto, a que me interessou menos, mas sinto que a autora trouxe um brilho diferente ao que fugia desse centro.

«Fiz o que qualquer mulher adulta e razoável teria feito quando confrontada com o seu rival de faculdade que se tornou seu vizinho. Escondi-me atrás da estante mais próxima»

Romance de Verão não me mudou a vida, mas lê-se bem. Peca por não sustentar melhor algumas decisões narrativas, contudo, deixou-me a pensar que nem sempre conhecemos assim tão bem quem nos rodeia.


 notas literárias
  • Gatilhos: Luto
  • Lido entre: 1 e 3 de junho
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Personagem favorita: Shadi
  • Pontos fortes: A aposta, o motivo que levou January a mudar-se para a casa na praia, a amizade entre January e Shadi
  • Banda sonora: Brow Eyed Girl, Via Morrison | Everybody Hurts, R.E.M. | Always On My Mind, Willie Nelson | Everywhere, Fleetwood Mac | June In January, Dean Martin

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Junho passou a revestir-se de saudade, de uma melancolia sobre a qual ainda não sei escrever. Mas também teve reencontros, jantares que foram colo, gestos que nos vão colando os caquinhos, a noite mais bonita do ano e muita música ao vivo. Este mês voou e, ainda assim, coube muita coisa no seu abraço.


as coisas maravilhosas de junho


 os fragmentos aleatórios

Vinil de Evermore
A Taylor Swift entrou sempre nas minhas playlists, mas foi com Evermore que me alinhei completamente ao seu estilo musical. Numa ida à FNAC, comentei com a Sofia que gostava de comprar um vinil da Taylor e arrependo-me de não ter filmado a sua reação, porque os olhos dela até brilharam, e deixei-a escolher o vinil que viria comigo para casa. Curiosamente, a decisão final foi o Evermore e achei esta coincidência especial.

   

Roteiro Gastronómico
A lista nem sempre aumenta porque me esqueço de anotar os nomes no Roteiro Gastronómico. Ainda assim, tanto o Nola Kitchen como o Comfort Cakes estavam à espera de uma visita e fiquei rendida a ambos. A comida é deliciosa e o atendimento foi irrepreensível, já estou em contagem decrescente para regressar.

   

Outros fragmentos aleatórios: o pão com chouriço do Tradições da Aldeia, fazer iced caramel macchiato, voltar a provar burrata, o manjerico.


 as músicas e os álbuns

  • Depois do Pecado, Carolina de Deus;
  • O Sangue, Dealema;
  • de novo, Lour;
  • Saudade, Gama WNTD;
  • Agradecido, Plutonio


  • Ferry Gold, A garota não;
  • Violetta, Lhast (este escalou rápido para um dos favoritos do ano).


 as publicações

rosas de santa teresinha
preparei a jarra mas as flores ficaram
no parapeito por não ser capaz
de esbater esta fronteira entre o agora
e um passado que ainda ecoa tão dentro de mim

os meus favoritos do momento
A única vez que escrevi sobre os meus favoritos do momento foi em 2021, porque estava tão fascinada com cada um daqueles apontamentos que senti que mereciam um destaque maior. Entretanto, não repeti esse conteúdo, mas voltei a sentir vontade de agrupar coisas que me estão a entusiasmar em diferentes áreas.


 os filmes, as séries e os podcasts

O Zé Faz 25
Uma festa de arromba, que começa a incomodar a vizinhança por causa do ruído, leva a polícia até casa da família Valbom. O propósito da festa era a celebração dos 25 anos do Zé, mas há um problema: ninguém sabe do aniversariante. Assim, no decorrer de 8 episódios, o inspetor Durães assume a investigação, interrogando pessoas de interesse para o caso. A ele, junta-se a jornalista Joana Magalhães, «determinada em encontrar a verdade até às últimas consequências». Estou bastante investida neste mistério singular.

Rabo de Peixe
Inspirada em factos verídicos, Rabo de Peixe «lembra cicatrizes», porém, acredito que vai para além do estigma: esta «vila é uma das mais pobres do país e da Europa», mas não é só isso, não é só aquele incidente. As memórias pesam, há problemas que ainda hoje se manifestam em várias famílias, porque as feridas são permanentes, mas a série talvez venha aligeirar o ambiente e reduzir os preconceitos, uma vez que também nos mostra a importância de sabermos quem somos ou quem não queremos ser. Embora ninguém saia ileso - fisicamente ou de consciência - preciso da segunda temporada - opinião completa aqui.

Prata da Casa
Os humoristas Luís Franco-Bastos, Vitor Sá e André Pinheiro juntaram-se ao balcão para falarem sobre futebol, mas com muito entretenimento e desafios à mistura. Sai um episódios novo à quarta-feira e, admito já, o segundo é o meu favorito até agora - apesar disso, acho o conceito excelente e eles encaixam na perfeição.

Podcasts: A Lénia Rufino aventurou-se neste formato e lançou Primeiro Parágrafo. Em relação a episódios específicos, destaco Conversas Para Ler com Tânia Ganho, Aposta-mos e Filipa Galrão no Debaixo da Língua.


 os livros

Os favoritos do mês
  • Piranesi, Susanna Clarke;
  • 10 Minutos e 38 Segundos Neste Mundo Estranho, Elif Shafak;
  • Educação da Tristeza, Valter Hugo Mãe.

Outros livros lidos: Romance de Verão, Emily Henry | Que Nós Estamos Aqui, João Tordo | Quem Tem Medo dos Santos da Casa, Sara Duarte Brandão | Querida Tia, Valérie Perrin | Água Viva, Clarice Lispector | Rosa, Sónia Balacó | Sintra, Hugo Gonçalves | A Vida Mentirosa dos Adultos, Elena Ferrante | O Vício dos Livros II, Afonso Cruz.


 os momentos

Hotel ao Vivo no Sá da Bandeira
A podsérie saiu do estúdio para o palco, após 6 temporadas e 81 episódios, para uma despedida especial. E isso, por si só, já seria entusiasmante para mim, porque adoro perceber como é que funcionam os projetos que acompanho de perto, mas acresceu o facto de conhecermos a origem de cada personagem e de termos a possibilidade de ver um episódio integral a ser gravado à nossa frente, com toda a adrenalina e eventuais falhas que essa dinâmica possa significar. O LFB já tem muitos anos de experiência a lidar com o público, porém, não deixa de ser uma aventura com outras exigências - experiência completa aqui.

   

Richie Campbell no Senhor de Matosinhos
O meu coração está em paz com o facto de, gradualmente, ir deixar de ouvir os meus temas favoritos ao vivo, porque ouvi-lo vale por tudo o resto. E que bom que foi voltar a estar num concerto do Richie Campbell, precisava mesmo daquela energia que me transcende. Venha o próximo, para ver «nuvens a transformarem-se em céus azuis» - podem ler a experiência completa aqui.

   

Solstício - Festival de Música
A Maia quis celebrar o dia mais longo do ano e assinalar a chegada do verão com «um Solstício de boa música portuguesa». E, para isso, convidou o David Fonseca e os GNR. O primeiro artista a subir a palco foi David Fonseca e a abertura do concerto é sempre icónica. É apenas a segunda vez que o vejo ao vivo, mas continuo fascinada com a sua energia, com a forma como nos envolve no espetáculo e como quase nos leva para uma dimensão paralela. Ficamos inebriados com o seu talento e com a narrativa visual. Os GNR são uma das bandas da minha vida e fazem parte de vários momentos do meu crescimento. Já não estava num concerto deles há alguns anos, porém, é incrível como a melodia ecoa e tudo se torna familiar de imediato. Há um toque que é apenas deles - podem ler a experiência completa no número 99 da newsletter.

   

S. João
O S. João, para além de ser a noite mais bonita do ano, é amor, é família, é abraço apertado. Confesso que dispenso os foguetes, mas os balões que cobrem o céu serão sempre a minha parte favorita, porque há, talvez, um apontamento de esperança entre o momento em que levantam voo e prosseguem viagem. O coração sentiu a ausência, mas ter os meus sentados à mesa dá-me sempre alento. É a magia do S. João.

   

O bicampeonato do Porto em Hóquei em Patins
A época foi dura e oscilante, mas esta foi, também, a conquista da união. Por mais que tenha parecido que iam bater no fundo, o grupo manteve-se junto e eu sinto um orgulho desmedido nele. Sofri muito, eles ainda mais, mas nunca viraram a cara, mesmo quando as críticas foram extremas (algumas delas injustas). Não acho que a sorte proteja sempre os audazes, mas eles protegeram-se uns aos outros, não largaram a mão e, assim, levantar a taça teve outro brilho. Parabéns, bicampeões, não havia ninguém a merecer mais.


Julho, sê gentil ✨
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