Entre Margens

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«Reféns da violência e da carnalidade»

Avisos de Conteúdo: Violência, Misoginia, Consumo de Drogas, Morte, Cenas Explícitas


O ambiente é exclusivamente masculino, porque as mulheres foram expulsas. Pior, a sua memória foi apagada. Escrever isto é de uma crueldade tremenda, mesmo que seja a representação de um mundo distópico, no entanto, ler o livro de Hugo Gonçalves é compreender que este cenário não é tão descabido.


DELÍRIO IDEOLÓGICO E VULNERABILIDADE HUMANA

O Coração dos Homens é a história de um grupo de amigos que cresce numa Cidade-Estado e que vê o pugilismo a ser glorificado, «elevado a desporto nacional». O que é que estas duas premissas têm em comum? O perpetuar da força física, da virilidade, da toxicidade. Portanto, elimina-se qualquer rasto feminino, porque é um ser menor, com fraqueza de espírito por não esconder os seus sentimentos, a sua vulnerabilidade. Inclusive, os protagonistas não têm direito a ter um nome próprio, porque são só uma imagem totalitária.

«Nunca poderão assumir o medo. Porque são homens»

Houve partes que me pareceram um pouco apressadas, com passagens temporais que preferia que fossem menos espaçadas, porque queria mergulhar mais a fundo na vida dos protagonistas. Apesar disso, foi impossível largar o livro. A escrita do autor é crua, os cenários nunca são romantizados e, no fim, ao ler a sua nota, as referências tornaram-se muito mais claras. Só a título de exemplo, O Coração dos Homens foi instigado pela «inquietação que lhe causaram os ataques terroristas de 11 de setembro», pelo facto de ter praticado boxe, ter vivido em Nova Iorque e ter estudado num colégio de padres, sem raparigas. A combinação destes elementos proporcionou a exploração deste enredo, que evidencia a violência do fundamentalismo, os códigos da masculinidade que são impostos pela sociedade e a complexidade das relações humanas.

«E, sem memória, a culpa não existe»

Estes homens foram sempre privados de liberdade, principalmente da liberdade de ser e de sentir que o medo, os afetos e as emoções não os diminuem. No fundo, houve sempre algo que lhes faltou e há um momento em que, pelo menos um deles, fica mais consciente disso. Portanto, acompanhamos estas trajetórias oscilantes.


🎧 Música para acompanhar: Battle Scene, Hans Newman

📖 Do mesmo autor, li e recomendo: Filho da Mãe e Deus Pátria Família


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«A irritação é a última defesa»


O termo pet peevs, num cenário mais lato, refere-se às pequenas implicâncias que temos em relação a um assunto. Podem não nos afastar dele em definitivo, mas desencadeiam antipatias mínimas que nos incomodam - e que alteraríamos, caso tivéssemos essa oportunidade. E nem os livros, esses objetos mágicos, escapam.

No episódio 25, do podcast Só Se Estraga Uma Estante, a Ana e o Tomé partilharam as suas irritações nos livros. Inspirada por eles, até porque temos pontos comuns, também estruturei a minha lista com coisas que não me distanciam, em pleno, dos manuscritos, mas que me fazem revirar os olhos com uma certa frequência.


CAPAS QUE SÃO AS IMAGENS DOS FILMES
É raro assistir às adaptações cinematográficas, só por isso, já me incomoda, porque não estou alinhada com o contexto. Depois, gosto de ter margem para imaginar os protagonistas, sem estar presa ao ator/ à atriz. Se vier em modo capa removível, menos mal, porque posso deitar essa fora, o problema é quando é capa original.

CAPAS QUE NÃO SE RELACIONAM COM A HISTÓRIA
Acho ótimo que se explore o lado criativo numa capa, até porque convém que seja apelativa - e todos sabemos que comprar um livro pela capa acontece e é válido. Não obstante, espero que haja uma ligação com a história. Não precisa de ser óbvia, mas faz-me uma certa confusão estar a ler e sentir que não há qualquer vínculo.

LETRAS VIRADAS AO CONTRÁRIO NA LOMBADA
A maior parte dos meus livros está disposta na vertical. No entanto, quando sinto necessidade de os pôr na horizontal, irrita-me que as letras do título/nome do autor fiquem ao contrário, porque isso obriga-me a pousá-los com a capa para baixo e não me faz sentido. Nestes casos, tenho de pôr sempre outro livro por cima.

LETRA DEMASIADO PEQUENA
Esta explica-se sozinha, creio, mas vou só reforçar um pensamento: não acho confortável ter narrativas com letras demasiado pequenas, já que parece que perdemos mais tempo a forçar a vista do que a ler.

MARGENS QUASE INEXISTENTES
No segmento do ponto anterior, lembrei-me das margens quase inexistentes, como se as letras fossem uma linha interminável, obrigando-nos a quebrar a lombada para conseguirmos ler tudo. Surpreendentemente ou não, ver a lombada quebrada não me incomoda, até acho que dá um certo charme ao livro, porque mostra que foi vivido. Porém, dobrá-lo todo, ao ponto de sentir que o estou a rasgar, não me entusiasma por aí além.

SAGAS COM FORMATOS DIFERENTES
Seja no tamanho, no design ou na letra. Sendo um universo que se prolonga por mais do que um livro, aprecio que mantenha a mesma estética, uma vez que esse aspeto também conta uma história. Além disso, irrita-me que tenham os primeiros livros em edição normal e em edição de bolso e deixem de apostar numa delas. Isso aconteceu-me com a Saga Millennium, cujos quatro primeiros volumes voltei a comprar, para não ficar com esses em edição de bolso e os restantes em edição normal - deixarem de traduzir sagas também me enerva.

LIVROS SEM CAPÍTULOS
Nem peço que exista uma paginação diferente para marcar o início de um novo capítulo, já me basta que haja um símbolo. Não existir nada que faça essa distinção é que me mexe um pouco com os nervos, porque parece que nem conseguimos respirar. Além disso, acho que se torna mais difícil absorver o que é dito, porque não nos convida a parar, a refletir. Caso não possamos manter um ritmo de leitura diário - ou regular, pelo menos -, penso que esta estrutura também potencia a que percamos o fio condutor e que seja difícil avançar.

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«Alguma vez ouviste falar de tal coisa?»

Avisos de Conteúdo: Homofobia, Aborto, Misoginia, Preconceito, Sexo


O letreiro com luzes néon atrai para um ambiente que parece não caber numa sociedade pacata, entre famílias que temem ser deportadas e que, por isso, fazem o possível e o impossível para passarem despercebidas. No entanto, há um lugar no livro de Malinda Lo que se posiciona como um caminho de (auto)descoberta.


DOIS MUNDOS QUE SE CRUZAM

Ontem à Noite no Telegraph Club transporta-nos para Chinatown, nos Estados Unidos da América, em plenos anos 50, que «não é um lugar seguro para duas raparigas se apaixonarem». Entre questões políticas, que influenciaram a vida de tantas pessoas, mudanças de linguagem e questões de género, é uma narrativa que marca os principais acontecimentos da época, da comunidade sino-americana e da família de Lily.

«As palavras foram ditas com suavidade, mas para Lily soaram como fogos de artifício»

Neste romance queer, que nos mostra cultura e tradições, um amor sáfico e o impacto da repressão sexual, o ritmo é mais lento, há alturas em que, inclusive, o enredo aparenta não evoluir, mas é fascinante como foi crescendo, como conseguimos acompanhar o desabrochar da protagonista. De repente, é como se estivesse a transitar entre vidas paralelas e é notório o pânico, quando sente que esses mundos se podem cruzar.

«- Alguma vez te perguntaste como seria não ter nada que te prendesse ao chão?»

A própria estrutura do livro é muito interessante, até porque cada parte é antecedida por uma linha temporal e a história de alguém importante para Lily; e gostei que a autora incorporasse tantos temas fraturantes de uma forma natural, acompanhando a idade dos intervenientes e o contexto em que se movimentam. A vertente política e a vertente social caminham entrelaçadas e isso reflete-se na maneira como se aceitam ou não determinadas circunstâncias, como nos comportamos perante a diferenças e como o medo é tão paralisante.

«As paredes invisíveis dos seus dois mundos deslizariam de voltar para o seu lugar 
e ambas voltariam a viver as suas vidas separadas sem comentários»

Senti-me muito triste e revoltada na última parte, mas creio que isso só foi possível pela credibilidade que Malinda Lo atribuiu a todo o enredo. Embora seja uma história ficcional, é inspirada nos desafios que tantas mulheres tiveram de ultrapassar, nomeadamente, «aprender a sobreviver como sino-americanas e lésbicas em espaços que normalmente não permitiam a coexistência de ambas as identidades». E permitam-me, ainda, destacar a nota da autora, que é quase uma obra extra, pela riqueza das informações que compilou e que nos ajudam a compreender melhor questões sobre língua, os anos 50, crenças, São Francisco e comunidade.

«Mais uma vez pusera-se em perigo de ser descoberta»

Há uma história de amor a florescer e que, apesar do perigo, procurará resistir à pressão, ao preconceito, à incerteza do futuro. Ontem à Noite no Telegraph Club é mesmo um pedaço de luz a romper com a escuridão.


🎧 Música para acompanhar: 1950, King Princess


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- Título sugerido pela Marisa Vitoriano -


A minha rotina, nas últimas semanas, assumiu um caráter mecanizado, repetitivo. Ligo o computador, coloco a chávena de chá na base de madeira e sento-me a escrever. Quer dizer, sento-me para o tentar fazer, porque a secretária está de frente para a janela e eu perco mais tempo a unir as linhas do cortinado do vizinho do que a encadear os pensamentos para a tese. Terei tempo.

Vivo no primeiro andar, num apartamento partilhado por mais dois estudantes: ele, de Línguas e Culturas Estrangeiras, ela, de Gestão de Património. Eu sou de Letras e acho que isso se percebe pelo quanto divago nas palavras. Estou sozinha na maior parte das horas, porque somos de anos diferentes. Aliás, eles ainda agora chegaram ao meio universitário e eu estou quase a partir. Portanto, como já nem aulas tenho – o que os inveja sempre –, fico circunscrita a estas quatro paredes. Isso basta-me, porque o espaço é grande e tenho o sossego da sala e a azáfama da rua para equilibrar os meus picos de humor. Quando necessito de uma pausa, fico só a olhar pela janela, a ver o mundo passar em hora de ponta.

Foi num desses momentos que comecei a reparar em algo peculiar. Ouço a voz do Castle em surdina e, caso isto fosse um dos seus episódios, o vizinho do prédio em frente, a julgar pelo secretismo, estaria envolvido em negócios obscuros. Não sei se estará, porque está cá há um mês, mas só esta semana é que vi a carrinha das mudanças, que tem vindo desde terça-feira – hoje é sábado. Sem saber explicar bem a razão, esta atividade tem-me interessado bastante. Inclusive, pensei oferecer-me para ajudar, mas talvez fosse intromissão a mais. Portanto, decidi ficar no meu lugar, a permitir que tudo siga o curso que tem de correr.

Regresso à escrita e a noite vai caindo lentamente, como se a nossa linguagem fosse toda em câmara lenta. Com mais dois capítulos adiantados, recompenso-me com um café tirado em casa, porque sinto-me demasiado preguiçosa para sair. Sento-me no parapeito, resgato o livro da Patti Smith da pilha por ler e mergulho nas suas palavras, mas não por muito tempo: ali estava ele, o meu novo vizinho, alto, cabelo semi encaracolado, olhar taciturno e uma expressão pouco amigável. Naquele entra e sai todo, não pude deixar de reparar que as caixas se amontoavam pelo apartamento, mas a mesa da sala permanecia vazia. Isso talvez não fosse motivo de atenção, se não tivesse praguejado com o senhor das mudanças, quando colocou algo sobre o móvel. Pareceu-me uma reação despropositada, exagerada, mas notava-se um certo nervosismo na maneira como o vizinho se posicionava, como se movimentava: sempre atento, comprometido, ansioso para que o deixassem sozinho – acho que tenho de fazer uma pausa nos episódios de Castle.

Mais por reflexo do que por outra coisa, olhei para a nossa mesa. A cor já não se distinguia bem no meio daquela coleção de papéis, encomendas por arrumar e alguns elementos decorativos. Deveria ser uma peça funcional, mas acabamos por desistir do efeito. Afinal de contas, quase nunca a usamos ao mesmo tempo e o espaço que sobra chega bem para um de nós. Será que o nosso novo vizinho é um maníaco das limpezas? Tenho sérias dúvidas, ali há algo mais.

O corrupio diminuiu. Devidamente instalado, a sua vida tornou-se mais pacata. Queria desligar-me da ideia que me pesa em todos os pensamentos, mas passei a espiá-lo. Não sei se a distância entre os nossos prédios é assim tão curta ou se eu é que já estou de olhar demasiado treinado, mas podia jurar que lhe via os poros. Penso que não reparou em mim, mas, para evitar problemas, mantive os cortinados fechados, para poder olhar à vontade. Estava tudo organizado, mas a mesa continuava vazia. Volta e meia, tocava-lhe, como se a estivesse a avisar da sua presença, mas isso era o máximo que o via a fazer. Honestamente, nem sei qual é a utilidade de uma mesa que não pode ser usada.

– O que é que estás a ver? – perguntou-me Bárbara, acabada de chegar das aulas.
– Que susto! Não te ouvi entrar.
– Pudera, não tiras os olhos do prédio da frente.
– Que disparate!
– Diz-me lá, é assim tão giro?
– Quem?
– O vizinho, quem é que poderia ser?
– Oh! O que é que isso interessa?
– Tudo, porque não tens feito outra coisa nos últimos dias. Se eu não te conhecesse, diria que isso roça a taradice – e riu-se.
– És tão exagerada – respondo entre um revirar de olhos –. Não estou a espiar o vizinho, estou a tentar organizar informação para a tese.
– Claro, claro.

No ar ficou só uma gargalhada. A Bárbara, claramente, não tinha comprado a minha história, mas como é que lhe ia dizer que o meu interesse era aquela mesa vazia? Ia achar que tinha enlouquecido e eu não a podia censurar. Para evitar levantar mais suspeitas, afastei-me da janela e fui para o meu quarto ler. Tive de reler o mesmo parágrafo três vezes e desisti. Resolvi, então, sair de casa para espairecer.

– Vou sair, não esperem por mim para jantar.

Quando cheguei à rua, lá estava ele a sair também. Caminhou na minha direção e, como os meus pés não obedeceram ao meu cérebro, fiquei só parada à espera, a vê-lo aproximar-se para tirar satisfações.

– És a minha vizinha da frente, não és?
– Culpada.
– Muito gosto, sou o Lourenço
– Madalena.

Preparava-me para me despedir desta interação banal, quando me perguntou se o acompanhava num passeio, com o pretexto de conhecer melhor as redondezas pelo olhar de uma local. Podia ter inventado uma desculpa qualquer, mas é claro que aceitei. O meu fascínio pelo abismo é surpreendente.

Partilhamos trivialidades, mas também fiquei a saber que esteve a estudar no estrangeiro e que regressou para estar mais próximo da família. Escutava-o em silêncio e algo na sua voz soava a falso. Ele precisava que eu acreditasse no que me estava a contar, só que eu não sabia como, uma vez que tudo na sua vida parecia demasiado perfeito, ensaiado para encaixar no devido lugar. O mal de ser de Letras e de divagar tanto nas palavras é que, em algum momento, paramos de assumir que o real é tudo o que vemos, para passarmos a questionar o que está à nossa frente. Há sempre mais um porquê na ponta da língua.

Alinhei no jogo sem me comprometer, até que, por não saber estar calada, lhe disse que achava linda a sua mesa da sala – ingenuidade ou parvoíce? Vou evitar responder.

– Foi uma herança da minha avô materna – confidenciou.
– Quem me dera conseguir manter a que tenho lá em casa tão vazia e funcional.

Não me respondeu, limitou-se a olhar para o relógio e a desculpar-se com um compromisso que o obrigava a regressar a casa.

– Sem problema, eu ainda fico por aqui mais um pouco – disse-lhe, tentando não acusar a mudança repentina de tom –. Teremos mais oportunidades para continuar a conversa... vizinho.

O compasso de espera para a minha última palavra parece tê-lo desconcertado. Mas pouco, porque este homem tem uma fibra cínica. Foi só um ligeiro enrugar de olhos que o denunciou.

Deixei-o ir, fiz um pouco de tempo e também eu voltei a casa, mas optei por ir pela rua de cima, entrando pelas traseiras do apartamento. Reconheço que talvez seja uma medida exagerada, ainda assim, não fiquei confortável com a possibilidade de Lourenço me ver a chegar. Quanto mais penso no que aconteceu, mais confusa me sinto, por esse motivo, evitei prolongar a minha atividade favorita dos últimos dias, como diria Bárbara, e não espreitei pela janela. Seja o que for que se passa ali, com aquele homem, prefiro não saber.

Eram três da manhã e eu dava voltas na casa, sem conseguir adormecer. Levantei-me para ir beber um copo de água e fui atraída por um foco de luz. A rua é iluminada, mas a cor é mais quente. Esta era diferente, quase celestial. Aproximei-me da janela e movi ligeiramente o cortinado. A mesa vazia já não estava vazia, nem parecia bem uma mesa. À sua frente, um monte de ecrãs orbitava com informações codificadas. Ainda pensei que fosse um sonho, mas aquela presença não deixava margem para dúvidas.

Estávamos os dois a olhar um para o outro e eu acho que já vi demasiado. 

Fotografia da minha autoria



«Um romance com um enredo delicioso»

Avisos de Conteúdo: Saúde Mental, Referência a Droga/Álcool,
 Relacionamentos Abusivos, Auto-mutilação


A sensação de encontrarmos um autor cuja obra queremos ler toda é maravilhosa, porque nos mostra que chegamos ao nosso lugar, ao tipo de escrita e construção narrativa que se adequa às nossas preferências. Isso tem-me acontecido com Sally Rooney, portanto, quando for grande, quero escrever como ela. É possível?


UM COMPLEXO MÉNAGE-À-QUATRE

Conversas Entre Amigos concentra-se na história de duas amigas, Frances e Bobbi, que já se envolveram numa relação romântica. Apesar de não ter resultado, a amizade entre ambas manteve-se estável e inseparável, e acabaram por conhecer Melissa e Nick, um casal mais velho. A interação entre os quatro foi-se tornando íntima, mas também complexa, levando-os para um mundo de luxo, festas e vulnerabilidade.

«Agradam-me as pessoas do tipo poético»

O início pareceu-me algo disperso, por isso, demorei a relacionar-me com o enredo e com os protagonistas - e não estou certa de o ter feito em pleno. Ainda assim, acho inegável um aspeto: a capacidade de Sally Rooney para construir as suas personagens. Adoro que nunca as tente tornar perfeitas, adoro, inclusive, que nos faça questionar tantas vezes os seus valores, a sua moralidade, tendo em conta as decisões e os comportamentos que têm, nas mais diversas circunstâncias. Talvez por esse motivo tenha passado metade do tempo a querer gritar com cada uma delas e a outra metade a tentar escutar os seus dramas, as suas dúvidas, as suas dores.

«Há em ti qualquer coisa de genuinamente imperturbável, disse ele, Não há?»

Há muita coisa que não é dita e isso traz dissabores, porque a distância nas relações começa a tornar-se evidente. E é neste silêncio que nós, enquanto leitores, traçamos os nossos pareceres e vamos conhecendo Frances, Bobbi, Nick e Melissa, com personalidades complexas, a tentarem encontrar algum propósito.

«O coração batia-me disparado em virtude da consciência de não estar a ser verdadeira, 
mas exteriormente era uma mentirosa competente, até mesmo competitiva»

Não gosto de comparar livros (do mesmo autor ou não), mas sinto que a grande diferença entre Pessoas Normais e Conversas Entre Amigos é que, no primeiro, há um tom melancólico, soturno, uma vez que os envolvidos não sabiam o que fazer; no segundo, cada ação é deliberada, eles sabem o que fazer para magoar o outro. Ainda que algumas coisas tenham sido, para mim, exageradas, apreciei bastante esta dinâmica: porque é verosímil, zero condescendente e nós entendemos o que sentem, mesmo quando isso não é descrito.

«Alguma vez tiveste a sensação de estares perdida na vida, sem saberes o que estás a fazer?»

Existem coisas que podiam ser aprofundadas, ainda assim, para primeiro livro, tem uma abordagem mesmo interessante. E a verdade é que já passaram três meses desde que o li e a história central continua comigo.


🎧 Música para acompanhar: Atmosphere, James Blake

📖 Da mesma autora, li e recomendo: Pessoas Normais e Mundo Belo, Onde Estás


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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«(...) é mais estação da alma do que da Natureza»


O meu estado de alma está sempre alinhado com o outono. Na newsletter 149, a Sofia convidou-nos a refletir sobre a comercialização da estação do ano em causa, por esse motivo, parei para repensar sobre a primeira frase deste parágrafo e percebi que fui, intuitivamente, construindo a minha própria imagem do outono.

Existem muitas atividades que não entram na minha rotina, sem que isso seja provocado, apenas porque nunca se proporcionaram. A minha casa não é invadida pelo aroma de tartes de abóbora, ainda não provei o famoso pumpkin spice latte do Starbucks, nem me cruzo assim tanto com árvores revestidas daquele tom dourado ou acastanhado típico. Por outro lado, suspiro sempre por castanhas, roupas apropriadas à época e pela minha chávena com um caramel macchiato acabado de tirar. E velas, claro, a derreter em várias divisões.

Na realidade, o meu cenário idílico de outono inclui muita poesia. Embora leia este género o ano todo, acho que a energia da estação lhe assenta bem, talvez pelo tom nostálgico, talvez por ser feito de infinitas camadas - tal como o outono. Assim, reuni a antologia que encerrou as minhas leituras de 2022 e os três últimos livros de poesia lidos, para vos trazer quatro sugestões que podem aconchegar uma das minhas estações favoritas.


ANTOLOGIA POÉTICA, NATÁLIA CORREIA


Avisos de Conteúdo: Linguagem Explícita, Referência a Violação

A minha última leitura do ano anterior. A minha estreia na poesia de Natália Correia. E que bela combinação esta! Confesso que estava à espera de ser arrebatada de uma maneira diferente, em alguns poemas, no entanto, é fascinante como expressa os seus pontos de vista, como intervém através da palavra, centrando-nos em problemas concretos e urgentes. Com um tom ora carnal, ora vulnerável, é uma obra com inúmeras camadas e intencionalidades, na qual se identifica uma certa ironia e uma forte identidade política.


JÁ NÃO ME DEITO EM POSE DE MORRER, CLÁUDIA R. SAMPAIO


Uma escrita crua, visceral, sem receio de espelhar todas as emoções que lhe fervilham no peito. Além disso, estes poemas carregam um traço de absurdo, de loucura, mostrando bem a dualidade que habita em todos nós, seres tão inconstantes, incoerentes. E, depois, o silêncio que fica no vazio, no que não se compreende, nas angústias e nos traumas que fazem morada desde a infância. Achei absolutamente fascinante a maneira como o livro termina, uma vez que me parece acrescentar uma essência ainda mais pessoal ao manuscrito.


OBRA POÉTICA, SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Avisos de Conteúdo: Referência a Morte

A poesia de Sophia é muito visual, algo melancólica, com uma «pesada consciência da morte» e inúmeras dicotomias. Com o mar sempre presente, deambula pelo desejo de partir, pelo assombro, pelo pânico, pelo deslumbramento. Há, inclusive, uma polaridade entre o lado sombrio e a luminosidade das coisas. E é percetível a importância das casas na sua vida. Nestes poemas, parece condensar o mundo, por isso, temos temas tão diversos como a noite, o jardim, a natureza, os deuses, o amor, a alegria, o luto, o êxtase e a influência de outros artistas. Além disso, reforçou um pensamento que já partilhei entre amigos: a capacidade de escrever sobre trivialidades, transcendendo-as: a observação aparenta ser simples, mas ficamos a pensar naqueles versos e compreendemos que são feitos de camadas infinitas. Isso é um dom que me inspira.


TODAS AS PALAVRAS, MANUEL ANTÓNIO PINA


Avisos de Conteúdo: Referência a Morte

Manuel António Pina foi o autor homenageado, na edição deste ano, na Feira do Livro do Porto. Como só tinha lido textos soltos, quis aproveitar a oportunidade para me perder na sua poesia. Todas as Palavras revelou-se uma viagem intimista, como se estivesse sempre a regressar a casa. Deambulando pelas palavras, pelo silêncio, pela finitude, pela consciência de si, pela saudade e pela trivialidade da vida, temos sempre presente o que é real e aquilo que só o aparenta ser. Sinto que Pina nos deixa margem para fazermos distintas interpretações, dependendo do momento em que lermos os seus poemas. Hei-de relê-los e descobrir novos significados. Hei-de compreendê-los, mesmo sabendo que nunca os compreenderei em pleno. A sua escrita é desconcertante, mas também nos reserva o aconchego de um abraço. Sem desmerecer os restantes, digo-vos que Amor como em casa é um dos poemas mais bonitos que já li na vida - tornou-se um favorito de vida.

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«Acabado de entrar, pensava como reconforta a alma»


As newsletters são um mundo que tenho adorado explorar - e este vínculo vai-se estreitado. Já recebo algumas, há algum tempo, mas reconheço que lhes dou muito mais valor desde que também enveredei por este formato: porque compreendi que cria uma proximidade maior com quem escreve e com as suas vidas.

Transformar a Portugalid[Arte] numa newsletter permitiu-me recuperar um traço pessoal que começava a perder e é isso que me inspira em todas aquelas que subscrevi. Mesmo que possam trazer conteúdo específico, encontram uma maneira de o humanizar, de estabelecer uma ponte com o seu quotidiano. Isso, para mim, é fascinante, uma vez que potencia uma rede de partilha que também me predispõe a criar.

A lista começa a ficar extensa e quase todas partilham fragmentos intimistas. No entanto, também há margem para propostas culturais. Com ritmos distintos, é sempre uma surpresa ir ao e-mail e ter estes pedaços de luz.


Palavra Por Palavra
Newsletter de Lénia Rufino com pequenos detalhes de todos os dias - e histórias à janela.

Leia's Newsletter
Newsletter da Leia Mulheres - Porto sobre leituras, autores do mês e outras coisas mais.

Step Into The Daylight
Newsletter da Sofia Costa Lima com devaneios que habitam na sua mente e coisas que iluminaram a semana.

Patrícia Lobo
A newsletter da Patrícia, que vai partilhando fragmentos da sua vida.

Boas Novas
A newsletter inconstante da Rita da Nova, com várias observações que a inspiram a escrever.

Nota Solta
Newsletter da Lyne com vários apontamentos da sua semana e divagações sobre temas diversos.

Fika
Newsletter da Inês, que traz sempre um pequeno resumo dos seus dias.

Almanaque Sincero
Newsletter de Guilherme Fonseca, Pedro Durão e Duarte Correia da Silva, na qual cada um é responsável por escrever um texto até 250 palavras, percorrendo os mais variados temas.

Clube das Mulheres Escritoras
Uma newsletter desenvolvida por várias escritoras portuguesas, com textos autorais e uma agenda com os eventos onde estarão presentes - individualmente e/ou enquanto grupo.

Tudo Bem Escrito
A newsletter do Martim Mariano, onde encontramos notícias, crónicas, histórias e dicas práticas sobre escrita.

Maybe Not
Newsletter da Marta Gouveia, que é quase semanal, onde dá voz a vários assuntos que a inspiram/inquietam.

Livraria Aberta
Newsletter da Livraria Aberta, que é sempre escrita a partir de um tema e com um cunho cultural.

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«(...) as memórias são o pretérito perfeito do verbo viver»

Avisos de Conteúdo: Morte, Violência Animal


A morte é uma etapa inevitável. Por princípio, estamos todos a par dessa condição, no entanto, sermos confrontados com um prazo de validade concreto pode ser bastante assustador e limitador na mesma medida.


UMA VIDA CONDENSADA EM PALAVRAS

Pretérito Perfeito é sobre a história de Vasco, personagem principal do enredo, a partir do momento em que sabe que tem pouco tempo de vida. Portanto, o seu fim é anunciado desde o início e nós, enquanto leitores, acompanhámo-lo através de uma série de memórias, de dores, de angústias. Será que a vida cabe toda aqui?

«E penso em todas as coisas que queria fazer e para as quais já não me resta tempo»

Já não tenho presente o momento em que me cruzei com este livro - talvez tenha sido uma recomendação -, mas a premissa fascinou-me logo. Sei que pode soar um pouco mórbido, porque dá a ideia de se querer chafurdar na lama e de se querer ultrapassar um limite pessoal, ainda assim, acho sempre interessante compreender o impacto de uma notícia desta dimensão, porque também nos ajuda a pensar no outro, a pormo-nos seu lugar. No fundo, mesmo que seja uma narrativa ficcional, não deixa de ser um exercício de empatia.

«Tive medo, muito medo, por instantes não estive ali. Não consigo explicar onde estive»

Ter acesso aos pensamentos e às considerações do protagonista tornou a experiência mais próxima. No entanto, confesso que me fui distanciando das suas partilhas, quando começou a vaguear por temas que não me pareceram assim tão relevantes para o contexto. Podiam ser mencionados, até porque o livro está escrito como se fosse um diário e faz sentido dividir-se nestas ramificações, mas não acho que sejam prioritários para serem desenvolvidos como foram. Portanto, percebo que não se condicione ao tema central - e sinto que a narrativa ganha com isso, porque torna-a mais humana -, mas preferia que não tivesse divagado tanto.

«(...) e de novo a mesma tristeza, o mesmo travo amargo, a mesma saudade, a mesma pena de tudo deixar»

A maneira como recebemos notícias delicadas é diferente de pessoa para pessoa, não há um protocolo fixo ou reações mais corretas do que outras. Nestas páginas, temos acesso a uma delas e, embora não me tenha arrebatado, gostei que a autora nos tivesse apresentado uma personagem com muita vontade de viver.


🎧 Música para acompanhar: I Am The Resurrection, The Stone Roses

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«As palavras esmagam-se entre o silêncio»


Um tinto a escorrer pelo copo de cristal
E ecoa o baque seco de uma rolha de espumante
Suja-se a toalha com uma nódoa
Já se faz tarde
Mas o relógio não avança
E já ninguém faz cerimónia

Para trás fica sobre a mesa
Um ramo seco
De eucaliptos

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«(...) raros são os trajetos que coincidem»

Avisos de Conteúdo: Maternidade, Luto, Referência a Drogas e Violência; Linguagem Explícita


A Rita da Nova «arquivou este livro com a etiqueta: livros-que-gostava-de-ter-escrito». A Sofia Costa Lima seguiu a mesma linha de pensamento e, durante a nossa conversa, ainda enumerou motivos para que o lesse em agosto - porque ia deixá-lo para setembro. Quando o terminei, percebi a dimensão das suas palavras.


UMA TOPOGRAFIA ÍNTIMA

A História de Roma tem uma sinopse que parece revelar imenso desta história, no entanto, sinto que diz muito pouco daquilo que vamos encontrar. Em traços gerais, cruzamo-nos com duas pessoas que se reencontram dez anos depois de terem terminado a sua relação, quando ele a vem visitar a Lisboa. Durante uma semana, percorrem a cidade e as memórias que construíram em conjunto, na tentativa de recordarem laços comuns.

«Trazer uma pessoa ao mundo deve ser como inaugurar uma capital ou descobrir uma floresta virgem»

Para além do trajeto pela capital portuguesa, a autora leva-nos até Buenos Aires, Berlim, Beirute e Marselha, que não só moldaram a protagonista, como também tiveram peso na relação entre os dois. Algo que me fascinou foi a capacidade de Joana Bértholo nos transportar para os ambientes mencionados: excluindo Lisboa, não visitei os demais, porém, quase que consegui ver as ruas, as pessoas, a movimentação, a vida a acontecer. Por outro lado, desarmou-me perceber que as versões das personagens, em cada um desses lugares, são díspares, como se tivessem sido vividas em separado, como se não fossem elas as envolvidas.

«A cada dia vou esbatendo a fronteira daquilo que, até ao dia anterior, me parecia intocável»

Senti, sobretudo, que a narrativa se foca no impacto das nossas memórias, enquanto nos leva a questionar sobre podermos ou não confiar nas mesmas. Até que ponto não romantizamos os acontecimento? E, ao fazê-lo, terá sido para nos protegermos? Terá sido por ser mais dura a realidade? Será que é mais fácil preservar o passado, se reajustarmos as nossas recordações? Pelo meio, há outros temas a assumir protagonismo.

«Os amigos parecem ter mapas do futuro que não me foram entregues»

A maternidade é um dos assuntos centrais e achei mesmo interessante - e pertinente - o modo como o explora, como o humaniza, como demonstra que é muito ténue a fronteira entre o querer e o não querer ser mãe - e as repercussões que qualquer uma das decisões tem para a mulher. Ademais, existem tantas camadas neste tema, que, quanto mais penso nele, mais perguntas me vão surgindo. Não sei se algum dia serei mãe, face ao presente, não é um cenário provável, mas fiquei a equacionar esta ideia de querermos ou não querermos algo: será que é uma vontade genuína ou continua a ser condicionada por padrões enraizados na sociedade? Por todas estas possibilidades inesgotáveis, sei que é um livro que ficará comigo, bem colado à minha pele.

«Parece que a vida é sempre dos outros e nenhuma destas moradas a minha»

Desde a escrita aos temas, Joana Bértholo levou-me numa viagem indescritível, numa topografia íntima, explorando geografias locais e afetivas, deixando-me na dúvida entre o que é real e o que é ficção. Senti-me magnetizada durante toda a leitura, portanto, será um dos meus livros favoritos do ano, sem qualquer dúvida.

«O peso destes anos curvava-me as costas»

Só por curiosidade, tendo em conta a identidade visual, adorava que esta história saísse do papel para o ecrã. E termino com uma nota encantadora: A História de Roma ganhou o Prémio da Fundação Eça de Queirós.


🎧 Música para acompanhar: En El Último Trago, Chavela Vargas

📖 Da mesma autora, li e recomendo: Ecologia


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