Entre Margens

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«Parece que o planeta não é mais do que isso, agora»

Gatilhos: Linguagem Explícita e com Ironia


A pandemia não é um cenário longínquo, portanto, compreendo que ler sobre o assunto não seja uma vontade partilhada por todos. Ainda assim, se for através das palavras de Ricardo Araújo Pereira, abre-se uma exceção.


UMA HISTÓRIA DE PANDEMIA

Ideias Concretas Sobre Vagas conta «uma história da pandemia» e inclui uma seleção de textos «publicados na revista Visão e na Folha de S. Paulo, entre março de 2020 e outubro de 2021». Se o objetivo era esquecer este período conturbado, o humorista faz questão de nos trocar as voltas e de nos recordar das suas particulares, chatices e momentos de tensão e de uma certa incongruência. A parte maravilhosa disto tudo é que o faz, claro, com imensa graça, por isso, passamos um momento agradável.

«O melhor das pessoas é difícil de suportar, porque se trata de uma recordação dolorosa de que há gente
com uma abnegação e altruísmo dos quais eu não sou capaz»

Este último adjetivo talvez não fosse o primeiro que me ocorresse ao falar da pandemia, contudo, é nestes detalhes que se vê a genialidade do RAP. Se há o risco de estas crónicas ficarem datadas? Sim, há. Mas, por outro lado, acabaremos sempre por nos rever, por relembrar comportamentos transversais à sociedade e por revisitar a ideia de que ficaria tudo bem, quando, na realidade, não ficou. Além disso, acho que pode ser interessante, quando a distância temporal for maior, voltar a esta obra.

«Nunca falhamos a falhar. Podia ser o nosso lema»

Em Ideias Concretas Sobre Vagas fica, também, evidente o sentido apurado de Ricardo Araújo Pereira para destacar a chalupice pegada que habita no ser humano.


🎧 Música para acompanhar: Horas Vagas, Anaquim

📖 Do mesmo autor, li e recomendo: A Doença, o Sofrimento e a Morte entram num Bar, Estar Vivo Aleija e Idiotas Úteis e Inúteis


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«A trágica realidades dos refugiados»

Gatilhos: Morte, Violência, Violação, Sexismo, Xenofobia, Linguagem/Cenas Explícitas


As conversas sobre livros são sempre esclarecedoras e um portal para novas experiências. E se Manuel Jorge Marmelo não surgisse numa partilha com o meu vizinho, certamente que não chegaria ao seu livro.


FICÇÃO ALHEIA À REALIDADE. OU TALVEZ NÃO

Tropel é uma ficção alheia à realidade, mas inspirada em factos reais. Nela, acompanhamos o adolescente Atanas Viktor, que descende de uma longa linhagem de caçadores impiedosos. Remontando a um lugar primitivo da essência humana, percebemos que esta história, outrora tão distante, está «cada vez mais próxima da soleira da nossa porta» - podendo apresentar-se de distintas manifestações.

«Cabe-nos garantir a paz das nossas casas, das nossas famílias, do nosso país»

A narrativa assume um tom quase visceral, atendendo à natureza dos acontecimentos descritos. Na sua generalidade, é a violência que marca o ritmo da história e chega a tornar-se desconfortável o ódio, o comportamento face às mulheres (infelizmente, ainda atual) e a total ausência de respeito e de empatia pelo outro. Além disso, vemos o protagonista a debater-se sobre uma série de questões, porque cresceu num ambiente medonho, hostil e com demasiados silêncios.

«Não consigo dizer se o que senti foi orgulho ou arrependimento»

Confesso que a não existência de capítulos dificultou um pouco a leitura, uma vez que é uma viagem densa e dolorosa e parece que não temos qualquer margem para respirar e assimilar cada fragmento. Por outro lado, é inegável que procuramos compreender até onde este longo pensamento nos levará e de que modo é que as nossas origens são ou não isentas de contestação, porque descobrimos um adolescente a transitar da aceitação para a dúvida, colocando em causa os princípios que lhe foram incutidos desde o berço.

«Alguma decência mínima temos de manter. Alguma humanidade]

Tropel é uma metáfora e leva-nos ao abismo da alma humana.


🎧 Música para acompanhar: Ferrugem, Samuel Uria


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«Um olhar íntimo sobre uma comunidade rural»


O projeto Histórias da Montanha é baseado nas obras Contos da Montanha e Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga. Transmitido pela RTP, e ainda disponível na RTP Play, é composto por cinco histórias, cinco «retratos de vidas humildes, em Portugal, nos anos 40», mostrando, também, o olhar de uma comunidade rural, no qual o sofrimento, a violência e o isolamento são conceitos comuns - e transversais no tempo.


A MARIA LIONÇA
A Maria Lionça foi a primeira história a ser exibida e, como o nome deixa antever, permite-nos acompanhar Maria Lionça, que, em criança, era a alegria da aldeia e cujo riso era imagem de marca. À medida que vai crescendo, a sua gargalhada torna-se menos expressiva, porque as privações a que fica sujeita fazem-na esmorecer. Mas não totalmente, pois é exemplo de resiliência e de um enorme espírito de sacrifício.

Achei muito interessante que o argumento se faça mais de uma componente visual do que através de diálogos: é dito o essencial, tudo o resto percebemos pelos gestos, pelo desenrolar das cenas, até pelos silêncios. Os últimos minutos do filme são impressionantes, porque expressam algo contranatura. É muito emotivo.


O LEPROSO
O segundo filme centra-se em Julião, brutalmente segregado pela comunidade, quando surgem os primeiros sintomas de lepra. Temendo o contágio, a população afasta-se, mas o jovem tem ainda mais vontade de viver. Além disso, começa a apoderar-se dele uma sede de vingança, o que deixa todos em pânico.

É um retrato interessante da condição humana, dos medos que paralisam, dos preconceitos, do efeito da discriminação e da linha ténue entre a dignidade e o egoísmo; entre a empatia e a proteção individual. Estes aspetos levantam questões, a começar por estas: o que faríamos no lugar destas pessoas? Conseguiríamos ser mais altruístas? A juntar a isso, não nos podemos esquecer da época em que se desenrola a ação, atendendo a que a informação e os recursos eram mais limitados.

É desolador perceber que Julião perdeu o nome, para passar a ser o leproso, como se a doença fosse o seu único traço de identidade. Imagino a revolta, por esse motivo, sinto que é um filme cheio de camadas.


O ALMA GRANDE
O terceiro filme do projeto Histórias da Montanha centra-se na história do Tio Alma Grande, cuja função é garantir uma morte discreta aos moribundos. E fá-lo com um único propósito: impedir que, em confissão, revelem os seus segredos e exponham o judaísmo professado clandestinamente dentro de famílias de cristãos-novos. Isaac é um desses moribundos, às portas da morte, mas há uma reviravolta que altera todo o tom da narrativa e, claro, do quotidiano do Alma Grande e da família de Isaac.

Não imagino o fardo que é tirar a vida a alguém, mesmo que este «tirar a vida» seja um mecanismo para a salvar da doença, do sofrimento, do perigo que poderá resultar da confissão. Esta dualidade pesa. No entanto, não me consegui envolver com este argumento e acho que parte da culpa se deve à sua duração: tem pouco mais de meia hora e, portanto, parece-me que houve aspetos que se ressentiram disso.

É percetível o desejo de vingança, o isolamento e o lado sombrio, mas faltou-me um pouco mais de contexto.


A PAGA
O quarto filme do projeto Histórias da Montanha centra-se em Arlindo, um galã que utiliza os seus dotes musicais para enganar as raparigas e usá-las a seu bel-prazer. Este comportamento nunca lhe trouxe dissabores, até ao dia em que tentou a sorte com Matilde: ao recusar-se a casar com ela, coloca a sua vida em risco, porque tanto o pai, como os irmãos da jovem não descansarão até que ele pague a sua desonestidade.

O argumento tem pouco mais de meia hora, mas, neste, acho que fluiu tudo melhor, com cenas menos precipitadas e sem ruído. Percebe-se a mensagem e não enredam na concretização. Além disso, é mais uma demonstração clara dos valores que regem a comunidade, é mais uma prova que o problema não é a humilhação da mulher, mas o orgulho ferido dos homens da família - mudou tão pouco no tempo.


MARIANA
Mariana é uma mulher independente, com uma vida pacata, que «obedece a dois instintos: maternal e sexual».

Mariana parece ir numa longa caminhada, talvez à procura de uma situação mais estável, e envolve-se sexualmente com um homem em todos os locais por onde passa. Assim, multiplicam-se os filhos, bem como a serenidade da protagonista, que se apresenta sempre leve, de sorriso largo e a transbordar de amor.

Foi o meu argumento favorito, porque destaca algo essencial: a liberdade de ser. Sendo Mariana mulher, numa época e contexto de mentalidades fechadas, é audaz este quebrar de estereótipos. Afinal, «a terra humilde era ela. Eles atuavam apenas como o vento, que traz a semente e passa». Mariana passou e deixou marca.

Fotografia da minha autoria



«Fiz de perder o meu ofício»

Gatilhos: Linguagem/Cenas Explícitas
O risco de não conseguirmos parar de ler


O olhar de quem observa o mundo pelos detalhes apresenta uma candura diferente, uma vez que é capaz de revestir as trivialidades com outra luz. Não ignora os dias sombrios, por vezes repletos de tanta escuridão, mas vê para além do óbvio, mostrando-nos perspetivas que nunca equacionamos que existissem. É como se estivesse num permanente estado de deslumbre e surpresa. E eu senti tudo isso no livro de Gisela Casimiro.


A RIQUEZA DE HISTÓRIAS MUNDANAS

Estendais compila crónicas sobre dores, sonhos, pessoas, relações falhadas, homenagens e uma série de pequenas coisas que se elevam pela forma como a autora brinca com as palavras. Aliás, vai bordando aquilo que ouve, que vê e que pensa com bastante naturalidade, como se fossem retalhos da mesma peça.

«O coração desarruma tudo na ânsia de se fazer maior»

Esta obra foi uma das escolhas do Clube do Livra-te, para novembro, portanto, seguindo a dinâmica habitual, definiram-se metas de leitura para discutirmos no Discord. Fui ler o Prefácio e a Introdução por curiosidade e, quando dei por isso, já tinha lido os textos da meta 1, porque fui completamente arrebatada pela escrita, pela cadência, pela maneira como deambula pelos temas. Às vezes, parece que diz mais coisas nas entrelinhas, mas vai-se tornando evidente a maneira como olha para o que a rodeia - e também para si, para os seus.

«Gostaria que fossem precisas cada vez menos autorizações para existir»

Os pormenores em que se foca são preciosos. Há uma identidade visual inegável e um dialeto que transborda poesia. Não tenho o hábito de sublinhar nos livros, mas anotei várias passagens que me apeteciam tatuar - ou preservar numa moldura -, porque são lindíssimas. E, depois, é muito fácil revermo-nos em certos comportamentos e/ou sentimentos. Por exemplo, quando escreve sobre Mariah Carey, senti que podia ser eu a escrever sobre Os Quatro e Meia. É este nível de identificação que nos entrelaça às crónicas aqui compiladas.

«Somos todos tudo, nenhum lugar é garantido e todos podem ser invertidos»

Lia Pereira escreveu que, «em todas as histórias, a Gisela está em si, buscando o outro». E eu achei esta imagem comovente, porque contrasta bem a intimidade e a pluralidade de cada texto; e, atendendo a que são todos «possibilidade, portal e passagem», fazemos sucessivas viagens, ultrapassamos fronteiras e revisitamos memórias. Acho que nos reencontramos nas suas palavras, ao mesmo tempo que validamos emoções. E do mesmo modo que nos sentimos a entrar em casa, também percebemos que podemos abrir as asas e voar.

«As pessoas continuam a ser a derradeira fronteira umas das outras»

As histórias vão-se estendendo como a roupa que prendemos no estendal, em dias solarengos. Enquanto esperamos que ela seque, existem novos detalhes à espreita, só temos de permanecer atentos. Com a desculpa «é só mais uma crónica», este livro foi lido num piscar de olhos, porque não o queria largar. Há muito amor, mas também há penumbra. Há nostalgia, vulnerabilidade e humor. E há verdade e o compromisso de ver o lado bonito dos dias. Escusado será dizer que, agora, quero ler tudo o que a Gisela Casimiro escrever.


🎧 Música para acompanhar: Emotions, Mariah Carey


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«A música dá alma ao universo»


A parte que mais aprecio na minha rotina de sexta é sentar-me em frente ao computador, ligar o Spotify e explorar as listas New Music Friday e Radar de Novidades, porque gosto de descobrir os temas mais recentes e encher a casa de diferentes sonoridades. E tenho a mesma satisfação quando termino um livro e procuro por canções que o possam descrever. É desta maneira que, também, vou construindo a minha playlist mensal.

Primeiro, percorro as listas para verificar se há novidades dos meus artistas-casa. A seguir, permito-me explorar os nomes/títulos que me suscitam maior interesse. No decorrer deste processo, encontro sempre músicas que se alinham com as minhas preferências - e algumas delas chegam mesmo a exceder as expectativas. É por isso que, depois, ficam a tocar repetidamente, como se fossem as únicas no mundo.

É extremamente difícil fartar-me de uma canção e, para ajudar à festa, volto sempre ao início, caso perca a minha parte favorita. Tendo em conta as últimas entradas na minha jukebox, há cinco que me viciaram.


VIDA LÁ FORA, JANEIRO & PAULO NOVAES


«Fui sair p'ra ver o mar
Tem vida lá fora
Sem saber no que vai dar
Tem vida lá fora
Deixo o vento me guiar»


CORDAPELE, SLOW J


«Tu pensas na cor da pele como a capilar
Nós vimos do futuro p'a lhes ensinar
Essa é a razão do nosso som
Combinações de cada raça e cada tom
Benze-te antes de a tua boca falar no meu nome»


1950, KING PRINCESS


«So I'll wait for you
I'll pray
I will keep on waiting for your love»


TÊTE-À-TÊTE, MÓNICA TEOTÓNIO


«Tira-me do sério
Eu tiro-te a vergonha
[...]
Eu sei que não chapa 3
O que tens é o que não vês
[...]
Não é que não esteja bem sozinha
Mas já é tarde e eu não sou de fretes
Apaga a luz e faz-me companhia
Neste nosso tête-à-tête»


CARRO, BÁRBARA BANDEIRA & DILLAZ


«Nunca quis o restaurante caro
E se eu quiser sou eu que pago
[...]
Eu nunca fui ninguém
Sou gota d'água no teu sobretudo
[...]
Eu já não vou guiar em contramão
[...]
Por ti eu circulava às oito na IC-19
Eu subia à montanha mais alta só para sentir frio
Eu mergulhava à noite no Guincho mesmo quando chove»

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«(...) tentarem descobrir o que significa uma vida a dois»

Gatilhos: Relações Disfuncionais


A ideia de uma narrativa passada num espaço fechado, praticamente vazio, agrada-me sempre, porque parece-me que o exercício criativo é mais entusiasmante. Como é que o escritor parte dali para algo que cative o leitor? Como é que se criam linhas paralelas e possibilidades de enredo? Que limites podem ser ultrapassados? Foi com estas questões no pensamento que avancei para o livro da Filipa Fonseca Silva.


QUANDO SOMOS OBRIGADOS A CONVERSAR

O Elevador transporta-nos para uma noite quente de verão, quando Sara e Alex se «preparam para ir jantar fora». O casal está em desacordo acerca desta saída, o que se sente na tensão da sua interação, e nós rapidamente percebemos que a relação não está estável e que eles serão obrigados a conversar sobre a mesma por causa de um contratempo: o elevador onde seguem encravou e eles ficam presos a noite toda.

«É que, por vezes, apaixonamo-nos pelo que uma pessoa é e, noutras, pela maneira como nos faz sentir»

A premissa é ótima, tem uma estrutura envolvente e gostei bastante da escrita da autora, que é fluída, descontraída e visual: sem saber quem poderiam ser os protagonistas e a zona em que vivem, tracei-lhes um perfil. Há ali um rasgo de realidade que resgata o enredo para o nosso quotidiano. Além disso, gostei das questões que foi levantando sobre o impacto que a comunicação - ou a falta dela - tem numa relação (seja ela de que natureza for), sobre querer coisas diferentes, sobre sonhos, sobre saber ceder e sobre as expectativas que os outros criam para nós. Cada um destes tópicos exerce influência na pessoa que somos e nos vínculos que estabelecemos com os outros. Sem qualquer hipótese de fuga, discutirão sobre todos eles.

«Houve um tempo em que, de facto, tudo era leve e fácil»

A alternância temporal permite-nos perceber o que foi desgastando a relação de Sara e Alex e os vários focos problemáticos. Sinto que a autora fez um trabalho fantástico nestas partes. Por oposição, as cenas passadas no elevador foram as que menos apreciei, porque não me consegui relacionar com os diálogos. Consigo entender os pontos de rutura, os gatilhos que nos inquietam e, até, a falta de lucidez nas discussões, afinal, estamos muito mais emotivos do que racionais. No entanto, a conversa, as acusações e o próprio tom pareceram-me mais de adolescentes do que de adultos. Existem momentos em que nos sentimos impelidos a tomar partido, mas, de um modo geral, distanciei-me das personagens por causa desta incongruência.

«Achamos que sabemos tudo e que não precisamos de ninguém»

O Elevador é uma história que se lê rápido e que, apesar de tudo, considero que vale a pena descobrir, sobretudo, pelos capítulos da narração. Por isso, fiquei com vontade de regressar a Filipa Fonseca Silva.


🎧 Música para acompanhar: Walk On By, Dionne Warwich


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«Uma angústia comum»

Gatilhos: Racismo, Xenofobia, Morte, Violência, Assédio, Transfobia, Linguagem Explícita


A escritora e pesquisadora Manuella Bezerro de Melo e o editor Wladimir Vaz, «ambos estrangeiros, ambos observadores assombrados de uma barbárie [...] cada vez mais próxima», coordenaram um projeto que culminou em duas antologias: o primeiro volume, publicado em 2021, era de poesia. Em 2022, voltam com um volume em prosa. Apesar dos géneros distintos, são os dois «ancorados numa angústia comum».


UMA ANTOLOGIA ANTIRRACISTA / ANTIFASCISTA

Volta Para Tua Terra Volume 2 é uma antologia antirracista/antifascista de escritores estrangeiros em Portugal. Enquanto avançava nesta obra, houve um pensamento constante: ainda bem que o meu país não é racista, porque se estes acontecimentos se repetem, enquanto nos aclamamos empáticos, tolerantes, respeitadores, nem quero imaginar como seria se fôssemos mesmo racistas. Não se deixem enganar, atendendo a que cada um destes textos comprova o quanto a segregação ainda é um dialeto comum na sociedade.

«(...) já colonizaram nosso povo e querem colonizar também a nossa poesia?»

Como a literatura tem poder para dar visibilidade, encontramos, nestas páginas, um manifesto de «diversidade, multiplicidade e democratização». Interligando uma componente pessoal e uma componente política, os 34 autores selecionados partilham episódios das sua vida de imigrante - embora se foquem em cenários distintos, têm em comum a opressão, a tristeza, o impacto do ódio, do estigma, dos preconceitos, da burocracia interminável e do fascismo que cresce e que se mostra nas ruas, sem qualquer vergonha.

«Mas estou aprendendo a respirar debaixo d'água»

Jorgette Dumby destacou algo que me parece resumir bem a problemática: «Minha inteligência não vem da melanina, tal como o teu preconceito também não vem do teu défice nela. Teu preconceito é fruto de uma educação que segrega, para tirar vantagem». Que exemplos como este(s) sirvam para nos consciencializar, de uma vez por todas, para a mudança, porque está mais do que na hora de reescrevermos a narrativa.


🎧 Música para acompanhar: Cozy, Beyoncé

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«A vastidão do céu»


o céu da tua boca não
tem estrelas mas esconde
estórias sombrias, enevoadas
frias como o breu da madrugada
que caiu em mim

no céu da minha boca
há só ausência
há só saudade

Fotografia da minha autoria



«Sobre o mistério mais insondável da vida»

Gatilhos: Morte, Depressão, Suicídio, Linguagem Explícita


A morte assusta e, por isso, continua a ser um tema tabu. A morte dilacera e, por isso, deixa-nos desconfortáveis. Preferimos evitá-la em conversas, mas, depois, temos sempre uma história para partilhar, porque a morte pesa a quem fica e conversar sobre ela vai sarando as feridas, vai-nos deixando mais leves. Por outro lado, conscientes ou não desse facto, é uma forma de preservarmos a memória de quem partiu.


UMA PEQUENA CONTEXTUALIZAÇÃO PESSOAL

A memória mais antiga que tenho é a da morte do meu avô materno. Eu estava junto à porta do quarto, de frente para a cama, e ele parecia dormir. Percebi que se passava algo pela agitação da minha avó, porque a minha madrinha chegou entretanto e porque entravam e saíam da divisão nervosas, a suportar as lágrimas e o desespero. Depois disso, só me recordo de ter passado a noite em casa de uma vizinha, amiga de família. Quando a minha mãe me tentou explicar o que aconteceu, a preocupação dela foi proteger-me. Não me recordo do diálogo, mas parece que lhe disse «mãe, eu sei que o avô morreu». Eu fazia quatro anos nesse dia.

Não sei até que ponto fui condicionada por este momento, sei, isso sim, que me moldou. Tenho 31 anos, o meu avô faleceu há 27 e essa imagem ainda me pesa, não pela brutalidade da situação, mas pela ausência, pela perda, pela relação que nunca pudemos construir. Com quatro anos, não sabia que estava a passar por um processo de luto, no entanto, sabia que falar sobre este assunto não me deixava confortável. E acho que aquilo que ajudou a não sentir isto como um trauma foi ouvir falar do meu avô com tanto amor. Mentiria se dissesse que me recordo dos dias seguintes, mas tivemos todos de nos reerguer. Nunca conversamos muito sobre a morte, ainda assim, acredito que teria ajudado. Talvez por isso goste tanto de ler/ouvir sobre o assunto.



AS VÁRIAS MANIFESTAÇÕES DA MORTE

Enquanto Vamos Sobrevivendo a Esta Doença Fatal é um dos livros mais ambiciosos de Nelson Nunes. Depois de ter publicado Preciosa, inspirado na sua história, propôs uma obra que se divide pelas várias manifestações da morte. Apesar da qualidade, foi rejeitada por algumas editoras, tendo em conta o tema. Felizmente, insistiu o tempo suficiente para que a Zigurate, editora de Carlos Vaz Marques, lhe desse uma oportunidade e a incluísse no catálogo. Sorte a nossa, enquanto leitores, por termos acesso à sua concretização, porque sinto que precisamos de mais livros que nos mostrem a morte destas perspetivas.

«No dia em que estava pronto para morrer, apercebi-me de que já estava morto»

Penso que não será spoiler, até porque o autor fala sobre o assunto abertamente, se vos disser que tentou suicidar-se aos 19 anos. Não desenvolverei os contornos deste dado, claro, para não condicionar a leitura, no entanto, creio que esta informação, aliada ao facto de se ter deparado com a morte pela primeira vez muito cedo, alimenta a vontade de questionar, de investigar, de analisar o fim da vida através de componentes distintas. Porque, no fundo, parece que já tudo foi escrito sobre o assunto, mas ainda há muito por escrever.

«Não estejas um dia sem saber das tuas pessoas»

Neste livro, construído de uma forma cuidada e intimista, transitamos entre o lado científico e o lado humano da morte, observámo-la a partir de inúmeras vozes, visões e emoções. Com testemunhos que emocionam, Enquanto Vamos Sobrevivendo a Esta Doença Fatal também nos aproxima: no medo, na fragilidade, nas dúvidas e no facto de precisarmos todos de gerir o processo de luto. O objetivo não é ser mórbido, muito menos diminuir a maneira como podemos encarar a morte: o grande objetivo desta obra é, antes, diminuir o choque e deixar-nos mais conscientes. Através de cada um dos testemunhos reunidos, vamos compreendendo que não estamos sozinhos, que é possível prosseguir e que sentir saudades talvez possa ser algo bom.

«O luto não precisa de ser curado, mas precisa de ter paz»

Demonstrar fragilidades é uma possibilidade que nos melindra e considero que adiamos este género de conversas porque ficamos altamente vulneráveis. Em simultâneo, independentemente do quão bem estivermos resolvidos, não é fácil imaginar um mundo onde as nossas pessoas não estejam: ter esta noção de perda tão presente angustia-nos. Comovi-me bastante durante a leitura, no entanto, também me senti mais leve, porque este livro ajuda a relativizar certas questões e, sobretudo, a encarar a vida com outra sensibilidade.

«Quanto amor poderia ter sido espalhado antes de ser tarde demais?»

Com tantas encarnações, não sei se encontraremos respostas concretas para o «mistério mais insondável». Contudo, entre ser o elo que nos prende a algo ou uma das experiências mais transformadoras da nossa vida, sinto que este híbrido, que interliga testemunhos, factos e experiências pessoais, foi muito bem bordado.


🎧 Música para acompanhar: Death Is Not Defeat, Architects

📖 Do mesmo autor, li e recomendo: Com o Humor Não se Brinca e Preciosa


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