Entre Margens

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«A realidade escapa-nos como um peixe»

Gatilhos: Violência, Saúde Mental, Doença Degenerativa, 
Luto, Referência a Tentativa de Violação


A voz de Carla Madeira desarmou-me em Tudo é Rio e, sem que o pronunciasse, senti que talvez fosse difícil conseguir o mesmo efeito com outro livro seu. Não gosto de comparar obras, principalmente do mesmo autor, porque acho sempre uma comparação desleal - cada história tem a sua identidade -, mas cá estou eu a morder a língua (irónico, não é?), porque esta narrativa levou-me numa viagem ainda mais impactante.


 personagens que saem do papel

A Natureza da Mordida conta-nos a história de Biá, uma psicanalista reformada e apaixonada por livros, Olivia, uma jovem jornalista, e a forma como os seus caminhos se cruzaram, porque houve uma pergunta a marcar a interação: «o que perdeu que a entristeça tanto?». Perante essa provocação, há um desbloqueio entre duas estranhas que culmina numa relação de intimidade muito pura.

O tom é partilhado, oscilando entre a narração «objetiva e linear de Olivia» e as anotações «esparsas e sarcásticas de Biá», o que nos ajuda a enlaçar as pontas soltas e, sobretudo, a compreender as diferentes faces do mesmo acontecimento. Assim, os primeiros encontros das personagens trazem-nos alguma angústia, porque parece que nos escapou algo. É provável que queiramos recuar e reler, só para garantir que lemos com atenção. Mas está tudo ali, a ser revelado no momento certo. Foi como se a autora nos quisesse deixar na dúvida para, depois, apresentar o quadro completo. Este jogo foi, em simultâneo, uma excelente maneira de nos aproximar da própria condição de Biá, cujas memórias começam a ficar turvas.

Há tanta perda nesta narrativa. Há dor, há sofrimento, há uma vulnerabilidade que só pode ser partilhada pela mágoa. No entanto, também há amor e braços que se amparam na queda, na loucura, na exasperação daquilo que não é compreendido. Eu acredito que é sempre preferível saber a verdade, por mais que dilacere, ao desconhecimento: deste modo, temos sempre forma de encerrar um capítulo, mesmo que demore. Não saber apenas prolonga a ferida. E é nesta dualidade que acompanhamos as protagonistas; é nesta dualidade que exploramos problemas de vidas comuns, que encontram uma maneira de interligarem as suas rotas e de se reconhecerem, como se as suas vivências fossem um espelho: há tragédias que a vida torna transversais.

Além disso, A Natureza da Mordida é um retrato que transborda poesia, que nos mostra como as relações de amizade são tão poderosas e como tudo pode desaparecer em segundos, porque estava tudo lá e nós não vimos. E estar, por vezes, pode ser a pior forma de repararmos.


🎧 Música para acompanhar: Dor Elegante, Itamar Assumpção

📖 Outros livros lidos: Tudo é Rio


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«É uma noite de temporal. A noite do acidente»

Gatilhos: Negligência Parental, Acidente de Carro; 
Referência a Álcool, Linguagem Explícita


A capacidade que Dulce Maria Cardoso tem para construir personagens que são toda a história, na essência das suas emoções e não tanto pelos acontecimentos, continuará a impressionar-me, porque é um exercício que implica uma observação do mundo centrada, focada nos detalhes. Por isso, não resisti a este livro.


a vida em suspenso

Os Meus Sentimentos começa numa noite de temporal e rapidamente compreendemos que Violeta, a protagonista/narradora, capotou e está presa pelo cinto de segurança. Perdida a observar uma gota de água num estilhaço, não demora a sentir que, tal como ela, toda a sua vida está suspensa.

Numa viagem até ao passado, começamos a unir as pontas soltas, a perceber a débil estrutura familiar que a rodeia, o peso dos ciúmes e a noção que tem de si. Há muita vulnerabilidade nos pensamentos que narra e nós vamos desconstruindo essas camadas, à medida que avançamos na leitura. Embora seja fascinante, sinto que é uma narrativa que exige atenção redobrada, pela estrutura e pelo recuperar de tantas memórias, por isso, vai-se estranhando e, depois, entranhando.

Não é fácil gostar de Violeta, tive alguma dificuldade em relacionar-me com a sua maneira de estar na vida, mas também é difícil largá-la, uma vez que é evidente que há muitas coisas que lhe faltam, a começar pelo amor, e esses vazios têm peso. Além disso, somos constantemente implicados numa sensação sufocante, quase como se tivéssemos dificuldade em respirar, porque a autora cola-nos ao lado mais intimo, visceral, dos pensamentos da personagem com “nome de flor que também é uma cor”.

Um aspeto que achei curioso foi as diferentes imagens que se podem criar de um mesmo lugar.


🎧 Música para acompanhar: People Watching, Conan Gray

📖 Outros livros lidos: O Retorno | Campo de Sangue | Eliete | Tudo São Histórias de Amor | O Chão dos Pardais | Autobiografia Não Autorizada

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«Mas há momentos em que nos deparamos com uma escolha que define quem somos»

Gatilhos: Linguagem Explícita, Referência a Tortura, Aborto e Consumo de Drogas


A verdade tem várias faces, porque depende das sombras de cada interveniente, das perspetivas que explora e, também, daquilo em que prefere acreditar. Por isso, há tantas fronteiras que se cruzam, tantos limites que se esbatem. E, num período pós-ditadura, até a revolução pode assumir diferentes propósitos, diferentes figuras.


entre a liberdade e a família

O mais recente romance de Hugo Gonçalves, Revolução, mostra-nos todas essas facetas através da família Storm: Maria Luísa é a filha mais velha e uma opositora clandestina. Frederico é o filho mais novo e um autêntico boémio. Pureza é a filha do meio e é a mais conservadora dos três irmãos. Apesar de serem distintos, são um espelho fiel da época, dos modelos sociais que se perpetuam e do que é esperado de cada cidadão. Num plano secundário, mas igualmente fulcral, encontramos a matriarca da família, Antónia Storm, cujo passado não deixa de ser fascinante.

É natural escolhermos o nosso lado da batalha e termos muitas certezas em relação ao que é certo e ao que é errado, mas embarcar nesta narrativa é compreender que nada é assim tão linear, que aquilo que assumimos como uma verdade irrefutável pode quebrar num segundo. Por isso, mesmo que me tenha aproximado mais de uns protagonistas do que de outros, consegui perceber o que os movia a todos. Acho que esse é um dos elos mais estimulantes na obra do autor, porque constrói personagens credíveis, humanas, que poderíamos muito bem estar a observar da janela.

Neste Revolução, é palpável o clima de tensão e de terror. A luta pela liberdade. A mágoa que é transversal à passagem do tempo. Neste Revolução, lidamos de perto com o arrependimento, com o vazio e com o fosso que se cria entre relações que não foram cuidadas com amor - ou será que esses laços não se estreitaram conscientemente por ser maior o amor? Por se sentir que a proteção das pessoas dependeria de um afastamento? De facto, é muito ténue a linha que separa o cuidado da ausência.

Há vários segredos a marcar a família Storm. Sobretudo, há muitos silêncios, talvez demasiados, e, quando o diálogo os quebra, nunca nada é dito por inteiro: fica um prenúncio de omissão, de uma meia verdade. É este jogo de sombras que também nos faz pensar que, se calhar, até a clandestinidade pode ter várias camadas. Aparentemente, só Maria Luísa vivia neste registo, mas acredito que todos eles experimentaram uma versão personalizada, por estarem sempre à margem.

A forma como Hugo Gonçalves bordou a história do país à história dos Storm é fascinante: não só porque tudo parece uma extensão política, mas também porque este período tumultuoso de transição ergueu muitos muros, «separando filhos e pais, colocando irmãos em lados opostos da barricada». Além disso, cada um deles teve um papel, mais ou menos, direto no curso dos acontecimentos e é mesmo interessante compreender o verdadeiro impacto das suas decisões - para si e para os seus.

O que foi não volta a ser e isso fica claro nesta saga familiar. Ainda assim, a memória tem peso e embala-nos neste enredo, que é melancólico, trágico e cómico em simultâneo; que nos agarra da primeira à última página. Se o comecei em alvoroço, terminei-o quase no mesmo estado, porque o final desarma, comove. A Revolução não se fez só na rua, fez-se de dentro, no coração de cada um destes protagonistas que nos guardam e que alimentam um «labirinto de luz, sombras, crueldade e benevolência».


🎧 Música para acompanhar: Ain't No Sunshine, Bill Withers

📖 Outros livros lidos: Filho da Mãe, Deus Pátria Família e O Coração dos Homens


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«Ler é desvendar mundos desconhecidos»


As minhas leituras para 2024 recuperaram uma dinâmica que, salvo erro, apenas fiz duas vezes: selecionar 12 títulos que quero mesmo ler durante o ano. Gosto da liberdade de descobrir as narrativas quando sinto ser o seu momento, mas também gosto desta ideia de priorizar histórias que me deixam curiosa. Como estas componentes não se anulam, e continuo a ter margem de manobra para ser mood reader, resolvi arriscar.

Na conta de Instagram do Entre Margens, perguntei que livros tinha mesmo de ler em 2024, por curiosidade e porque também é uma maneira de descobrir títulos que, na maior parte das vezes, não estão no meu radar. Anotei dois nomes para mais tarde e, depois, a Sofia surpreendeu-me com sugestões em forma de categoria.

Curiosamente, alguns livros que estava a pensar comprar encaixavam nas categorias, portanto, foi juntar o útil ao agradável. No total, apresentou-me oito propostas e eu complementei a lista com quatro obras soltas, que já tinha cá em casa. A ordem de leitura será livre, mas talvez leia um por mês. Estou muito entusiasmada.


 oito categorias

1. Uma autora que nunca li
As Primas, Aurora Venturini: «Na cidade argentina de La Plata, nos anos de 1940, conhecemos Yuna e Petra, duas primas que pertencem à mesma família disfuncional, precária e destinada à desgraça. Pela voz de Yuna, vemos um universo tortuoso de mulheres abandonadas à sua sorte, a braços com a pobreza, a deficiência, o delírio fantasmagórico e a pressão social».

2. Um autor de língua portuguesa, mas não português
Véspera, Carla Madeira: «Vedina, uma mulher traumatizada por um casamento destroçado, decide, num momento de descontrolo, abandonar o filho, largá-lo. Assim que o faz, contudo, arrepende-se de pronto, regressando ao local onde deixara o pequeno. Mas já nada encontra no local, nem a criança nem quaisquer vestígios da sua presença».

3. Um livro que possa ser considerado um clássico
Mar da Tranquilidade, Emily St. John Mandel: «Um romance sobre arte, tempo e amor, que produz um quadro vivo sobre a humanidade através do espaço e dos séculos. Edwin St. Andrew ­tem 18 anos quando faz a travessia do Atlântico de barco. Ao entrar na floresta, em pleno coração selvagem do Canadá, Edwin está deslumbrado, e eis que, de súbito, ouve o som de um violino ecoando num terminal de dirigíveis - uma experiência que o abala profundamente».

4. Um género que lês pouco mas até gostes
A Rapariga nas Garras da Águia, Karin Smirnoff: «No extremo norte da Suécia sopram ventos de mudança: os seus recursos naturais inexplorados suscitam uma corrida ao ouro, com o submundo do crime à cabeça. Mas não é a promessa de riqueza que leva Lisbeth Salander à pequena vila de Gasskas. Lisbeth foi nomeada tutora da sobrinha Svala, cuja mãe desapareceu. Duas coisas se tornam de imediato evidentes: Svala é uma adolescente com dotes extraordinários… e está a ser vigiada».

5. Um livro que andas há séculos a dizer que tens de ler/comprar
O Meu Pé de Laranja Lima, José Mauro de Vasconcelos: «Esta é a história comovente de Zezé, um menino de seis anos nascido no seio de uma família muito pobre. Zezé é inteligente, sensível e criativo, mas muito endiabrado. Carente do afeto que não encontra junto do pai e da mãe, mais preocupados em sobreviver a cada dia, o menino perde-se nas ruas, onde só lhe dá para inventar travessuras».

6. Um livro que tenha vencido um prémio
Beloved, Toni Morrison: «Inspirado num caso ocorrido no Kentucky, em 1856, Beloved retrata o horror e a insanidade de um passado doloroso, numa época em que o país começa a confrontar-se com as feridas deixadas pela escravatura recém-abolida».

7. Um não-ficção
Da Próxima Vez, o Fogo, James Baldwin: «Este livro galvanizou toda uma nação quando foi publicado pela primeira vez, em 1963. Foi um dos primeiros a dar voz à luta do Movimento dos Direitos Civis. Composto por dois textos intensamente pessoais — «A minha masmorra estremeceu», uma carta ao seu sobrinho, escrita no centenário da abolição da escravatura nos Estados Unidos, e «Aos pés da cruz», ensaio sobre a relação entre raça e religião —, Da Próxima Vez, o Fogo revela-nos a vida singular de James Baldwin, politicamente comprometida e interiormente conturbada».

8. Um livro de um autor que já leste
Casas Pardas, Maria Velho da Costa: «É um maravilhoso torvelinho de linguagens, uma evocação concreta e exacta de comportamentos sociais de várias classes no final do fascismo, uma revisitação dos lugares da literatura e da poesia (também nas suas vertentes populares), uma polifonia de falas genialmente captadas, uma subversão endiabrada dos processos narrativos e uma prática de jogos de linguagem que lembram o barroco, mas também os grandes efabuladores do século XVIII, como Fielding ou Sterne. A ironia e a réplica acerada pairam em todo o romance, repartido em várias «casas», pluralidade de focos que centram uma escrita em que passado e presente, a concretude do quotidiano mais trivial, mas também a citação literária de vários graus, ou mesmo a toada infantil, a reflexão às vezes iluminada, de envolto com o paradoxo e a paródia, nos desafiam página a página».


 quatro livros

9. Homem-Objeto, Tati Bernardi: «Dos intestinos ao tesão, das grávidas «abençoadas» às nudes neuróticas, do machismo aos machos, da plenitude inalcançável da granola caseira à alegria de dizer «eu não quero!», mais a terapia, sempre a terapia e nunca #gratidão, Tati Bernardi escalpeliza a experiência de ser mulher (ou de simplesmente existir quotidianamente) no mundo contemporâneo. No seu segundo livro de crónicas, que na edição portuguesa inclui alguns textos mais recentes, assistimos novamente à inteligência frenética e ao humor de fazer rir alto que a tornaram uma cronista tão amada no Brasil e mais além».

10. Bolo Negro, Charmaine Wilkerson: «Os irmãos Byron e Benedetta não se veem há oito anos, mas a súbita morte da mãe obriga-os a sentarem-se finalmente à mesma mesa. Eleanor deixou-lhes um bolo no congelador com a críptica instrução de que o deverão partilhar «na altura certa». Para além do bolo, uma homenagem às origens caribenhas da família, há ainda uma longa gravação áudio que abre com uma revelação impensável: Byron e Benedetta têm uma irmã. Este, porém, é apenas o primeiro dos muitos segredos que a mãe quer agora, depois de morta, revelar, na esperança de emendar alguns erros do passado».

11. Criaturas Extremamente Inteligentes, Shelby Van Pelt: «Depois da morte do marido, Tova Sullivan começa a trabalhar à noite nas limpezas do Aquário de Sowell Bay. Manter-se ocupada já é há muito tempo o seu segredo para lidar com a dor, desde que o seu filho de 18 anos, Erik, desapareceu misteriosamente a bordo de um barco há mais de trinta anos. Enquanto trabalha, Tova aproxima-se do casmurro Marcellus, um polvo-gigante-do-pacífico que vive no aquário. Marcellus é bem mais inteligente do que as pessoas pensam e, por princípio, jamais ergueria nem que fosse um dos seus oito tentáculos para ajudar os seus captores humanos — até formar uma extraordinária amizade com Tova, claro».

12. Impostora, R.F. Kuang: «Athena Liu é adorada no mundo literário e June Hayward é literalmente ninguém. Quando Athena morre num estranho acidente, June rouba o seu manuscrito não publicado e publica-o como se fosse seu, sob o nome ambíguo de Juniper Song. Mas à medida que as provas ameaçam o seu sucesso roubado, June descobre até onde está disposta a ir para proteger o seu vergonhoso segredo e manter o sucesso que acredita merecer. O que acontece de seguida é inteiramente culpa de toda a gente».


Que leituras querem fazer em 2024?

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«Tenha sempre um livro ao alcance do seu tempo»


As caixas de madeira já estão alinhadas com a viagem livrólica de 2024. E o método para anotar todas as informações sobre as leituras será semelhante ao de anos anteriores: através do Bullet Journal Literário, porque é aquele que me dá mais liberdade, podendo personalizá-lo de acordo com as minhas necessidades.

Os princípios do BuJo também são os mesmos de sempre: simplicidade e praticabilidade. Embora me traga uma certa paz pensar e criar os separadores, não quero que esta dinâmica retire tempo de qualidade às leituras. Registar notas, pensamentos e curiosidades ajuda-me, depois, a escrever as reviews, a alimentar a newsletter e, até, a preparar os favoritos do ano, mas isso é uma consequência, não a meta, portanto, quero que seja o mais intuitivo possível (mensagem que venho a reforçar desde 2020: aqui, aqui, aqui e aqui).

Deste modo, o meu companheiro de aventuras está pronto para a jornada deste ano.


 bullet journal literário

Em 2023, troquei o Caderno Inteligente (versão original) por uma das versões mais económicas e apostei no Caderno Tália. As características são muito semelhantes, mas senti alguma diferença na cor e na resistência das folhas. Ainda assim, nada que justifique mudar outra vez. O modelo lilás da Tália permanecerá a uso.

Além disso, voltei a privilegiar os desenhos nos separadores, em vez de os fazer através de colagens, e procurei que o design tivesse pouca informação (só a essencial), para não ficar confuso visualmente.


 os separadores

 LIVROS POR LER 

Tenho 38 livros por ler e esse será o número do meu Reading Challenge do Goodreads. À semelhança do que fiz antes, desenhei a quantidade de livros que tenho e o objetivo será pintá-los à medida que os terminar.



Naturalmente, comprarei livros novos, por isso, reservei as duas páginas seguintes para listar os nomes de todos os títulos que já estão cá por casa e os que virão, divididos pelo respetivo ano de compra.


 TO BE READ 



Criar listas de leituras mensais (tbr's) tem sido uma ótima maneira de me organizar. Encaro sempre esta dinâmica como um guia e nunca como uma imposição, por isso, acabo por a ir ajustando à minha disposição.


 OS LIVROS DE 2024 


Um separador onde ficarão registados os livros que, de facto, li. Ainda não sei se o dividirei também por meses (talvez faça algum sentido pela curiosidade/comparação), mas, pelo menos, fico com a lista completa.


 CURIOSIDADES LITERÁRIAS 


Dividido por meses, incluirei todos os dados que me pareçam relevantes acerca das minhas leituras (géneros, temáticas, estatísticas, favoritos, entre outros que ache interessantes e que me ajudem a organizar).


 ALMA LUSITANA 




O separador do meu desafio de leitura, que inclui os autores para descobrir e os autores que já li e recomendo - podem ver as listas completas aqui. Além disso, decidi dedicar uma página a autores extra, porque quase de certeza que acabarei por ler/indicar algum/alguns. Cada livro lido terá uma espécie de ficha de leitura.


 LER DJAIMILIA 



Este ano, propus-me a ler todas as obras que me faltam da autora Djaimilia Pereira de Almeida (para já, são 10), criando o desafio Ler Djaimilia. Sendo assim, precisei de criar um separador para o efeito.


 12 LIVROS PARA 2024 


Este ano, também decidi selecionar 12 títulos que quero mesmo ler em 2024 (amanhã falarei mais sobre o assunto). Não tenho qualquer ordem definida, serão descobertos conforme a disposição/disponibilidade.


 DESAFIOS DE LEITURA 


Neste tópico, tenho o Clube do Livra-te, da Rita da Nova e da Joana da Silva, e o Clube Leituras Descomplicadas, da Sandra Cavaleiro. Talvez não participe todos os meses, mas tentarei acompanhar.


 ESTANTE CÁPSULA 


Onde figurarão todas as leituras que for fazendo fora dos desafios/clubes de leitura.


«Gosto do silêncio da leitura e do tumulto de vozes que se acendem em mim quando leio»

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A banda sonora de uma viagem literária


A playlist literária de dezembro fez-me recuar no tempo e reavivar canções que já não me lembrava de ouvir. Foi muito bonito perceber que, apesar de lhes ter largado a mão, para acolher novas sonoridades, mantiveram o mesmo efeito em mim. Por outro lado, também me alinhou a artista que já não são tão habituais.

 escritica pop, miguel esteves cardoso
Sit Down, James ▫ Se Miguel Esteves Cardoso diz que a música que acompanha melhor este livro é a que se encontra na playlist SOS Vinil, criada por António Godinho, é claro que fui procurá-la no Spotify e, ao percorrer a longa lista, selecionei uma das minhas favoritas. Porque sinto que esta obra também nos permite reencontrar com músicos que fizeram parte de algum momento da nossa vida. Já não ouço James com tanta frequência e este livro permitiu-me recordá-lo, ainda que um modo indireto.

 caronte à espera, cláudia andrade
À Espera do Fim, Jorge Palma ▫ Uma escolha feita pelo tom fatalista da canção, por representar uma vida que já não é vivida em pleno, mas com serviços mínimos ativados; uma canção que mostra todo o desencanto de um sujeito poético, que acompanha bem o protagonista criado pela autora. Além disso, na música de Jorge Palma, vemos um amor desfeito, mas que se mantém pelo conforto, pela ideia de ainda haver algo que os una. E acho que isso também acontece no livro, ainda que depois nos deparemos com outros contornos narrativos.

 os vivos, o morto e o peixe frito, ondjaki
Outros Tempos, Bonga ▫ Chegar ao Bonga foi fácil, até porque é referido no texto. No entanto, antes de me cruzar com essa referência, imaginei as personagens reunidas, num ambiente de festa, a dançar ao som do cantor angolano. Não fosse o jogo entre Angola e Portugal mais importante e talvez isso tivesse mesmo acontecido. A escolha do tema prende-se unicamente pelo traço saudosista.

 aqui dentro faz muito barulho, bruno nogueira
Schumann: História Curiosa, Robert Schumann & Maria João Pires ▫ O apreço que Bruno Nogueira tem pela pianista Maria João Pires é público e, tendo em conta que a refere no seu livro, achei que fazia todo o sentido associar a obra à artista. Portanto, com Belgais no pensamento, até porque a memória do humorista remete para esse local, deixei-me levar pela playlist Sons de Belgais e senti que o tema que lhe assentava melhor era História Curiosa, até porque estas crónicas estão cheias delas.

 escritores & amores, lily king
The River, David Byrne ▫ Nos capítulos finais desta história, tornou-se muito claro que só poderia escolher uma canção de David Byrne, porque acompanhou um momento muito reparador na vida de duas personagens em particular. Além disso, optei por este tema porque tem detalhes que me remetem para a narrativa.

 baiôa sem data para morrer, rui couceiro
Tens os Olhos de Deus, Ana Moura ▫ Uma das protagonistas deste livro é fadista, por isso, fez-me todo o sentido escolher um tema de uma das minhas fadistas favoritas. Depois, como há passagens que falam sobre Deus e também é explorada a questão da (não) finitude, dos segredos revelados na noite, achei que esta canção se adequava na perfeição. Acho que a fadista teria gostado de a cantar.

 heartstopper 5, alice oseman
Get’cha Head In The Game, High School Musical ▫ Assim que referiram o Troy Bolton, soube qual seria a música escolhida, porque este Get’cha Head In The Game espelha bem a dicotomia entre o lado racional e o lado emocional, entre «manter a cabeça no jogo» e não saber qual o passo seguinte. Acho que este tema também mostra a vontade de fazer bem as coisas e a importância das nossas escolhas. Troy, Nick e Charlie, cada um no seu plano, sentem que estão errados, mas têm de seguir em frente.

 este inverno, alice oseman
A World Alone, Lorde ▫ Escolhi esta canção por causa dos versos «We've both got a million bad habits to kick/Not sleeping is one» (que me lembraram o quanto Charlie e e Tori dormem pouco, sobretudo, antes de momentos mais ansiosos), «The people are talking, people are talking» (porque era esta a sensação que Charlie tinha), «Or maybe people are jerks» (já que não faltam pessoas sem noção) e «World alone, we're alone» (acredito que não estamos completamente sozinhos, mas há processos que são bastante solitários). Seja como for, é deixar os outros falarem, porque há sempre quem nos dê a mão e nos faça sentir seguros.

 obras completas volume 3, maria judite de carvalho
Saudade, Saudade, Maro ▫ O terceiro volume-se foca-se na solidão e, em parte, na saudade. Além disso, como um dos meus textos favoritos foi «Um Diário Para a Saudade», ocorreu-me logo a música da Maro. Tendo em conta a letra e a melodia, acho que ficou uma bela combinação.

 obras completas volume 6, maria judite de carvalho
Mariazinha, José Mário Branco ▫ Emília Bravo referiu que Mariazinha era um exemplo de uma canção de correr mundo. Além disso, menciona José Mário Branco como «um músico sabedor e um compositor inspirado, [que] sabe escolher os poemas e sabe fazê-los». Juntando a esta descrição o facto de ter «uma voz muito agradável», senti que a narradora apreciaria esta simbiose.

 revolução, hugo gonçalves
Ain’t No Sunshine, Bill Whiters ▫ Esta música veio diretamente da playlist de Frederico Storm, um dos protagonistas do livro. A lista é longa e, em boa verdade, podia ter optado por qualquer um dos temas, mas decidi-me por este por causa do verso «E essa casa deixa de ser um lar», porque acho que as personagens nunca sentiram a sua casa como tal; e porque há mais sombra do que luz a guiar os passos de cada um deles.

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«Temos o passado, o presente e o futuro»


O novo ano traz uma pequena bagagem e algumas datas a ter em conta, mas as expectativas permanecem equilibradas. Não sei se a idade trouxe mais sabedoria, sei, isso sim, que continuou a calibrar a ponderação.

Assim, senti necessidade de ir recuperar os pequenos propósitos que bordei para 2023, para perceber de onde parti e onde cheguei. Mesmo com algumas oscilações pelo meio, acho que o saldo é bastante positivo.


os propósitos de dois mil e vinte e três

✦ sair mais para ler/escrever: não o fiz tanto como imaginava, mas compensou em todas as vezes que o fiz;

✦ dedicar-me mais à escrita: aconteceu e não só revi o meu manuscrito, como também consegui escrever mais contos e comecei outro livro de poesia;

✦ enviar o meu livro: ainda não acredito que tive coragem de avançar, houve alturas em que pensei que continuaria tudo igual, mas seguiu o caminho que esperava e, finalmente, saiu da gaveta;

✦ comprar menos livros: sou honesta convosco, não sei se comprei menos, porque, em abril, investi bastante em livros. Contudo, já li todos os que comprei desde essa altura, portanto, está equilibrado;

✦ fazer algo pela primeira vez: este foi cumprido mais perto do final do ano, no entanto, parei de dar palco à síndrome do impostor e lancei o meu podcast, entre o verso e o silêncio.


os propósitos para dois mil e vinte e quatro

Quero conseguir alinhar mais vezes a agenda com as minhas pessoas, porque este estreitar de laços é colo e é asa. Além disso, deixa-me muito mais confortável pensar em objetivos que não fiquem presos a uma linha temporal restrita (ainda que tenha alguns específicos). Deste modo, voltei a listar os propósitos para 2024.

✦ Ir a mais espetáculos ao vivo
Já tenho dois bilhetes comprados e quero muito seguir o registo de 2023. Não sei se será possível ter um programa destes todos os meses, por vários fatores, mas, pelo menos, quero se seja um investimento regular.

✦ Escrever o segundo livro
O título está escolhido, bem como o tema central, digamos assim, e já não é um mero documento de word em branco. A poesia veio mesmo fazer morada em mim, por isso, vou continuar esta jornada e focar-me no manuscrito número dois - em simultâneo, voltarei a enviar o primeiro para outras editoras.

✦ Criar uma rotina de escrita fora de casa
Um propósito que vem de 2023 e que pretendo que se manifeste mais em 2024. Acho que esta dinâmica trará outra motivação, novos horizontes e, além disso, diminuirá os períodos de procrastinação.

✦ Não falhar com o podcast, nem com a newsletter
Os dois projetos são semanais e quero respeitar esse compromisso ao máximo, porque são duas propostas que me enchem as medidas. Confesso que ainda é estranho gravar-me a dizer os meus poemas, mas há-de melhorar, até porque estou a gostar da experiência - ser algo mais intimista também ajuda. Por outro lado, escrever sobre cultura portuguesa é algo que me fascina, portanto, já não dispenso esta forma de comunicar.

✦ Continuar a comprar livros de um modo consciente
Este ano decidi não fazer book buying ban, mas quero seguir o princípio que estabeleci: comprar de um modo consciente, priorizando os livros que já tenho cá em casa e diminuindo a distância entre a compra e a leitura.

✦ Recuperar as Inconfidências
Se calhar, não recuperar a rubrica na totalidade (talvez nem mantenha o nome), mas a sua essência: refletir mais sobre certos assuntos. Ao olhar para o meu ano blogosférico, senti falta disso, de estar aberta aos pequenos assuntos que me despertam interesse ou que se tornam numa questão por causa de um livro, de uma série, de uma partilha. Quero pôr-me em causa e debater, pensar mais, no fundo, acho que é isso.

✦ Visitar mais museus e livrarias
Apostar na cultura, conhecer novos recantos e alargar horizontes, simples assim.


Bom ano! Que propósitos têm para 2024?

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