Entre Margens

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- texto originalmente escrito para o nº17 da newsletter e que me fez sentido trazer para o Entre Margens -


A Desvaneio (sobre a qual já vos falei nesta publicação) foi lançada, oficialmente, em 2020.

Esta aplicação literária permite, de uma forma resumida, organizar as leituras por marcadores, estabelecer metas diárias, acompanhar a nossa evolução e, até, vender/comprar/trocar livros. Além disso, podemos citar, classificar e escrever opiniões sobre as obras lidas. Mas há mais mundo para explorar. O design é um misto de Goodreads e um perfil de Instagram. É uma aplicação portuguesa. E é uma plataforma que alimenta o nosso lado livrólico, condensando num só lugar aquilo que nos move e todas as histórias que queremos preservar.

A minha jornada nestas andanças começou no Goodreads, mas rendi-me rapidamente à Desvaneio. Hoje, alio-me a ambas, porque sinto que são uma excelente ferramenta para acompanhar o meu percurso literário. E é por as utilizar com regularidade que me ocorreu o Era uma vez deste mês: porque estamos a entrar no período dos balanços e da análise de metas literárias, para ser mais específica. Nesta altura, parece que o mundo se divide em dois pólos: de um lado, os que não atingiram os números idealizados; do outro, os que os ultrapassaram. De repente, anulam-se os meios termos. E, seja qual for o pólo em que nos coloquemos, haverá julgamentos, internos e externos, todos eles alimentados pelo incontrolável culto dos números.

Focamo-nos muito nas metas, como se fossem uma medida exclusiva de sucesso, mas esquecemo-nos da quantidade de fatores paralelos que as condicionam. Numa sociedade cada vez mais digital, compreendo que seja fácil cairmos na armadilha, porque olhamos para o total e não vemos o plano de fundo, não vemos o que foi sendo construído para chegar àquele patamar; olhamos para o final e ignoramos os passos dados até esse fim. Acima de tudo, olhamos para aquele número (seja ele qual for) e desejamos ter um igual, sem nos ocorrer que a nossa realidade é diferente. Isto pode aplicar-se a tudo, mas pretendo manter-me no ambiente literário.

Há uns dias, no discord do Livra-te, alguém partilhou o seu desafio de leitura, o que desencadeou alguma conversa, porque a meta tinha ultrapassado os 200 livros. Para ser mais precisa, ia nos 227. 227 livros em 11 meses corresponde a uma média de 20 exemplares por mês (se as contas estiverem mal, retenham que sou de Humanidades), o que é surpreendente e impressionante: imaginem apanhar boleia de 227 histórias! Perante as reações, que acredito que tenham sido de curiosidade genuína naquele contexto, fiquei a pensar que nós somos mesmo de extremos: ou apontamos o dedo por alguém ler pouco ou apontamos o dedo por ler muito.

Mas o que é isto de ler muito ou pouco? Há uma quantidade instituída? Quem é que a definiu? Porque é que se eu ler cinco livros num ano é pouco, mas se alguém ler 100 já é muito? Sim, eu sei que 100 é maior do que cinco (nunca fui um génio a matemática, mas ainda sei o básico), no entanto, assumir isto implica anular todas as outras incógnitas da equação. Por mais alinhada que eu esteja com a leitura, não sou só os livros que tenho por ler: tenho um emprego, tenho família e amigos com quem conviver, tenho outros interesses para explorar, tenho picos de cansaço que anulam a minha concentração, episódios de séries para ver e uma série de outros parâmetros que me orientam, portanto, o meu tempo é gerido consoante cada um deles. E esta é uma realidade transversal, porque todos nós temos rotinas que nos deixam com mais ou menos predisposição.

O ritmo de leitura, andar ou não de transportes públicos, aproveitar horas de almoço, fazer parte de clubes de leitura, manter leituras conjuntas, por exemplo, podem ser fatores que influenciam a quantidade de livros lidos num ano. Mas acho importante termos presente que cada um lê o que pode/quer/consegue, sem que isso deva ser motivo de crítica. Porque chega a um ponto em que o escrutínio é tanto, que parece que temos de pedir desculpa por estarmos a ler dez livros ou lermos cinquenta e acho que esse nunca deverá ser o propósito.

Independentemente do que acontecer até ao final de 2023, este será o ano em que terei mais leituras, de acordo com os registos que faço desde 2015. E isso foi possível por três motivos: 1) concentrei-me mesmo na lista de livros por ler; 2) procurei diminuir a distância entre o momento em que comprei os livros e os li; 3) passei a aproveitar as minhas pausas de almoço para ler, em vez de estar nas redes sociais (ou não ocupar o tempo todo assim). Esta combinação traduziu-se num aumento numérico considerável, mas também podia não ter acontecido. Foi uma escolha que me fez sentido, mas podia não ter surgido e estava tudo bem na mesma.

Estas metas, bem como a utilização de aplicações literárias, devem ser um estímulo positivo e não uma fonte de pressão, porque, no fundo, só representam estatísticas, não são uma régua que mede o leitor que podemos ser. Muito menos ditam qualidade. Depois, reparem, é tudo uma questão de perspetiva: se uma pessoa ler um livro por mês e, no ano seguinte, triplicar essa quantidade, vamos considerar que leu muito, quando comparamos os seus números; se uma pessoa ler dez livros por mês e, no ano seguinte, ler oito, não deixa de ler muito, mas vai parecer que não, porque diminuiu a quantidade. Alguma delas tem de se sentir culpada? Não. Alguma delas tem de se sentir superior? Também não. Isto não é uma competição. Ou não deveria ser.

O culto do número talvez continue presente, mas podemos contornar a questão. É excelente estabelecermos objetivos, porque nos ajudam a assumir um compromisso - e querer ler mais, atenção, é bastante válido. Precisamos é de garantir que criamos metas adequadas à nossa realidade, metas que não nos deixem ansiosos. E, de preferência, temos de encontrar estratégias para não nos compararmos (sempre) aos outros.

Daqui a uns anos, não nos vamos lembrar se lemos cinco livros em 2023 ou se lemos 200. Daqui a uns anos, vamo-nos lembrar da história que nos comoveu, da escrita que nos deixou tentados a explorar mais obras de determinado autor, até da personagem irritante que nos fez revirar os olhos. Portanto, acima de tudo, que seja muito maior a vontade de conversar sobre os livros que se colaram à nossa pele e menos sobre números.

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«Chegou o momento de deixar para trás o tédio»

Gatilhos: Referência a Pensamentos Suicidas


O segundo em que me cruzei com o nome Cláudia Andrade não está presente na minha memória, mas sei que foi uma sequência de partilhas sobre este livro que me fez incluí-la na lista de autores a ler no Alma Lusitana.


UM ROSTO QUE MUDA TUDO Caronte, na mitologia grega, é o barqueiro que carrega os mortos, que carrega as almas desprovidas de qualquer sonho e sentido. Nesta história, o Caronte espera por Artur, um homem reformado, completamente desapaixonado, que decide «colocar um ponto final na sua vida». No entanto, existe um rosto numa fotografia antiga que altera tudo, levando o protagonista a adiar o seu plano suicida por um pouco mais de tempo.

«Perguntava a si mesmo se também ela albergava esse secreto desejo de plenitude»

Confesso que me senti bastante dividida durante a leitura: por um lado, gostei da escrita metafórica, labiríntica, que transita entre «o sombrio e o cómico», mas, por outro, não me relacionei tanto com o enredo. Achei interessante a quase-obsessão de Artur e consigo entendê-la, afinal, todos nós precisamos de um propósito, de algo que «entretenha a existência». Ainda assim, faltou-me qualquer coisa, talvez um pouco mais de simplicidade, talvez um pouco mais de proximidade. A partir de certo ponto, ficou tudo demasiado ambíguo.

«Bem feitas as contas, talvez a única coisa realmente nossa sejam as mágoas»

O tema da morte e do suicídio, mais concretamente, são o eixo que permite à autora pôr em causa o sentido objetivo da vida, como partilhou numa entrevista. E isso torna-se evidente em Caronte à Espera, onde também explora a fragilidade do corpo, a velhice, a solidão, os desentendimentos amorosos, o medo, os danos causados pelo tempo e o peso do passado. Através desta personagem tão particular e das suas interações, embarcamos numa viagem interior, de conhecimento pessoal, que nos deixa a pensar se há algum fundo de verdade ou se parte das suas vivências são um produto onírico, para se libertar dos seus fantasmas.


🎧 Música para acompanhar: À Espera do Fim, Jorge Palma


◾ DISPONIBILIDADE ◾

Wook: Livro | eBook
Bertrand: Livro | eBook

Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥

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«If you read, you will bloom»


O Natal aproxima-se e a minha lista de desejos mantém um item transversal, independente do ano em que estivermos e da idade que eu tenha: os livros. E isso, tenho noção, surpreende um total de zero pessoas.

Adoro receber - e oferecer - histórias. Não só porque ler me enche as medidas e faz parte da minha rotina diária, mas também porque é uma maneira de sair da minha zona de conforto e, quem sabe, de descobrir novos escritores e registos. Portanto, se me quiserem surpreender, não precisam de pensar muito.

Desta vez, decidi só incluir títulos de autores estrangeiros, porque compro mais escritores portugueses. Assim, consigo garantir uma maior diversidade na TBR e equilibrar as vozes literárias que vou descobrindo.


LISTA DE DESEJOS LIVRÓLICOS

📖 A Rapariga nas Garras da Água, Karin Smirnoff
«Neste thriller de tirar o fôlego, o Norte gelado da Suécia será o palco onde Lisbeth, Mikael e a indomável Svala irão enfrentar uma rede de corrupção ligada à exploração de energias renováveis e combater a violência contra as mulheres, num ambiente político em que a extrema-direita está numa ascensão imparável».

📖 Homem-Objeto e Outras Coisas Sobre Ser Mulher, Tati Bernardi
«Dos intestinos ao tesão, das grávidas «abençoadas » às nudes neuróticas, do machismo aos machos, da plenitude inalcançável da granola caseira à alegria de dizer «eu não quero!», mais a terapia, sempre a terapia e nunca #gratidão, Tati Bernardi escalpeliza a experiência de ser mulher (ou de simplesmente existir quotidianamente) no mundo contemporâneo. No seu segundo livro de crónicas, que na edição portuguesa inclui alguns textos mais recentes, assistimos novamente à inteligência frenética e ao humor de fazer rir alto que a tornaram uma cronista tão amada no Brasil e mais além».

📖 Da Próxima Vez, o Fogo, James Baldwin
«Este livro galvanizou toda uma nação quando foi publicado pela primeira vez, em 1963. Foi um dos primeiros a dar voz à luta do Movimento dos Direitos Civis. Composto por dois textos intensamente pessoais — «A minha masmorra estremeceu», uma carta ao seu sobrinho, escrita no centenário da abolição da escravatura nos Estados Unidos, e «Aos pés da cruz», ensaio sobre a relação entre raça e religião —, Da Próxima Vez, o Fogo revela-nos a vida singular de James Baldwin, politicamente comprometida e interiormente conturbada».

📖 A Casa Holandesa, Ann Patchett
«Em 1946, após a Segunda Guerra Mundial, Cyril Conroy, um homem pobre, enriquece repentinamente com um investimento fortuito. A primeira compra que faz é uma opulenta propriedade nos subúrbios de Filadélfia, antes pertencente a uma família neerlandesa, entretanto arruinada. Conroy muda-se, com a mulher, Elna, e a filha, a confiante e protetora Maeve, para a nova casa, na qual já nascerá Danny, o narrador desta história».

📖 Criaturas Extremamente Inteligentes, Shelby Van Pelt
«Depois da morte do marido, Tova Sullivan começa a trabalhar à noite nas limpezas do Aquário de Sowell Bay. Manter-se ocupada já é há muito tempo o seu segredo para lidar com a dor, desde que o seu filho de 18 anos, Erik, desapareceu misteriosamente a bordo de um barco há mais de trinta anos».

📖 Véspera, Carla Madeira
«Vedina, uma mulher traumatizada por um casamento destroçado, decide, num momento de descontrolo, abandonar o filho, largá-lo. Assim que o faz, contudo, arrepende-se de pronto, regressando ao local onde deixara o pequeno. Mas já nada encontra no local, nem a criança nem quaisquer vestígios da sua presença».

📖 As Primas, Aurora Venturini
«Na cidade argentina de La Plata, nos anos de 1940, conhecemos Yuna e Petra, duas primas que pertencem à mesma família disfuncional, precária e destinada à desgraça. Pela voz de Yuna, vemos um universo tortuoso de mulheres abandonadas, a braços com a pobreza, a deficiência, o delírio e a pressão social».


Que livros incluiriam na vossa lista»

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«Se alguma coisa une os vários livros e momentos até aqui é o modo como, 
por distantes que sejam ou pareçam, estou em cada história e em cada personagem»


A literatura e o ato de ler revestem-se de inúmeros pontos fascinantes. Um deles, na minha perspetiva, é quando nos cruzamos com autores que nos fazem querer ficar e explorar toda a sua obra publicada. Ao longo do meu percurso enquanto leitora, fui amealhando alguns nomes que respondem a esse estímulo literário.

Já não me recordo do momento exato em que quis descobrir Djaimilia Pereira de Almeida, mas sei que, ao terminar Luanda, Lisboa, Paraíso, percebi que não poderia ter sido a única experiência. Muito pelo contrário, precisava de a ler noutras histórias e noutras personagens, e compreender a extensão do seu talento.

Como sinto que continua a ser uma escritora pouco mencionada e a merecer um destaque maior, decidi transformar essa vontade num compromisso mais sério. Assim, em 2024, quero ler os títulos que me faltam.


VAMOS LER DJAIMILIA JUNTOS?

Djaimilia Pereira de Almeida, até à data, tem 13 livros publicados.

📖 Esse Cabelo (2015 e 2020);
📖 Ajudar a Cair (2017);
📖 Luanda, Lisboa, Paraíso (2018);
📖 Pintado Com o Pé (2019);
📖 A Visão das Plantas (2019);
📖 As Telefones (2020);
📖 Regras de Isolamento (2020);
📖 Maremoto (2021);
📖 Os Gestos (2021);
📖 Três Histórias de Esquecimento (2021);
📖 Ferry (2022);
📖 Toda a Ferida é Uma Beleza (2023);
📖 O Que é Ser Uma Escritora Negra Hoje, de Acordo Comigo (2023).

Desta lista, já li três: Luanda, Lisboa, Paraíso, Esse Cabelo e Maremoto. E aproveito para fazer uma ressalva: o livro Três Histórias de Esquecimento inclui as novelas A Visão das Plantas e Maremoto e, ainda, uma novela inédita, Bruma. Portanto, talvez seja mais económico optar por esta compilação - como já tenho Maremoto, o mais provável é continuar a investir nas edições autónomas e comprar este apenas pela novela inédita.

Não tenho uma ordem de leitura definida, nem uma meta para concluir o desafio. A minha ideia é ler um exemplar por mês e sortear sempre o título, no mês anterior, mas tudo dependerá do aclamado chamamento. Seja como for, o objetivo será priorizar a autora nas minhas leituras, tornando-a numa escolha mais regular.

Se vos fizer sentido, são muito bem-vindos a esta iniciativa. Para isso, podem invadir as minhas mensagens no Instagram, para conversarmos sobre as leituras, podem identificar-me nas vossas partilhas e, inclusive, usar a hashtag #lerdjaimilia. Na conta do Entre Margens encontrarão um destaque com todas estas informações.


Vamos ler Djaimilia juntos?

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«A vida é feita de momentos colecionáveis»

O penúltimo mês do ano traz um carimbo que soa a cliché, mas que não deixa de ser verdadeiro, porque parece impossível já cá estarmos novamente. No meio de tantos dias cinzentos e de chuva, novembro também se revestiu de pequenas celebrações, saídas entre amigos e o alinhar de projetos há muito tempo na gaveta.


       MOMENTOS       

Cultivar a amizade
A Sofia fez anos e aproveitamos a ocasião para celebrar com sushi. Foi um momento descontraído, com a partilha de peripécias. A meio do mês, juntamo-nos para ir ver comédia ao Hard Club e, mais perto do final, regressamos à Miss Pavlova para provar a rabanada especial - já quero repetir, porque é deliciosa.

A minha Gémea também fez anos este mês. Não estivemos juntas no dia, mas combinamos um jantar esta semana. Sei que me repito, mas é impressionante como cada reencontro transmite a sensação de termos estado juntas umas horas antes. Há coisas que nunca mudam e isso deixa-me com o coração cheio.

Não Faz Sentido
A vida é feita de muitas coisas sem sentido, a começar pelo facto de o Hard Club ser um espaço com uma curadoria musical qualificada, mas eu passar lá a vida a ver comédia. Já assisti a concertos (Diogo Piçarra e Mishlawi), mas os eventos humorísticos/de entretenimento estão em clara vantagem. Para não quebrar a tradição, regressei ao antigo Mercado Ferreira Borges para ver o espetáculo do Guilherme Fonseca.

Naturalmente, não vou partilhar conteúdo específico, mas não posso deixar de referir o quanto adorei o texto, o seu encadeamento e o beat com que termina o espetáculo. Fez todo o sentido sair de casa a uma quarta-feira à noite, com risco de chuva, para ver o Guilherme a solo, algo que já queria há muito tempo. Se puderem, aproveitem as datas que ainda têm bilhetes, porque é humor do bom e não se vão arrepender (ler aqui).

Apresentação do Livro Revolução
A FNAC do Alameda Shop&Spot acolheu uma conversa maravilhosa entre o Hugo Gonçalves e os Literacidades. O Álvaro e o Ludgero apresentaram o mais recente livro do autor, Revolução, e abriram a porta para um debate plural e muito interessante. Nesta conversa, houve espaço para se falar sobre livros (os que está a ler e o próximo que está a pensar escrever), sobre como a Revolução é vista de tantas perspetivas e, claro, sobre apontamentos históricos que contextualizaram a narrativa, mas sem que o diálogo se tornasse maçador. O Hugo Gonçalves é um comunicador nato e ouvi-lo, de uma maneira tão eloquente, a encadear os seus pensamentos, as suas visões sobre o mundo e sobre o próprio estado do país só me deixou com ainda mais vontade de continuar a acompanhar o seu percurso literário, porque tem muito para contar.

      

      

      

      

Outros apontamentos bonitos do mês: O meu afilhado fez 16 anos (o meu coração não aguenta este avançar rápido do tempo), maratona de Harry Potter, ultimar os detalhes de projetos a lançar em breve.


LEITURAS

📖 O Elevador, Filipa Fonseca Silva
Alma Lusitana

📖 Estendais, Gisela Casimiro
Clube do Livra-te

📖 Ideias Concretas Sobre Vagas, Ricardo Araújo Pereira
Clube Leituras Descomplicadas

📖 Deste Silêncio em Mim, Rui Conceição Silva
Alma Lusitana

📖 Três, Valérie Perrin
Clube Leituras Descomplicadas

📖 O Lugar das Coisas Perdidas, Susana Piedade
Alma Lusitana


Outras leituras do mês: Curar Através das Palavras (Rupi Kaur), Que Pouca Vergonha (Guilherme Fonseca), Leva-me ao Teu Líder (Afonso Cruz), Olá, Linda (Ann Napolitano), O Principezinho e a Mulher Mais Feia do Mundo (Afonso Cruz) - também reli O Cultivo de Flores de Plástico, de Afonso Cruz, na nova edição.


     FILMES, SÉRIES & PODCASTS     

Concluí o projeto Histórias da Montanha, transmitido pela RTP, assistindo aos dois filmes que me faltavam: A Paga e Mariana. Para não tornar este segmento maçador e repetitivo, partilho convosco a publicação que fiz sobre as cinco histórias inspiradas nos contos de Miguel Torga. Podem ler sobre todas elas aqui.

Este mês, também comecei a acompanhar a série Lusitânia, «uma antologia de seis histórias de fantasia/aventura, lendas portuguesas tiradas de um vasto e rico folclore». Até à data, vi três episódios.


       À MESA       

Bango Sushi
É raro comer sushi, apesar de gostar bastante. No aniversário da Sofia, fomos ao Bango Sushi, localizado na rua Dr. Emílio Peres, no Porto, e fiquei impressionada com o espaço: uma sala ampla, mas acolhedora, e com um ambiente agradável. Quanto à confeção, não tenho qualquer apontamento negativo, muito pelo contrário, porque estava tudo delicioso. Acho que a única crítica que me ocorre prende-se mesmo com o facto de não nos terem explicado como é que funcionavam os pedidos, mas nada que tivesse condicionado a experiência. É um restaurante ao qual não me importarei de regressar. Faço só uma ressalva: não arrisquem ir sem reserva, porque, pelo que percebi, enche com facilidade e podem correr o risco de não conseguirem mesa.

   
   
Kind Kitchen
O jantar com a minha gémea foi no Kind Kitchen, um restaurante vegetariano/vegan, na Rua de Ceuta, também no Porto. Achei o espaço encantador, muito harmonioso, que evidencia o lema da casa - «Be kind to every kind» -, até porque fomos muito bem recebidas e esse cuidado prolongou-se durante toda a refeição. Relativamente às nossas escolhas, admito que tivemos alguma dificuldade, porque parecia tudo apetitoso: como entrada, optamos por partilhar uns nuggets de tofu com molho de barbecue coreano; para o prato principal, arriscamos na francesinha - nunca tinha provado francesinha vegetariana, mas já quero repetir; para finalizar, partilhamos uma cookie com gelado. É um restaurante a ter em conta, sem sombra de dúvidas.


       ENTRE LINHAS       

Calendário do Advento Livrólico
A Carolina Ferreira criou um Calendário do Advento para amantes de livros. Feito a pensar em cada um de nós, até porque a Carolina faz questão de conhecer um pouco melhor a nossa identidade livrólica, é composto por 24 caixas dedicadas ao tema, o que tornará a quadra natalícia ainda mais encantadora - e, também, literária. Adoro a dinâmica dos Calendários do Advento e fez-me todo o sentido apostar neste. Quero muito descobri-lo!

   

Livra-te x Cor Sem Fim
A Rita da Nova e a Joana da Silva juntaram-se à Cor Sem Fim para lançarem uma linha de merch do Livra-te, podcast que ouço religiosamente todas as quartas-feiras. A coleção conta com dois sacos de pano, um crachá e umas meias de rodapé. Claro que não resisti e encomendei um dos sacos de pano (a versão mais escura) e o crachá, que fica muito bem na minha estante (até encontrar o casaco ideal para o exibir). Os artigos são ainda mais bonitos ao vivo. E acho que podem ser uma excelente prenda (natal ou aniversário) para um amigo/familiar livrólico, independentemente de conhecer ou não o Livra-te. Talvez o crachá seja o mais limitador nesse sentido, mas as outras opções não têm essa fidelização, mesmo tendo o nome do clube.


       JUKEBOX       

Top 4 favoritas
🎧 Lá Vai Ela, Ana Moura;
🎧 1 Casa, 2 Portões, Filipe Karlsson & Pedro Teixeira da Mota;
🎧 Amigos Com Benefícios, Rita Rocha;
🎧 Teu, Diogo Piçarra


Álbuns
🎵 Distante (Rita Laranjeira);
🎵 Cidade (António Zambujo); 
🎵 Calma (Carolina Deslandes); 
🎵 Pop-Snacks (Left); 
🎵 Afro Fado (Slow J);
🎵 Os Quatro e Meia ao Vivo no Estádio Cidade de Coimbra; 
🎵 Concerto 2023 - Ao Vivo Altice Arena (D'ZRT)


       GRATIDÃO       

«Home is where the good coffee is»

Os dias bonitos de novembro deixaram-me grata por duas razões, principalmente: o estreitar de laços de amizade e a oportunidade de assistir a dois momentos culturais há muito aguardados.


Como correu o vosso mês?

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A banda sonora de uma viagem literária


A playlist literária deste mês oscilou bastante, isto porque ora conseguia associar uma canção rapidamente, ora precisava de abraçar uma pesquisa mais exaustiva, para encontrar o elo ideal. Portanto, não foi um processo fácil, mas acabou por proporcionar descobertas bonitas. Sem mais rodeios, deixo-vos com a compilação final.


O ELEVADOR, FILIPA FONSECA SILVA
Walk On By, Dionne Warwich ▫ Nas páginas iniciais do livro, perdida nos seus pensamentos, a protagonista afirma que está com esta música na cabeça e que não sabe bem porquê. Em parte, até consigo perceber o motivo, porque corresponde à sua maneira de estar na vida: ela tem sempre de seguir em frente, independentemente do que possa estar a sentir e do quão bom ou péssimo esteja a ser o presente. Por outro lado, talvez só lhe reste mesmo um «orgulho tolo» e por isso é que tem esta necessidade de não parar.

ESTENDAIS, GISELA CASIMIRO
Emotions, Mariah Carey ▫ A autora assume-se como freak de Mariah Carey, portanto nem ousaria escolher outro artista que não ela para acompanhar esta leitura. Do vasto reportório, Emotions pareceu-me o mais apropriado, já que estas crónicas são uma montanha russa de emoções: ora fortes, ora cómicas; ora enérgicas, ora melancólicas. «I feel good, I feel nice/I've never felt so satisfied/I'm in love, I'm alive/Intoxicated, flying high» e «But I like the way I feel inside» são versos que podiam embalar vários dos seus textos.

IDEIAS CONCRETAS SOBRE VAGAS, RICARDO ARAÚJO PEREIRA
Horas Vagas, Anaquim ▫ Lembrei-me desta música por causa do título, do ritmo frenético e por causa da própria insanidade que a letra evidência e que também está presente nas crónicas de Ricardo Araújo Pereira. «Temo que a razão se escape» e escapou muitas vezes durante o período conturbado de pandemia.

CURAR ATRAVÉS DAS PALAVRAS, RUPI KAUR
I Am Light, India.Arie ▫ Sinto que o livro da Rupi Kaur precisava de ser acompanhado por melodias serenas, por isso, tive muitas sessões de escrita com temas relaxantes, que prolongassem esta sensação de cura através das palavras. Ao pesquisar a canção mais apropriada, cruzei-me com esta da India.Arie e, para além de ter adorado a sonoridade e a voz dela, acho que representa muitas das mensagens que a própria Rupi quis transmitir nas tarefas, porque nós não somos só os nossos erros, as nossas características, o legado das nossas pessoas. Somos isso, mas também somos mais. Somos cada um desses fragmentos e um pedaço de luz que os unifica e que nos torna na pessoa que conhecemos (ou que vamos descobrindo).

DESTE SILÊNCIO EM MIM, RUI CONCEIÇÃO SILVA
Pedra Filosofal, Manuel Freire ▫ Esta história é feita de melancolia, de silêncios e de sonhos. E o maior deles todos, para o protagonista, é partir, correr o mundo e, quem sabe, encontrar-se noutro lugar, talvez onde esse silêncio não seja tão audível. Além disso, «Eles não sabem que o sonho/É uma constante da vida/Tão concreta e definida/Como outra coisa qualquer». Sendo este tema mencionado na história, não o desperdicei.

TRÊS, VALÉRIE PERRIN
Take on Me, a-ha ▫ Escolhi este tema por dois motivos: 1) acompanhou uma das primeiras interações do grupo; 2) pelos versos “Today’s another day to find you/shying away/I’ll be coming for your love, okay?», porque, ainda que certos elos se tivessem quebrado, arranjavam sempre uma maneira de estar, de voltar, de dar uma oportunidade uns aos outros. Nenhuma relação de amizade é um mar de rosas, há alturas em que até queremos ir embora. Um dia. E, se calhar, até há um dia em que vamos mesmo, mas o amor faz-nos regressar.

QUE POUCA VERGONHA, GUILHERME FONSECA
Vergonha na Cara, Plutonio ▫ Num livro em que se escreve tanto sobre vergonha, claro que a canção não podia ser outra. «Tu causas sempre danos quando abres a boca/Tens a cabeça grande mas por dentro é oca» são versos que podiam acompanhar os textos do Guilherme, porque o ser humano é fascinante nesta matéria.

LEVA-ME AO TEU LÍDER, AFONSO CRUZ
Liberdade, Sérgio Godinho ▫ A noção de democracia anda de mãos dadas com a noção de liberdade. Deste modo, e porque este livro pretende destacar ambas, senti que podia recuperar a canção de Sérgio Godinho, que nos relembra sempre qual é o lado certo da luta.

OLÁ, LINDA, ANN NAPOLITANO
Brother, Kodaline ▫ Ann Napolitano construiu uma narrativa centrada em quatro irmãs, no entanto, depois de uma pesquisa árdua, senti que era o tema Brothers que a acompanhava melhor por causa destes versos: «We've taken different paths and traveled different roads/I know we'll always end up on the same one when we're old/And when you're in the trenches/And you're under fire, I will cover you». As Padavano personificam esta imagem na perfeição, porque tinham uma conexão profunda, porque, apesar de tudo, continuavam a estar umas com as outras. A vida das quatro mudou, mas amavam-se e continuavam a proteger-se.

O PRINCIPEZINHO E A MULHER MAIS FEIA DO MUNDO,
AFONSO CRUZ
A Rosa, Mariana Pacheco ▫ A rosa é um elemento essencial n’ O Principezinho e é, também, ponto de partida para o ensaio de Afonso Cruz, que se foca na questão dos laços e de como as coisas assumem outra importância quando há um vínculo com as mesmas. Sendo assim, achei que este tema era o mais apropriado: não tanto pela letra, mais pelo conceito (e por pertencer ao musical português).

O LUGAR DAS COISAS PERDIDAS, SUSANA PIEDADE
Monstro 1103, A Garota Não ▫ Não me ocorreu nenhuma letra que encaixasse nesta leitura, mas fui pela associação aos monstro que «desfilam na rua, disfarçados de pessoas comuns». Por esse motivo, cruzei-me com esta canção d’ A Garota Não e senti que se podia aproximar: 1) pelos versos «É quando o medo me abraça/Tremendo monstro que passa», porque me transportam para a imagem que associei à narrativa; 2) pelos versos «E eu vou com toda a calma/Sou do tamanho da minha alma», porque observamos os outros de acordo com a pureza ou maldade que habita em nós. O perigo espreita e toma a loucura destas personagens.


Fotografia da minha autoria



«Quando uma criança não volta para casa, até os mais próximos se tornam suspeitos»

Gatilhos: Morte, Alcoolismo, Violência, Negligência, Cenas e Linguagem Explícita


A Susana Piedade foi uma das autoras que escolhi para a edição de 2023 do Alma Lusitana. Uma vez que fiquei completamente rendida ao Três Mulheres no Beiral, o seu manuscrito mais recente, aproveitei a Feira do Livro do Porto para adquirir a segunda obra publicada e, desta forma, continuar a descobrir a sua escrita.


PERDA, CULPA E UMA AURA MISTERIOSA

O Lugar das Coisas Perdidas passa-se numa pacata vila da província, que se vê em alvoroço quando «uma criança desaparece misteriosamente a caminho da escola». O choque é rápido a propagar-se, bem como o sentido de comunidade, atendendo a que a população se disponibiliza para ajudar Mariana, a mãe, a encontrar Alice, a filha. O problema é que, quase ao mesmo tempo, o julgamento, as intrigas e a desconfiança vêm inflamar os ânimos e desenterrar histórias passadas. De repente, o culpado pode ser qualquer um.

«E, às vezes, o medo começa por nos atormentar em sonhos. Como naquela noite»

Quando o meio é pequeno, praticamente familiar, quando parece que já se procurou em todos os recantos disponíveis e se colocaram todas as perguntas aos habitantes, como é que se encontram respostas? Como é que não se perde a esperança e a sanidade? Acima de tudo, como é que a vida pode continuar o seu curso natural? Isto porque existe alguém que sente o mundo a ruir e a ausência de certezas é ainda mais sufocante. Há medida que a narrativa avança, o mistério e a culpa adensam-se, transportando-nos para o centro da ação.

«Ninguém sabe ao certo o que passa pela cabeça de quem se vai desligando do mundo»

A escrita da autora consegue ser poética e relacionável, por isso é que nos sentimos como parte daquele todo, por isso é que sentimos as dores, o desnorte e o medo. Naquele fatídico dia, todos tiveram comportamentos estranhos, questionáveis e compreendemos que, apesar de as personagens acharem que se conhecem bem, cada uma delas tem muito a esconder. É através do desaparecimento de Alice que se explora esta ideia.

«Algumas pessoas são tempestades. Trazem consigo uma carga enorme e acabam sempre por desabar»

Basta um instante para que tudo mude e, durante a leitura, fiquei não só a refletir sobre o pânico anexo ao não regresso de uma criança a casa, instalando-se uma dúvida profunda, mas também sobre três notas: 1) a facilidade com que se torna alguém num bode expiatório, sobretudo, se já foi descredibilizado no passado; 2) o quanto desconhecemos quem nos rodeia; 3) os indícios que deixamos de ver, porque a rotina está enraizada em nós, porque há comportamentos tão automatizados que não nos apercebemos de pequenas mudanças, como se a ordem das coisas não tivesse sido quebrada. Depois, há a questão da segurança, que também influencia: onde não parece existir perigo, estamos muito mais relaxados, podemos baixar a guarda. Mas o perigo está à espreita. E os monstros não se escondem, desfilam «na rua, disfarçados de pessoas comuns».

«Às vezes só vemos o que queremos ver»

O Lugar das Coisas Perdidas deu-me vários murros no estômago, porque não sabemos até onde as pessoas estão dispostas a ir, porque não conhecemos as suas trevas, nem os segredos que guardam e que nos fragmentam, quando descobertos. Além disso, tem personagens credíveis. Por norma, não sou a maior entusiasta de finais em aberto, mas fez sentido. É a arte a imitar a vida, que nem sempre une as pontas soltas.


🎧 Música para acompanhar: Monstro 1103, A Garota Não

📖 Da mesma autora, li e recomendo: Três Mulheres no Beiral


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