Entre Margens

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«crescer e florescer»


Os ponteiros do relógio continuam a rodar, como se estivessem numa valsa lenta, íntima, interminável; como se a vida se condensasse toda naquele movimento circular, na certeza de que partimos, mas que regressaremos sempre ao mesmo lugar, em algum momento. Talvez seja por isso que a sabedoria popular afirme que não é bom termos relógios parados em casa, talvez isso impeça a saída. E estagnar nunca foi um bom presságio.

Queremos mundo, o caos que borbulha do lado de fora da janela, as danças cruzadas que nos balançam entre a sorte e o azar: a sorte de navegarmos neste mar, o azar de tantas vezes nos sentirmos à deriva. Temos pressa de chegar. Onde? Não sabemos bem, mas, em nossa defesa, essa parece a parte menos importante da equação. Só queremos ir, porque não queremos ficar para trás. Tentamos fintar a rotina, mas, mesmo assim, permanecemos nesta corrida contra o tempo. E é impressionante como nos podemos ancorar em tantos assuntos e rodopiamos presos à mesma ideia, a esta noção de termos um prazo de validade - e de o vermos cada vez mais perto.

O fim não está escrito. Pelo menos, não o está escrito para todos da mesma forma. Mas, por qualquer razão que desconheço, a última etapa parece ter sido colocada nos trinta. Depois dessa barreira, o que resta? As dores de costas? O vazio? A constatação de já termos pouco a almejar? Subi mais dois degraus depois desta idade fatídica e, garanto, a vista não é perfeita, mas a vida está longe de terminar aos trinta.


 a vida que não termina aos trinta

Os dezoito eram o marco mais ambicionado, durante a adolescência, porque pareciam trazer no regaço uma promessa de liberdade extrema. Confesso que nunca tive pressa de os celebrar, mas era impossível ficar indiferente aos desejos sussurrados por amigos e conhecidos. De repente, era como se os dezoito fossem um portal para uma realidade paralela, mais apetecível. Compramos bem essa imagem e acho que a «ferida nunca sarou», porque chegamos lá e a paisagem paradisíaca não correspondia ao que idealizamos.

Atingir os dezoito não significou a viragem que imaginamos. Não ficamos mais empoderados, mais livres: ficamos com mais responsabilidades, isso sim, porque percebemos que, a partir dali, começávamos a contar só connosco. Não sei se chegamos a fazer um Gaudí, como canta a Capicua, mas colamos os caquinhos e fizemo-nos à estrada, porque ainda tínhamos a vida pela frente.

Nesta idade ainda somos jovens, continuamos a ter muitos planos para o futuro e ninguém questiona isso. Aliás, é o expectável. Mas quando os dezoito dão lugar aos vinte e cinco, quando os vinte e cinco se transformam nos vinte e nove e os vinte e nove nos transmitem esse choque de realidade de estarmos tão perto dos trinta, a energia muda. Há um muro que se começa a construir e sentimos necessidade de abrandar. E porquê? Porque a definição de juventude parece já não fazer tanto sentido e acusamos a pressão de tudo o que, supostamente, deveríamos ter alcançado até essa fase das nossas vida e não conseguimos.

Irrita-me a narrativa de termos de ter a vida resolvida aos trinta. Um escritor que publique aos trinta, ou depois, já vem tarde. Tirar a carta de condução aos trinta é impensável. Querer mudar de emprego aos trinta é irresponsabilidade. Viver com os pais aos trinta, então, é inqualificável. Solteira aos trinta? Nem me façam falar... e os argumentos continuam, como verdades absolutas, porque os trinta são um marco onde temos de prestar contas e picar o ponto. «Estás pelos cabelos», como também canta a Capicua e, honestamente, acho que estou, porque é surreal a pressão que impomos para que esteja tudo arrumado numa caixinha. Qual é o mal de um escritor só publicar aos trinta? É por não ter o rótulo de «jovem escritor»? Mas tem menos qualidade por isso? Não tem. Qual é o problema de alguém só tirar a carta com esta idade? E poderia continuar a interrogar-me sobre o assunto, chegando ao lugar de sempre: que é como quem diz, a lugar nenhum.

Imaginem, agora, que houve alguém a fazer bingo e a completar todos os passos desta lista, aparentemente, de caráter transversal à humanidade. O que é que a pessoa faz? Limita-se a ver o tempo a passar? Arruma as malas e espera pelo seu último suspiro? Não creio que seja esse o propósito. 


 a magia das primeiras vezes

Estou com trinta e dois anos e andei de avião pela primeira vez. Até aqui nunca se tinha proporcionado, mas, com uma despedida de solteira a ser marcada para Madrid, reuniram-se todas as condições para esta estreia. Estava muito entusiasmada e expectante, e sei que guardarei este momento para sempre: não só pela novidade, mas também pela sensação de liberdade. Por olhar pela janela e o mundo afigurar-se a um palmo de distância e, ainda assim, ser imenso tal como ele é. 

Enquanto apertava o cinto, senti aquele frio na barriga tão próprio de quem está a experienciar algo que não lhe é comum. E adorei essa sensação. Adorei-a por tudo aquilo que estava a representar, por trazer um toque de novidade agregado. Quando levantamos voo, estava ciente de duas coisas: 1) a magia do momento não estava dependente da idade - ficaria fascinada de igual forma aos quinze ou aos sessenta; 2) ficaria mais tempo a pensar no assunto, precisamente por parecer menor o número de estreias que abraçamos depois de atingirmos um certo número de aniversários.

Racionalmente, compreendo esse decréscimo: se calhar porque a nossa perceção das coisas mudou, se calhar porque deixamos de ter urgência para fazer tudo e estar em todo o lado, se calhar porque começamos a priorizar a estabilidade e sentimos que já não há tanto lugar, em nós, para a adrenalina, o risco, o desconhecido. Mas o que me inquieta é a representação constante de ter de acontecer tudo antes dos trinta. É a mensagem que ecoa e que nos deixa a sentir que falhamos, porque não chegamos lá. É isso que não compreendo e que me recuso a aceitar. Porque isso seria assumir que não há mais nada para nós depois dessa linha. Mas continua a existir. Mesmo que não seja com a mesma intensidade, mesmo que não seja com a mesma frequência.

Nunca fui a pessoa mais aventureira. Prefiro a calma daquilo que conheço, aquele caos controlado do que já me é familiar e que, apesar de tudo, traz sempre camadas distintas. Só que isso é um traço de personalidade que, consciente ou inconscientemente, fui alimentando. Não é uma consequência por acreditar que, com a minha idade, já há coisas que não posso fazer. Aliás, ainda há tempo para sonhar, para encontrar paixões novas, para traçar objetivos que não estavam no plano inicial. A vida não tem de ser sempre uma corrida.

Por outro lado, também não quero romantizar que é aos trinta que tudo começa. Claro que há coisas que se começam a solidificar nesta fase da nossa existência, é claro que podemos sentir que o tempo se limita, tendo em conta algumas decisões que tomamos. A disposição também é outra e, unindo os pontos, tudo tem impacto. Aquilo em que tenho refletido é que, da mesma maneira que as janelas não estão todas abertas para tudo o que queremos fazer, as portas também não se fecham todas só porque as velas do nosso bolo já marcam as três dezenas (ou mais). A nossa travessia tem demasiadas áreas cinzentas. 

Não sei quando é que passamos a estar sempre com pressa, nem quem definiu que os trinta são o fim da linha. Mas pode ser que, aos sessenta, venha cá escrever-vos que tirei a carta, que fiz uma tatuagem, que a vida deu uma grande volta e acabei por me casar. Ou, então, talvez chegue aqui aos setenta e diga que nada disto aconteceu, que o caminho seguiu como uma brisa ondulante, serena, sem aventuras transformadoras. Ainda assim, terei consciência que a vida não terminou naquele prazo. E, até ao fim, ainda pode ter uma porta entreaberta para uma primeira vez.

Fotografia da minha autoria


«Hoje quero afogar a saudade»


é preciso que me fales da saudade
desse pretérito imperfeito onde já não cabe
o que de mim resta
e afogando a solitude
não fico porque sou de ir sempre mais longe
mas sou melhor quando ouço a tua voz

e estando perto
esfuma-se o tempo como se este céu todo azul
não fosse outra coisa que não o nosso recreio
de memórias intermináveis
onde ninguém navega à deriva
e da tempestade fizemos calma

mas talvez já não volte
mesmo que me chames
que grites, que ores
por mais um amanhã
só mais um para que fiquem os abraços
menos delírios
e o mundo seja a nossa casa

preciso que me fales da saudade
porque não sei se deva ficar
aqui a olhar pela janela
à espera de outra história
e se já não for a nossa?

Fotografia da minha autoria



Gatilhos: Apaixonarmo-nos pela simplicidade


Um dos nomes que soube, de imediato, que queria que figurasse na lista de autores que já li e recomendo, para a edição deste ano do Alma Lusitana, foi o da Susana Moreira Marques. Li dois livros seus e rendi-me à forma tão próxima de contar histórias, de nos acolher em casas e realidades que, não sendo as suas, cuida como se fossem. Por isso, o lançamento do seu mais recente trabalho chegou na altura perfeita.


recordações fragmentadas de um tempo moderno

Terceiro Andar Sem Elevador acolhe notas sobre Lisboa, numa sucessão de episódios que se dividem por várias situações. Neste livro, como é descrito, a autora é, simultaneamente, narradora e personagem, criando um «diário geográfico, afetivo e fragmentário», ao mesmo tempo que «nos conduz a um território íntimo e público».

Ler sobre o quotidiano de uma mulher na capital, escrito assim, pode suscitar dúvidas, porque não sabemos se nos interessará. No entanto, a forma como a Susana Moreira Marques encadeia os seus pensamentos transparece uma dose bonita de poesia. São próximos, mas têm um tom melodioso que nos embala: não só pelos lugares por onde passa, mas também pelos «desejos, desencontros, livros, noites de festa, uma criança que cresce, um amor que acaba, uma recordação que parecia perdida». E pelo tempo.

As notas são sobre Lisboa, mas poderiam ser sobre a vida em qualquer outro sítio, poderiam ser sobre qualquer outra realidade, porque há nas palavras da autora um toque de transversalidade. A vista do meu quarto não é aquela, nem poderia ser, e, ainda assim, quase que podia jurar que alcanço o mesmo pedaço de céu que avista.

«Mas o regresso é o pico da montanha. Parece tão perto, e não se alcança. O regresso não é uma passagem. É definitivo. É dizer que se sabe onde se pertence»

Adoro como observa as coisas mais simples e as borda com sensibilidade, como se o mundo todo estivesse concentrado naqueles detalhes. E, a partir de cada um deles, explora questões como a maternidade, as camadas do silêncio, o peso da saudade, os regressos, os vislumbres e o desconhecido, estabelecendo um retrato sociológico.

Este Terceiro Andar Sem Elevador tem um traço muito visual e está cheio de memórias preciosas. Só queria que existisse mais um lanço de escadas para continuar a viagem.


🎧 Música para acompanhar: Rosa à Janela, Baile Popular

📖 Outros livros lidos: Agora e na Hora da Nossa Morte | Lenços Pretos, Chapéus de Palha e Brincos de Ouro


Disponibilidade: Wook (Livro | eBook) | Bertrand (Livro | eBook)

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Gatilhos: Linguagem Explícita


A esperança de ler esta obra da Patti Smith começava a esmorecer, porque estava esgotada há demasiado tempo e sem qualquer indicação de reposição de stock. No entanto, há pequenos milagres que acontecem e a editora avançou com uma reedição.


 o que nos impele a escrever

Devoção é um testemunho do processo criativo da autora. Dividido em três partes, exploram-se várias camadas, como se encontrássemos um livro dentro de outro livro. Afinal, temos crónicas, mas também temos um conto, que é uma metáfora para uma questão maior.

O que nos impele a escrever? Porque é que o fazemos? Através de uma história de obsessão, onde conhecemos uma patinadora a querer subsistir da sua arte, é fácil estabelecer um paralelismo com aquilo que Patti Smith faz, uma vez que procura inspiração em toda a parte, como se escrever fosse uma necessidade - e, na verdade, é.

«- As línguas são como o xadrez.
- E as palavras são as jogadas que se fazem?
Ficaram depois num silêncio que estava longe de ser desconfortável. Ao fim e ao cabo, pensou ela, o que tinham tido em comum até agora era essa silêncio - e o casaco.»

Em simultâneo, acompanhamos uma artista numa viagem para o Sul de França, até à casa de Albert Camus, o seu encontro com a sepultura de Simone Weil, no cemitério de Ashford, e o seu percurso pelas ruas de Paris, descritas por Patrick Modiano. Transversal a todos estes momentos temos a escrita e todos os pensamentos que nos levam a escrever.

É provável que cada pessoa que escreva tenha motivações singulares para o fazer. Talvez a nossa justificação nunca se cruze. Ainda assim, neste Devoção que tanto me encheu as medidas, acho que fica muito claro um aspeto: escrevemos «para procurarmos o isolamento no interior de um casulo nosso» e porque não «nos podemos limitar a viver». Creio que, nestas imagens, nos revemos todos.


🎧 Música para acompanhar: Dream Of Life, Patti Smith

📖 Outros livros lidos: Apenas Miúdos | M Train | O Ano do Macaco


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Gatilhos: Querermos ser amigos de um ladrão


Um guia orientador para compreendermos como os outros funcionam ou como é que nos devemos comportar, de um modo geral, poderia ser a solução para várias complicações. Pelo menos, não erraríamos tanto ou conseguiríamos priorizar as partes certas. Neste livro, o Nuno Markl pretende levar-nos para esse debate.


reescrever a sua vida

Manual de Instruções transporta-nos para a vida de Alberto, que escreve manuais de instruções para eletrodomésticos. É o melhor na área dele e isso deixa-o orgulhoso. O problema é que, por viver tão centrado nas suas obrigações, o seu casamento sofre com isso e ele não está certo que consiga resistir. O que poderá fazer de diferente?

A premissa é excelente e adoro que parta de temas tão importantes, como o facto de a relação intensa com o trabalho poder afetar a dinâmica familiar ou, ainda, como as divisões de tarefas continuam desproporcionais para o casal, e lhes acrescente camadas cómicas e não menos caricatas. Aliás, é durante esta fase conturbada da vida do protagonista que o mesmo se cruza com Jaime, um assaltante de casas, que rapidamente escalou para a minha lista de personagens favoritas, até porque é responsável pelas cenas mais extraordinárias de toda a obra. Queria ser amiga dele.

«Quer dizer... Não é bem o fim. Ela diz aqui "Isto não é um divórcio, ainda". E diz aqui que não lhe quer ficar com os garotos. Ela está a deixar uma porta entreaberta»

No entanto, chegou a um ponto em que senti que a história se perdeu do rumo inicial, distanciando-nos das verdadeiras inquietações de Alberto. Foi como se continuasse a desenvolver pensamentos soltos e não existisse a preocupação de explorar o problema que é; foi como se o objetivo fosse apenas reunir um conjunto de situações engraçadas e não tanto assumir o compromisso. A ideia de escrever um manual de instruções para ser a sua melhor versão é surreal e resulta por isso, mas talvez não necessitasse de tantos subterfúgios para criar conflito. Por esse motivo, gostava que algumas situações fossem mais desenvolvidas e que existisse um equilíbrio maior entre cenas.

É uma leitura leve e divertida, cuja voz do Nuno Markl é reconhecível em várias passagens, mas, no final, não me acrescentou muito, porque me faltou consistência.


🎧 Música para acompanhar: Manual de Instruções, Clarisse nunca disse


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Fotografia da minha autoria



«onde é que tu tens andado, amor?»


é solitária a estrada
por isso ecoam os teus silêncios
mas as vozes onde o silêncio não chega
nada mais são do que a certeza dilacerante
que sozinho
és a figura desamparada de apoio
como se fosses claque de um homem só

por isso segue adiante
apanha o elétrico que te leva para longe
nesta viagem sem volta
porque prefiro ver-te partir
do que ver-te a ser só um corpo presente
ausência de tudo o que fomos

Fotografia da minha autoria



Gatilhos: Luto, Saúde Mental, Violência


As memórias e as feridas podem passar de geração em geração, mesmo quando se tenta manter o passado em silêncio, para que não se revele um fardo, para que não se perpetuem mágoas. Mas há coisas que, simplesmente, não desaparecem, tal como comprovamos no livro de Elif Shafak.


 o peso das raízes

A Ilha das Árvores Desaparecidas é uma história de ficção, mas inspirada em alguns acontecimentos verídicos. Inicialmente, transporta-nos até ao Chipre, no ano de 1974, para conhecermos dois jovens apaixonados, Defne e Kostas. O problema é que a ilha está dividida e cada um deles pertence a um dos lados da divisória. Apanhados no meio deste conflito interno, que opõe turcos e gregos, encontram-se às escondidas numa taverna, a Figueira Feliz, mas é impossível ignorar o estado em que se encontra o mundo fora da bolha que criaram.

Confesso que não estava a par deste conflito histórico, mas não senti que isso condicionasse a leitura, até porque a autora conseguiu espelhá-lo muito bem, partindo de um amor proibido. Inclusive, creio que esta metáfora explica na perfeição o impacto que esta decisão teve para a população. Quando provocamos ruturas, quando alimentamos que não pode existir confraternização entre ilhéus, ninguém pode permanecer igual. E, aqui, há dois caminhos: aceitar ou lutar, mesmo sem dar nas vistas.

Anos depois, já em Londres, em 2010, somos confrontados com outra camada desta narrativa: Ada, filha de Defne e Kostas, tem demasiadas perguntas e poucas respostas. Sem conhecer a ilha onde nasceram os pais, há muitos segredos sobre a sua família que pretende desvendar, mas, por mais que tente, parece que apenas alcança silêncios. Neste processo de descoberta, vai, também ela, aprender a escutar e a fazer-se ouvir. E, pelo meio, vai compreender que nos transplantamos sempre que procuramos saber quem somos.

Fiquei rendida a esta obra: pela forma como a história se desenrola, pela forma como a figueira é elo e raiz entre várias frentes (humanas, históricas e emocionais), pela forma como o tempo avança, mas a cultura, as crenças e os valores de cada lugar continuam a ter um peso significativo na nossa identidade. Além disso, comoveu-me a relação entre um pai e uma filha que, por vicissitudes da vida, se veem obrigados a descobrir a sua voz - sozinhos e na relação um com o outro.

«Apesar de tudo isto, demorei sete anos a dar de novo frutos. Porque é isso que as migrações e os realojamentos nos fazem: quando se deixa a nossa terra rumo a costas desconhecidas, não se continua simplesmente como até então: uma parte de nós morre cá dentro, para que outra parte possa começar de novo»

As narrações da figueira, que se torna uma das protagonistas, bem como a escrita e a construção das personagens são pontos-chaves desta narrativa, porque tornam tudo muito mais credível e fazem-nos refletir sobre conceitos como nacionalidade. Cruzando a história do Chipre com a história de Defne e Kostas, percebemos que há falhas, dúvidas e contradições transversais.

O cenário de guerra entre turcos e gregos não passa despercebido, nem podia, mas há muito amor nestas páginas. Não se romantiza o medo, nem o cenário de caos, mas também não se ocultam sonhos, nem o que a humanidade tem de melhor: a sua capacidade de olhar para lá das diferenças. Através de vários pontos de vista, e lugares, vamos compreendendo melhor o(s) contexto(s).

A Ilha das Árvores Desaparecidas tem um equilíbrio maravilhoso e desenrola-se numa dinâmica que me estimula ainda mais, que é a lógica do «mostrar e não contar». Elif Shafak explica apenas o necessário e, depois, dá margem para que o leitor imagine e retire as suas ilações. Além disso, revelou-se uma história fabulosa sobre tradições e pertença.


🎧 Música para acompanhar: The Fig Tree, Jakob Ahlbom


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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Fotografia da minha autoria



Gatilhos: Referência a Aborto, Linguagem Explícita


A ideia de regressarmos a um lugar que conhecemos de cor, para perto de pessoas com quem temos um vínculo, aparentemente, inquebrável, fascina-me. Porque traz uma sensação de constância. Mas será que, ano após ano, tudo permanecerá igual? É o que tentaremos descobrir na novela gráfica de Mariko Tamaki - ilustrada pela prima Julian Tamaki.


 uma triste brisa de verão

Finalmente o Verão fica marcado pela amizade entre Rose e Windy, ambas a entrarem na adolescência e a descobrirem o mundo que as rodeia. Com um ano e meio de diferença, começam a perceber que os seus interesses não coincidem como antes, portanto, sem o verbalizarem, vão procurar gerir esta mudança.

Em Awago há uma triste brisa de verão a pautar o ambiente, até porque a inocência começa a dar lugar às dúvidas e as meias palavras pesam. Há conflitos familiares que, não sendo explicados na totalidade, povoam, como se fossem aquela morrinha aborrecida que nos estraga os dias leves e descomplicados. Mas, por outro lado, continua a existir amor e uma vontade firmada de não largar a mão. No meio de toda a fragilidade, ainda há um propósito.

Num plano simultâneo, Rose e Windy vão descobrindo a maneira como o próprio mundo olha para a mulher e aquilo que lhes exige, por esse motivo, também se confrontam com os seus preconceitos. Sem que exista propriamente uma história cheia de ação, estas páginas ficam marcadas por uma sucessão de dias, de vivências comuns, de notícias que mudam vidas e por um tom soturno, que nos alerta sempre para o facto de existir algo nas entrelinhas.

«Algumas lições só se aprendem a doer, miúda»

Gostava que alguns dos temas tivessem tido uma abordagem mais profunda, pelo impacto que têm para as personagens, mas gostei que nos fizesse pensar naquilo que julgamos conhecer e não conhecemos assim tão bem. Por consequência, torna-se evidente que a comunicação é a chave de qualquer ligação - o outro nunca poderá saber a verdade, se continuarmos a escondê-la dentro de nós.

Finalmente o Verão tem ilustrações fabulosas, que nos fazem imergir no seu contexto. Embora esteja alinhado com a energia da estação, não deixa de mostrar que todos nós temos ritmos distintos e que há cicatrizes que nos acompanharão para sempre. Mas, enquanto for possível regressar, ano após anos, talvez consigamos unir o que nos fragmentou.


🎧 Música para acompanhar: Summertimes Blues, Rush


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Fotografias da minha autoria



«O maior evento de (des)motivação do mundo»


O maior evento de anti-ajuda do ano chegou à Invicta. E a prova de que estávamos todos a precisar de algo idêntico foi a afluência às bilheteiras online: tanto que temi que não fôssemos conseguir, mas, no fim, correu tudo bem. É que as coisas acontecem como têm de acontecer e, afinal, estava escrito nas estrelas irmos a este espetáculo.

Joana Marques, como Coach de Baixa Performance que se preze, não veio sozinha e reuniu o melhor grupo de gurus de desenvolvimento pessoal, para nos inspirarem com as suas histórias (des)motivacionais. E, admito, a nossa vida nunca mais será igual.


A palestra tem picos de enorme intensidade emocional, porque é impressionante a força dos testemunhos, das histórias de quem sempre fez o máximo para atingir a sua melhor versão, dos sonhos que, por serem ou não partilhados, nunca se concretizarão. Portanto, seria impossível sair do Super Bock Arena sem termos o mindset alinhado.

Em simultâneo, achei fabulosa a quantidade de listas e ferramentas que nos forneceram, uma vez que acredito que farão toda a diferença na nossa postura, no nosso pensamento e na nossa capacidade para reagir às vicissitudes da vida. Foi notório o compromisso e a generosidade dos coaches, porque nem todos teriam a humildade e empatia de partilhar aquilo que aprenderam, tornando-nos melhores.


Brincadeiras à parte, o certo é que o Desconfia está pensado ao detalhe: no texto, na montagem do palco e nas dinâmicas que foram acontecendo ao longo do espetáculo. Conseguir replicar o universo do coaching e, ao mesmo tempo, desconstruir aquilo que propõe implica uma dança bastante coordenada, sobretudo porque, como referi anteriormente, a Joana Marques teve convidados e foi impressionante constatar como as várias intervenções conjugaram na perfeição, sem quebras de ritmo e de interesse.

Desde que as nossas ações não comprometam a integridade física e moral de terceiros, cada um tem o direito de acreditar naquilo que lhe traz mais conforto - e que se pode revelar um recurso valioso no campo da motivação. Inclusive, acredito que o mundo do desenvolvimento pessoal possa ter questões pertinentes, o problema é que também há sempre quem se aproveite da boa vontade e/ou da fragilidade dos outros e desvirtue algo que poderia trazer mais benefícios do que malefícios. Naturalmente, foi no último grupo que a humorista se concentrou e fiquei boquiaberta com os exemplos.

Por vezes, custa um pouco a acreditar como é que as pessoas se deixam levar, como é que se deixam enganar, mas a linha que separa o desespero e o discernimento é muito ténue. Longe de querer ser uma lição de moral, Desconfia é apenas um espelho do que é prometido, do que é vendido e da dimensão que determinadas palestras adquirem. E, como referiu Francisco Miranda Rodrigues (Bastonário da Ordem dos Psicólogos), trazer estes assuntos para o centro da discussão contribui para a disseminação e sensibilização dos mesmos. Se «isso aumenta a literacia da população sobre os temas», já não se atreve a afirmar, mas eu acredito que sim. Pelo menos, ficamos com uma noção mais evidente das implicações que têm e do que é necessário ser trabalhado.

O humor e a sátira são as peças-chave deste espetáculo, porque ampliam coisas sérias mas sempre com imensa graça. E em nenhum momento nos esquecemos que estamos a assistir a um evento humorístico. Sem querer prolongar muito mais a minha partilha, para não revelar demasiado, confidencio só que é um ambiente versátil.

Na companhia de Vasco Pereira Coutinho, Sónia Tavares, Sara Norte e Ricardo Araújo Pereira, Joana Marques cumpriu o que prometeu. Continuaremos a desconfiar.

Fotografia da minha autoria



Maio teve uma energia caótica. Pelos melhores motivos, é certo, mas tenho alguma dificuldade em associar que eventos tão distintos aconteceram no mesmo mês: relembrando-os, parece quase impossível, até porque dá a sensação que há uma margem maior a separá-los. Além disso, não sei se foi pela ansiedade e pelo entusiasmo da espera, mas o tempo foi avançando devagar, como se tivesse muitas vidas no seu interior.

Maio aumentou a família, proporcionou reencontros e estreias. Guardarei estes fragmentos com muito carinho.


as coisas maravilhosas de maio


 os fragmentos aleatórios

O Leia Mulheres Porto é um clube de leitura de obras femininas, «aberto a todos os géneros e públicos». Mensalmente, na sua newsletter, têm vários textos relacionados com a autora e/ou com o título escolhido para cada sessão, na Livraria Poetria. Em abril, para minha grande surpresa, perguntaram-me se teria interesse em reunir algumas recomendações de obras de escritoras portuguesas e é claro que não podia desperdiçar a oportunidade. Fiquei mesmo sensibilizada por se lembrarem de mim - podem ler tudo aqui.

Negra Café
Adorei o ambiente da sala, bastante acolhedor, que nos faz recuar ao passado através de alguns objetos antigos (como máquinas de costura e de escrever), mas sem descurar um toque de modernidade, quer pela ementa, quer pela conjugação de todos os elementos. Via-me facilmente a passar lá uma tarde a ler/a escrever/a trabalhar ou, como aconteceu, a partilhar uma refeição entre amigos e a conversar. Felizmente, o Negra Café tem casa em mais dois espaços - na Baixa do Porto e na Boavista.

Museu Nacional Soares dos Reis
Um dia, somos jovens a assistir a concertos na Queima das Fitas do Porto. Noutro, somos adultos a tentarem ser intelectuais em museus. Admito, talvez não seja tão linear assim, mas acho que a vida se vai construindo numa dicotomia idêntica. Num programa quase de última hora (que, na realidade, já tinha sido apalavrado noutra data), fomos visitar o Museu Nacional Soares dos Reis. Embora não seja a maior entendida em arte, adorei conhecer o espaço, ver as exposições e o vasto espólio disponível. Além disso, o Jardim das Camélias ficou com o meu coração. Acredito que é mesmo uma paragem a considerar.

      

      

Fui surpreendida com uma máquina fotográfica descartável, que me encheu as medidas, e uma bela pulseira da amizade com o nome do blogue. E tive a oportunidade de regressar a um espaço que adoro: o Rota do Chá.


as músicas e os álbuns

🎧 Sonhei Contigo, Pikika;
🎧 Como é Linda, Carolina Deslandes;
🎧 Calma, Iolanda;
🎧 Acordar, Plutonio;
🎧 Meio-Termo, João Couto


💿 Pré-Ocupado, Tomás Adrião;
💿 Sortaminha, Jüra;
💿 Nuvem, Ana Mariano;
💿 Richie Campbell - Acoustic Home Sessions, Los Acústicos feat Richie Campbell.


 as publicações

o desconforto de ir, o receio de perder
Há eventos que faço questão de ir acompanhada: pela partilha que potenciam, por saber que fazem sentido para os envolvidos e pelas próprias memórias que perdurarão no tempo - e que serão mais um elemento de ligação. Mas e quando não temos quem nos queira acompanhar? Será que a solução será mesmo não ir?

36 livros de autores portugueses, 36 citações
Os livros que já li têm algo que os interliga: estão todos marcados com post-its coloridos, para não perder as frases/passagens que mais me marcaram. Não uso este pormenor como barómetro de qualidade e afeição, porque nem sempre as melhores leituras se traduzem nessa representação visual, mas gosto de olhar para os exemplares que tenho na estante e perceber que, em cada um deles, tenho vários pontos onde regressar.


 filmes, séries e podcasts

Pê
A ideia da curta-metragem de Margarida Vila-Nova foi construída a partir de uma carta deixada pelo pai da atriz, Pedro Martins. Nesta história, Pê tem um cancro terminal e escreve uma carta de despedida à filha, ao mesmo tempo que decide, sem extremismos e holofotes, aproveitar o tempo que ainda lhe sobra. Em simultâneo, ao esvaziar a casa do pai, a filha encontra a carta e inicia-se aqui «um novo encontro».

Na casa com O Próprio
Tenho vivido n’ O Próprio desde que saiu (ou ele é que tem vivido em mim?) e foi com um enorme entusiasmo que vi o anúncio desta minissérie: não só porque é algo inédito, mas também porque será mais uma forma de mergulhar na energia do álbum. Na casa com O Próprio terá sete episódios e o primeiro já está disponível. Estava à espera que tivesse uma duração maior, mas estou muito curiosa com os restantes.

Episódios de podcast: A Milhas TV #13 e Livra-te #125


os livros

📚 alma lusitana
Do Outro Lado, Mafalda Santos | E Se Eu Gostasse Muito de Morrer, Rui Cardoso Martins

📚 ler djaimilia
O Que é Ser Escritora Hoje, de Acordo Comigo

📚 12 livros para 2024
Casas Pardas, Maria Velho da Costa


Outros livros do mês: 
Assim, Mas Sem Ser Assim (Afonso Cruz) | Atirar Para o Torto (Margarida Vale de Gato) | A Gorda (Isabela Figueiredo).


 os momentos

Queima das Fitas do Porto: Van Zee e Slow J
O mês de maio traz a festa favorita de qualquer estudante (ou de grande parte, vá), a Queima das Fitas do Porto. Tenho ido todos os anos, desde que entrei para a faculdade, mas confesso que, desta vez, o meu estado de espírito não estava alinhado com o evento. Em 2023, fui no último sábado e, embora tenha adorado o momento (muito pela companhia), a verdade é que senti que já não era bem o meu lugar. Se o Queimódromo falasse, contaria muitas histórias peculiares, mas as caras começam a ser menos conhecidas. Ficam as memórias, mas já é diferente o que nos leva a voltar. Ainda assim, quando vi o nome de um dos artistas, percebi que ainda não era o momento da despedida - leiam a experiência completa aqui.

   

Maio reservou algumas estreias, isto porque andei pela primeira vez de avião e pude conhecer Madrid. A minha sobrinha está a dias de subir ao altar, por isso, surpreendemo-la com uma despedida de solteira na capital espanhola. Foi um fim de semana cheio, com poucas horas de sono e muitas horas de caminhada. Quero voltar para explorar mais dos encantos de Madrid, mas já fiquei com algumas memórias bonitas.
      

Este mês também trouxe um dos momentos mais especiais: o nascimento da L. Conheci a minha melhor amiga no sexto ano e, desde então, nunca mais largamos a mão uma da outra e é inacreditável vermos os nossos a abraçarem diferentes fases das suas vidas. Estou mesmo feliz por ela e pelo T. E tenho a dizer que a minha sobrinha é o ser mais amoroso de sempre! - ainda a tentei trazer para casa, mas os pais não concordaram.

Para finalizar, o Porto ganhou a Taça de Portugal e ainda me reencontrei com a minha afilhada.


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andreia morais

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