todos os amanhãs, mélissa da costa

Fotografia da minha autoria



Gatilhos: Luto, Saúde Mental


O livro da Mélissa da Costa esteve muito perto de vir comigo da Feira do Livro do Porto, mas consegui resistir e manter-me fiel à lista inicial. Cruzei-me com ele agora. E, apesar de ter demorado mais tempo do que é normal em mim a terminá-lo, foi uma leitura que me marcou.


 reaprender a viver

Todos os Amanhãs é, conforme aparece destacado na sinopse, «um hino maravilhoso à natureza», não só no que concerne ao mundo físico, mas também à essência do ser humano. A maneira como estas forças se cruzam e se influenciam é comovente, até porque traz uma «perfumada promessa de futuro».

Amande Luzin muda-se para uma zona rural francesa de Auvergne, depois de perder o marido e a filha. Na tentativa de se refugiar do mundo, para gerir o seu luto, acaba por encontrar os diários e calendários da antiga proprietária da casa que arrendou, a falecida senhora Hugues. E é curioso como este alinhar de universos traz um vigor diferente à vida da protagonista, que apenas queria manter-se no escuro, em silêncio, sem convivência com terceiros. Só que os diários cheios de instruções para cuidar do jardim, receitas e dicas caseiras despertam-na e tornam-se uma espécie de impulso para renascer.

A dor que a corrói não desaparece, mas é interessante perceber que vai orientando o seu foco. Por vezes, parece que a recuperação do jardim resvala para a obsessão, contudo, é apenas uma estratégia para não sucumbir. Acho que ninguém a culparia se permanecesse dormente, mas este processo de reconciliação foi a sua maneira de mostrar que ainda não era momento de desistir.

«Somos daquelas presenças que se apoiam sem grande esforço, porque se permitem mutuamente momentos de silêncio, de distância, porque espelham a imagem um do outro»

Gostei muito da escrita, com uma certa poesia nas entrelinhas, porque facilmente nos transporta para o luto de Amande, para o seu isolamento e para todas as questões que a apoquentam. Sinto que a autora conseguiu desenhar um retrato muito credível da situação, ainda que me tenha afastado em certos momentos, por não me rever. Não obstante, isso fez-me pensar que nos socorremos sempre daquilo que nos traz conforto, das coisas que nos permitem continuar a navegar e a resistir - mesmo que as recaídas sejam inevitáveis.

Todos os Amanhãs é sobre renascer da mágoa e também me deixou a refletir sobre o tempo de luto que é tão diferente para cada pessoa, sobre o facto de todos nós quebrarmos (é impossível sermos sempre um rochedo) e sobre aqueles que, de um modo natural, sem imposição, nos dão a mão e nos tiram do fundo do poço. Usar o jardim e a analogia das estações do ano foi extraordinário, porque Amande foi-se renovando, semente a semente. E o processo de luto talvez seja sobre isso: renovação e reencontro. Uma amanhã de cada vez.


🎧 Música para acompanhar: Only You, The Platters


Disponibilidade: Wook (Livro | eBook) | Bertrand (Livro | eBook)

Nota: Esta publicação contém links de afiliada da Wook e da Bertrand

5 comments

  1. Caramba nao consigo imaginar o que esta personagem deve ter sentido, quer dizer tenho feito isso depois da morte da minha mae que foi das primeiras vitimas do maldxito covid :( ... :( Tenho reaprendido a viver depois de ter tido uma depressao ao 20 anos e agora com a Menopausa... Nao esta facil mas vai-se vivendo um dia de cada vez *.*

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    1. A vida vai-nos colocando sempre à prova. Sinto que renascemos sempre que nos tiram o tapete, o que não quer dizer que o processo seja simples. Força, minha querida

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  2. Fiquei com tanta vontade de descobrir este livro.

    Obrigada pela partilha, minha querida.

    Beijinho grande!

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    1. Tirando a parte da espiritualidade, gostei mesmo muito deste livro

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