Entre Margens

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«É o sentimento que a pessoa sente quando recebe»


O deslumbre nunca foi evidente, mas sinto que a minha wishlist de aniversário vai incluindo cada vez menos itens. Ainda assim, não nego, há sempre mimos que não me importo de receber. Nesta lista, para além dos livros que nunca podem faltar, optei por reunir alguns caprichos pelos quais tenho suspirado nos últimos tempos (com preços não tão simpáticos) - e que me deixariam entusiasmada, caso chegassem cá a casa.


 aleatórios e tecnológicos

Papershoot - Premium Croz Madeira


Leitor de CD Portátil Astronord


Leitor de Vinil Create (Bege)


Ilustração Novembro A4, Fred Gomes


Ilustração Belo Abismo, Raquel Graça


Paleta de Sombras e/ou Batom Líquido Aura (na cor Truffle)



 livros

Até Nós, Dulce Maria Cardoso
«O farol revela e esconde amores e crimes; um casal viaja para adoptar o menino trazido de longe; a boleia desesperada e fatal; imparável, o esventrar da terra e do pânico cronometrado letra a letra; a familiaridade do gesto brutal a que a faca obriga o braço ao matar; enlaçados um no outro, a velha e o cão são um corpo só, ensanguentado; o regresso impossível, ainda que a casa permaneça. Histórias e personagens vêm até nós. Histórias e personagens que conhecemos, muitas vezes sem saber que conhecemos. Histórias e personagens que nos recriam. Que criam nós».

As Invisíveis, Rita Pereira Carvalho
«Viajam quando a cidade dorme. Entram cedo e saem tarde. Estão em todo o lado, porque é raro o edifício, público ou privado, que as dispense. São discriminadas, porque são, muitas delas, imigrantes. O que fazem não produz nada de material, de palpável, de preferência nem um grão de pó. Aqueles para quem o fazem mal sabem ou reconhecem que elas existem».

Um Dia na Vida de Abed Salama, Nathan Thrall
«Milad Salama tem cinco anos. Está entusiasmado com a viagem escolar a um parque temático nos arredores de Jerusalém. O autocarro, porém, não chega ao destino. Ao saber do acidente, Abed, pai de Milad, inicia uma via-sacra em busca do filho desaparecido. As crianças acidentadas foram levadas para diferentes hospitais de Jerusalém e da Cisjordânia. Abed, em desespero, vê-se confrontado com um labirinto de obstáculos físicos, emocionais e burocráticos. É palestiniano e está do lado errado do muro que separa dois povos vizinhos e inimigos».

Três Mulheres na Cidade, Lara Moreno
«Num edifício do bairro La Latina, no centro de Madrid, confluem as vidas de três mulheres. O pequeno apartamento interior do quarto andar é a casa de Oliva, que se encontra aprisionada num relacionamento perigoso e abusivo. No terceiro andar, luminoso, Damaris passa os dias a cuidar dos filhos dos patrões. Todas as noites, contudo, volta para a sua própria casa, atravessando o rio que divide social e economicamente a capital espanhola. Damaris aterrou em Espanha em busca de um futuro melhor, depois de um terramoto na Colômbia ter devastado a sua vida. Idêntica é a história de Horía, que chegou a Madrid em busca de uma existência mais benévola. Marroquina, Horía chegou primeiro à cidade de Huelva, para trabalhar na apanha da fruta. Agora, vive na pequena casa do porteiro, no mesmo prédio onde habita Oliva e onde trabalha Damaris».

As Aventuras Completas de Dog Mendonça e Pizzaboy, Filipe Melo & Juan Cavia
«Corria o longínquo ano de 2010 quando Filipe Melo e Juan Cavia se fizeram à estrada desta improvável aventura, protagonizada pelo mais improvável quarteto: um lobisomem, um distribuidor de pizzas, um demónio com seis mil anos e a cabeça de uma gárgula. Assim foram nascendo, em sucessivos volumes, as incríveis, as extraordinárias, as fantásticas aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, rematadas pelos singulares contos inéditos. A cada volume, a mais célebre dupla da BD em Portugal conquistou novos leitores e expandiu fronteiras, sedimentando um trabalho cada vez mais inventivo, depurado e magistral».

Caixa Especial O Sono Delas (Bookgang)
«O Sono Delas reúne cinco vozes da literatura contemporânea que, inspiradas em casos clínicos reais, dão voz a uma antologia de contos inéditos. Box com livro, goodies temáticos e portes de envio gratuitos. Para ofereceres este livro a quem precisa de o ler»

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Gatilhos: Violência, Alcoolismo, Saúde Mental; Linguagem Gráfica e Explícita


O passado nem sempre fica onde tem de ficar, porque há detalhes que o recordam e que mudam a forma como o conhecemos. Muitas vezes, pelo que é omitido. E, afinal, quantos segredos pode esconder o mesmo lugar? Com o livro do Miguel d'Alte, vamos perceber que até um sítio fictício é capaz de ficar submerso neles.


uma narrativa cheia de camadas

Os Crimes do Verão de 1985 faz-nos recuar ao ano em que duas crianças (5 e 8 anos) e a adolescente que tomava conta delas (16 anos) desapareceram sem deixar rasto, na Ilha de Poço Negro. O caso tornou-se mediático, mas, apesar de todos os esforços, não se soube onde estariam os corpos. Entretanto, há um culpado condenado e a vida segue... até que, 27 anos depois, uma pista obriga a reconsiderar todas as provas.

Ademar Leal, jornalista caído em desgraça, regressa à ilha que o viu nascer, longe de imaginar que se voltaria a envolver nesta história trágica. Embora tenha resistido, num momento inicial, a obsessão pela verdade falou mais alto e é neste ponto que o passado e o presente se cruzam, se fundem. Mesmo que nada se altere, torna-se impossível ignorar os factos: e se o verdadeiro criminoso continuar em liberdade?

Tentei entrar na narrativa devagar, para saborear o embalo e todos os pormenores que pudessem surgir nas entrelinhas. Sendo este um policial/thriller, nunca nada é o que aparenta, portanto, seria a minha abordagem para procurar levantar questões, criar teorias e, inocentemente, desvendar o mistério que continua a pairar sobre um período doloroso, onde a desconfiança passou a imperar. Mas não fui capaz, porque chegou a uma altura do enredo em que já só queria unir todas as pontas soltas.

«Procurei todo o sucesso que obtive. Nessa altura, achava que escrevia para salvar o mundo, hoje percebo que procurava encontrar-me em tudo o que escrevia»

É uma narrativa cheia de camadas e gostei que explorasse temas como a linha ténue entre a ascensão e a queda, os abusos de poder, os privilégios que abrem portas e transmitem uma certa impunidade e o luto que nunca se faz em pleno, quando há algo que falta. Além disso, gostei da ideia de existirem coisas que não conseguimos largar, independentemente do tempo que passar e das circunstâncias - não sei se havia essa intenção prévia por parte do autor, mas fiquei com esta imagem muito presente.

Houve alguns detalhes que me pareceram excessivos, porque não acrescentam consistência à história, não trazem mudanças significativas. Ainda assim, gostei da forma coerente como transitou na linha cronológica e como nos procurou confundir sempre, fazendo-nos duvidar de tudo e de todos. Por vezes, a verdade está a um palmo de nós, mas descobri-la, para além de poder potenciar perdas, pode revelar-se dilacerante.


🎧 Música para acompanhar: Space Age Love Song, A Flock Of Seagulls


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Nota: Esta publicação contém links de afiliada da Wook e da Bertrand

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Gatilhos não detetados


O lado dos bastidores fascina-me, porque gosto de compreender o processo até chegar ao resultado final, sem que isso comprometa a magia do desconhecido. Inclusive, acredito que pode elevar o respeito pelo trabalho em si. Enquanto leitora e pessoa que escreve, entusiasma-me conhecer partes menos acessíveis do meio literário, as rotinas dos autores e as suas visões sobre temas distintos. Portanto, parti para o livro da Inês Fonseca Santos com expectativas elevadas e fui ainda mais surpreendida.


conversas com escritores

Vale a Pena? convida-nos a entrar em «casa de 11 escritores portugueses», para conversarmos sobre sonhos, medos e processos criativos; e para refletirmos sobre vários tópicos acerca dos livros e da literatura. Há perguntas transversais e uma infinidade de pareceres, o que corrobora a pluralidade desta arte tão nobre.

Uma das componentes que achei mais fascinante nesta obra foi sentir que, independentemente da minha perspetiva, também tinha lugar aqui, que a minha visão seria acolhida e validada, porque em nenhum momento há juízos de valor, julgamentos e verdades absolutas. Pelo contrário, encontramos escritores de coração aberto a falar sobre algo que lhes é tão querido, de um lugar emotivo e sem certezas. Ou, melhor, com as certezas que funcionam para cada um deles, mas sem imposições.

O livro lê-se num sopro (tem pouco mais de cem páginas), mas fiz várias anotações, uma vez que se centrou em tópicos que me interessam. A título de exemplo, a memória, a privacidade, a escrita que não é só para literatura, o mercado e a forma como encaram a escrita. Foi interessante perceber as camadas que se criam em simultâneo e o quão distintos podem ser, mesmo que partam de um elo comum.

«Os escritores formam-se, a maior parte deles, na arte da resiliência face a uma ferida que os traumatizou. Isso não se aprende nem é transmissível»

Acredito que a literatura se enriquece na partilha e na honestidade. Por esse motivo, também apreciei a franqueza dos testemunhos, sobretudo em relação a temáticas mais sensíveis como os prémios literários, porque nos aproximam e nos ajudam a refletir sobre pontos que, por não serem tão abordados, passam despercebidos. Quando os escritores abrem esta porta, sinto que ganhamos todos, porque existe entendimento.

A Sofia referiu que gostaria que este livro tivesse continuação e eu revi-me nessas palavras, porque há novas vivências para descobrir. Numa altura em que as redes sociais e a presença online têm tanto impacto, seria interessante contactar com os desafios inerentes a essa realidade. Podem não ter existido mudanças transcendentes no meio, desde que este livro saiu, mas há questões que são urgentes agora e que, se calhar, não o seriam na altura. No fim, podemos discordar, mas o debate ficará mais diversificado. Enquanto leitora e pessoa que escreve, cresço nessa possibilidade.

Escrever nunca será só escrever, como alertou Álvaro Magalhães. Apesar das nossas motivações, é perceber que a realidade e o sonho caminham entrelaçados, que há vozes que não queremos sossegar, que pode ser uma forma de resiliência. E, acima de tudo, respondendo à pergunta do título, percebemos que valerá sempre a pena.


🎧 Música para acompanhar: Cavaleiro Andante, Rui Veloso


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«quem me dera não chorar/Por nos teus braços um dia não poder deitar»

O mundo que alcanço da janela do meu quarto é bem mais bonito por saber que, mesmo sem as ver ao segundo, as minhas pessoas continuam a estar a uma pequena distância. Mas e quando já não estiverem?

A morte nunca me afligiu por aí além, talvez por ter contactado com ela numa fase precoce da minha existência, talvez por não a trazer tanto para o centro das minhas angústias. Ainda assim, é claro, perder aqueles que amo sempre foi uma preocupação: sei que não o controlo, que é inevitável, que é só a vida a seguir a sua lei natural, mas acho que nunca nos conformamos bem com esta ausência, com a possibilidade de se quebrarem vínculos que queremos eternos. E por mais que acredite na velha máxima de que as pessoas só morrem quando nos esquecemos delas, a verdade é que, em algum momento, terão de partir, de deixar de existir fisicamente. E o fosso emocional abre-se numa ferida que talvez nunca sare na totalidade.

Sempre fui pessoa de abraços e nunca tive qualquer medo de morrer (da forma como isso se processará é que já não é assim). E em que ponto é que estes pólos se cruzam? Na inevitabilidade de perder os (a)braços de quem parece sustentar o meu mundo. E sendo vários os alicerces, compreende-se que a força do embate não será silenciosa.

Não sei o momento em que passei a estar mais consciente deste destino. Ou talvez saiba, mais evite pronunciá-lo por qualquer superstição. Tempos à parte, o certo é que passou a latejar esta noção de finitude, como se tudo em mim se fosse preparando para uma situação de luto. Visão fatalista? Provavelmente. Mas revi-me muito nas palavras que a Rita da Nova e a Maria Francisca trocaram, aquando da conversa de promoção d' A Cicatriz, sobre a necessidade de debater certos temas quase numa postura de prevenção, como se falar sobre eles lhes retirasse peso ou, então, nos permitisse racionalizá-los. Acho que há coisas que, por mais que as tentemos desconstruir, nunca deixarão de magoar e tanto a perda como a ausência encaixam bem aqui. Ainda assim, há mecanismos que se podem adquirir pelas palavras. E, se calhar, esta é a minha maneira de ir guardando em caixas emocionais tudo aquilo que de melhor tenho das minhas pessoas.

A reflexão sobre os (a)braços que faltam surgiu, na realidade, enquanto escutava o tema Mãe, do Edmundo Inácio, porque espelha bem a imagem de, um dia, já não podermos recorrer àquela pessoa. Bastou-me trocar-lhe o destinatário algumas vezes e senti cada palavra na pele. Bastou-me fechar os olhos para sentir o peito a colapsar. Porque, por enquanto, este cenário é hipotético. Mas e quando não for?

A partir dos 4 anos, fiquei sem o colo do meu avô materno (feliz aniversário, estejas onde estiveres). Aos 18, o da minha avó materna. Há uns anos, o da minha madrinha. Nestes lugares que vão faltando à mesa, falta a família e nenhum amigo. E acho muito estranho esta ideia de chorar a perda de um amigo. Talvez por ter crescido ao mesmo tempo que nós e pairar neste crescimento uma certa noção de invencibilidade. Falar sobre isto não me paralisa, não me impede de viver. Como canta a Nena, é o que é. Mas entristece e povoa sempre este terreno emocional de uma certa angústia.

Os braços que já nos faltam são, também, o laço que nos veicula a este lugar. Mas imaginar o mundo sem eles, enfrentado todas as dores sem o seu alento, deixa uma sensação agridoce: porque impulsionaram as nossas raízes, mas não estarão aqui para nos ver voar. Não sei o que nos espera, nem para onde iremos. Mas talvez as minhas palavras sejam as lágrimas que ainda não tenho de chorar.

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Gatilhos: Alzheimer


As memórias que amealhamos através de inúmeras vivências parecem pertencer-nos até ao fim dos nossos dias, mas podem esvair-se, podem tornar-se tão distantes, que já não as conseguimos reconhecer. E é esta fragmentação que vamos acompanhando no livro de Paco Roca.


 uma viagem pelo envelhecimento

Rugas centra-se em Emílio, um antigo bancário, que começa a evidenciar os primeiros sinais de Alzheimer. Na impossibilidade de a família cuidar dele, por várias razões, há a necessidade de ser colocado num lar. E é a partir deste ponto que o tempo se torna fugaz.

A narrativa divide-se, então, em dois pontos centrais: a rotina/a vida no lar e a demência. Compreender como é que estes pólos se interligam e influenciam, e como é que, num mesmo espaço, existem tantos quadros clínicos a precisarem de atenção, desarma. E desarma porque o autor tem muita sensibilidade no traço e na forma como transmite cada emoção.

Inspirado em histórias reais, também gosto como nos vai confundindo, como nos faz hesitar entre o que é real e o que poderá ser um produto de recordações difusas, presas a uma época que já não existe, o que evidencia o quanto é ténue a linha que separa a lucidez da confusão.

«É o mundo virado do avesso»

Acredito que nada nos prepara para a ausência de nós e perder essa faculdade de reconhecimento e, posteriormente, de autonomia é angustiante, é assustador. Através do protagonista vamos explorando esta questão, vamo-nos tentando aproximar desta realidade e desconstruir o seu impacto. Em simultâneo, sentimos o desespero do envelhecimento e da falta de esperança, enquanto vamos conhecendo mais personagens com um contributo imprescindível para o ambiente e para o enredo: por trazerem mais credibilidade e por equilibrarem o tom pesado da obra.

Rugas é, também, um retrato encantador sobre amizade e sobre a importância de cuidarmos do outro, apesar de existir um vazio, uma barreira que impede o entendimento. Foi inspirador ver a evolução desta história, porque, apesar de não ser sobre um tema fácil de gerir, mostra que podemos ser sempre um pouco melhores e que, no meio da escuridão, também existem pontos de luz e circunstâncias cómicas.

Houve dois momentos em particular que me comoveram e que me fizeram acreditar que, se calhar, nem tudo se perde. Estes fragmentos vão-se unindo como se fossem uma manta de retalhos irregular, mas que nos leva a refletir sobre o que levamos de mais importante. Porque as rugas são imagens subtis de tudo o que vivemos. E levando na pele a nossa história, construímos a nossa morada, mesmo quando já não soubermos onde fica.


🎧 Música para acompanhar: Demência, Alda


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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«Os livros são o mundo»


A hora de dormir não era antecedida pela leitura de uma história. Cá em casa, essa realidade não era um hábito e não guardo qualquer mágoa nisso, até porque é natural que alguns rituais não sejam repetidos se não forem adquiridos antes. No entanto, por outro lado, sei que isso também leva a que determinadas paixões possam surgir mais tarde, na nossa vida, uma vez que nos falta aquela representação no nosso contexto.

Neste Dia do Livro Infantil, decidi recuar no tempo e traçar uma alternativa. Se tivesse despertado para a leitura na infância, havia obras que gostaria de ter descoberto, porque cresceria com elas. Hoje, curiosamente, vou lendo mais histórias dentro do género e, claro, analiso-as sempre de um ponto de vista de adulto, com outra bagagem e lucidez. E, se calhar, é por isso que sinto que seriam livros com potencial para me encantarem.

A literatura tem o poder de nos dar mundo e de nos consciencializar sobre contextos distintos do nosso. E o melhor de tudo é que, cada vez mais, acredito que estas histórias são intemporais, trazendo diferentes aprendizagens para as várias fases em que nos encontramos. É como se os livros nunca estivessem concluídos na totalidade, renascendo na releitura, porque vamos acrescentando novas camadas à narrativa.

Na minha infância, nenhum destes cinco títulos estava publicado. Mas sei que, se estivesse alinhada com esta arte tão extraordinária na altura, teria sido maravilhoso embarcar nas aventuras que nos reservam.


livros que gostava de ter lido na infância


 a que sabe a lua?, michael grejniec
Esta história revela-nos um desejo, aparentemente, inalcançável, confrontando-nos com duas visões antagónicas, que contrapõem o marasmo e a iniciativa; a luz e a sombra; o real e o imaginário; o ceticismo e a crença. Com um final delicioso, cómico e reflexivo, demonstra uma atitude muito esclarecedora do ser humano, apelando às conquistas que são sempre mais prazerosas quando partilhadas; quando cooperamos em vez de subestimarmos os demais. Deste modo, destacando os pequenos Heróis, compreendemos que as pessoas não se medem aos palmos: é o nosso prosaísmo que nos limita e que, ainda, nos condena à inércia (aqui).

 o que veem as estrelas, nuno camarneiro
Esta obra, cuja estruturação textual não é igual em todas as páginas, corroborando a necessidade de invertermos a panorâmica e de a observarmos com outros horizontes, atribui voz à criança curiosa, que dá asas às suas questões e procura conhecer o mundo que a rodeia. Porque isso faz parte do seu processo de crescimento e é fundamental para fomentar a sua identidade. Através de ilustrações lindas, que complementam a dinâmica narrativa, sentimo-nos a caminhar pelo desconhecido e a retirar prazer do incerto (aqui).

 aventureira marielle e o dia da fotografia, nuna
Uma história encantadora, que se lê num sopro, mas que transmite uma mensagem importantíssima sobre aceitação, inclusão e amor próprio. Há características que contam parte da nossa história, mesmo que não nos definam por inteiro, por isso, é essencial sentirmo-nos representados. Porque é uma forma de quebrarmos barreiras e preconceitos; e porque é, também, uma maneira de as pessoas sentirem que as suas ideias, valores e inseguranças são válidos e partilhados por tantos outros. Pode ser um recurso de trabalho valioso.

 a contradição humana, afonso cruz
O olhar atento do narrador, uma criança bastante curiosa, mostra-nos as contradições que nos habitam. E, com humor, ironia e astúcia, faz-nos refletir sobre as dicotomias da nossa existência. Recorrendo a alguns jogos de palavras, a ilustrações encantadoras e a diferentes tamanhos e estilos de texto, envolve-nos nestes contrastes, que parecem tão óbvios, mas que, no entanto, se revelam sempre uma surpresa. Além disso, é uma obra excelente para aguçar o pensamento, para despertar a vontade de olharmos para dentro e para nos deixar mais interessados em relação ao que nos rodeia e aos comportamentos que tendemos a alimentar de uma forma quase mecânica. É um livro encantador, ideal para miúdos e graúdos, bem ao estilo de Afonso Cruz.

 no meu bairro, lúcia vicente & tiago m.
As histórias em forma de poema, acompanhadas por ilustrações lindíssimas, confrontam-nos com uma série de problemáticas sociais, muitas delas estruturais, que contribuem para o perpetuar de estereótipos. Mas, nestas páginas, a missão é clara: evidenciar a diversidade e fornecer ferramentas para que o respeito pela individualidade nunca seja comprometido. Assim, temos doze retratos que espelham a realidade de tantos mais, temos doze retratos que nos fazem pensar no nosso papel social, para que seja menos limitador (aqui).

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«A vida é feita de momentos colecionáveis»


O mês da primavera, das andorinhas e da poesia começou com uma novidade bonita - o novo álbum de um dos meus artistas favoritos - e aproveitei a ocasião para comprar bilhete para um concerto ao qual irei sozinha. Arriscar em programas a solo não é algo regular, mas acho importante e estou bastante entusiasmada.

Março, por outro lado, faz sempre sentir o peso da ausência, das saudades e dos aniversários que ficaram em suspenso, mas nunca esquecidos. Por isso, as tulipas não permaneceram só em casa, foram preencher o vazio noutro lugar - mesmo que não tenha, em nenhum momento, a mesma energia (só homenagem). E no meio de um luto que nunca tem pausa, apenas deixa de trovejar por dentro, há sempre um manifesto de amor.

Acolhi muitas coisas maravilhosas neste mês e sei que a maior parte delas delas deixará saudades. Que bom que foi vivê-las na primeira pessoa, bem perto de todos aqueles que são o melhor que tenho na vida.


as coisas maravilhosas de março


 os fragmentos aleatórios

As eleições legislativas deram muito em que pensar, até porque sinto que o desnorte era uma sensação transversal a grande parte da população. Por esse motivo, foi um alento ler a newsletter do Jota, porque construiu uma espécie de guia eleitoral para totós, elucidando-nos sobre o assunto.

O Diogo Piçarra lançou o seu mais recente álbum, SNTMNTL, que representa uma aventura pela música eletrónica, mas sem esquecer as origens e a sua identidade. Como o próprio procurou transmitir através do título, este trabalho «não significa só sentimental» - daí a omissão das vogais - e, creio, é mais uma prova do quanto consegue ser camaleónico, como escrevi aqui. Ter uma representação física é mesmo especial.

      

      

POTTS: Tea, Coffee, Cakes and Books
O facto de o nome ser «inspirado em Mrs. Potts, a famosa bule do clássico "A Bela e o Monstro"», um dos meus filmes favoritos, já era indicador do quanto este espaço tinha tudo para me arrebatar, mas é claro que os fatores não se esgotaram nesta curiosidade. Leiam aqui a minha opinião completa sobre o espaço.

Como ramo de Páscoa, o meu afilhado ofereceu-me um bilhete para o concerto d' Os Quatro e Meia, no Super Bock Arena. A Rita da Nova anunciou a data em que sairá o seu segundo livro (17 de abril). Tive mais uma sessão de escrita. E celebrei tanto o Dia Mundial da Poesia, como o Dia do Livro Português.


as músicas e os álbuns

🎧 Bênção, Mizzy Miles, Van Zee & Bispo;
🎧 Sentimento Bom, Wander Isaac;
🎧 Que Força é Essa Amiga, Capicua;
🎧 Saudade, Miguel Araújo & Os Quatro e Meia;
🎧 Obeah Me, Richie Campbell & Notnice;
🎧 Não És Tu, Sou Eu, Bárbara Bandeira


💿 SNTMNTL, Diogo Piçarra;
💿 Beco Com Saída, Diana Lima;
💿 Subida Infinita, Capitão Fausto;
💿 Borogodó, Firgun;
💿 Cowboy Carter, Beyoncé


 as publicações

continuar a escrever, mesmo sem sermos publicados
Não me conformei com a possibilidade de nunca vir a ser uma autora publicada, apenas compreendi que não é bem isso que me move. Quero, mas não será o fim do mundo se nunca vier a acontecer. Porque, quando mais nada fizer sentido, a escrita estará lá para mim. E, por isso, continuarei a escrever.

quando passamos a estar sempre atrasados?
O Supergigante, que conhecemos como Edgar no livro de Ana Pessoa, estava sempre a correr, muitas vezes sem saber se corria atrás de algo em concreto. E há uma passagem na qual afirma que é como se ele «próprio tivesse chegado atrasado à [sua] história». De repente, parecia que a sua vida já ia a meio, mas ele tinha acabado de chegar ali: àquele momento, àquele sentimento. E a minha dúvida foi: quem o fez acreditar nisso?


 os filmes, as séries e os podcasts

Aos poucos, as séries que acompanho vão regressando. Este mês, estreou a temporada 7 de S.W.A.T.: Força de Intervenção e a temporada 2 de Alert: Unidade de Pessoas Desaparecidas.

Erro 404
A nova série da RTP1 tem Inês Aires Pereira no papel de protagonista e uma premissa que me pareceu intrigante. Estes dois fatores foram o suficiente para querer ver e posso já adiantar que está a prometer e a cumprir. Rita acabou de perder a melhor amiga e companheira de casa. Mergulhada numa tristeza profunda, completamente desmotivada e apática, encontra uma réstia de esperança numa aplicação: a Appy, que lhe permitirá viver a vida de outras pessoas. No estado em que se encontra, sente que não tem algo a perder, no entanto, a fase experimental desta aplicação pode trazer-lhe consequências irreparáveis.

Quanto a podcasts, destaco três episódios extraordinários: Alexandra Lucas Coelho no A Beleza das Pequenas Coisas (Parte 1 e Parte 2), Capicua no Voz de Cama e Tomás Wallenstein no Watch.tm.


os livros

📖 alma lusitana
Uma Vida Assim-Assim, Cláudia Araújo Teixeira | O Caminho Imperfeito, José Luís Peixoto | Antes Que o Amanhã Se Vista de Fogo, Cátia Cardoso;

📖 ler djaimilia
Ajudar a Cair, Djaimilia Pereira de Almeida;

📖 clube do livra-te
In Memoriam, Alice Winn;

📖 12 livros para 2024
As Primas, Aurora Venturini


Outros livros do mês:
A Cicatriz (Maria Francisca Gama) | Supergigante (Ana Pessoa) | Finalmente o Verão (Mariko Tamaki) | A Importância do Pequeno-Almoço (Francisca Camelo - releitura) | Um Preto Muito Português (Telma Tvon) | Nini (Ticas Graciosa) | Ode Triumphal à Cona (Cláudia Lucas Chéu) | A Ilha das Árvores Desaparecidas (Elif Shafak).


os momentos

Acompanhei a minha melhor amiga a uma ecografia e fazer parte deste momento, para além de me comover, deixou-me com ainda mais vontade de conhecer a Lúcia - estamos todos à tua espera, pequenina. Além disso, há uns dias, surpreendemo-la ao aparecermos no chá de bebé que as colegas de trabalho organizaram.

   

A minha família também vai aumentar! Quando o meu primo ligou a dar a boa nova, fiquei de coração a transbordar de felicidade. Vem aí mais um menino para acompanhar toda a loucura deste núcleo duro.

   

Diogo, Luís Franco-Bastos
Tem sido entusiasmante acompanhar a sua evolução, enquanto humorista, porque acho que se predispõe a explorar várias camadas, interligando uma certa crítica social e apontamentos mais descontraídos e pessoais com bastante naturalidade. No grupo de artistas que faço por ver ao vivo, ele aparece destacado, mas já tinha assumido a derrota de não ter conseguido assistir ao seu mais recente solo - restava-me aguardar pela possibilidade de o disponibilizar numa plataforma online. Mas os pequenos milagres existem e o Luís Franco-Bastos regressou ao Porto, em sessão dupla - leiam aqui a experiência completa.


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