Entre Margens

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«Um conceito diferente de museu»


O conceito de museu pode ser desconstruído e o 3D Fun Art Museum, na Rua de Faria Guimarães, no Porto, veio assumir essa missão com 40 cenários distintos.

Nesta galeria de ilusão ótica, nem tudo é o que aparenta ser. Portanto, teremos de explorar os cenários de cada sala, recorrendo ao melhor trunfo de todos: a criatividade. O resultado, para além de ser surpreendente, consegue proporcionar momentos de diversão para todo o grupo (de amigos e/ou de familiares).

O conceito teve origem em 2015, «quando o casal luso-alemão Lara e Ralf Hein estava de férias no estrangeiro». Durante uma viagem à Tailândia, visitaram um espaço semelhante e decidiram «adaptar a ideia à nossa cultura, incorporando cenários alusivos às diferentes regiões onde estão localizados». No entanto, só em 2019 é que o sonho se concretizou. E, assim, o primeiro 3D Fun Art Museum abriu no Funchal.

O êxito foi tanto que alargaram o projeto a Lisboa, a Portimão e ao Porto. Foi este último que visitei e fiquei impressionada com a oferta. Isto porque encontramos diversas «obras de arte interativas tridimensionais» e uma componente didática expressiva. No fundo, a arte «sai das paredes» e torna-nos personagens das mesmas.


O valor poderá variar consoante a modalidade, uma vez que têm bilhetes individuais, bilhetes para famílias, para grupos e para grupos escolares. Além disso, aconselho a que reservem a visita atempadamente, para explorarem melhor esta experiência.

Creio que é um excelente programa para miúdos e graúdos. E achei interessante que os cenário tivessem uma imagem explicativa, para compreendermos o propósito, e qual a resolução da câmara/posição do telemóvel, para que fique clara a ilusão e ficarmos com fotografias originais. Só para resumir, poderão encontrar:

🎫 Imagens 3D: «várias imagens 3D que oferecem oportunidades de fotografia e diversão para toda a família»;

🎫 Quarto de Cabeça Para Baixo: «venha conhecer o nosso quarto ao contrário, o lugar onde a gravidade desafia a imaginação»;

🎫 Quarto de Ames: «nesta incrível ilusão, experimente como pode crescer ou diminuir de tamanho ao caminhar de um lado para o outro».

Fotografia da minha autoria



«Não sabes falar como deve ser e no entanto nunca te calas!»


A minha lista de Natal, durante a infância, incluía sempre um desejo peculiar: um irmão. Nunca aconteceu e acabei por fazer as pazes com essa inevitabilidade, não só por compreender as motivações dos meus pais, mas também por ter encontrado quem se aproximasse desse elo. Ainda assim, por não partilharmos a mesma casa, ficarei sempre com uma visão enviesada da realidade descrita no livro da Joana Estrela.


uma relação oscilante

Mana conta a história de duas irmãs, recorrendo a uma narrativa epistolar para evidenciar as quezílias e os cuidados inerentes à relação de ambas. E, parece-me, a qualquer vínculo entre irmãos. Apesar de ser filha única, creio que traça um retrato transversal e fidedigno. Aliás, nota-se que não fica num mero plano especulativo.

A carta é escrita pela irmã mais velha e tem muita graça na forma como nos apresenta todas as suas queixas, até porque engloba várias técnicas, estilos, cores e criatividade - como se a irmã mais nova tivesse mesmo passado por estas páginas, qual furacão. Além disso, há muita verdade nesta partilha e, por isso, torna-se tão próxima.

Outro aspeto curioso prende-se com a parte emocional: embora apresente pontos de discórdia e irritações, esta também é uma carta de amor. Percebemo-lo apenas nas entrelinhas, mas não me parece que sobrem muitas dúvidas quanto a isso, quanto à sua existência, uma vez que está sempre por perto e que as suas histórias se unem.

Mana lê-se num sopro, mas tem tudo o que necessitamos para compreender a mensagem. Ademais, mostra que, mesmo numa relação oscilante, há laços que se estreitam, que se mantêm inquebráveis. Ser irmão não é o mesmo que ser amigo, porém, não implica estar constantemente em lados opostos da margem.


🎧 Música para acompanhar: Da Mesma Pele, Irma

📖 Outros livros lidos: Pardalita | A Rainha do Norte


Disponibilidade: Wook | Bertrand

Nota: Esta publicação contém links de afiliada da Wook e da Bertrand

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«Pertencer não é apenas sobre fazer parte»

O meu bullet journal é utilizado exclusivamente para as leituras. É nele que anoto tudo o que me pareça relevante acerca de determinado livro: quer para me auxiliar, depois, na construção da review, quer para ficar com um registo de curiosidades e temas para reflexão. E é este último que me dá outro impulso, porque adoro quando um livro me deixa a pensar sobre um tópico em concreto - seja ele mais ou menos complexo.

Recentemente, isso aconteceu-me com a história de Jenny Jackson.


 quando nos esforçamos em demasia

Sasha é uma das protagonistas d' A Casa de Pineapple Street e percebemos, desde o início, que será um rosto intruso. Por mais que se esforce para ser verdadeiramente aceite na família do marido, a família Stockton, «um ícone da alta sociedade nova-iorquina», há comportamentos que lhe mostram que isso talvez nunca venha a acontecer, mas não será por falta de tentativas da sua parte.

Numa fase avançada do enredo, por vicissitudes que não abordarei para não estragar a leitura, Sasha regressa a Providence e há uma passagem que, para mim, foi muito reveladora: «de tanto se esforçar por se enquadrar numa família que não a queria, esquecera a sua por completo». Isto foi o gatilho que me fez pensar no quanto nos dedicamos tanto para pertencer. Mas com que intuito? Para que propósito maior?

Eu sei que o ser humano, por mais bem resolvido que esteja, procura sempre por validação, procura ser aceite e encontrar o seu lugar. O problema é quando essa obsessão tolda tudo o resto e faz com que nos esqueçamos daquilo que é mais importante. Porque, às vezes, investimos tanto de nós para fazermos parte de algo, de alguém, que nos perdemos do lugar onde já pertencemos e que precisamos de cuidar. De repente, é como se nos desligássemos da pessoa que somos e encarnássemos uma personagem, apenas para corresponder a expectativas alheias.

Quando compreendemos os efeitos destas ações, também nos olhamos como forasteiros e ficamos a pairar, a tentar decifrar os motivos. Acredito que isso, na maior parte dos casos, não nasça de um fundo malicioso, com segundas intenções. Acredito que, na maior parte das situações, seja só uma tentativa de não defraudar a pessoa com quem estamos, por exemplo. Quando há dinâmicas familiares tão vincadas, como neste livro, isso torna-se ainda mais evidente. Aliás, parece o único caminho possível: desviar da rota implica, forçosamente, seguir direções que divergem. 

Em simultâneo, há outra pergunta a ecoar: porque é que temos de ser nós a encaixar nos outros e não o contrário? Claro que, pelo menos princípio, isso seria sempre um ponto de vista hipócrita, porque estaríamos a exigir algo que passa a pesar-nos. E se não o consideramos justo, seria indecente pedi-lo aos demais. Mas a imagem que fica nas entrelinhas é que há sempre uma vida mais valiosa do que outra, por isso é que nos vamos acomodando em vez de esperar que se acomodem em nós. A questão é que não deveria ser assim.


 um processo de aceitação

Tentei recuar no tempo e pensar em todas as vezes que segui a mesma narrativa. Não tenho nenhum exemplo concreto, o que me leva a crer que não embarquei em algo profundamente doloroso, ao ponto de sentir que me estava a perder. Ainda assim, sei que disse demasiados «sins» por esse motivo, sei que evitei desmarcar compromissos motivada por esta energia, sei que tentei dar voz a uma voz que não era bem a minha, porque nos fazem acreditar que é aquele tom que temos de adotar no nosso percurso. Se calhar, tive muita sorte com as pessoas que me rodeiam, que nunca fizeram da cobrança um dialeto, mas também é provável que, em retrospetiva, comece a ter uma maior noção de detalhes que me mostrem que calcei os sapatos da Sasha.

Creio que aquilo que mais me incomoda é sentir que o investimento emocional nunca é equilibrado, que as coisas que tu fazes não seriam replicadas pelo outro. E isso magoa. Porque uma coisa é haver cedência, o que me parece saudável, até porque ninguém é dono da razão e é através de uma comunicação franca que conseguimos estabelecer limites, compromissos e um meio termo que funcione para todas as partes, outra completamente diferente é alguém fazer-nos acreditar que a nossa vida é menor, portanto, não há qualquer problema em nos diminuirmos para caber naquela realidade. Acho que isto também é cultural e perpetua aprendizagens que estão enraizadas - quando crescemos a acreditar em algo, é natural a repetição.

Há um momento em que, por tudo isto, entramos em colisão e precisamos de quebrar as amarras, quase como se gritássemos um «já chega!». Será que queremos assim tanto fazer parte de um ambiente que não nos aceita como somos? Será que faz sentido calar a nossa voz para que outros falem por nós? Sei que as respostas a estas perguntas também podem vir de um lugar de medo, de síndrome do impostor, de sombra, porque podemos acreditar que foi o melhor que nos aconteceu, que não merecemos melhor, que aquela realidade é o máximo que podemos ambicionar. Será que sim?

Também acho importante perceber que, não tão raras vezes assim, as reações dos outros são motivadas por mecanismo de defesa, porque existem mal entendidos que não chegam a ser esclarecidos, criando um problema maior, porque preferimos acreditar em certas narrativas ou, então, porque nos sentimos perdidos, em metamorfose, e nos estamos a tentar ajustar. Deste modo, dar o benefício da dúvida por ser vantajoso, porque o caso pode não ser não nos aceitarem, mas existirem demasiadas barreiras a impedir que entremos. Seja como for, precisamos sempre de questionar e de compreender até que ponto queremos esperar.

O processo de aceitação tem oscilações, mas, quando Sasha percebe que se estava a esforçar demasiado para se enquadrar num mundo que não é o dela - e que talvez nunca queira que seja -, também tive um momento de lucidez: porque não quero encaixar num lugar que não me serve. Se nem a roupa aceito que me seja apertada, porque é que aceitaria caber numa caixa que me comprime, esquecendo-me de quem sou?

Fotografia da minha autoria



«Há um limite para o ódio que uma pessoa consegue produzir, 
para o ressentimento que consegue guardar dentro de si»

Gatilhos: Homofobia, Uso de Drogas, Censura


O amor liberta-nos, no entanto, quando se afigura proibido, até onde estaremos dispostos a ir? E a que custo? Acho que é esta imagem que vamos desconstruindo ao longo do livro de Tomasz Jedrowski


 juventude, amor e perda

Nadar no Escuro leva-nos até à Polónia dos anos 80, do «outro lado da Cortina de Ferro», quando Ludwik e Janusz se conhecem num campo de trabalho agrícola. A relação entre ambos floresce, como se vivessem num mundo idílico, mas é quando regressam «à dura realidade de um país católico e comunista» que a paixão é posta à prova.

Creio que nunca perderam a lucidez, a noção de estarem a quebrar todas as normas, mas, naquele verão, limitaram-se a ser, a viver, num misto de inconsequência e de plena consciência quanto à finitude dos momentos. Nesta dança tão sincronizada, vamos compreender como os dois jovens têm visões e posturas amplamente antagónicas.

Fiquei encantada com o equilíbrio entre o contexto histórico e o contexto emocional, porque revelou-nos o necessário para compreendermos os permanentes debates/conflitos internos, para termos presente o que a repressão da sociedade pode condicionar a nossa liberdade. Ao mesmo tempo, demonstrou o quanto a culpa e o medo podem ser paralisantes.

Outro aspeto que achei interessante foi a referência ao livro de James Baldwin, O Quarto de Giovanni, não só pela importância da história, mas também por ajudar o protagonista a desbloquear certas questões. A forma como se cruzaram estes universos é preciosa, até porque fomentam um vínculo próximo, credível e representativo.

De uma forma simples, mas algo poética, acho que o autor nos levou numa travessia surpreendente. E é muito fácil colocarmo-nos no lugar de Ludwik e Janusz, questionando os nossos comportamentos e decisões perante uma situação semelhante: até que ponto conseguiríamos manter os nossos valores? Pesar-nos-ia a consciência, se cedêssemos?

Nadar no Escuro é incrivelmente triste e belo. É uma história de amor intensa, dividida por opções políticas, onde os sacrifícios e a perda caminham lado a lado. No final, creio que foi mesmo o amor próprio a vencer, pelo desabrochar da aceitação.


🎧 Música para acompanhar: Heart Of Glass, Blondie


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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«(...) aponta as suas próprias limitações»


O Pedro Teixeira da Mota anunciou o seu mais recente espetáculo de stand up comedy e eu tratei logo de comprar bilhetes, para não correr o risco de perder a oportunidade. Embora não goste de comprar com tantos meses de antecedência, há artistas que faço mesmo questão de ver ao vivo e, como o Pedro é um deles, preferi jogar pelo seguro.

Pata de Ganso sucede a Impasse (centrado nas dúvidas da altura) e a Caramel Macchiato (no qual acreditava já saber quem era). Neste terceiro solo, concentra-se nas suas próprias limitações e fragilidades, que talvez tenham ficado mais evidentes aquando da operação ao joelho. Aliás, o nome do solo não foi escolhido ao acaso (nunca é) e acho que, de todos, foi o mais bem conseguido: não só pela razão óbvia, mas por marcar uma dicotomia muito interessante e que ele nos explica no espetáculo (motivo pela qual não a partilharei, para não estragar a experiência a quem ainda o for ver).


A sua capacidade de observação é fascinante. Há muitas vezes em que discordo dos seus pontos de vista, mas consigo entender o fundamento e onde quer chegar. No final, continuamos a estar em desacordo, mas a verdade é que fiquei a refletir sobre determinada perspetiva que lançou para o centro da discussão. E gosto da forma como é capaz de usar essa atenção ao detalhe no seu humor, que, por si só, é um dos que mais aprecio, porque analisa e desconstrói a realidade e não tem qualquer problema de ser ele o elemento da crítica. Aliás, isso é ainda mais evidente neste espetáculo.

Só tinha visto Caramel Macchiato ao vivo (Impasse vi no Youtube) e, sem querer comparar, até porque não seria justo (pelo tempo que separa os dois solos e pelo próprio texto), senti-o mais solto, mais à vontade em palco. Sei que esse é o propósito, fruto da evolução e da segurança que se adquire com a prática e a maturidade, mas nem sempre é notório. Aqui foi. E foi-o não só pelo encadeamento da narrativa, mas também pelas pausas, pelos silêncios que respeitam a energia e o retorno do público. Não houve qualquer pressa para chegar ao fim e isso ajudou a estabelecer uma proximidade maior.

Acredito que um dos maiores trunfos do Pedro Teixeira da Mota é mesmo a sua capacidade para contar as histórias. Fui com dois amigos e vínhamos a falar sobre isso, porque ele parece entregar-nos tudo, sempre com graça, mas, depois, quando já passou ao momento seguinte e ninguém está a contar, acrescenta uma referência da história anterior e desarma-nos a todos. Além disso, brinca muito bem com os tempos, é expressivo e sabe agarrar o público - não é por acaso que as datas esgotaram todas. Acho que o facto de não se levar tão a sério também influencia bastante este vínculo.


Antes de concluir, permitam-me só fazer uma pequena nota sobre André Pinheiro, responsável pela primeira parte do espetáculo. Só o conheci em Watch.tm, portanto, não tinha uma opinião formada em relação ao seu stand up. Nota-se que ainda precisa de ganhar ritmo, mas fiquei impressionada e acho que tem tudo para ser um nome relevante no meio humorístico. Talvez daqui a uns tempos seja ele numa tour a solo.

Pata de Ganso teve espaço para falar sobre problemas de joelho, medos, erva, aldeias de sexo e relações familiares. E percebe-se que o texto é de alguém que se está a descobrir. Não sei se, para ele, é um bom ou um mal sinal perceber que «a pessoa que se está a tornar pode não ser a que sempre idealizou», mas, pelo que vi em palco, o caminho é promissor. Estou cada vez mais fã da sua voz na comédia e do percurso que está a construir, porque encontrou o seu lugar, mas pode sempre voar mais alto.

Fotografia da minha autoria



«É a única cor que está sempre, por muito invisível ou longe que esteja, no lugar mais importante que pode haver: Cá»


O último livro que tinha por ler do Miguel Esteves Cardoso (um dos meus autores casa) foi descoberto devagar, entre pausas de almoço e salas de espera, porque é sempre maravilhoso voltar às suas crónicas e prefiro ir adiando a despedida.


um retrato muito nosso

A Minha Andorinha transporta-nos para 2006, quando o autor voltou a publicar «após alguns anos de ausência». Neste hiato, houve características que nunca perdeu e, talvez, que até se apuraram: a ironia, a atenção ao detalhe e o sentido de oportunidade.

De acordo com o MEC, é na distração que está a felicidade e estes textos pretendem honrar essa imagem, desviando-a um pouco mais. Por isso, tal como uma andorinha, continuam a voar, apesar de tudo, e a conquistar um lugar cativo nas nossas memórias.

É inegável que os textos não me arrebataram com a mesma intensidade. Ainda assim, acho fabuloso como consegue pegar em coisas tão suas e criar uma narrativa plural - quanto mais não seja, porque nos permite lê-las e refletir sobre elas. Por outro lado, aborda questões transversais, cimentando a intemporalidade das suas palavras: existem retratos que nos servem hoje tal e qual como nos serviam há dezoito anos. E essa certeza tem tanto de inspirador como de preocupante, naturalmente.

Focando-se nos nossos costumes e na nossa língua, continuo a acreditar que não há alguém que nos critique e nos estime tanto como Miguel Esteves Cardoso. «A Cor de Portugal» e «Parabéns Obrigados» foram as minhas crónicas favoritas.


🎧 Música para acompanhar: Porto Sentido, Rui Veloso

📖 Outros livros lidos: Como é Linda a Puta da Vida | Os Meus Problemas | Amores e Saudades de Um Português Arreliado | A Causa das Coisas | Explicações de Português Explicadas Outra Vez | As Minhas Aventuras na República Portuguesa | O Amor é Fodido | No Passado e no Futuro Estamos Todos Mortos | A Vida Inteira | Cemitério de Raparigas | Com os Copos | Último Volume | As Melhores Crónicas de Amor | Independente Demente | Escrítica Pop


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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«Não vos vou imaginar sem o vosso consentimento»


O conteúdo digital da Bumba na Fofinha entrou na minha vida há muitos anos, já não sei precisar quantos. E é daquelas artistas que faço questão de acompanhar de perto, não só porque lhe acho imensa graça, mas também porque tem uma capacidade fascinante de equilibrar temas sérios com a sua linguagem cómica, sem que perca relevância e sem que se perca do propósito inicial da abordagem: ter piada.

Quando anunciou o Suar do Bigode, o seu primeiro solo de Stand Up Comedy, nem tive hipótese de comprar bilhete, porque esgotaram em segundos. Portanto, fiquei só a desejar que surgisse uma nova possibilidade de a ver ao vivo. Assim que partilhou a disponibilidade para alugarmos o espetáculo online, foi perfeito.

Na plataforma, há duas modalidades pagas: assistir só ao espetáculo ou selecionar a opção com trinta minutos extra (gravados no Teatro Tivoli), quando estava grávida de sete meses e sem ter «noção do apocalipse que aí vinha». Preferi a segunda, até porque senti que seria um excelente complemento. Não me enganei. Que momento precioso!

O solo foi gravado ao vivo no Coliseu de Lisboa e nem damos pelo tempo a passar, já que monotonia é um conceito que não entra no vocabulário da Bumba. Falando sobre maternidade, histórias de família, ansiedade, encontros, relações longas, depilação, picos de inteligência e tantos temas mais, é um texto muito bem encadeado e cheio de ritmo. Além disso, a Bumba não tem qualquer receio de usar o palco e de ser bastante expressiva. E isso também nos mostra o quanto foi tudo pensado ao detalhe.

Houve música, dança, jogos de luzes e foguinho, tudo para elevar este espetáculo. Mas aquilo que me deixa ainda mais rendida é que podia não ter havido nada disto, que ela continuaria a conquistar a sala e a arrasar naquele palco. Porém, como houve esta combinação de vários elementos, ficou tudo ainda mais hilariante. Queria muito falar-vos sobre o meu momento favorito, mas não vos vou estragar a experiência, prometo.

E o final? Foi mesmo para terminar em grande! Escusado será dizer que, agora, a vontade de a ver ao vivo é ainda maior. Suar do Bigode estará disponível até ao final do mês de fevereiro e aconselho muito a que assistam a este espetáculo épico.

Fotografia da minha autoria


«A vida é desejo, não sentido»


apeteces-me
com esse ar inocente
e língua inquieta
que anseia explorar
um corpo que já não
sendo meu transborda de desejo

no fim, nesse limbo
que me leva
para um estado febril de dependência
das tuas mãos em mim
fumo um cigarro
encostada, desnuda
amparada no parapeito da janela
enquanto me observas
com um sorriso travesso
de quem sabe o que fez
e não pedirá por perdão

lá fora
gemidos abafados prolongam-se
e eu regresso ao teu regaço
para naufragar novamente
e outra vez mais
até me perder
numa rouquidão profunda
onde se confundem as nossas vozes

continuas a apetecer-me

mas este jogo
ainda me sabe a pouco

Fotografia da minha autoria



«A vida é feita de momentos colecionáveis»


Janeiro tem a medalha de mês mais longo e percebe-se porquê: porque aparenta ter várias vidas dentro. Não sei se é a nossa vontade de perceber aquilo que o futuro nos reserva ou se estamos só presos a esta imagem coletiva, mas a verdade é que, como o Wandson Lisboa partilhou aqui, acordamos «e ainda é janeiro».

Visto que começamos o ano a gerir uma situação médica esperada, mas que ainda não tinha data definida, senti este passar de tempo ainda mais lento (vivemos mesmo com o coração fora do peito quando os nossos ficam vulneráveis). Por isso, acho que aquilo que me manteve sã foram os aliados de sempre: a família e os amigos, a escrita e os livros. Este amparo, juntamente com datas bonitas, trouxeram um novo fôlego.

Quando vi a peça do Ivo Canelas, percebi que queria fazer do nome uma espécie de mote. Porque quero focar-me nas pequenas alegrias que vou vivendo, por mais simples que pareçam ser. E é por essa razão que o Moleskine dará lugar ao As Coisas Maravilhosas. E, olhem, janeiro teve várias coisas maravilhosas.


as coisas maravilhosas de janeiro


 os fragmentos aleatórios

Um dos meus propósitos para 2024 é ser mais regular a escrever as minhas reviews literárias, para ter uma opinião mais fidedigna da leitura, por isso, comprei um caderno de argolas básico e tem sido um bom exercício. Depois, também comprei outro caderno para dar forma a uma ideia que não para de ecoar em mim.

Reorganizei a decoração do meu quarto e da minha secretária de modo a conseguir dar destaque às ilustrações e ao calendário do Fred Gomes. Por falar no Fred, se puderam, vejam esta partilha tão pertinente que ele fez sobre a roupa que usamos e a relação que desenvolvemos com as peças que vestimos.

O mês transitou muito na companhia do meu copo-objetiva e também acolheu as primeiras tulipas.

      

   

Leituras Partilhadas: A Marisa Vitoriano avançou com uma nova rubrica: Leituras Partilhadas. Todos os meses, convidará criadores de conteúdo para, em conjunto, sugerirem livros de um tema específico. E foi com o maior entusiasmo que aceitei o desafio de participar no primeiro - Celebrar os Nossos -, não só porque adoro a ideia e o conteúdo da Marisa, mas também porque nunca perco a oportunidade de falar de autores portugueses. Bem sei que sou suspeita, mas acompanhem o projeto. Valerá muito a pena!


 as músicas e os álbuns

🎧 Vou Ficar Neste Quadrado, Ana Lua Caiano;
🎧 Jacaré, Pedro Vale;
🎧 Andar à Solta, Capitão Fausto;
🎧 Vestir a Camisola, Joana Espadinha;
🎧 A Pessoa Que Você Mais Ama, Tiago Nacarato.


📻 Três Pontinhos, Rita Rocha & Pedro Marques;
📻 Cara de Espelho, Cara de Espelho


 as publicações

Janeiro, ao nível de conteúdo no blogue, foi muito literário, porque queria publicar todas as opiniões referentes aos livros de 2023 e, desta forma, conseguir diminuir a distância entre o término da leitura e a partilha da review. Pelo meio, destaco três publicações que adorei escrever (duas delas relacionadas com literatura).

✎12 livros para 2024
As minhas leituras para 2024 recuperaram uma dinâmica que, salvo erro, apenas fiz duas vezes: selecionar 12 títulos que quero mesmo ler durante o ano. Gosto da liberdade de descobrir as narrativas quando sinto ser o seu momento, mas também gosto desta ideia de priorizar histórias que me deixam curiosa. Como estas componentes não se anulam, e continuo a ter margem de manobra para ser mood reader, resolvi arriscar.

✎ estaremos mesmo a incentivar à leitura?
Os livros bons, como também referiu Isabel Alçada, são aqueles que interessam aos leitores. E, para isso, não pode existir uma só lista, não pode existir obrigatoriedade e portas fechadas. É aos respeitarmos as suas individualidades, trazendo-as para o centro da discussão, que lhes garantimos ferramentas que os ajudem a estruturar os seus gostos. Se continuamos a excluir potenciais leitores da leitura, da literatura, o que sobra? É por esse motivo que, antes de me questionar sobre a presença/ausência de um determinado livro no PNL, insisto em perguntar: estaremos mesmo a incentivar à leitura ou estaremos apenas a validar egos?

✎ e o telefone não toca
O telefone não toca. As horas vão passando, em câmara lenta, e o telefone continua sem tocar. E eu que odeio falar por chamada, como se o corpo estivesse numa extensão invisível até ao outro lado da linha, da vida, de qualquer coisa que não sou eu, só queria ouvir o seu toque. Mas ele não toca e eu continuo a desbloqueá-lo ao segundo, à espera de um sinal, de um pequeno milagre que sossegue a ansiedade.


 os filmes, as séries e os podcasts

O Mistério do Colar de São Cajó
Por mais que tente ser imparcial, Pôr do Sol continua a ter um lugar especial no meu coração e sinto que, dificilmente, alguma ramificação destronará a série. Ainda assim, achei o filme interessante, com novas personagens que abraçaram muito bem a energia do projeto. Sei que o objetivo era fazer algo diferente, que não fosse apenas um episódio mais longo, mas, sendo honesta, não sei se o resultado espelha essa vontade. Apesar de elevar a surrealidade dos diálogos e a loucura da história, senti que teve partes mais desconexas, com problemáticas que não enriqueceram assim tanto o argumento. Contudo, só por permitir o reencontro com este grupo já vale a pena.

2004 Foi Há 20 Anos, Diogo Batáguas
O ano só começa verdadeiramente quando Diogo Batáguas partilha o seu Quero Lá Saber, fazendo-nos recuar 20 anos no tempo. Agora que chegamos a 2024, é tempo de passar 2004 em revista, passando pela música, pela política, pelo futebol, pelos anúncios e por mais uma série de áreas que marcaram o ano em questão. Existem fragmentos que continuam épicos, no entanto, houve um, em particular, que me chocou, não estava preparada para saber que a minha vida foi uma mentira.

Talvez Resulte, Luana do Bem
Este set de Stand-Up Comedy, que resulta «das sessões do Talvez Resulte e de um ano de datas com o Diogo Batáguas na sua tour Processo», foi gravado na terceira data que fizeram no Coliseu de Lisboa e deixou-me com vontade de ver um solo completo da Luana, porque gostei do texto, do ritmo e da forma como conseguiu conquistar o público. Sei que é diferente construir algo para 20/25 minutos, enquanto primeira parte de um artista, por isso, fiquei curiosa para a ver enquanto nome principal.

Suar do Bigode, Bumba na Fofinha
O solo foi gravado ao vivo no Coliseu de Lisboa e nem damos pelo tempo a passar, já que monotonia é um conceito que não entra no vocabulário da Bumba. Falando sobre maternidade, histórias de família, ansiedade, encontros, relações longas, depilação, picos de inteligência e tantos temas mais, é um texto muito bem encadeado e cheio de ritmo. Além disso, a Bumba não tem qualquer receio de usar o palco e de ser bastante expressiva. E isso também nos mostra o quanto foi tudo pensado ao detalhe.

Matilha
Quando as situações complicam e é maior o sufoco, tendemos a procurar soluções rápidas, que nos tragam paz. Por vezes, só precisamos de ganhar um pouco mais de tempo para estruturar um plano, mas pode ser nesse limbo que resvalamos. E nem sempre é fácil virar as costas ao caminho mais acessível, nem sempre é fácil resistir à tentação. Matilha e Mafalda não terão o futuro facilitado e as suas decisões poderão comprometer tudo o que conquistaram até então. Até onde estarão dispostos a ir?

Nos podcasts, comecei a maratonar Voz de Cama, da Tânia Graça e da Ana Markl, e Sopro, do Rui Malvarez.


 os livros

📖 O Quarto do Bebé, Anabela Mota Ribeiro [alma lusitana];
📖 Ferry, Djaimilia Pereira de Almeida [ler djaimilia];
📖 Mar da Tranquilidade, Emily St. John Mandel [12 livros para 2024];
📖 A Casa Holandesa, Ann Patchett [clube do livra-te];
📖 Reaccionário Com Dois Cês, Ricardo Araújo Pereira [alma lusitana];
📖 Nada no Escuro, Tomasz Jedrowski [clube do livra-te, opinião em breve].


Outros livros do mês: 
A Minha Andorinha [Miguel Esteves Cardoso], A Maldição de Rosas [Diana Pinguicha], O Vestido de Noiva [Filipa Leal], A Solidão dos Inconstantes [Raquel Serejo Martins], Obras Completas Volume IV [Maria Judite de Carvalho] e A Casa de Pineapple Street [Jenny Jackson].


 os momentos

O amparo de janeiro veio em forma de reencontros, ideias que ganham forma, projetos que vão crescendo aos poucos e gestos de generosidade pura. Já somos 55 subscritores na newsletter - Portugalid[Arte] -, a Cátia Cardoso quis enviar-me o seu livro de poesia e comprei bilhete para o solo Diogo, do Luís Franco-Bastos.

      

Combinei uma sessão de escrita com a Sofia. Se escrevemos? Não, mas conversamos a tarde toda (até nos informarem que o espaço iria fechar) e ficamos a conhecer o Ponto 2, um café encantador na Boavista. Quero regressar. No fim desta sessão de (não) escrita, fomos até à Flâneur para trocar e comprar livros.

      

Voz de Cama
Assistir a este evento numa sala cheia, sem preconceitos espelhados, sem desconforto e com a plateia a reagir aos vários tópicos em discussão foi maravilhoso. De repente, era como se estivéssemos entre amigos e não numa sala de teatro. E acredito que esta proximidade só é possível pela energia que as duas transparecem e pelo trabalho que desenvolvem com o podcast. Elas ocupam muito bem o lugar de fala do qual dispõem e fazem isso sem qualquer tipo de moralismo. Vê-las a desconstruir ideias e a dar visibilidade a temas vitais para o ser humano - e para as relações intra e interpessoais -, não duvido, torna-nos melhores pessoas (para nós e para os outros). Podem regressar mais vezes ao Porto. Até lá, continuarei a escutá-las no Voz de Cama.


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