ENTRELINHAS // SAGA MILLENNIUM
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Fotografia da minha autoria |
«A vingança é uma força poderosa»
A prateleira superior da minha estante está reservada a algumas obras essenciais, sendo que a maior parte dessa área é ocupada pelos seis livros que compõem a saga da minha vida - a Millennium. Quando me ofereceram o primeiro volume, estava longe de imaginar o quanto se tornaria especial, mas a verdade é que me conquistou para sempre. E aconselho-a em todas as oportunidades que aparecem, porque tem uma dinâmica e uma mensagem poderosas. Expondo problemas fraturantes da sociedade - sobretudo, sueca -, estabelece uma análise detalhada do caráter humano. E coloca-nos em contacto com personagens memoráveis.
UMA SAGA, DOIS AUTORES
A ideia pertence a Stieg Larsson. E a sua intenção passava por escrever dez livros. Infelizmente, faleceu aos 50 anos, vítima de ataque cardíaco, antes de ver a sua criação publicada - mas com contrato para o efeito. Apesar disso, os três primeiros volumes já tinham sido entregues na editora, deixando um legado inigualável. Uma vez que também havia rascunhos e pesquisas para continuar a história, convidaram David Lagercrantz para assumir essa responsabilidade. Em questões práticas, o que é que isso implicou no seguimento da saga?
Uma mudança de ritmo. Embora sinta que respeitou a energia de toda a obra, criando uma sequência interessante, a intensidade da escrita é incomparável. Porque Larsson tinha um estilo mais acutilante, uma sensibilidade maior para a velocidade da ação. Além disso, o seu olhar minucioso e o facto de ser um homem de causas criaram uma abordagem quase frenética, que nos consome no enredo. Parece-me impensável não destacar a competência de David Lagercrantz, até porque se revelou um ótimo sucessor, porém, não nos proporciona uma leitura tão viciante.
RECEIOS E ABORDAGENS
Confesso que estava um pouco insegura antes de avançar para o quarto volume, uma vez que Stieg Larsson elevou bastante a fasquia. Mas o meu coração serenou quando percebeu que esse receio, se calhar, era infundado, porque notei poucas diferenças nessa transição. No entanto, nos livros cinco e seis já senti uma discrepância maior, o que é perfeitamente natural, visto que têm registos e visões singulares.
Enquanto Larsson descartava métodos convencionais e expunha escândalos políticos e jogos de poder com uma certa propriedade - pois tinha um interesse profundo nestes temas -, Lagercrantz optou por seguir outro caminho, permitindo-nos explorar componentes que, até então, não eram tão evidentes. Assim, o primeiro autor construiu uma narrativa mais crua e sombria e o segundo focou-se num traço mais humano e delicado.
Sinto que é percetível que prefiro os três volumes escritos por Stieg Larsson. Contudo, li os outros três de mente aberta, sem cobranças e sem comparações. É por essa razão que creio que a saga me marcou de maneiras muito particulares, atendendo a que as duas abordagens acabaram por se complementar. Ainda assim, reconheço, pensei várias vezes sobre como seria a sua continuação, caso Larsson fosse vivo.
A SAGA MILLENNIUM
Cada exemplar é único e merece uma análise individualizada. Porém, como nas minhas críticas literárias procuro distanciar-me do enredo e centrar-me mais na mensagem, não fazia sentido repetir pensamentos e observações, porque há linhas transversais a todos os livros. Portanto, decidi compilar o que considero serem os ponto mais evidentes de cada volume, pois despertaram-me sensações idênticas.
Os Homens que Odeiam as Mulheres

É o primeiro volume e abre-nos a porta de uma premissa original, intrigante e complexa, agitando-nos por dentro. Porque funciona como um apelo, uma acusação, um grito de revolta contra o poder, a corrupção, a conspiração, o assédio sexual, a violência doméstica/familiar e o papel minoritário da mulher, denunciando a forma como milhares são desrespeitadas, violentadas e mortas numa sociedade misógina. Esta narrativa surgiu de uma luta pessoal, não só porque, em adolescente, Stieg Larsson assistiu à violação de uma rapariga [por parte de um grupo de jovens], mas também por ter sido sempre uma acérrimo defensor dos direitos humanos [opinião completa].
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A Rapariga que Sonhava com uma
Lata de Gasolina e um Fósforo

Neste segundo volume, ficamos a conhecer muito melhor o passado da protagonista Lisbeth Salander. Numa constante corrida contra o tempo - e seguindo um plano de vingança -, a criminalidade é figura central, fazendo-nos compreender a podridão do sistema e a influência que determinadas entidades exercem sobre os vários serviços sociais. É preciso algum estofo para acompanhar certas passagens, porque nos inquietam e revoltam. No entanto, há uma fluidez que nos impede de largar o livro. Centrado no tráfico e nas metanfetaminas, nos negócios de fachada e nas constantes falhas judiciais, alerta-nos, ainda, para as máscaras que utilizamos para nos protegermos dos rótulos nefastos.
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A Rapariga no Palácio das Correntes de Ar

Neste terceiro volume, não posso deixar de destacar a parte relacional. Porque, mesmo num mundo tão corrompido, onde a desconfiança e a corrupção parecem ser faces da mesma moeda, há sempre quem esteja disposto a dar-nos a mão, correndo riscos e não se poupando a esforços, pois a justiça tem de prevalecer e é fundamental que a vítima não seja culpabilizada. Os contratempos multiplicam-se, expondo uma série de abusos institucionais e a descredibilização de testemunhos, mas existe uma força e uma resiliência que não permitem que os envolvidos quebrem. Se a astúcia era uma característica notória dos protagonistas, neste livro superou-se. Combatendo esquemas em cadeia e o crime organizado, os pormenores aparecem no momento certo.
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A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha
Este quarto volume volta a deixar-nos com os nervos à flor da pele, pois foca-se na violência doméstica, na espionagem industrial, na manipulação e na aproximação de uma nova personagem. Além disso, há uma transição na revista Millennium, fugas de informação e uma bandeira no autismo. David Lagercrantz chama, ainda, a nossa atenção para o poder da literatura e dos Super-Heróis, atendendo a que, no fundo, quando nos sentimos em perigo, procuramos aquilo que nos possa transmitir força. E estas personalidades foram para Salander uma maneira de sobreviver e de ter um futuro. A corrupção continua a ser um tópico recorrente, estabelecendo uma ponte com os restantes tipos de crime. Sendo difícil perceber em quem se pode confiar, uma coisa é certa: Lisbeth e Blomkvist formam uma dupla improvável, mas imparável.
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O Homem que Perseguia a sua Sombra

Neste quinto volume, há uma tentativa de compreender melhor o passado, uma vez que é evidente que estamos longe de conhecer todos os seus contornos. Ainda para mais, o autor mostra-nos um lado menos explorado da nossa protagonista, que terá de gerir o choque de toda a verdade que vai descobrindo acerca da sua família. Embora tenha sentido falta de a ver tão ativa - e tão igual a si -, é fascinante como se preocupa pouco com as consequências das suas ações, se estiver em causa a luta pela igualdade. O seu traço mais rude acaba por ser uma fachada, porque aquilo que a move só pode vir de um lugar empático, apenas não é convencional na resolução de problemas. Enigmática, a ação tem um ritmo mais morno, mas demonstra-nos outra faceta da maldade humana.
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A Rapariga que Viveu Duas Vezes

O fim. Foi com um certo pesar que me despedi desta saga, mas não sem antes ser envolvida em mais um problema social que necessita de ser exposto e, posteriormente, erradicado. Neste sexto volume, Lisbeth será colocada à prova como nunca o tinha sido, porque a sua frieza dará lugar a uma vulnerabilidade que quase a paralisa. Sentindo-se em confronto com os fantasmas - bem reais - da sua infância/adolescência, terá de tomar decisões que julgava impossíveis. Além disso, é interessante acompanhar a desconstrução que fará de uma pessoa em específico. Costuma-se dizer que os gatos têm sete vidas, mas Salander tem muitas mais, porque é feita de uma fibra desarmante. Conhecendo os dois lados da batalha, o exemplo da hacker será sempre o mais valioso. Sinto que merecia outro desfecho, mas mantém o estatuto de heroína.
Nunca li.
ResponderEliminarVi o filme Os homens que odeiam as mulheres" e achei cansativo por ser muito longo.
Bom dia para ti.
Oh, a sério? Que pena :(
EliminarPor acaso, até gostei bastante da adaptação. Ainda que, naturalmente, o livro seja muito melhor.
Igualmente, Magui
Nunca li esta saga. Vi parte do filme "Os homens que odeiam as mulheres" e até gostei.
ResponderEliminarVou levar a sugestão para uma leitura futura.
Beijinho grande, minha querida!
Sou bastante suspeita, mas aconselho muito!
EliminarNunca li esta interessante saga.
ResponderEliminarUm abraço e continuação de uma boa semana.
Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros
É incrível, Francisco :)
EliminarObrigada e igualmente
Nunca li a saga, mas já me aconselharam mais do que uma vez. Passa muito pelo facto de ter sido escrita por dois autores diferentes - o que não é mau, mas que me deixa apreensiva. Ainda assim, confio nas tuas opiniões e sinto-me um bocadinho mais receptiva a esta leitura. Obrigada.
ResponderEliminarDemorei bastante tempo a começar o quarto livro, precisamente, por essa questão. Ainda para mais, fiquei tão fascinada com a escrita de Stieg Larsson, que estava com medo que a continuação me desiludisse. Embora existam grandes diferenças, não posso negar, acho que David Lagercrantz fez um bom trabalho!
EliminarRecomendo :)
Ainda não li, mas está na lista...
ResponderEliminarContinuação de boa semana, querida amiga Andreia.
Beijo.
É uma verdadeira obra de arte *-*
EliminarNunca li a saga mas dada a tua preferência estou muito tentada a ler. É estranho ter uma saga a ser escrita por dois autores (especialmente triste devido à morte do primeiro) e pensar que provavelmente a ideia original nunca será concretizada.
ResponderEliminarSei que tudo o que disser nunca será imparcial, porque acho que a saga está mesmo incrível :)
EliminarÉ muito estranho, de facto, até porque crias uma dinâmica de leitura que, depois, sabes que não terá continuidade, por muito que o trabalho do sucessor seja fantástico
Quero muito dar uma oportunidade a esta saga um dia 🧡
ResponderEliminarApoio imenso essa decisão :D
EliminarAinda não conhecia de todo, mas deve ser uma boa saga para conhecer
ResponderEliminarBeijinhos
Novo post
Tem post novos todos os dias
Vale muito a pena :)
EliminarNão li esta saga :)
ResponderEliminarwww.amarcadamarta.pt
Se tiveres curiosidade, aconselho, Marta :)
EliminarFabulous blog
ResponderEliminarThanks :)
EliminarPlease read my post
ResponderEliminar:)
EliminarNunca tinha ouvido falar nessa colecção, No livro "A rapariga que sonhava...." o relatado é a realidade!!!
ResponderEliminarxoox
marisasclosetblog.com
Todos os volumes têm associações muito fidedignas da realidade, até porque expõe problemas com uma expressão gigantesca
Eliminarnunca li, mas alguns desses livros era bem vendidos quando eu trabalhava para a editora, na livraria. adoro ver como ficam alguns títulos de livros aí em Portugal, a diferença em relação aos títulos no Brasil! "A rapariga que viveu duas vezes". a palavra "rapariga" aqui no Sul do Brasil, ainda que pouco usada, é usada como sinônimo de garota, etc. mas no Nordeste do Brasil, e acho que no Norte também, tem um outro sentido, pode significar prostituta, hehe!
ResponderEliminarFoi uma saga com imensa saída :)
EliminarÉ mesmo muito interessante perceber essas diferenças de significado. Porque não deixa de ser curioso que consigam ser tão diferentes
Nunca li essa coleção mas parece-me muito interessante!
ResponderEliminarhttps://checkinonline.blogspot.com/
É mesmo :)
EliminarSó vi "homens que odeiam as muljeres"...gostei, mas...
ResponderEliminarA ver se vejo os filmes...extou preguiçosa para livros
Kissss
O segundo e o terceiro filmes só existem na edição sueca. Mas o primeiro e o quarto foram adaptadas para a versão de Hollywood 😊
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