Entre Margens

Fotografia da minha autoria



O único desejo de maior é que este ano seja um pouco mais leve. Seria utópico — e, talvez, menos propenso a aprendizagens — ambicionar uma travessia anual sem contratempos, mudanças ou desvios de rota, mas se der para poupar nos sustos já me parece excelente.

À semelhança do que tenho feito nos anos anteriores, deixo para mim os pontos mais pessoais, contudo, voltei a listar alguns propósitos que me parecem entusiasmantes o suficiente para trazer cor a 2026, sem comprometerem a magia da descoberta, porque não sou apologista de programar a vida ao segundo. Traçar planos motiva-me, dá-me a sensação extraordinária de ter um sítio para onde ir, de haver uma fuga na rotina que traz um certo alento, mas não quero que isso se transforme numa espécie de competição, de algo que escalou para um prazo inflexível, que me frustrará por não ter sido alcançado. Portanto, é sempre neste equilíbrio que gosto de caminhar.

Antes de ir aos propósitos deste ano, permitam-me recuperar os de 2025 e fazer uma breve análise


 os propósitos para dois mil e vinte e cinco

✦ alinhar mais vezes a agenda com as minhas pessoas: não o consegui fazer com todas, mas é algo que pretendo reforçar em 2026, porque não há nada que substitua a presença e este contacto que é colo tantas vezes;

✦ continuar com as sessões de escrita: o saldo foi positivo, mas preciso de o tornar ainda mais regular, sem sucumbir à preguiça (às vezes nem é bem uma questão de preguiça, é só querer ficar em casa aos fins de semana, visto que já passo tanto tempo fora dela durante a semana);

✦ comprar bilhetes para espetáculos ao vivo: creio que só janeiro é que pecou neste plano, de resto, aproveitei bem;

✦ ver mais filmes: não aconteceu e estou aqui para assumir a derrota deste propósito. Um dia, talvez;

✦ ir ver mais jogos ao vivo: não deu para expandir muito, nem para ver hóquei, mas voltei duas vezes ao Estádio do Dragão;

✦ fazer algo pela primeira vez: se calhar, é batota incluir este momento aqui, mas vou destacar a sessão dinamizada na Casa da Cultura de Avintes, O Livro da Minha Vida, na qual fui uma das convidadas;

✦ trazer conteúdo diferente para o blogue: não aconteceu como idealizei, mas continuo a tentar;

✦ continuar a comprar livros de uma forma consciente: fico mesmo orgulhosa por escrever que foi um propósito cumprido com sucesso;

✦ explorar mais o roteiro gastronómico: 2025 foi generoso neste departamento;

✦ ter uma rotina de skincare: uma das melhores apostas do meu ano, não só porque a pele agradece mas também porque encontrei um momento do meu dia em que posso abrandar e relaxar.


 os propósitos para dois mil e vinte e seis

Da lista anterior, renovei votos com as sessões de escrita, os convívios com as minhas pessoas, o investimento na cultura e a compra consciente de livros. E achei interessante acrescentar os seguintes propósitos:

✦ ir ao cinema: ambicioso, eu sei, tendo em conta que investi tão pouco na sétima arte, mas tenho saudades de ir ao cinema e talvez seja o impulso que preciso para me voltar a deslumbrar com o mundo dos filmes;

✦ reencontrar a minha voz na blogosfera: a motivação oscilou bastante no último ano, mas continua cá. Ainda há coisas sobre as quais quero escrever, só preciso de redescobrir a essência desta casa digital;

✦ novas dinâmicas no Entre Margens: no seguimento do tópico anterior, decidi estabelecer pequenas dinâmicas para o blogue. Assim, o objetivo é passar a publicar apenas 3 vezes por semana (segundas, quartas e sextas) e ir adequando conforme for necessário, incluir reviews relâmpago mensais (e reservar publicações individuais só para os livros que me arrebataram e/ou sobre os quais sinto que tenho mais coisas a dizer) e a rubrica gira-discos, para escrever mais um pouco sobre os álbuns que me acompanharam durante o mês (na mesma lógica dos livros, reservarei publicações individuais para aqueles que me marcaram mais);

✦ ser mais consistente a escrever poesia: nunca quis forçar, mas a verdade é que me estava a faltar ser mais consistente a escrever poesia, para evoluir e ser capaz de chegar a outras camadas, e ter um espaço próprio para o fazer. Para tal, deixarei de o fazer no blogue, porque criei o No Silêncio, um substack poético, com um poema novo a sair todas as quintas-feiras, às 7h07;

✦ cuidar melhor do meu sono: sinto que nunca precisei de dormir muito, mas o ritmo de me deitar tarde e acordar cedo não me parece nada saudável e quero, finalmente, mudar isso, nem que seja aos poucos, introduzindo pequenas mudanças nos meus hábitos diários;

✦ organizar melhor as minhas finanças: tive sempre o cuidado de estar atenta aos meus gastos e de não embarcar em compras amplamente desnecessárias. No entanto, é um propósito que quero abraçar com ainda mais consciência, porque acredito que só me trará benefícios. Desde apostar num fundo de emergência até criar mealheiros específicos, quero garantir que o meu dinheiro é bem aplicado e que posso dar-me a pequenos luxos sem ter a sensação de que me poderá vir a fazer falta.


Bom ano ✨

Fotografia da minha autoria



A decisão de só desenvolver com mais detalhe as reviews dos livros que me arrebataram, confesso, pecou por tardia, mas trouxe-me algum descanso, até porque me deu liberdade para explorar outros temas no blogue, ao mesmo tempo que deixei de ter a sensação de estar sempre a ficar atrasada nestas partilhas.

Eu sei que nem todos as histórias nos marcam da mesma forma e isso nunca foi um problema, contudo, havia uma parte de mim a acreditar que, se tinha dedicado parte do meu tempo àquela leitura, devia reservar uma publicação individual. Nunca existiu essa correlação e parar de a forçar foi a melhor solução.

Portanto, aqui fica mais um conjunto de opiniões rápidas.


CRIME NA QUINTA DAS LÁGRIMAS, LOURENÇO SERUYA
Esta história ficou muito aquém do que esperava. Acredito que a escrita do Loureço Seruya tem potencial e que a premissa entusiasma, contudo, senti um certo desequilíbrio no ritmo da narrativa: ora estendia demasiado cenas que não precisavam de tanto detalhe, ora acelerava aquelas que mereciam mais atenção. Em simultâneo, os diálogos pareceram-me forçados e, para mim, houve ocorrências desnecessárias, atendendo a que não acrescentaram profundidade, nem se revelaram úteis para entendermos as motivações dos envolvidos. Infelizmente, terminei com a sensação de que os ingredientes estavam cá, mas que caíram numa fórmula repetitiva (opinião completa aqui).

QUANDO AS MONTANHAS CANTAM, NGUYEN PHAN QUÉ MAI
Foi triste e angustiante ler determinadas passagens, não só pelo cenário de destruição, mas também pelo peso da dúvida, do desconhecimento; pelo peso do luto que não pode ser feito em pleno, visto que existem factos em falta. A escrita é muito sensível e fiquei rendida à relação da avó e da neta, mas senti que a narrativa se arrastou em algumas partes, dificultando o envolvimento total com o que estava a ser descrito.

TODOS DEVEMOS SER FEMINISTAS, CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE
Com um discurso claro, próximo e elucidativo, valeu muito a pena mergulhar nestas páginas, ao ponto de as querer ver mais desenvolvidas. Além disso, como inclui um conto, deu para matar saudades da ficção da autora.

QUERIDA IJEAWELE, CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE
Assim que terminei Todos Devemos Ser Feministas, comecei este livro, que é uma carta com um propósito muito específico e bonito: responder ao apelo de uma amiga que perguntou a Chimamanda como devia educar a filha para ser feminista. O resultado é sério, mas despretensioso. E é extremamente necessário, uma vez que impulsiona a liberdade. Li no Kobo, mas vou querer comprar um exemplar.

VIDADUPLA, SÉRGIO GODINHO
Há musicalidade na escrita e um hábil jogo de palavras/trocadilhos, no entanto, senti que o último fator tornou a leitura menos fluída. Por um lado, creio que deixar-nos no limbo era algo intencional, por isso é que nos cruzamos com imagens impercetíveis e existem passagens que nos fazem questionar a nossa competência interpretativa, já que a vida é feita de infinitas áreas cinzentas, mas, por outro, gostava de ter visto uma clareza maior nos enredos, de modo a que o vínculo com as emoções das personagens fosse mais forte. Ainda assim, é inegável a sensibilidade com que tocou nos assuntos (opinião completa aqui).

O PALÁCIO DE PAPEL, MIRANDA COWLEY HELLER
A premissa intrigou-me, mas não funcionou comigo. O livro toca em temas importantes, mas é tudo tão arrastado que acaba por não impactar. Sinto que até li rápido, mas dei por mim a revirar os olhos demasiadas vezes com a superficialidade de alguns comportamentos e decisões, já para não mencionar que senti alguns acontecimentos desnecessários, tendo em conta que a autora não os aprofundou. Honestamente, achei-o aborrecido e irritou-me a leviandade com que alguns assuntos foram tratados.

UMA BOA HISTÓRIA, EMILY HENRY
Posso fazer um spoiler e dizer que, para mim, não foi uma boa história? Estou a ser injusta, porque o livro lê-se bem e a autora consegue trazer uma certa leveza para o centro do furacão, mas o quebrar da fórmula que encontrei no Pessoas Que Conhecemos nas Férias e no Lugar Feliz perdeu-se aqui e isso desiludiu-me.

CAMINHANTES, EDGARDO SCOTT
Gostei da fluidez da escrita e do facto de nos permitir pensar sobre diferentes formas de caminharmos no mundo. Feliz ou infelizmente, é daquelas obras sobre as quais não posso desenvolver muito, para não correr o risco de detalhar o que não devo. Não obstante, achei interessante a teoria, os traços individuais de cada grupo e a ideia de que a caminhada é uma forma de nos instalarmos no mundo.

LAVORES DE ANA, ANA CLÁUDIA SANTOS
O entusiasmo foi esmorecendo à medida que fui avançando na leitura: por um lado, gostei que se perdesse em reflexões sobre ser mulher (e a dualidade de critérios em relação às escolhas de uma mulher solteira), a capacidade que os lugares têm de influenciar o nosso crescimento, maternidade, envelhecimento e os diferentes tipos de luto; mas, por outro, fiquei com a sensação de que o livro é demasiado curto para explorar tantos temas importantes. A escrita tem imenso potencial, mas sinto que se perdeu em detalhes que pouco acrescentaram à narrativa, retirando espaço ao que, de facto, nos poderia arrebatar e levar para um ponto de análise mais profundo (opinião completa aqui).

A RAPARIGA COM GELO NAS VEIAS, KARIN SMIRNOFF
O enredo pareceu-me um pouco confuso na forma como foi articulando os temas explorados, talvez por serem demasiados, tornando o ritmo de leitura oscilante. Ainda assim, gostei que trouxesse, uma vez mais, uma componente ecológica e ambientalista e que mostrasse que, se continuar a ser bem construída, Svala tem tudo para surpreender enquanto protagonista.

UMA VIDA INCRÍVEL E MARAVILHOSA, EMILY HENRY
Uma pouco à semelhança do anterior, fiquei um pouco desiludida com o livro, porque não me trouxe algo novo e, em conversa com a Sofia, até partilhei que me parecia uma versão 2.0 do Romance de Verão. O único aspeto positivo foi o grupo de amigos, que adorava que tivesse aparecido mais vezes.

ESTE É UM LIVRO SOBRE AMOR, PAULA GICOVATE
Este livro pertence ao universo de Notas Sobre a Impermanência, uma vez que se assemelham nas temáticas e no tom franco com que as protagonistas refletem sobre o amor. Quero muito ler a autora noutro registo, mas foi maravilhoso regressar à sua escrita e perder-me nos seus pensamentos sobre o certo e o errado, os desejos, aquilo que fingimos em jeito de sobrevivência emocional. Ademais, foi bonito ver como a narradora se entregou sem filtros e sem cobranças.

AS OITO MONTANHAS, PAOLO COGNETTI
As descrições da paisagem impressionam, assim como a plenitude da montanha que embalada a complexidade de cada emoção. No entanto, não senti a história muito equilibrada no ritmo — e gostava de ter sentido mais emotividade em determinados momentos-chave. Por outro lado, achei interessante a ideia de conhecermos duas versões da mesma pessoa e de termos a casa como símbolo de união.

A BELEZA DA ERVA POR CORTAR, TREVOR NOAH
Estava muito curiosa para ler Trevor Noah neste registo e foi uma excelente surpresa, atendendo a que se foca nos desacordos, nas diferenças, nos detalhes que nos inspiram e na certeza de precisarmos uns dos outros. Inspirado por um conflito — «a guerra interminável entre ele e a mãe» —, mostra-nos que o problema não é discordar, mas a forma como lidamos com a discórdia. Talvez não seja a história mais surpreendente, mas é amorosa e achei muito bonita a ideia de ser um livro para os filhos partilharem com os pais.

O REAL ARRASA TUDO, ISABEL DE SÁ
Não me senti propriamente arrebatada pelos seus versos, devo confessar, isto porque aprecio um pouco mais de emoção, de intensidade, de sentir que o poeta se funde com a inevitabilidade das suas palavras. Não obstante, creio que a força desta obra também passa por se distanciar desse cenário, até porque, como referiu Valter Hugo Mãe, «o mundo, afinal, segue à revelia da arte, por mais utopias que se possam nutrir». E, se calhar, a poeta apenas aceitou que há coisas que não podem ser alteradas e que vai mais longe se for «ao longe de si mesma», mas como se se visse de fora, dissociável (opinião completa aqui).

O ATO CRIATIVO, RICK RUBIN
Estava com outra expectativa para este livro, mas não foi correspondida. Até achei o início promissor, mas depois, para além de se tornar um pouco repetitivo, pareceu-me tudo demasiado superficial.

A BLOGOSFERA PORTUGUESA, SÉRGIO BARRETO COSTA
Este livro revelou-se uma espécie de viagem ao passado. Embora não acompanhasse os blogues mencionados, foi interessante descobrir o arco evolutivo, a explicação do êxito, a intencionalidade, a vaidade e, até, o declínio. Com um foco maior no plano político da blogosfera, algo que me surpreendeu, devo confessar, gostei bastante do tom cómico e sarcástico com que o autor construiu o seu texto e resgatou memórias. Não obstante, gostava de ter encontrado uma visão mais diversificada dentro do tema (opinião completa aqui).

DAR A VOLTA AOS MEDOS, ANA RITA AREIAS
Dar a Volta aos Medos tem uma estrutura fragmentada, como se Afonso fosse abrindo o álbum e se demorasse numa imagem. Embora goste dessa abordagem, gostava de ter encontrado uma narrativa mais coesa, que nos permitisse mergulhar ainda mais fundo nos momentos e no seu verdadeiro impacto, mas, se calhar, o mais importante não são os acontecimentos, são «as vozes que nos guiam» através deles. Preferências à parte, o livro não perde a carga emocional, nem a capacidade de nos centrar em temas cruciais (opinião completa aqui).

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, JOSÉ SARAMAGO
A premissa é fabulosa e sinto que a sua construção inicial impacta, até porque é impossível não nos tentarmos colocar no lugar das personagens e pensar na reação que teríamos se tivéssemos de passar pela mesma situação. Por isso é que há passagens tão angustiantes, porque são demasiado próximas, credíveis. O problema, para mim, é que o autor acabou por arrastar algumas divagações por demasiado tempo, tornando-se repetitivo. A crítica social é excelente, mas o tom moralista que paira na escrita não me arrebata, admito.

HÁ GENTE EM CASA, ONDJAKI
Um livro que não estava nos meus planos, mas que fechou 2025 com um apontamento poético. Embora não tenha amado a generalidade dos poemas, a escrita do autor vale sempre a pena, até porque, em prosa ou em verso, tem uma forma muito própria de nos transportar para determinadas memórias/situações.

Fotografia da minha autoria



Dezembro pareceu passar num sopro, mas não sem deixar marcas de constipações, viroses e derivados. Fico cansada só de pensar na reta final de 2025, com um pequeno susto à mistura, que me fez desejar que o novo ano chegasse ainda mais rápido — apesar de não acreditar que as coisas mudam só por soarem as dozes badaladas.

Excluindo esta nuvem, dezembro veio com concertos, a nossa recente tradição anual e o melhor bolo que provei nos últimos tempos.


as coisas maravilhosas de dezembro


 os fragmentos aleatórios

O Spotify Wrapped é uma dinâmica que me entusiasma e, apesar de estar a contar com a maior parte das estatísticas, não deixou de me surpreender. Fico mesmo orgulhosa por ter o Lhast e o Violetta a ocupar o primeiro lugar nas respetivas categorias — artista e álbum — e por ver que a música portuguesa continua a ser a maior banda sonora dos meus dias.

A Pat McGrath entrou na minha vida recentemente, primeiro como prenda de natal antecipada e, depois, por escolha pessoal. E, agora, já só quero comprar todos os lápis de lábios e batons que tiver disponíveis, porque são perfeitos. Para além de terem cores lindas, são tão cremosos e confortáveis que nem parece que estamos a usar. Ofereceram-me o MatteTrance Lipstick Deep Orchid e eu complementei o conjunto com o Legendary Longwear Lip Liner Lady Stardust e com o Dramatique Mega Lip Pencil Mauvemoiselle. Não são os artigos mais baratos, mas sei que lhes darei um ótimo uso.

O último concerto do ano foi antecedido por um lanche no Eatery 119. O espaço é lindíssimo e houve várias opções do menu que me chamaram à atenção. Uma delas foi o Kyiv Cake, que se revelou uma autêntica perdição, muito pelo equilíbrio entre todos os sabores e texturas. Com merengue, avelãs e um recheio cremoso e amanteigado, vou deixar passar as festas para o voltar a provar.

      

Outros fragmentos aleatórios: Comprar o South Side Boy, do Diogo Piçarra, em vinil, anunciarem BABELL, um novo festival literário no Porto, e recuperar o Alma Lusitana.


 as músicas e os álbuns

Uma playlist que foi ficando bem composta, apesar de ter sido um pouco ofuscada pelos trabalhos musicais que marcaram o meu ano e que revisitei com maior profundidade nesta época de balanços e favoritos. Se calhar também foi por isso que consegui chegar ao pódio mensal com maior facilidade.

As músicas que marcaram o mês: Praia de Tinto, Mallina | Assunto Meu, xtinto | Tem Lá Uma Tristeza, Bárbara Tinoco & Mari Froes | Sinto-te Tão, Rita Onofre.

Os álbuns e o EP que marcaram o mês: Cá Dentro, Mary Jane | Volume II, Avalanche | Foi Sempre Assim, Zizzy Jr.


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, trago duas séries

Nem a Gente Janta: O argumento é inspirado em detalhes reais, apesar de ser uma história fictícia. Inês Sá Frias queria homenagear o pai Fernando e o avô Filipe e essa foi a força matriz da sua escrita, evidenciando a vontade de nunca os esquecer, «seja através de fotografias e de conversas familiares (…), seja através de subtis memórias». Numa narrativa em que as saudades também são vitais, fascinou-me o equilíbrio entre o lado dramático e o lado cómico, a transição subtil que nos mantém investidos no enredo e o modo como cada peripécia une as pontas soltas sem que o todo nos pareça descabido. Além disso, tem a dose certa de vulnerabilidade e de leveza, mostrando-nos que o luto não é nada linear (opinião completa).

Três Tristes Tigres: A excitação da novidade é rapidamente condicionada pela culpa, do mesmo modo que a leveza da intimidade fica ofuscada pelo peso da mentira. É neste jogo de sombras, de avanços e recuos, que a história destas três mulheres se constrói, servindo de espelho para as «lutas diárias de muitos portugueses», que continuam a ter de ocultar a sua verdadeira identidade por medo de julgamentos e de opiniões não solicitadas sobre a forma como amam e vivem a sua vida. Em simultâneo, é uma narrativa que retrata a complexidade dos nossos sentimentos, bem como as complicações que deles advêm.

Não podia deixar de fazer referência à série O Grito, da qual estou a gostar imenso, mas, como ainda não acabou, prefiro falar-vos dela mais tarde.


 os livros

Dezembro não trouxe leituras memoráveis, como partilhei nas notas literárias, mas trouxe-me um autor cuja obra quero continuar a explorar em 2026.

O favorito do mês: O Avesso da Pele, Jeferson Tenório.

Outros livros lidos: O Real Arrasa Tudo, Isabel de Sá | A Beleza da Erva Por Cortar, Trevor Noah | Um Tempo a Fingir, João Pinto Coelho | A Blogosfera Portuguesa, Sérgio Barreto Costa | O Ato Criativo, Rick Rubin | Dar a Volta aos Medos, Ana Rita Areias | Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago | Há Gente em Casa, Ondjaki.


 os momentos

O último mês do ano foi relativamente comedido nos programas fora de casa, mas permitiu-me voltar ao Dragão, ver os Capitão Fausto e os Vizinhos nos Aliados e celebrar o Natal em família.

      

      

Conteúdo do Batáguas ao Vivo
Sinto que estou a fortalecer uma nova tradição com os meus amigos e parte da magia deste espetáculo, para mim, também passa por aí, já que posso partilhar a experiência com pessoas que acompanham — e vibram com — o Conteúdo do Batáguas como eu. E é sempre incrível quando temos estes pontos de contacto, que nos permitem observar a mesma premissa a partir de várias perspetivas: temos todos detalhes a destacar e não serem os mesmos só enriquece a forma como o texto/momento nos ficará na memória (aqui).

Dealema com a Banda Musical Leverense
Conhecer artistas pela visão de quem nos é próximo — ou por quem nutrimos alguma consideração — tem sempre um vínculo especial, até porque acabamos por construir novos significados. Os Dealema eram um mundo que não me pertencia, compreendi-os, primeiro, por aquilo que faziam sentir os outros, até que passei a falar no mesmo dialeto que eles, a identificar-me, a compreender os lugares espelhados em cada verso. E, assim, bordei-os na minha história, visto que passaram a fazer parte de quem sou (aqui).

   


Janeiro, sê gentil ✨

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As leituras de dezembro não foram particularmente memoráveis, mas trouxeram-me autores que nunca tinha lido e um deles, pelo menos, quero levar para 2026, explorando mais da sua obra — Jeferson Tenório, sendo específica. Além disso, sinto que fiz as pazes com João Pinto Coelho e consegui incluir dois novos livros de poesia, género onde pretendo ser cada vez mais regular.


 a tbr de dezembro: expectativa
  • Um Tempo a Fingir, João Pinto Coelho;
  • A Blogosfera Portuguesa, Sérgio Barreto Costa;
  • Dar a Volta aos Medos, Ana Rita Areias;
  • Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago;
  • O Real Arrasa Tudo, Isabel de Sá.

 a tbr de dezembro: realidade

Para além da TBR definida, ainda li

  • A Beleza da Erva Por Cortar, Trevor Noah;
  • O Avesso da Pele, Jeferson Tenório;
  • O Ato Criativo, Rick Rubin;
  • Há Gente em Casa, Ondjaki.


 algumas curiosidades

Em dezembro, li
  • 9 livros: 2 de poesia, 1 novela gráfica, 3 romances, 2 não ficção e 1 de contos;
  • 2 autoras e 7 autores: 5 portugueses, 1 sul-africano, 1 brasileiro, 1 americano e 1 angolano;
  • 4 autores pela primeira vez: Isabel de Sá, Jeferson Tenório, Sérgio Barreto Costa e Rick Rubin.

Favorito do mês
  • O Avesso da Pele, Jeferson Tenório


 vamos a contas?

Dezembro foi um mês de planeamento a médio prazo, por isso, optei por ir comprando alguns livros para os desafios literários em que participarei, bem como títulos que já queria adquirir há algum tempo, de modo a ter um janeiro sem gastos neste departamento. Assim,

  • Comprei 10 livros físicos (Outonecer, Recomeçar, As Margens e a Escrita, O Amor nos Tempos de Cólera, A Malcriada, O Desfufador, Maravíkia, Exposição: Poemas e Prosímetros, Danificada e Inventário de Sonhos), gastando 129,99€;
  • Ativei a subscrição do Kobo Plus, que me custou 7,99€. Li 6 eBooks, o que me permitiu poupar 85,47€;
  • Comecei dezembro com 32€ na Apparte. Como li 9 livros, amealhei 9€, transitando para janeiro com 41€.


 a tbr de janeiro
  • Na Terra dos Outros, Manuel Abrantes (alma lusitana);
  • Recomeçar, Marina Dueñas (3 autoras para 2026);
  • As Margens e a Escrita, Elena Ferrante (marginália);
  • Tira o Disco e Toca ao Vivo, João Gobern (ler ffms);
  • Paradaise, Fernanda Melchor;
  • Uma Falha nos Dentes, João Gesta;
  • Fósforo e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, Filipa Leal (releitura | 12 meses, 12 livros de poesia).

Fotografias da minha autoria


A passagem de ano não trouxe promessas, mas desejei com tudo o que carrego por dentro que fosse um ano um pouco mais leve. Em certa medida, conseguiu transmitir-me essa energia, no entanto, também se revelou emocionalmente desafiante, porque há sempre pequenas pedras na engrenagem que nos obrigam a pôr tudo em perspetiva. Afinal, crescer também é isto e, por mais lugar comum que seja, nenhuma rota se faz sem quedas, desilusões e contratempos — independentemente do tamanho.

Este ano, não desci a rua Mouzinho da Silveira para a minha tradição anual de escrever os favoritos do ano na Miss Pavlova, tendo em conta que a loja da Ribeira fechou. Portanto, peguei no meu caderno e fui para o Starbucks pensar nesta retrospetiva e perder-me na sensação de que 2025 foi um pouco estranho, já que foi o ano dos quase: quase mantive o podcast, quase cumpri o compromisso de sair todos os meses para escrever sozinha, quase voltei a tentar contactar editoras, quase fechei o blogue sem aviso, quase ganhei coragem para concorrer a uma bolsa de criação literária, quase que deixei de parte a síndrome do impostor para incluir um buy me a coffee na newsletter, quase me arrependi de ainda não ter tirado a carta, quase que consegui ver Plutonio ao vivo pela primeira vez, quase que assumi o compromisso de ir ao cinema... 2025 foi o ano em que estive mais atenta a estes detalhes e quase que permiti que tivessem um impacto ainda maior.

Janeiro chegou de agenda pouco cheia, fevereiro trouxe reencontros, março trouxe paz e muito caos, abril trouxe celebrações, amor e conquistas de amigos; maio revestiu-se de algum desalento, mas ficou marcado por uma das celebrações mais bonitas, junho escreveu-se de melancolia e em tons de Violetta, julho foi cansaço por excelência e agosto teve peso no peito; setembro foi de transição, de Feira do Livro e de viver muito um dos meus locais favoritos na cidade, outubro não foi o outono que esperava, mas foi generoso, novembro não prometeu nada e cumpriu tudo e dezembro, apesar de sustos e constipações, fez-se de luz.

Às vezes é difícil reconhecer o que de bom aconteceu quando memórias mais tristes assumem um lugar de destaque. É por isso que gosto tanto de parar e de voltar a abrir o caderno das coisas maravilhosas, porque isso obriga-me, da melhor maneira possível, a recentrar. Mesmo que me repita, sei que revesti o coração muito graças ao Educação da Tristeza e à Foguetes, visto que me trouxeram narrativas que me ajudaram a olhar para o lado certo da estrada.

O Lhast, na VI, canta «eu não tinha muito, mas eu tinha fé; eu não tinha tudo, mas eu tinha pé» e reencontrar-me com o tema fez-me perceber que é este o mote que pretendo continuar a implementar na minha vida, porque, enquanto tiver pé, enquanto souber o que é mais importante, serei capaz de continuar. E a verdade é que 2025 teve várias razões para sentir o coração preenchido, quer a nível pessoal, quer a nível cultural.


 os momentos pessoais

Abril abriu a porta dos 33, casei a minha melhor amiga e o meu cunhado (numa cerimónia em que também batizamos a Lúcia), perdi um pouco a vergonha e aceitei o desafio de ir a Avintes falar sobre um dos livros da minha vida, vivemos o S. João com novas tradições, regressamos a lugares que são casa e acabamos por os ressignificar (ainda que nunca venham a perder a associação a pessoas que já partiram), celebrei os 18 anos do meu afilhado e regressei duas vezes ao Dragão.

      

      

      

      


 os momentos culturais

O ano do qual me despeço teve algumas exigências emocionais, contudo, foi muito generoso na esfera cultural. Entre concertos, espetáculos de comédia, apresentações de livros, conversas, teatro e várias sessões e concertos na feira do livro, não faltaram programas únicos.

Assisti a um Concerto Solidário na Casa da Música, ao espetáculo Aura Super Jovem (Salvador Martinha), à conversa entre a Maria Isaac, a Susana Amaro Velho e a Íris Bravo, à sessão do Hugo Gonçalves no LEV, à FNAC Talk com a Capicua, à apresentação do livro da Lénia Rufino, ao concerto da Carolina de Deus, às sessões de apresentação do livro da Rita da Nova, ao concerto do Richie Campbell no Senhor de Matosinhos, aos concertos do David Fonseca e dos GNR, ao concerto do Dillaz, aos concertos da Carolina Deslandes e da Bárbara Bandeira na Noite Branca de Gondomar, ao concerto da Marisa Liz no Noites dos Jardins do Palácio, à FNAC Talks com Manel Cruz, ao Terapia de Casal no Teatro Sá da Bandeira, aos concerto d' A Garota Não, dos Capitão Fausto e dos Vizinhos.

Dentro de uma lista tão recheada, há, no entanto, eventos que se destacaram ainda mais.

VAN ZEE NO COLISEU DO PORTO
Tem sido um privilégio vê-lo a navegar e a alcançar o seu lugar no panorama musical português, uma vez que não só lhe reconheço talento, como também sinto que chegou com os valores certos, sem egos e com uma enorme vontade de estar pela música. Por esse motivo, depois de assistir ao seu concerto na Queima das Fitas do Porto, estava desejosa de o ver numa grande sala, com outro tipo de condições, em nome próprio, o que aconteceu no passado dia 15 de fevereiro, num Coliseu do Porto bem composto (experiência completa).

BISPO NO COLISEU DO PORTO
Uma vez que não era um dos meus artistas-casa, confesso que marcar presença num dos seus concertos não era uma prioridade, mas até essa intenção foi mudando. E, no natal de 2024, fui surpreendida pela minha comadre, que me ofereceu um bilhete para o concerto no Coliseu do Porto. Tenho adorado a experiência de ir sozinha a eventos deste género e, por isso, estava confortável com o facto de ser outro momento assim, mas teve graça quando, ao conversar sobre a surpresa, percebi que era intenção da Sofia perguntar se queria ir. E fomos juntas ouvir os nossos temas favoritos ao vivo (experiência completa).

CAPICUA NA CASA DA MÚSICA
A Sala Suggia esgotou para receber a rapper portuense e foi extraordinário assistir a este momento, a este feito, não só por ver uma das minhas artistas favoritas ao vivo, mas também por ver a forma como desconstruiu por completo a energia do lugar. A sala é linda e associo-a sempre a espetáculos mais estáticos, se é que é justo dizê-lo desta forma, talvez pela necessidade de permanecer sentada. A Capicua não ficou deslocada naquele palco, mas, como lhe confidenciamos no final, foi bom ver a sua arte a chegar a uma sala que parece estar mais adaptada a outros estilos musicais (experiência completa).

PEDRO SAMPAIO NA SUPER BOCK ARENA
O caminho até os Jardins do Palácio de Cristal, quando fomos ver Sombra, espetáculo da Bumba na Fofinha, em outubro de 2024, foi pautado por muita conversa e por um desfecho para o qual não estava preparada: a possibilidade de regressarmos àquela sala para o concerto do Pedro Sampaio (experiência completa).

HOTEL AO VIVO
A podsérie saiu do estúdio para o palco, após 6 temporadas e 81 episódios, para uma despedida especial. E isso, por si só, já seria entusiasmante para mim, porque adoro perceber como é que funcionam os projetos que acompanho de perto, mas acresceu o facto de conhecermos a origem de cada personagem e de termos a possibilidade de ver um episódio integral a ser gravado à nossa frente, com toda a adrenalina e eventuais falhas que essa dinâmica possa significar. O LFB já tem muitos anos de experiência a lidar com o público, porém, não deixa de ser uma aventura com outras exigências (experiência completa).

LANÇAMENTO DE OUTONECER, JÚLIO MACHADO VAZ
Outonecer é uma palavra com uma sonoridade que embala, que abraça, sem esconder a entoação melancólica. E só a sua cadência foi suficiente para despertar a curiosidade, portanto, antes de mergulhar nas memórias que nos reserva, fui ao Teatro Rivoli para assistir ao lançamento do livro, com apresentação de João Luís Barreto Guimarães. Há oportunidades imperdíveis e esta era uma delas, até porque acredito mesmo que as partilhas de Júlio Machado Vaz nos engrandecem. E talvez seja impossível voltarmos ao nosso quotidiano sem nos sentirmos impactados, sem sentirmos que algo mudou: não necessariamente a grande escala, como se regressássemos virados do avesso, mas com a certeza de que nos alargou horizontes e mostrou a vida de outros patamares. Se for para outonecer assim, é um privilégio. Ficaria horas a ouvir Júlio Machado Vaz.

DIOGO PIÇARRA: NOITES DOS JARDINS DO PALÁCIO
O festival Noites dos Jardins do Palácio trouxe um dos meus artistas do coração a um dos meus lugares favoritos da cidade. E isso só podia ser sinal de uma noite mágica. O Diogo que descobri — e por quem vibrei — no Ídolos continua presente, sobretudo na maneira como se entrega à sua arte, como encara o compromisso com o público, no entanto, cresceu, até porque nunca parou de procurar novas rotas. E fá-lo com verdade. Foi, de facto, uma noite mágica, como são todas aquelas em que tenho o privilégio de o ver a atuar, uma vez que a viagem que fazemos através das suas músicas desarma e é sempre única e eletrizante. Com temas mais ou menos dançáveis, ninguém fica muito tempo parado. Ademais, é sempre comovente escutarmos as nossas canções favoritas ao vivo, porque parece que crescem em nós, parece que temos acesso a uma camada paralela, que só conseguimos descobrir ali, com o artista em palco a viver o momento.

VOLTO JÁ, ANTÓNIO RAMINHOS
Volto Já promete «ressignificar o luto e celebrar a vida» e eu creio que cumpriu ambos com naturalidade e relevância, até porque, sem diminuir dores, ajuda-nos a relativizar. E, por vezes, só precisamos de alguém que nos faça sair da nossa cabeça e praticar o denominado «é o que é». Há muitas coisas que não controlamos e nem sempre é fácil aceitar isso, mas havemos de lá chegar e, quem sabe, rir disso. Com um tom intimista e um texto que, creio, conseguirá perdurar no tempo, espero que o Raminhos volte já (experiência completa).

30 ANOS DE SILENCE 4
Quando anunciaram um reencontro para celebrar os 30 anos da sua formação, admito, hesitei um pouco antes de comprar o bilhete, porque questionei-me se fazia sentido estar presente, tendo em conta que não vivi de perto o crescimento da banda. Só que, depois, questionei-me se estaria disposta a perder a oportunidade de cantar ao vivo a Borrow ou a To Give, por exemplo, e se estaria disposta a desperdiçar um momento que talvez não se voltasse a repetir. A resposta negativa às duas foi bastante esclarecedora (experiência completa).

À PRIMEIRA VISTA
O silêncio foi tudo o que me abraçou na noite de sexta-feira, quando saí do Teatro Sá da Bandeira, porque ver o monólogo interpretado por Margarida Vila-Nova foi ainda mais duro e impactante do que aquilo que idealizei. E, por isso, continuo a processar. À Primeira Vista é um valente e necessário murro no estômago, porque precisamos de mudar o paradigma, porque precisamos de rever a maneira como a lei se posiciona. Os meus pensamentos permanecem dispersos, visto que este texto com tom de denúncia aborda demasiadas camadas revoltantes.

CONTEÚDO DO BATÁGUAS AO VIVO
Foram mais de duas horas de espetáculo, sem pausas, com tudo pensado ao pormenor. Houve muita insanidade, realização de sonhos, trocadilhos de várias escalas, registos comprometedores, aparições e imagens que, uma vez vistas, não se podem esquecer. Só não houve uma visita ao Tutti-Frutti, «que é um bar todo espelhado em Arganil», talvez na próxima tour, mas tiveram muito lampo e uma fonte inesgotável de pimpo (experiência completa).

DEALEMA COM A BANDA MUSICAL LEVERENSE
Conhecer artistas pela visão de quem nos é próximo — ou por quem nutrimos alguma consideração — tem sempre um vínculo especial, até porque acabamos por construir novos significados. Os Dealema eram um mundo que não me pertencia, compreendi-os, primeiro, por aquilo que faziam sentir os outros, até que passei a falar no mesmo dialeto que eles, a identificar-me, a compreender os lugares espelhados em cada verso. E, assim, bordei-os na minha história, visto que passaram a fazer parte de quem sou (experiência completa).

      

      

      

      


2026, sê gentil ✨

Fotografias da minha autoria


O livro abre-se e o som do mundo vai diminuindo. Esta imagem traz-me um certo nível de conforto, porque, por mais que os meses sejam cinzentos, parece que há sempre uma história para nos amparar, para apaziguar as nossas dores ou, então, para nos abrir os olhos e fazer perceber que, se calhar, podemos respirar porque temos mais motivos para sorrir.

Este ano não foi particularmente difícil, mas teve momentos desafiantes, com pequenos sustos pelo meio, e sei que a quantidade de obras lidas também reflete a necessidade de desligar e de encontrar um refúgio — sem esquecer, ainda assim, que parte da magia de ler é descobrir as histórias por aquilo que elas são e não apenas reduzi-las a uma espécie de penso emocional, pronto a curar feridas, a colar estilhaços.

Sinto que vou ficando mais exigente com as leituras que faço e, talvez por isso, 2025 não trouxe muitos livros arrebatadores. Foi uma travessia literária bonita na mesma, que me permitiu descobrir autores novos e enredos que não esquecerei, no entanto, tive menos dores de cabeça para chegar à lista final de favoritos do ano.

Este ano, não houve Alma Lusitana, mas abracei o desafio 5 autores para 2025 com a minha amiga Sofia. Descobri algumas propostas do Livra-te, priorizei os títulos que já tinha cá em casa, fui explorando o catálogo do Kobo Plus e da BiblioLED e iniciei um desafio que quero levar para 2026 (e que se prolongará para além dele). Portanto, creio que passei a maior parte do tempo mergulhada em histórias.


 antes dos favoritos, algumas curiosidades literárias

No início do ano, criei duas páginas no Notion para ir registando estatísticas das minhas leituras, para além da componente numérica, porque são estes dados que me entusiasmam. Além disso, voltei a recorrei ao The Storygraph e ao Goodreads.

  • Os moods de leitura com maior destaque: emocional, reflexivo e triste;
  • Autores mais lidos: Elena Ferrante (5), Emily Henry (5) e Afonso Cruz (4);
  • Fiz uma releitura: A Amiga Genial, Elena Ferrante;
  • Cruzei-me com personagens memoráveis: Miranda Pritchard e Sarah Gross (Perguntem a Sarah Gross), Lia (Notas Sobre a Impermanência), Eduardo (Apesar do Sangue), Alice e Maria Elvira (A Árvore Mais Sozinha do Mundo), Freda Stefan (Lobos), Zee (Mártir!), Janina (Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos) e Peppino (Um Tempo a Fingir); mas também o grupo de amigos que encontrei em 10 Minutos e 38 Segundos Neste Mundo Estranho e as personagens d' Os Transparentes;
  • Li: 46 autores novos; 61 autoras e 33 autores; 54 portugueses e 40 estrangeiros.


  agora, sim, as estrelas da companhia (e com duas menções honrosas)

Permitam-me, antes de avançar, fazer uma pequena ressalva: a lista que se segue é uma combinação entre ordem de leitura e lembrança, não corresponde a um pódio propriamente dito.

PERGUNTEM A SARAH GROSS, JOÃO PINTO COELHO
Creio que me cruzei com protagonistas que dificilmente esquecerei, porque, acima de tudo, o livro é sobre elas, sobre as suas histórias, sobre as suas dores, sobre a forma como resistiram às mais diversas circunstâncias. E sem que seja possível esquecer, também, este período histórico, fica evidente que não estamos perante mais um retrato dentro do tema: o autor trouxe uma perspetiva que parece estar em falta (opinião completa).



O CADERNO PROIBIDO, ALBA DE CÉSPEDES
Este livro foi publicado, originalmente, em 1952 e é impressionante perceber que mudou tão pouco em relação à condição da mulher, ao seu papel na sociedade. Por isso, permanece atual e agita-nos por dentro, mostrando-nos a importância de haver um nome, de usarmos os recursos à nossa disposição para não perdermos a nossa voz. Valeria parecia restrita à invisibilidade, ao papel de mãe e de esposa, mas encontrou uma maneira de não ficar pressa a essas amarras (opinião completa).



FILHO DO PAI, HUGO GONÇALVES
Há, portanto, uma análise quase sociológica, mas sem perder a emotividade, o traço familiar, o impacto da perda, as nossas idiossincrasias, as nossas incoerências, fruto de um crescimento que é sempre mais emocional do que racional. E enquanto nos implica numa conversa sobre parentalidade, faz-nos observar toda a estrutura familiar, faz-nos pensar sobre as feridas que continuam abertas, ainda que nos incomodem com menos ardor, faz-nos voltar às coisas que nos dizem e que ecoam uma vida inteira, moldando o nosso caráter, as nossas certezas, as nossas carências, tudo o que somos (opinião completa).



EDUCAÇÃO DA TRISTEZA, VALTER HUGO MÃE
Educação da Tristeza é um objeto visualmente lindíssimo, cheio de cor, de vida e de memórias que nos amparam e que trazem esperança. Com ilustrações de Valter Hugo Mãe, parte da ausência para nos fazer refletir sobre o quanto a nossa vida é cheia por termos tido aquelas pessoas por perto. Também é por isso que a sua perda nos magoa mais, mas continuo a acreditar que as saudades partem de um lugar benigno, de um amor que é incondicional. O quotidiano fica fragmentado, mas nunca esqueceremos (opinião completa).



VERÃO NO LAGO, ANN PATCHETT
Ann Patchett, com a sua escrita melódica, equilibrou muito bem a travessia entre o presente e o passado, recuperando mágoas e apaziguando feridas, mostrando que há sempre várias camadas dentro da mesma história e que as pessoas nem sempre correspondem à imagem que criamos delas, mas sem a necessidade de construir vilões. Acho que não tenho palavras que descrevam com justiça a sensação que tive durante a leitura, mas achei a narrativa mais madura, de quem nos conta os factos em paz (opinião completa).



OS ESQUECIDOS DE DOMINGO, VALÉRIE PERRIN
Fiquei fascinada com Justine desde o começo, porque acho que tem uma voz muito credível e descomplicada, com a qual me identifiquei. Achei-a empática, mas também sarcástica nos momentos certos. É muito lúcida, mas também se deixa deslumbrar. Acima de tudo, pareceu-me que tem um forte sentido de cuidado, mas sem se anular: antes pelo contrário, sabe as circunstâncias em que é necessário aparecer e aquelas em que mais vale ficar recolhida. Creio que a construção desta personagem fez toda a diferença na maneira como me relacionei com a história (opinião completa).



10 MINUTOS E 38 SEGUNDOS NESTE MUNDO ESTRANHO, ELIF SHAFAK
10 Minutos e 38 Segundos Neste Mundo Estranho não romantiza a magoa, não esconde a dor de um país a regredir, nem as consequências de vários tipos de abusos. Com uma escrita comovente, é, também, uma carta de amor e, acima de tudo, é a prova de que é possível transformar a dor e prosperar (opinião completa).



APESAR DO SANGUE, RITA DA NOVA
A minha mente divagou muito durante a leitura, porque sinto que é um livro capaz de desencadear vários debates: sobre maternidade, sobre a necessidade de preenchermos vazios, sobre fissuras, sobre diferentes tipos de dor, sobre como aquilo que não vemos condiciona a nossa perceção das situações, sobre dinâmicas familiares e sobre amor. Existe muita tristeza nesta história, no entanto, o amor é força motriz em muitos dos seus momentos, aliás, só isso justifica a forma como se foram curando algumas feridas (opinião completa).



LOBOS, TÂNIA GANHO
É curioso constatar que este livro é mais sobre os silêncios e a forma como as pessoas lidam com os seus traumas, com os seus demónios, e não tanto sobre a situação em si, porque aquele momento termina, mas a vergonha, o medo, o desgaste, o desamparo, a sensação de perdermos a nossa identidade e, inclusive, o gosto por viver persistem e fazem com que as feridas continuem expostas, a magoar. E este livro dói, embora não queiramos parar de o descobrir, porque talvez a esperança encontre o seu espaço (opinião completa).



MÁRTIR!, KAVEH AKBAR
Há um tom triste a pairar nestas páginas, mas a narrativa é frenética, porque, de repente, parece estar em todo o lado. Enquanto lida com o luto, vai refletindo sobre religião, emigração, ancestralidade e guerra; equaciona o significado da vida e procura reinventar-se, nunca escondendo o desejo de ter uma morte grandiosa. E nós, leitores, acompanhamos cada um dos seus pensamentos sem um segundo de descanso (opinião completa).



Menções honrosas: Caruncho, Layla Martinez | Enquanto o Fim Não Vem, Mafalda Santos.
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andreia morais

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