Entre Margens

Fotografias da minha autoria


A passagem de ano não trouxe promessas, mas desejei com tudo o que carrego por dentro que fosse um ano um pouco mais leve. Em certa medida, conseguiu transmitir-me essa energia, no entanto, também se revelou emocionalmente desafiante, porque há sempre pequenas pedras na engrenagem que nos obrigam a pôr tudo em perspetiva. Afinal, crescer também é isto e, por mais lugar comum que seja, nenhuma rota se faz sem quedas, desilusões e contratempos — independentemente do tamanho.

Este ano, não desci a rua Mouzinho da Silveira para a minha tradição anual de escrever os favoritos do ano na Miss Pavlova, tendo em conta que a loja da Ribeira fechou. Portanto, peguei no meu caderno e fui para o Starbucks pensar nesta retrospetiva e perder-me na sensação de que 2025 foi um pouco estranho, já que foi o ano dos quase: quase mantive o podcast, quase cumpri o compromisso de sair todos os meses para escrever sozinha, quase voltei a tentar contactar editoras, quase fechei o blogue sem aviso, quase ganhei coragem para concorrer a uma bolsa de criação literária, quase que deixei de parte a síndrome do impostor para incluir um buy me a coffee na newsletter, quase me arrependi de ainda não ter tirado a carta, quase que consegui ver Plutonio ao vivo pela primeira vez, quase que assumi o compromisso de ir ao cinema... 2025 foi o ano em que estive mais atenta a estes detalhes e quase que permiti que tivessem um impacto ainda maior.

Janeiro chegou de agenda pouco cheia, fevereiro trouxe reencontros, março trouxe paz e muito caos, abril trouxe celebrações, amor e conquistas de amigos; maio revestiu-se de algum desalento, mas ficou marcado por uma das celebrações mais bonitas, junho escreveu-se de melancolia e em tons de Violetta, julho foi cansaço por excelência e agosto teve peso no peito; setembro foi de transição, de Feira do Livro e de viver muito um dos meus locais favoritos na cidade, outubro não foi o outono que esperava, mas foi generoso, novembro não prometeu nada e cumpriu tudo e dezembro, apesar de sustos e constipações, fez-se de luz.

Às vezes é difícil reconhecer o que de bom aconteceu quando memórias mais tristes assumem um lugar de destaque. É por isso que gosto tanto de parar e de voltar a abrir o caderno das coisas maravilhosas, porque isso obriga-me, da melhor maneira possível, a recentrar. Mesmo que me repita, sei que revesti o coração muito graças ao Educação da Tristeza e à Foguetes, visto que me trouxeram narrativas que me ajudaram a olhar para o lado certo da estrada.

O Lhast, na VI, canta «eu não tinha muito, mas eu tinha fé; eu não tinha tudo, mas eu tinha pé» e reencontrar-me com o tema fez-me perceber que é este o mote que pretendo continuar a implementar na minha vida, porque, enquanto tiver pé, enquanto souber o que é mais importante, serei capaz de continuar. E a verdade é que 2025 teve várias razões para sentir o coração preenchido, quer a nível pessoal, quer a nível cultural.


 os momentos pessoais

Abril abriu a porta dos 33, casei a minha melhor amiga e o meu cunhado (numa cerimónia em que também batizamos a Lúcia), perdi um pouco a vergonha e aceitei o desafio de ir a Avintes falar sobre um dos livros da minha vida, vivemos o S. João com novas tradições, regressamos a lugares que são casa e acabamos por os ressignificar (ainda que nunca venham a perder a associação a pessoas que já partiram), celebrei os 18 anos do meu afilhado e regressei duas vezes ao Dragão.

      

      

      

      


 os momentos culturais

O ano do qual me despeço teve algumas exigências emocionais, contudo, foi muito generoso na esfera cultural. Entre concertos, espetáculos de comédia, apresentações de livros, conversas, teatro e várias sessões e concertos na feira do livro, não faltaram programas únicos.

Assisti a um Concerto Solidário na Casa da Música, ao espetáculo Aura Super Jovem (Salvador Martinha), à conversa entre a Maria Isaac, a Susana Amaro Velho e a Íris Bravo, à sessão do Hugo Gonçalves no LEV, à FNAC Talk com a Capicua, à apresentação do livro da Lénia Rufino, ao concerto da Carolina de Deus, às sessões de apresentação do livro da Rita da Nova, ao concerto do Richie Campbell no Senhor de Matosinhos, aos concertos do David Fonseca e dos GNR, ao concerto do Dillaz, aos concertos da Carolina Deslandes e da Bárbara Bandeira na Noite Branca de Gondomar, ao concerto da Marisa Liz no Noites dos Jardins do Palácio, à FNAC Talks com Manel Cruz, ao Terapia de Casal no Teatro Sá da Bandeira, aos concerto d' A Garota Não, dos Capitão Fausto e dos Vizinhos.

Dentro de uma lista tão recheada, há, no entanto, eventos que se destacaram ainda mais.

VAN ZEE NO COLISEU DO PORTO
Tem sido um privilégio vê-lo a navegar e a alcançar o seu lugar no panorama musical português, uma vez que não só lhe reconheço talento, como também sinto que chegou com os valores certos, sem egos e com uma enorme vontade de estar pela música. Por esse motivo, depois de assistir ao seu concerto na Queima das Fitas do Porto, estava desejosa de o ver numa grande sala, com outro tipo de condições, em nome próprio, o que aconteceu no passado dia 15 de fevereiro, num Coliseu do Porto bem composto (experiência completa).

BISPO NO COLISEU DO PORTO
Uma vez que não era um dos meus artistas-casa, confesso que marcar presença num dos seus concertos não era uma prioridade, mas até essa intenção foi mudando. E, no natal de 2024, fui surpreendida pela minha comadre, que me ofereceu um bilhete para o concerto no Coliseu do Porto. Tenho adorado a experiência de ir sozinha a eventos deste género e, por isso, estava confortável com o facto de ser outro momento assim, mas teve graça quando, ao conversar sobre a surpresa, percebi que era intenção da Sofia perguntar se queria ir. E fomos juntas ouvir os nossos temas favoritos ao vivo (experiência completa).

CAPICUA NA CASA DA MÚSICA
A Sala Suggia esgotou para receber a rapper portuense e foi extraordinário assistir a este momento, a este feito, não só por ver uma das minhas artistas favoritas ao vivo, mas também por ver a forma como desconstruiu por completo a energia do lugar. A sala é linda e associo-a sempre a espetáculos mais estáticos, se é que é justo dizê-lo desta forma, talvez pela necessidade de permanecer sentada. A Capicua não ficou deslocada naquele palco, mas, como lhe confidenciamos no final, foi bom ver a sua arte a chegar a uma sala que parece estar mais adaptada a outros estilos musicais (experiência completa).

PEDRO SAMPAIO NA SUPER BOCK ARENA
O caminho até os Jardins do Palácio de Cristal, quando fomos ver Sombra, espetáculo da Bumba na Fofinha, em outubro de 2024, foi pautado por muita conversa e por um desfecho para o qual não estava preparada: a possibilidade de regressarmos àquela sala para o concerto do Pedro Sampaio (experiência completa).

HOTEL AO VIVO
A podsérie saiu do estúdio para o palco, após 6 temporadas e 81 episódios, para uma despedida especial. E isso, por si só, já seria entusiasmante para mim, porque adoro perceber como é que funcionam os projetos que acompanho de perto, mas acresceu o facto de conhecermos a origem de cada personagem e de termos a possibilidade de ver um episódio integral a ser gravado à nossa frente, com toda a adrenalina e eventuais falhas que essa dinâmica possa significar. O LFB já tem muitos anos de experiência a lidar com o público, porém, não deixa de ser uma aventura com outras exigências (experiência completa).

LANÇAMENTO DE OUTONECER, JÚLIO MACHADO VAZ
Outonecer é uma palavra com uma sonoridade que embala, que abraça, sem esconder a entoação melancólica. E só a sua cadência foi suficiente para despertar a curiosidade, portanto, antes de mergulhar nas memórias que nos reserva, fui ao Teatro Rivoli para assistir ao lançamento do livro, com apresentação de João Luís Barreto Guimarães. Há oportunidades imperdíveis e esta era uma delas, até porque acredito mesmo que as partilhas de Júlio Machado Vaz nos engrandecem. E talvez seja impossível voltarmos ao nosso quotidiano sem nos sentirmos impactados, sem sentirmos que algo mudou: não necessariamente a grande escala, como se regressássemos virados do avesso, mas com a certeza de que nos alargou horizontes e mostrou a vida de outros patamares. Se for para outonecer assim, é um privilégio. Ficaria horas a ouvir Júlio Machado Vaz.

DIOGO PIÇARRA: NOITES DOS JARDINS DO PALÁCIO
O festival Noites dos Jardins do Palácio trouxe um dos meus artistas do coração a um dos meus lugares favoritos da cidade. E isso só podia ser sinal de uma noite mágica. O Diogo que descobri — e por quem vibrei — no Ídolos continua presente, sobretudo na maneira como se entrega à sua arte, como encara o compromisso com o público, no entanto, cresceu, até porque nunca parou de procurar novas rotas. E fá-lo com verdade. Foi, de facto, uma noite mágica, como são todas aquelas em que tenho o privilégio de o ver a atuar, uma vez que a viagem que fazemos através das suas músicas desarma e é sempre única e eletrizante. Com temas mais ou menos dançáveis, ninguém fica muito tempo parado. Ademais, é sempre comovente escutarmos as nossas canções favoritas ao vivo, porque parece que crescem em nós, parece que temos acesso a uma camada paralela, que só conseguimos descobrir ali, com o artista em palco a viver o momento.

VOLTO JÁ, ANTÓNIO RAMINHOS
Volto Já promete «ressignificar o luto e celebrar a vida» e eu creio que cumpriu ambos com naturalidade e relevância, até porque, sem diminuir dores, ajuda-nos a relativizar. E, por vezes, só precisamos de alguém que nos faça sair da nossa cabeça e praticar o denominado «é o que é». Há muitas coisas que não controlamos e nem sempre é fácil aceitar isso, mas havemos de lá chegar e, quem sabe, rir disso. Com um tom intimista e um texto que, creio, conseguirá perdurar no tempo, espero que o Raminhos volte já (experiência completa).

30 ANOS DE SILENCE 4
Quando anunciaram um reencontro para celebrar os 30 anos da sua formação, admito, hesitei um pouco antes de comprar o bilhete, porque questionei-me se fazia sentido estar presente, tendo em conta que não vivi de perto o crescimento da banda. Só que, depois, questionei-me se estaria disposta a perder a oportunidade de cantar ao vivo a Borrow ou a To Give, por exemplo, e se estaria disposta a desperdiçar um momento que talvez não se voltasse a repetir. A resposta negativa às duas foi bastante esclarecedora (experiência completa).

À PRIMEIRA VISTA
O silêncio foi tudo o que me abraçou na noite de sexta-feira, quando saí do Teatro Sá da Bandeira, porque ver o monólogo interpretado por Margarida Vila-Nova foi ainda mais duro e impactante do que aquilo que idealizei. E, por isso, continuo a processar. À Primeira Vista é um valente e necessário murro no estômago, porque precisamos de mudar o paradigma, porque precisamos de rever a maneira como a lei se posiciona. Os meus pensamentos permanecem dispersos, visto que este texto com tom de denúncia aborda demasiadas camadas revoltantes.

CONTEÚDO DO BATÁGUAS AO VIVO
Foram mais de duas horas de espetáculo, sem pausas, com tudo pensado ao pormenor. Houve muita insanidade, realização de sonhos, trocadilhos de várias escalas, registos comprometedores, aparições e imagens que, uma vez vistas, não se podem esquecer. Só não houve uma visita ao Tutti-Frutti, «que é um bar todo espelhado em Arganil», talvez na próxima tour, mas tiveram muito lampo e uma fonte inesgotável de pimpo (experiência completa).

DEALEMA COM A BANDA MUSICAL LEVERENSE
Conhecer artistas pela visão de quem nos é próximo — ou por quem nutrimos alguma consideração — tem sempre um vínculo especial, até porque acabamos por construir novos significados. Os Dealema eram um mundo que não me pertencia, compreendi-os, primeiro, por aquilo que faziam sentir os outros, até que passei a falar no mesmo dialeto que eles, a identificar-me, a compreender os lugares espelhados em cada verso. E, assim, bordei-os na minha história, visto que passaram a fazer parte de quem sou (experiência completa).

      

      

      

      


2026, sê gentil ✨

Fotografias da minha autoria


O livro abre-se e o som do mundo vai diminuindo. Esta imagem traz-me um certo nível de conforto, porque, por mais que os meses sejam cinzentos, parece que há sempre uma história para nos amparar, para apaziguar as nossas dores ou, então, para nos abrir os olhos e fazer perceber que, se calhar, podemos respirar porque temos mais motivos para sorrir.

Este ano não foi particularmente difícil, mas teve momentos desafiantes, com pequenos sustos pelo meio, e sei que a quantidade de obras lidas também reflete a necessidade de desligar e de encontrar um refúgio — sem esquecer, ainda assim, que parte da magia de ler é descobrir as histórias por aquilo que elas são e não apenas reduzi-las a uma espécie de penso emocional, pronto a curar feridas, a colar estilhaços.

Sinto que vou ficando mais exigente com as leituras que faço e, talvez por isso, 2025 não trouxe muitos livros arrebatadores. Foi uma travessia literária bonita na mesma, que me permitiu descobrir autores novos e enredos que não esquecerei, no entanto, tive menos dores de cabeça para chegar à lista final de favoritos do ano.

Este ano, não houve Alma Lusitana, mas abracei o desafio 5 autores para 2025 com a minha amiga Sofia. Descobri algumas propostas do Livra-te, priorizei os títulos que já tinha cá em casa, fui explorando o catálogo do Kobo Plus e da BiblioLED e iniciei um desafio que quero levar para 2026 (e que se prolongará para além dele). Portanto, creio que passei a maior parte do tempo mergulhada em histórias.


 antes dos favoritos, algumas curiosidades literárias

No início do ano, criei duas páginas no Notion para ir registando estatísticas das minhas leituras, para além da componente numérica, porque são estes dados que me entusiasmam. Além disso, voltei a recorrei ao The Storygraph e ao Goodreads.

  • Os moods de leitura com maior destaque: emocional, reflexivo e triste;
  • Autores mais lidos: Elena Ferrante (5), Emily Henry (5) e Afonso Cruz (4);
  • Fiz uma releitura: A Amiga Genial, Elena Ferrante;
  • Cruzei-me com personagens memoráveis: Miranda Pritchard e Sarah Gross (Perguntem a Sarah Gross), Lia (Notas Sobre a Impermanência), Eduardo (Apesar do Sangue), Alice e Maria Elvira (A Árvore Mais Sozinha do Mundo), Freda Stefan (Lobos), Zee (Mártir!), Janina (Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos) e Peppino (Um Tempo a Fingir); mas também o grupo de amigos que encontrei em 10 Minutos e 38 Segundos Neste Mundo Estranho e as personagens d' Os Transparentes;
  • Li: 46 autores novos; 61 autoras e 33 autores; 54 portugueses e 40 estrangeiros.


  agora, sim, as estrelas da companhia (e com duas menções honrosas)

Permitam-me, antes de avançar, fazer uma pequena ressalva: a lista que se segue é uma combinação entre ordem de leitura e lembrança, não corresponde a um pódio propriamente dito.

PERGUNTEM A SARAH GROSS, JOÃO PINTO COELHO
Creio que me cruzei com protagonistas que dificilmente esquecerei, porque, acima de tudo, o livro é sobre elas, sobre as suas histórias, sobre as suas dores, sobre a forma como resistiram às mais diversas circunstâncias. E sem que seja possível esquecer, também, este período histórico, fica evidente que não estamos perante mais um retrato dentro do tema: o autor trouxe uma perspetiva que parece estar em falta (opinião completa).



O CADERNO PROIBIDO, ALBA DE CÉSPEDES
Este livro foi publicado, originalmente, em 1952 e é impressionante perceber que mudou tão pouco em relação à condição da mulher, ao seu papel na sociedade. Por isso, permanece atual e agita-nos por dentro, mostrando-nos a importância de haver um nome, de usarmos os recursos à nossa disposição para não perdermos a nossa voz. Valeria parecia restrita à invisibilidade, ao papel de mãe e de esposa, mas encontrou uma maneira de não ficar pressa a essas amarras (opinião completa).



FILHO DO PAI, HUGO GONÇALVES
Há, portanto, uma análise quase sociológica, mas sem perder a emotividade, o traço familiar, o impacto da perda, as nossas idiossincrasias, as nossas incoerências, fruto de um crescimento que é sempre mais emocional do que racional. E enquanto nos implica numa conversa sobre parentalidade, faz-nos observar toda a estrutura familiar, faz-nos pensar sobre as feridas que continuam abertas, ainda que nos incomodem com menos ardor, faz-nos voltar às coisas que nos dizem e que ecoam uma vida inteira, moldando o nosso caráter, as nossas certezas, as nossas carências, tudo o que somos (opinião completa).



EDUCAÇÃO DA TRISTEZA, VALTER HUGO MÃE
Educação da Tristeza é um objeto visualmente lindíssimo, cheio de cor, de vida e de memórias que nos amparam e que trazem esperança. Com ilustrações de Valter Hugo Mãe, parte da ausência para nos fazer refletir sobre o quanto a nossa vida é cheia por termos tido aquelas pessoas por perto. Também é por isso que a sua perda nos magoa mais, mas continuo a acreditar que as saudades partem de um lugar benigno, de um amor que é incondicional. O quotidiano fica fragmentado, mas nunca esqueceremos (opinião completa).



VERÃO NO LAGO, ANN PATCHETT
Ann Patchett, com a sua escrita melódica, equilibrou muito bem a travessia entre o presente e o passado, recuperando mágoas e apaziguando feridas, mostrando que há sempre várias camadas dentro da mesma história e que as pessoas nem sempre correspondem à imagem que criamos delas, mas sem a necessidade de construir vilões. Acho que não tenho palavras que descrevam com justiça a sensação que tive durante a leitura, mas achei a narrativa mais madura, de quem nos conta os factos em paz (opinião completa).



OS ESQUECIDOS DE DOMINGO, VALÉRIE PERRIN
Fiquei fascinada com Justine desde o começo, porque acho que tem uma voz muito credível e descomplicada, com a qual me identifiquei. Achei-a empática, mas também sarcástica nos momentos certos. É muito lúcida, mas também se deixa deslumbrar. Acima de tudo, pareceu-me que tem um forte sentido de cuidado, mas sem se anular: antes pelo contrário, sabe as circunstâncias em que é necessário aparecer e aquelas em que mais vale ficar recolhida. Creio que a construção desta personagem fez toda a diferença na maneira como me relacionei com a história (opinião completa).



10 MINUTOS E 38 SEGUNDOS NESTE MUNDO ESTRANHO, ELIF SHAFAK
10 Minutos e 38 Segundos Neste Mundo Estranho não romantiza a magoa, não esconde a dor de um país a regredir, nem as consequências de vários tipos de abusos. Com uma escrita comovente, é, também, uma carta de amor e, acima de tudo, é a prova de que é possível transformar a dor e prosperar (opinião completa).



APESAR DO SANGUE, RITA DA NOVA
A minha mente divagou muito durante a leitura, porque sinto que é um livro capaz de desencadear vários debates: sobre maternidade, sobre a necessidade de preenchermos vazios, sobre fissuras, sobre diferentes tipos de dor, sobre como aquilo que não vemos condiciona a nossa perceção das situações, sobre dinâmicas familiares e sobre amor. Existe muita tristeza nesta história, no entanto, o amor é força motriz em muitos dos seus momentos, aliás, só isso justifica a forma como se foram curando algumas feridas (opinião completa).



LOBOS, TÂNIA GANHO
É curioso constatar que este livro é mais sobre os silêncios e a forma como as pessoas lidam com os seus traumas, com os seus demónios, e não tanto sobre a situação em si, porque aquele momento termina, mas a vergonha, o medo, o desgaste, o desamparo, a sensação de perdermos a nossa identidade e, inclusive, o gosto por viver persistem e fazem com que as feridas continuem expostas, a magoar. E este livro dói, embora não queiramos parar de o descobrir, porque talvez a esperança encontre o seu espaço (opinião completa).



MÁRTIR!, KAVEH AKBAR
Há um tom triste a pairar nestas páginas, mas a narrativa é frenética, porque, de repente, parece estar em todo o lado. Enquanto lida com o luto, vai refletindo sobre religião, emigração, ancestralidade e guerra; equaciona o significado da vida e procura reinventar-se, nunca escondendo o desejo de ter uma morte grandiosa. E nós, leitores, acompanhamos cada um dos seus pensamentos sem um segundo de descanso (opinião completa).



Menções honrosas: Caruncho, Layla Martinez | Enquanto o Fim Não Vem, Mafalda Santos.

Fotografia da minha autoria


O meu corpo desperta completamente quando há música pela casa. Apesar de conviver muito bem com o silêncio, a energia eleva-se assim que escuto temas que vou sabendo de cor ou quando me permito descobrir sonoridades novas.

Ouço música enquanto escrevo, até quando leio. Levo banda sonora quando faço caminhadas, quando ando em transportes públicos, quando vou sozinha às compras e quando preciso de pensar. A coluna vai comigo quando tomo banho e quando despacho tarefas aborrecidas, mas necessárias. Só não me ouvem cantar, nem me veem a dançar no meio da rua porque ainda não perdi a noção de espaço pessoal. E, sempre que possível, pauso o Spotify, o gira-discos ou o leitor de cd's para ir ouvir os meus artistas de eleição ao vivo.

A par da literatura, a música é a minha manifestação artística favorita, não só pela infinidade de histórias que se escondem em todas as melodias e letras, mas também pela capacidade de alterar a nossa disposição, traduzindo o que sentimos. Como referiu o Tadeu Tannouri num dos seus vídeos, «escutar música é meu jeito de fingir que as coisas não estão acontecendo», até porque, às vezes, não estamos à procura de uma solução, estamos só «buscando uma playlist». Por isso, para enfrentar a vida «aumento e volume e escuto música» e já não sei ser sem a sua essência.

Em traços gerais, e socorrendo-me do spotify wrapped, o meu 2025 soou assim:

  • minutos de audição: 89539 (o equivalente a 62 dias);
  • géneros mais ouvidos: Hip-hop português, funk pop, urbano lantino, indie e fado (ouvi um total de 261 géneros);
  • a minha idade musical: 18 (porque gostei, sobretudo, de música nova);
  • número de músicas que ouvi: 2325;
  • música mais ouvida: À Procura, do Lhast (382 streams);
  • top 5 de músicas mais ouvidas: À Procura, Foguetes, Voltas, Só Pra Mim e Cash Kai (todas do Lhast);
  • número de álbuns que ouvi: 74;
  • álbum mais ouvido: Violetta, do Lhast (com 9867 minutos de audição);
  • top 5 de álbuns mais ouvidos: Violetta (Lhast), Heartbreak & Other Stories (Richie Campbell), Alta Costura (Van Zee & Frankieontheguitar), Carta de Alforria (Plutonio) e ALK (Lhast);
  • número de artistas que ouvi: 921;
  • artista que mais ouvi: Lhast (com 17814 minutos de audição);
  • top 5 de artistas mais ouvidos: Lhast, Richie Campbell, Van Zee, Plutonio e ed.


 as músicas favoritas

A banda sonora de 2025, no que diz respeito a temas soltos, ficou compilada numa playlist com 50 canções. Deste grupo, que muito me entusiasma, destaco as seguintes (listadas por ordem de saída):
  1. tua falta, ed & Lhast;
  2. Deslocado, NAPA;
  3. de noite, VASCO;
  4. Doutros Tempos, Dealema;
  5. Meu Amor, Dorme Bem, Os Quatro e Meia;
  6. Lento, Vanyfox & Ana Moura;
  7. Insomnia, Richie Campbell;
  8. do raso ao fundo, Mariana Nolasco & Maro;
  9. Cacau, Deejay Telio & Slow J;
  10. lado a lado, ed;
  11. Saudade, Gama WNTD;
  12. Aura, BUH BUH;
  13. Avisem Que Eu Cheguei, Sara Correia;
  14. Depressa, Pikika;
  15. Assunto Meu, xtinto.


 os ep's favoritos

Senti que fazia todo o sentido separar os EP's, até porque trazem sensações diferentes de um álbum, sempre mais longo e com mais camadas para descobrir. Não obstante, gosto muito destes lançamentos intermédios, que nos permitem conhecer um artista para além dos singles.

SOZINHA E MAL ACOMPANHADA, PIKIKA
Para mim, uma das vozes emergentes mais fascinantes. Neste EP, explora o declínio de uma relação, os medos, os pensamentos que ecoam e esta sensação de estarmos sós e a nossa companhia nem sempre ser a mais benéfica. Mas, lentamente, começa a abrir a porta ao depois.


A CASA GANHA SEMPRE, LUNN
O projeto de estreia do produtor Lunn chega com colaborações cirúrgicas e uma narrativa plural, que aparenta não ter um fio condutor, mas que se expande nesta ideia de casa e de tudo o que conquistamos quando abrimos a porta e convidamos outras pessoas a entrar.


DESCULPA QUALQUER COISA, ÍCARO
A sonoridade do Ícaro é muito diferente, o que acaba por ser uma lufada de ar fresco no panorama nacional. Com letras que transbordam referências de várias áreas, raízes e uma linguagem própria, incisiva, sarcástica, é interessante perceber como é que, sem encaixar num molde, as canções se interligam com naturalidade.



 os álbuns favoritos

É incontornável o álbum que marcou o meu ano, apesar de só ter saído no final de junho, porque estou a viver nele desde esse altura. E é incrível como, seis meses depois, há camadas que continuo a descobrir, como há partes das músicas que se tornam ainda mais relacionáveis. Não obstante, tive outras propostas que me encheram as medidas, tornando os meus dias mais bonitos.

VIOLETTA, LHAST
Violetta, parafraseando um dos temas que o compõem, tem inocência e maldade na dose certa. É leve, mas também é introspetivo. É generoso, honesto e enigmático e eu tenho estado a viver nas suas canções desde que saiu. Há uma viagem de autodescoberta incrível e acredito que seremos capazes de descobrir novas camadas a cada nova audição, porque as letras são feitas de subtilezas e porque o seu lado criativo abriu portas que ainda não tinham sido exploradas. O futuro pode ser incerto, no entanto, Violetta guia o caminho.

Canções favoritas: Foguetes, À Procura, 21


ALTA COSTURA, VAN ZEE & FRANKIEONTHEGUITAR
Um trabalho bordado com mestria e originalidade. Ao reinterpretarem temas que fazem parte do nosso panorama musical, criam pontes entre o passado e o presente e conseguem unir visões distintas, que se encontram a meio do caminho. E eu acho sempre interessante perceber como é que o mesmo tema chega às pessoas.

Canções favoritas: Como Seria?/Amor Sóbrio, Ainda Prendes o Cabelo e Fica Só


UM GELADO ANTES DO FIM DO MUNDO, CAPICUA
A Capicua é uma das artistas da minha vida e este álbum veio reforçar essa certeza, porque é poético e interventivo, porque é cru e emocional, porque nos abala por dentro enquanto não deixa de plantar uma semente de esperança. O mundo está em colapso, é preciso resistir aos tempos conturbados e estas canções resgatam-nos do abismo, mostrando como a arte é uma arma.

Canções favoritas: Ao Ocaso, Apartamento e Making Teenage Ana Proud


LUX, ROSALÍA
Queria ter palavras que traduzissem a viagem emocional que este álbum me está a proporcionar, porque é uma verdadeira obra de arte. A Rosalía parece ter ascendido a um plano quase inalcançável, deixando-nos perplexos com as melodias, as letras, as referências e todo o trabalho de construção da narrativa, já para não referir os diferentes idiomas que aprendeu para os incluir nos diferentes temas. Quanto mais ouço, mas rendida fico.

Canções favoritas: Memória, Magnólias e La Yugular


WONDER, PAPILLON
O conceito de criar um álbum de Palíndromos (palavras que são iguais de trás para a frente) é já um indicativo da criatividade do Papillon e desta vontade de arriscar e de chegar a novas camadas na sua arte. Com temas que nos inquietam, que nos fazem pensar sobre sonhos, relações, transformações, é um trabalho que nos impulsiona a estar em movimento, a reagir e, também, a fazer as pazes com a nossa criança interior.

Canções favoritas: A Mãe Te Ama, Oi Rio e Mim



Menções honrosas: Debí Tirar Más Fotos, Bad Bunny | The Art Of Loving, Olivia Dean | Cá Dentro, Mary Jane

Fotografia da minha autoria


O rio segue o seu curso e eu fui-me sentindo à margem. Nestas margens que me amparam, foram mais as vezes que percebi que estava à deriva, estagnada, sem conseguir calar por completo a voz que ia perguntando o porquê de continuar. Pela escrita, sempre pela escrita, respondia eu em silêncio. E voltava, porque, apesar de tudo, não sabia para que outro sítio poderia ir.

Não o revelei a ninguém, mas este ano foi a primeira vez em que estive muito perto de não regressar ao blogue. Já não era só não me rever na casa que alicercei, era ter a forte convicção de que já não tinha algo a acrescentar, que talvez se tivessem esgotado as palavras, que tinha mesmo chegado o momento de escrever a despedida. Mas, depois, por coincidência ou poesia, havia sempre um texto que precisava de sair do papel e que me mostrava que podia adiar essa partida digital.

À semelhança do que escrevi em 2024, continuo a ajustar o caminho. Não porque me recuse a aceitar o final, mas porque ainda há uma centelha de esperança, porque ainda sinto o impulso de abrir o caderno e criar para estas margens que já tiveram outras vidas. E eu talvez só precise de abraçar uma nova metamorfose.

Ir ao arquivo, confesso, trouxe-me um pouco de aconchego, visto que estas publicações comunicam muita da essência desta casa e de quem continuo a ser.


 memórias analógicas
A imagem da minha primeira máquina está nítida, mas sobre o momento em que tirei a primeira fotografia não posso dizer o mesmo. Acho que, lá no fundo, o meu fascínio por esta arte também foi uma tentativa de responder - ou contornar - o que vamos perdendo com o tempo: se for eternizando esses fragmentos, talvez eles não se esfumem no meio de tantos outros (texto completo).

 ainda compro discos e vinis
Contamos muitas histórias assim. E, só para que nunca nos faltem, continuarei a acrescentar álbuns no móvel da sala, enquanto o disco continua a girar, enquanto pelas colunas do computador ecoam vozes que nem sempre reconheces, enquanto me lembro de ir no banco de trás do carro a ver-te dar concertos para três pessoas - e acabo por me juntar com a minha voz de cana rachada. É por isso que a música nos move, mas nunca será só pela música (texto completo).

 o que venderia a loja do museu sobre a minha vida
Não necessito que cada divisão permaneça excessivamente arrumada, porque sou apologista de um certo caos, porque gosto da urgência que se instala na breve desorganização que eu entendo como a palma da minha mão. Por outro lado, também não pretendo que os visitantes entrem e não saibam onde pôr os pés, com medo de pisar artigos delicados. Quero, isso sim, um equilíbrio desconstruído, percebendo-se que sou eu que habito aquela casa (texto completo).

 gosto de escrever em cafés
Escrever em cafés sempre foi uma das minhas atividades mais satisfatórias, porque gosto de resolver o caos interior com o barulho do mundo. Acho, até, que há uma certa poesia nesta trivialidade, na possibilidade de avançar umas linhas numa folha em branco, enquanto a mesa se reveste de chávenas vazias, há pedidos a serem gritados para trás do balcão e há uma aura frenética que nos abraça a todos (texto completo).

 a falta que se esfuma
o peito desacelera pela falta que se esfuma
pela saudade que já é dita de cor
por tudo o que já deixei de ser pela ausência
da tua mão em mim, do teu cheiro, do teu colo 
(poema completo)

 as (novas) vozes que estão a fazer o meu ano
Quando, por exemplo, incluí o Van Zee nas minhas playlists e me perdi de encantos pelo seu do.mar, acabei por descobrir a Pikika. Com O Clima, do Dillaz, passei a estar mais atenta ao trabalho do Lhast, que, por sua vez, me permitiu descobrir outros músicos. Este encadeamento motiva-me, uma vez que me permite cruzar com vozes e registos que não fazem parte do meu quotidiano. Aliás, sinto que é nesta ligação entre artistas que acabo por encontrar um certo impulso para continuar a abrir novas portas — curiosamente, não só na música (texto completo).

 uma conversa entre educação da tristeza e foguetes: ou como a arte nos vai curando as feridas
Quando assumi que Educação da Tristeza e Foguetes estavam numa conversa silenciosa, foi precisamente por sentir que nem o livro, nem a canção ocultam a mágoa, foi por sentir que ambos optam por partir desse lugar sombrio para nos incentivar a lidar com todas as suas ramificações, porque só assim seremos capazes de avançar, independentemente do tempo que necessitarmos para esse efeito. Ademais, senti que nos dois trabalhos consegui libertar aquele grito que me estava a sufocar e sair apaziguada (texto completo).

Fotografia da minha autoria


A componente audiovisual continua a ter os seus favoritos, por isso, ainda não foi este ano que me dediquei com mais afinco à sétima arte. E nem vale a pena tentar encontrar justificações, talvez no próximo ano seja capaz de quebrar esta tendência e creio que uma estratégia poderá ser mesmo combinar idas ao cinema (sozinha ou com amigos) para voltar a descobrir o encanto de me perder a ver um filme.

Objetivos à parte, 2025 revelou-se muito positivo nas séries, principalmente nas da RTP, e trouxe-me alguns podcasts novos. Além disso, sinto que foi um ano importante para compreender que conteúdos pretendo manter por perto e quais é que já não me fazem tanto sentido — pelo menos, nesta fase da minha vida. Esta viagem é-me muito útil, também, por isto: porque permite que me redescubra e saiba cada vez melhor o que me serve e que é quase uma extensão da energia que quero para mim.

À semelhança de anos anteriores, fiz uma pequena batota e inclui propostas que fogem um pouco da classificação inicial. Ainda assim, não as podia deixar de fora.


 pátria
A realidade deste argumento apresenta-se como distópica, no entanto, reconhecemos o rosto da opressão, do medo, das várias formas de tortura em diferentes momentos, expressões e diálogos. Mesmo que os cenários assumam um certo exercício criativo, partem de capítulos dolorosos para a humanidade e permitem-nos refletir sobre como seria vivê-los na primeira pessoa. Numa altura em que contactamos com posições tão extremadas, que colocam em causa direitos básicos, é crucial debatê-las, compreender qual é a sua origem e aquilo que lhes dá força para que continuem a minar o presente (opinião completa).

 ruído
As imagens promocionais, pelo seu caráter cómico, transportaram-me para o universo da série Último a Sair - um autêntico marco televisivo, que nos deixou pérolas como «o mundo não é isto, o mundo é bué cenas». Ainda assim, as diferenças são óbvias e creio que se entende, desde o começo, que a nova produção da autoria de Bruno Nogueira, escrita em parceria com Carlos Coutinho Vilhena, Frederico Pombares e Luís Araújo, permanecendo no espectro do humor, nos permitirá refletir sobre censura e liberdade (opinião completa).

 rabo de peixe
Os protagonistas eram pequenos peixes num mar imenso, que lhes exigia um tipo de jogo que não estavam habituados a jogar. Ainda assim, foram-se movimentando com mestria e inteligência, mesmo quando as emoções lhes toldavam a racionalidade. E um dos aspetos que mais me fascinou, para além de todo o contexto do narcotráfico, foi mesmo a relação de amizade que nunca perderam. Aliás, sinto que essa é uma das valências mais poderosas da série, não só porque humaniza o ambiente, mas também porque quebra a tendência subjacente das relações por conveniência tão associadas a este tipo de negócios obscuros. Eles estavam juntos no melhor e no pior, sem reservas (opinião completa).

 espias
Espias é uma série minuciosa, que também nos faz refletir sobre a pertinência destes esquemas pantanosos. Apesar de termos acesso a diversos pontos de vista e narrativas, nunca é fácil identificarmos aqueles que merecem o nosso apoio, porque a causa em si pode ser nobre — e queremos posicionar-nos ao lado daqueles que procuram garantir a liberdade do ser humano —, mas os meios nem sempre acompanham essa luta. Além disso, espelha a hipocrisia política e social, os jogos de poder e a facilidade com que se descartam as pessoas do nosso caminho, quando sentimos que já não nos são úteis. Foram sete episódios muito intensos e viciantes. Preciso de uma segunda temporada (opinião completa aqui e aqui).

 situações delicadas
O argumento oscila entre humor negro e uma ligeira insanidade, sempre com ritmo e um excelente equilíbrio. Aliás, acho que uma das maiores valências da série se prende com a capacidade de tornar credível a falsa leveza com que as coisas se processam. Por vezes, existe um traço de normalidade na tragédia: não por a romantizarem, mas pela forma como transformam os comportamentos atípicos em reações quase lógicas, até necessárias, para continuarem a (sobre)viver. E nós acompanhamos esses conflitos (opinião completa).

 pessoas normais
A RTP apresentou um conjunto de séries exclusivas na RTP Play, entre as quais se encontra a adaptação do meu livro favorito de Sally Rooney, o que me deixou surpresa e felicíssima. A adaptação está extraordinária e é mesmo fascinante ver tudo o que senti com o livro a ganhar forma (até o ranço ao Jamie): assistir aos silêncios, ao desconforto, ao quanto comunicam sem verbalizarem. Como é que duas pessoas que são tão próximas conseguem ter tantos muros entre si? Como é que só são verdadeiramente eles ao lado um do outro e há sempre um tom de tristeza a pairar? Como é que no meio de tantos vazios e desencontros eles conseguem ser a maior constante um do outro? Tenho um fascínio por histórias sem personagens heroínas também por causa deles. Há tanta verdade aqui e, se calhar, é por isso que é tão duro assistir a certas cenas. Mas eles arranjarão sempre maneira de ficar bem.

 casa-abrigo
Estas mulheres não esquecem a situação dramática que viveram, muito menos tudo aquilo que foram ouvindo e interiorizando como se fosse verdade, mas entenderão que não são apenas este retrato, que carregam muito mais por dentro. E parte da beleza desta série prende-se com a amizade que Vera, Madalena, Conceição e Gabriela foram construindo, com a empatia que desenvolveram, com a sororidade que as fortaleceu. Na ausência de filtros, por vezes, houve um pouco de amor bruto nas palavras, mas estiveram ali umas para as outras — até quando o silêncio parecia imperar entre elas (opinião completa).

 podcasts
Quando não estou a ouvir música, estou na companhia de um podcast. Aliás, gosto muito da dinâmica de estar a fazer determinadas tarefas enquanto escuto conversas ou deambulações em jeito de monólogo, parece que a casa fica mais cheia. Assim, este ano rendi-me ao:
  • Contraluz, da Luana do Bem;
  • Prata da Casa, de Luís Franco-Bastos, Vítor Sá e André Pinheiro;
  • As Pessoas Têm que se Acalmar, Imediatamente, da Tia Bli;
  • Sem Barbas na Língua, do Hugo Gonçalves e do Guilherme Duarte (que voltou a entrar na minha lista de podcasts prioritários)

 extras
A categoria da batotice começa agora, porque não podia deixar de destacar a Homenagem aos GNR, o solo Falha Minha, do Ricardo Maria, a série documental Tó Madeira - Em Busca de Uma Lenda, do Luís Franco-Bastos, o regresso de Conversas de Miguel, do Pedro Teixeira da Mota e do Carlos Coutinho Vilhena, e o short film Sonhos, do Papillon.

Fotografias da minha autoria



O meu ano fez-se de muitas peças interligadas, que consigo compartimentar como se pertencessem a um tema maior. E sinto que isso é sempre um ponto de conforto, porque há áreas da vida que vão sendo nutridas com regularidade. Por oposição, existem algumas peças que não encaixam, que permanecem soltas, mas que preservam a mesma capacidade de nos espantar, de trazer um apontamento distinto aos nossos dias e, até, de lhes acrescentar um pouco mais de magia e/ou diversão.

Os favoritos arrancam, então, com os fragmentos aleatórios, ficando compilados na sua diversidade.


 capa na baixa
A missão de descobrir novas francesinhas começou com o pé direito, como escrevi n' as coisas maravilhosas de janeiro, porque a Rainha do Capa, do Capa na Baixa, cumpriu todos os requisitos: carne suculenta, picante na dose certa e um molho líquido, mas não em demasia. Além disso, o atendimento foi bastante atencioso e o espaço surpreendeu-me por ser maior do que imaginei. Para acompanhar a refeição, pedi uma Munich Dunkel, uma cerveja com aroma a frutas secas e um travo a caramelo, e achei curioso que os sabores se fossem revelando à medida que ia bebendo. Terminei o almoço com um cheesecake de maracujá. Ainda não consegui regressar, mas a intenção é fazê-lo.

      

 biblioled
A minha relação com as bibliotecas foi sempre intermitente. O certo é que ter o cartão da Biblioteca Municipal Almeida Garrett me permitiu acelerar o processo quando, no início do ano, a BiblioLED chegou à Área Metropolitana do Porto. Como, no final de 2024, investi num kobo, senti que seria um excelente complemento e tenho adorado a experiência de tentar ler um livro de lá todos os meses.

 t-shirt before i lose my voice
Adquirir merch dos meus artistas favoritos é mais uma forma de apoiar o seu trabalho e, no fundo, ainda que à distância, agradecer por todas as horas em que foram colo e curaram feridas (ou acalmaram, pelo menos). Por isso, é claro que comprei esta t-shirt da Before I Lose My Voice, do Richie Campbell, porque a música conquistou-me de imediato.

   

 comfort cakes
No meu roteiro há algum tempo, aproveitei uma folga e fui até lá para uma sessão de escrita. Adorei a tranquilidade, as várias salas em que se divide, o facto de ter uma área exterior, o atendimento e, claro, a comida (uma tosta de frango e bacon para o almoço e panquecas de frutos vermelhos para o lanche) e as bebidas (pink limonade e iced latte). Eu nem sou grande fã de queijo e até aos pães de queijo fiquei rendida.

      

 tote bag faz da tua dor um poema
O caminho para a Feira do Livro do Porto, quando ia sozinha, era sempre feito pelo mesmo lado, por isso, ao subir a rua de Ceuta, passava em frente à Livraria Almedina. Num dos dias, reparei na tote bag que tinham à porta e achei que era a minha cara. Aproveitando uma promoção, encomendei esta «Faz da tua dor um poema» e já não a larguei mais. Para além da frase, tenho de destacar a dimensão do saco, que é perfeita para transportar tudo o que preciso, e a qualidade do material. E adoro que tenha uma espécie de bolso por dentro, prático para guardar objetos mais pequenos.


 batedor de leite
O tempo mais frio combina com bebidas quentes e aquela espuma de leite cremosa. Tinha um batedor dos mais básicos, comprado na Tiger, mas já há algum tempo que queria investir num deste género e optei mesmo pelo da Create, quer para poupar tempo, quer para usufruir da dupla função de aquecer e bater o leite (embora também dê para fazer em frio). Sinto que veio fazer toda a diferença e é muito raro o fim de semana que não o utilizo.

 leitor de cd's
Eu continuava a comprar cd's, apesar de já não ter onde os ouvir, visto que é outra forma de apoiar os artistas que admiro. Depois de tanto tempo a adiar, comprei, finalmente, um leitor de cd's e é um favorito dos favoritos. Para além de cumprir a sua principal função, ainda funciona como coluna e rádio e eu adoro-o em todas as funcionalidades.

   

 il fornaio
Vou-me repetir, mas não troco uma vírgula do que escrevi n' as coisas maravilhosas de novembro: tenham alguém na vossa vida que fale de vocês com o mesmo entusiasmo com que a minha amiga Sofia fala do tiramisu do Il Fornaio. Agora que já lá fui, posso garantir que percebo — e partilho de — todos os elogios e não só em relação à sobremesa. A equipa é muito atenciosa e a sala encantadora, e acho que acertei em cheio nas escolhas que fiz (Risotto de Carbonara, um copo de sangria rosa e o tiramisu), deixando-me com vontade de regressar.

      

 maquilhagem e skincare
Assumi mesmo o compromisso de continuar a cuidar de mim e não descuro os minutos da manhã e da noite em que faço a minha skincare e posso brincar com a maquilhagem. O jeito permanece ausente, devo confessar, mas preocupo-me menos com essa voz da minha cabeça. Assim, dentro deste universo, destaco a manteiga desmaquilhante Clean Be Beauty (Pingo Doce), o Protetor Solar Super UV Niacinamida (Garnier Ambre Solaire), as Power Shake Bronze Bliss Drops (Kiko), os batons Superstay Matte Ink 35 e Superstay Vinyl Ink 135 (Maybelline), o MatteTrance Deep Ochido (Pat McGrath), o Lip Liner Everlasting Colour 505 (Kiko) e os Comfort Lip Liner 8h (Essence).


 cd's e vinis
A biblioteca sonora vai aumentando, o que me deixa feliz e bastante entusiasmada. Este ano, vieram morar cá para casa os vinis Inquieta (Gisela João), Box Slow J (Slow J), Sacrifício: Sangue, Lágrimas & Suor (Plutonio), Evermore (Taylor Swift), Casa Guilhermina (Ana Moura), SNTMNTL (Diogo Piçarra), The Life Of a Showgirl (Taylor Swift), Carta de Alforria (Plutonio) e South Side Boy (Diogo Piçarra) e os cd's Subida Infinita (Capitão Fausto), DEZ (Diogo Piçarra) e Lux (Rosalia).

 kyiv cake
O último concerto do ano foi antecedido por um lanche no Eatery 119. O espaço é lindíssimo e houve várias opções do menu que me chamaram à atenção, só não estava à espera de comer um dos melhores bolos de sempre. Não vos consigo explicar a textura e o sabor, mas o Kyiv Cake é uma perdição. O aspeto prometia e o sabor entregou tudo.

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